No pé torto congênito, a transposição da inserção do tendão do músculo tibial anterior para o cuneiforme lateral ou cuboide está indicada para a correção da deformidade em:
- equino valgo fixo do retropé
- equino valgo dinâmico do retropé
- inversão ou supinação fixa do mediopé
- inversão ou supinação dinâmica do mediopé
Conceito-chave
O pé torto congênito e o método de Ponseti. O pé torto idiopático tem quatro componentes, lembrados pela sigla CAVE: cavo, aduto (do antepé), varo (do retropé) e equino. O método de Ponseti os corrige nessa ordem, com manipulações semanais seguidas de gesso cruropodálico.
Por que começar pelo cavo. No pé torto, o antepé está pronado em relação ao retropé: o 1º metatarso está mais flexionado plantarmente que os outros, e isso aprofunda o arco (o cavo). Parece paradoxal, porque o pé todo está supinado; mas o antepé está menos supinado que o retropé. A primeira manobra supina o antepé e eleva (dorsiflete) o 1º metatarso, alinhando o antepé com o retropé. Pronar o antepé seria o erro clássico: aumenta o cavo e cria o pé em feijão (pé complexo).
A sequência completa.
| Etapa | Manobra |
|---|---|
| 1º gesso | Correção do cavo: supinação do antepé com elevação do 1º metatarso |
| Gessos seguintes | Abdução do pé em supinação, com contrapressão na cabeça do tálus (nunca no calcâneo); o varo do retropé se corrige junto |
| Fim | Abdução de cerca de 60° a 70° |
| Tenotomia do Aquiles | Para o equino residual (dorsiflexão menor que 15°), necessária em cerca de 80% a 90% |
| Órtese de abdução (Denis Browne) | 23 horas por dia por 3 meses e depois à noite até 4 a 5 anos |
O erro de Kite. Apoiar o polegar na articulação calcaneocuboide bloqueia a abdução do calcâneo e impede a correção do varo. O ponto de apoio correto é a face lateral da cabeça do tálus.
A recidiva. Ligada sobretudo à má adesão à órtese. Pode exigir novos gessos e, depois dos 3 anos, a transferência do tibial anterior para o cuneiforme lateral.
A transferência do tibial anterior. É indicada na recidiva dinâmica do pé torto, após os 2,5 a 3 anos: a criança anda com o antepé em supinação (inversão) na fase de balanço, porque o tibial anterior é forte e não tem oposição suficiente dos fibulares. O exame mostra o pé que se corrige passivamente (a deformidade é dinâmica, e não fixa), e a sola gasta na borda lateral. A transferência do tendão inteiro para o cuneiforme lateral (ou o terceiro cuneiforme, na linha do 3º metatarso) equilibra o pé. Se houver deformidade fixa, ela deve ser corrigida antes com gessos de Ponseti; a transferência sobre um pé rígido não funciona.
D · inversão ou supinação dinâmica do mediopé
Correta: D (inversão ou supinação dinâmica do mediopé). A transferência do tibial anterior para o cuneiforme lateral corrige a supinação dinâmica do antepé na marcha, na recidiva do pé torto, desde que o pé seja flexível.
A · equino valgo fixo do retropé
O pé torto não tem equinovalgo; e uma deformidade fixa não se corrige com transferência tendínea.
B · equino valgo dinâmico do retropé
O equinovalgo dinâmico não é a deformidade do pé torto; o tibial anterior transferido para lateral agravaria o valgo.
C · inversão ou supinação fixa do mediopé
A deformidade fixa deve ser corrigida antes com gessos ou osteotomias; a transferência só funciona na deformidade dinâmica.