Questões de conceitos básicos em ortopedia comentadas
Conceitos básicos é o bloco das ciências aplicadas: biologia da consolidação óssea, biomateriais e propriedades mecânicas dos implantes, infecção musculoesquelética e infecção periprotética com os critérios da MSIS, antibioticoprofilaxia, tromboprofilaxia, cicatrização de tecidos, farmacologia aplicada e metodologia científica — níveis de evidência, tipos de estudo e interpretação estatística.
O acervo tem 331 questões de conceitos básicos, e 331 têm página própria com gabarito e conceito-chave. Abaixo, 25 delas com o comentário completo e, no fim, a lista de todas.
As questões são transcritas das provas originais, sem reescrita, e o gabarito é o da própria banca. Os comentários se baseiam na bibliografia de referência da especialidade. Quando resta dúvida sobre o gabarito, o comentário registra a dúvida em vez de escondê-la. As questões marcadas como OrtoQuestões Simulados são autorais do site, elaboradas a partir da bibliografia de referência e inspiradas no padrão da prova indicada; não são questões oficiais nem têm vínculo com as instituições organizadoras.
25 questões comentadas
Na consolidação das fraturas diafisárias, a maior parte da resposta vascular provém do:
endósteo
periósteo
osso cortical
tecido mole adjacente
Gabarito: D
Conceito-chave
A diáfise, o corpo de um osso longo como o fêmur ou a tíbia, recebe sangue de duas fontes. A circulação medular entra pela artéria nutrícia, corre dentro do canal e irriga a cortical de dentro para fora, cobrindo cerca de dois terços internos da parede do osso. A circulação periosteal vem do periósteo, a membrana que reveste o osso por fora, e irriga o terço externo.
Quando a diáfise fratura, a circulação medular é rompida no foco: a artéria nutrícia e seus ramos dentro do canal são cortados junto com o osso. Nas fresagens para hastes intramedulares, o mesmo acontece. Nesse momento, quem assume é o lado de fora. O periósteo e, principalmente, os músculos e tecidos moles que envolvem o osso passam a mandar vasos para o foco, de fora para dentro. É dessa circulação extraóssea, vinda do tecido mole adjacente, que vem a maior parte da resposta vascular que vai formar o calo. Só depois, com semanas, a circulação medular se refaz.
Isso tem uma consequência prática enorme: o envelope de partes moles ao redor da fratura é precioso. Desnudar o osso, descolar músculo e periósteo para expor e reduzir perfeitamente cada fragmento destrói a principal fonte de sangue da consolidação. Por isso a ortopedia moderna valoriza a redução indireta, as placas colocadas por pequenas incisões (técnicas minimamente invasivas) e a preservação do periósteo.
D · tecido mole adjacente
Tecido mole adjacente. Com a circulação medular rompida pela fratura, os músculos e partes moles ao redor passam a fornecer a maior parte do sangue ao foco.
A · endósteo
O endósteo depende da circulação medular, que é justamente a que se rompe com a fratura e com a fresagem.
B · periósteo
O periósteo participa, mas boa parte do seu sangue vem dos músculos que o recobrem. A fonte dominante é o tecido mole ao redor.
C · osso cortical
O osso cortical é o tecido irrigado, e não uma fonte de sangue.
Na osteomielite hematogênica aguda, o acometimento metafisário associado à artrite séptica é mais frequente em crianças:
maiores que 18 meses e no joelho
menores que 18 meses e no joelho
maiores que 18 meses e no quadril
menores que 18 meses e no quadril
Gabarito: D
Conceito-chave
A osteomielite hematogênica aguda é a infecção do osso que chega pelo sangue. Na criança, ela começa quase sempre na metáfise, a parte larga perto das pontas do osso, logo abaixo da placa de crescimento (fise). Ali os vasos fazem curvas lentas, o sangue desacelera e as bactérias se instalam.
Duas particularidades anatômicas definem quando essa infecção invade a articulação vizinha.
A idade. Até por volta dos 18 meses, existem vasos que atravessam a fise (vasos transfisários), ligando a metáfise à epífise. A infecção pode seguir por eles e chegar à articulação. Depois dessa idade, esses vasos desaparecem e a fise passa a funcionar como barreira.
A articulação. Em algumas articulações, a metáfise fica dentro da cápsula articular. Quando a infecção rompe a cortical da metáfise, ela já cai direto na articulação. O exemplo mais importante é o quadril, em que o colo do fêmur é intracapsular. Ombro, cotovelo (rádio proximal) e tornozelo também têm metáfises intracapsulares. O joelho, não.
Somando os dois fatores, a associação de osteomielite com artrite séptica é mais comum em menores de 18 meses e no quadril. A regra prática: lactente com osteomielite do fêmur proximal tem artrite séptica do quadril até prova em contrário.
No quadril, isso é urgência. O pus aumenta a pressão dentro da cápsula e pode cortar o sangue da cabeça do fêmur, levando à necrose e destruição da cabeça. O tratamento é drenagem cirúrgica rápida e antibiótico.
D · menores que 18 meses e no quadril
Menores que 18 meses e no quadril. Os vasos que atravessam a fise e a metáfise dentro da cápsula permitem que a infecção do osso chegue à articulação.
A · maiores que 18 meses e no joelho
Erra os dois: acima de 18 meses a fise já é barreira, e as metáfises do joelho ficam fora da cápsula.
B · menores que 18 meses e no joelho
A idade está certa, mas as metáfises do joelho ficam fora da cápsula articular.
C · maiores que 18 meses e no quadril
O quadril está certo, mas acima de 18 meses os vasos que atravessam a fise já regrediram, e a associação é menos frequente.
A placa de neutralização tem como função proteger o:
foco da fratura das forças de flexão
parafuso de tração das forças de flexão
foco da fratura das forças de cisalhamento
parafuso de tração das forças de cisalhamento
Gabarito: B
Conceito-chave
O parafuso de tração (*lag screw*) é usado para comprimir dois fragmentos de osso um contra o outro. Ele pega só o fragmento do outro lado (o do lado da cabeça desliza livre), e ao apertar puxa os dois fragmentos juntos. É ótimo para essa compressão entre os fragmentos, mas sozinho é fraco: não resiste a forças de flexão (dobrar) nem de torção. Se o membro for usado, o parafuso se solta ou quebra.
A placa de neutralização resolve isso. Ela é colocada sobre a fratura já comprimida pelo parafuso de tração e não faz compressão nova. Seu papel é absorver as forças de flexão, torção e carga que incidiriam sobre o parafuso, protegendo o parafuso de tração. Assim, ele só precisa fazer o que sabe: manter os fragmentos comprimidos. O nome diz tudo: ela neutraliza as forças que o parafuso não aguenta. Hoje também é chamada de placa de proteção.
Na classificação AO, as placas são descritas pela função que exercem, e não pelo formato. As funções são: compressão, neutralização (ou proteção), suporte (*buttress*), banda de tensão e ponte. A mesma placa pode exercer funções diferentes conforme o modo de uso.
B · parafuso de tração das forças de flexão
Proteger o parafuso de tração das forças de flexão. A placa absorve as forças de dobra e torção que soltariam o parafuso, que fica encarregado só da compressão.
A · foco da fratura das forças de flexão
A placa de neutralização protege o parafuso, e não diretamente o foco, que já está comprimido pelo parafuso de tração.
C · foco da fratura das forças de cisalhamento
O alvo está errado: quem a placa protege é o parafuso de tração.
D · parafuso de tração das forças de cisalhamento
O alvo está certo, mas as forças descritas classicamente são de flexão e torção.
O uso de biocerâmica como enxerto estrutural apresenta como principal propriedade a:
osteogênese
osteoindução
osteocondução
osteovascularização
Gabarito: C
Conceito-chave
Um enxerto ósseo pode ajudar a formar osso de três maneiras diferentes, e cada material oferece uma combinação delas.
Osteogênese: o enxerto traz células vivas capazes de formar osso. Só o osso do próprio paciente (autólogo), retirado na hora, e o aspirado de medula têm essa propriedade.
Osteoindução: o enxerto traz sinais químicos que recrutam células do paciente e as fazem virar células formadoras de osso. Exemplos: as BMPs (proteínas morfogenéticas ósseas) e a matriz óssea desmineralizada.
Osteocondução: o enxerto oferece apenas um andaime, uma estrutura porosa por onde os vasos e as células do próprio paciente crescem e depositam osso novo. Ele não traz células nem sinais.
Há ainda a osteointegração, que é a ligação direta da superfície de um material ao osso, sem tecido fibroso no meio.
As biocerâmicas (hidroxiapatita, fosfato tricálcico, sulfato de cálcio) são materiais minerais sintéticos, sem células e sem fatores de crescimento. Funcionam como andaime: são osteocondutoras. Diferem na velocidade em que o corpo as reabsorve: o sulfato de cálcio some rápido, o fosfato tricálcico tem velocidade intermediária e a hidroxiapatita permanece por muito tempo.
O enxerto autólogo é o único que reúne as três propriedades principais, por isso é considerado o padrão de referência.
C · osteocondução
Osteocondução. A biocerâmica é um arcabouço mineral por onde o osso do paciente cresce, sem trazer células nem sinais.
A · osteogênese
A osteogênese exige células vivas, e a cerâmica é um material inorgânico, sem células.
B · osteoindução
A osteoindução exige sinais como as BMPs, que a cerâmica pura não tem.
D · osteovascularização
Osteovascularização não é uma das propriedades clássicas usadas para classificar enxertos.
Na análise de líquido sinovial por artrocentese, a amostra para contagem celular e estudos citológicos idealmente deve ser acondicionada no:
tubo sem anticoagulante
tubo com heparina sódica
frasco de urocultura ou seringa
tubo com EDTA (ácido etilenoenodiamino tetra-acético)
Gabarito: D
Conceito-chave
O líquido sinovial, retirado da articulação por punção (artrocentese), é analisado por três exames principais, e cada um precisa de um recipiente próprio.
Contagem de células e citologia. O líquido inflamado ou infectado tem muita fibrina e coagula fora do corpo. Se coagular, as células ficam presas no coágulo e a contagem sai falsamente baixa. Por isso, a amostra vai num tubo com EDTA, o mesmo do hemograma, cujo anticoagulante mantém as células soltas.
Cultura. Vai em frasco de hemocultura ou em seringa, sem substâncias que atrapalhem o crescimento das bactérias. Os frascos de hemocultura aumentam a chance de crescimento.
Pesquisa de cristais (para gota e pseudogota). Vai em tubo seco ou com heparina. O EDTA pode formar artefatos que parecem cristais.
Uma leitura rápida da contagem de leucócitos ajuda a classificar o líquido: pouca célula num líquido mecânico (como na artrose), contagem intermediária num líquido inflamatório (como na artrite reumatoide) e contagem muito alta, com predomínio de neutrófilos, sugerindo infecção. Nas articulações com prótese, os limites para suspeitar de infecção são bem mais baixos.
D · tubo com EDTA (ácido etilenoenodiamino tetra-acético)
Tubo com EDTA. O anticoagulante impede que o líquido coagule e prenda as células, preservando a contagem.
A · tubo sem anticoagulante
Sem anticoagulante, o líquido pode coagular e prender as células, falseando a contagem para baixo.
B · tubo com heparina sódica
O tubo com heparina é usado para a pesquisa de cristais. Para contagem de células, o padrão é o EDTA.
C · frasco de urocultura ou seringa
O frasco de cultura e a seringa são destinados à microbiologia, não à contagem celular.
A fase do processamento da dor na qual as vias inibitórias ou excitatórias descendem para o nível medular é chamada de:
condução
percepção
modulação
transmissão
Gabarito: C
Conceito-chave
A dor não é um sinal que simplesmente vai do machucado ao cérebro. Ela passa por cinco etapas, e cada uma é alvo de remédios diferentes.
Transdução. O estímulo que machuca (calor, pressão, substâncias da inflamação) é transformado em sinal elétrico nas terminações nervosas da dor, os nociceptores. Os anti-inflamatórios agem aqui, reduzindo as substâncias que sensibilizam essas terminações.
Condução. O sinal viaja pelas fibras nervosas finas (fibras A-delta e C) até a medula. Os anestésicos locais bloqueiam essa etapa.
Transmissão. No corno posterior da medula, o sinal passa para outro neurônio, que sobe pela medula até o cérebro (tratos espinotalâmicos).
Percepção. O cérebro, no córtex, transforma o sinal na experiência consciente da dor.
Modulação. O cérebro não é só receptor: ele manda sinais de volta, por vias que descem do tronco encefálico até a medula. Essas vias liberam substâncias como opioides naturais do corpo (endorfinas), serotonina e noradrenalina, que podem diminuir ou aumentar a passagem do sinal de dor na medula. É por isso que estresse, atenção e emoções mudam tanto a dor.
Os remédios opioides e alguns antidepressivos usados na dor crônica (tricíclicos e duais) agem reforçando essa modulação.
C · modulação
Modulação. É a fase em que vias descem do tronco encefálico até a medula, inibindo ou facilitando a passagem do sinal de dor.
A · condução
A condução é a viagem do sinal pela fibra nervosa até a medula, num sentido que sobe, e não desce.
B · percepção
A percepção é a etapa final, no córtex, quando a dor se torna consciente.
D · transmissão
A transmissão é a passagem do sinal no corno posterior e sua subida pela medula até o cérebro.
Fratura da Diáfise Umeral No tratamento conservador da fratura da diáfise umeral, a contração muscular ativa, o efeito hidráulico das partes moles e a gravidade são os princípios de tratamento com:
tipoia velpeau
órtese de Sarmiento
gesso circular axilopalmar
tala tipo pinça de confeiteiro
Gabarito: B
Conceito-chave
A órtese de Sarmiento, alternativa B, permite que o braço se movimente dentro de um envoltório ajustado sem deixar a fratura completamente livre. Os músculos comprimidos contra as valvas e a gravidade ajudam a manter o alinhamento.
A peça tem duas valvas de plástico presas por tiras ajustáveis. À medida que o edema cede, o paciente reaperta as tiras, mantendo contato com o ventre muscular. Quando a musculatura contrai contra esse envoltório, a pressão se distribui pelas partes moles; o braço pendurado acrescenta tração longitudinal. Essa é a lógica do efeito hidráulico citado no enunciado (Rockwood, 10ª ed., cap. 37, “A órtese funcional”).
Funcional não significa sem acompanhamento. A técnica exige cooperação, controle radiográfico e cuidado da pele. O ombro faz pendulares, o cotovelo precisa se mover e o paciente não deve apoiar o cotovelo no começo, pois esse apoio favorece varo. A capacidade do ombro e do cotovelo de compensar algum desvio ajuda a explicar o bom resultado em fraturas fechadas e isoladas selecionadas.
A tala em U é uma imobilização provisória útil, mas afrouxa e escorrega; o Velpeau prende o braço ao tórax. Eles podem fazer parte da fase inicial sem reproduzir todo o princípio definitivo da órtese funcional. Não é correto dizer que qualquer tipoia elimina a gravidade, e sim que não constrói o mesmo envoltório de compressão muscular.
B · órtese de Sarmiento
B: órtese de Sarmiento. Suas valvas ajustadas comprimem a musculatura e permitem o mecanismo funcional descrito, associado ao braço pendurado.
A · tipoia velpeau
O Velpeau prende o braço ao tórax. É útil por pouco tempo para conforto, mas não reproduz o envoltório ajustável e o movimento orientado da órtese definitiva.
C · gesso circular axilopalmar
O gesso axilopalmar restringe o cotovelo. Não corresponde à estratégia funcional de compressão das partes moles com mobilização cotidiana das articulações.
D · tala tipo pinça de confeiteiro
A pinça de confeiteiro é a tala em U provisória. Pode preceder a órtese, mas não deve ser confundida com a manutenção funcional ajustável que o enunciado descreve.
Na pseudoartrose do fêmur, quando há desvio angular e translacional, o centro de rotação da angulação (CORA) nas incidências radiográficas em AP e perfil encontram-se:
no mesmo nível
em diferentes níveis
em posição mais distal no fragmento distal
em posição mais proximal no fragmento distal
Gabarito: B
Conceito-chave
Quando um osso consolida torto ou fica com uma pseudartrose desviada, o planejamento da correção usa o conceito de CORA, sigla em inglês para *center of rotation of angulation*, o centro de rotação da angulação. Na radiografia, traça-se o eixo do fragmento de cima e o eixo do fragmento de baixo. O ponto em que esses dois eixos se cruzam é o CORA. Ele mostra onde está o "vértice" da deformidade.
Se a deformidade é apenas uma angulação pura, num único ponto, o CORA fica no nível do vértice visível, e na mesma altura nas radiografias de frente (AP) e de perfil.
Quando, além da angulação, há translação (um fragmento deslocado para o lado em relação ao outro), a situação muda. A translação desloca os eixos, e o ponto de cruzamento sai do nível da deformidade aparente. Como a angulação e a translação podem ter componentes diferentes no plano de frente e no de perfil, o CORA aparece em níveis diferentes em cada radiografia.
Isso tem consequência no tratamento, segundo os princípios de Paley. Uma osteotomia feita exatamente no CORA corrige a deformidade sem criar desvio lateral. Se for feita fora do CORA, é preciso deslocar os fragmentos (transladar) para alinhar os eixos, senão o osso fica reto mas "em degrau".
B · em diferentes níveis
Em diferentes níveis. Com angulação e translação associadas, o cruzamento dos eixos muda de altura entre a radiografia de frente e a de perfil.
A · no mesmo nível
O CORA no mesmo nível nas duas radiografias é o esperado numa angulação pura, sem translação.
C · em posição mais distal no fragmento distal
Não há regra que coloque o CORA sempre mais distal; sua posição depende dos eixos em cada plano.
D · em posição mais proximal no fragmento distal
Também não há regra que o coloque sempre mais proximal no fragmento distal.
De acordo com o consenso internacional de infecção periprotética, o diagnóstico é feito com:
PCR e VHS elevados com histologia positiva em tecido periprotética
PCR e VHS elevados e duas culturas positivas com bactérias diferentes
leucócito esterase ++, histologia positiva em tecido periprotético e elevada porcentagem de polimorfonucleares no liquido sinovial
leucócito esterase ++, histologia positiva em tecido periprotético e duas culturas positivas com bactérias diferentes
Gabarito: C
Conceito-chave
A infecção ao redor de uma prótese (infecção periprotética) é difícil de diagnosticar, porque nenhum exame isolado é perfeito. Por isso, um consenso internacional (da MSIS, depois revisado pelo ICM) criou critérios combinados, divididos em maiores e menores.
Critérios maiores, e basta um deles para fechar o diagnóstico:
uma fístula (um trajeto que liga a prótese à pele, drenando secreção);
duas culturas positivas com o mesmo micro-organismo.
Critérios menores, e classicamente três deles fecham o diagnóstico:
PCR e VHS elevados (os dois exames de sangue que medem inflamação contam juntos como um só critério);
contagem alta de leucócitos no líquido da articulação ou fita de esterase leucocitária com resultado ++ (um teste rápido, como o de urina, que detecta enzimas dos glóbulos brancos);
porcentagem alta de polimorfonucleares (neutrófilos) no líquido;
histologia positiva, ou seja, neutrófilos no tecido ao redor da prótese visto ao microscópio;
uma única cultura positiva.
Aplicando: esterase ++, histologia positiva e polimorfonucleares elevados são três critérios menores distintos, o suficiente para o diagnóstico.
Dois detalhes caem muito: duas culturas só valem como critério maior se forem do mesmo micro-organismo (germes diferentes sugerem contaminação), e PCR com VHS conta como um critério só. A versão de 2018 do consenso passou a usar uma pontuação e incluiu novos exames, mas a lógica continua a mesma.
C · leucócito esterase ++, histologia positiva em tecido periprotético e elevada porcentagem de polimorfonucleares no liquido sinovial
Esterase leucocitária ++, histologia positiva e polimorfonucleares elevados no líquido. São três critérios menores, o que fecha o diagnóstico.
A · PCR e VHS elevados com histologia positiva em tecido periprotética
PCR e VHS contam juntos como um único critério. Somados à histologia, são só dois critérios menores.
B · PCR e VHS elevados e duas culturas positivas com bactérias diferentes
Duas culturas só valem como critério maior com o mesmo micro-organismo. Germes diferentes sugerem contaminação.
D · leucócito esterase ++, histologia positiva em tecido periprotético e duas culturas positivas com bactérias diferentes
Pelo mesmo motivo, as culturas com germes diferentes não fecham o critério maior.
Na artrite séptica do quadril, é critério de Kocher:
VHS de 20 mm
PCR de 40mg/l
diminuição da mobilidade do quadril
incapacidade de apoio do membro inferior
Gabarito: D
Conceito-chave
Uma criança que manca e sente dor no quadril pode ter duas doenças muito diferentes. A sinovite transitória é uma inflamação leve, que passa sozinha em poucos dias. A artrite séptica é uma infecção dentro da articulação, uma urgência que pode destruir a cabeça do fêmur se não for drenada.
Kocher criou quatro critérios para ajudar a separar as duas:
febre acima de 38,5 graus;
incapacidade de apoiar o peso no membro;
VHS (velocidade de hemossedimentação, um exame de inflamação) acima de 40 mm/h;
leucócitos no sangue acima de 12.000 por mm³.
Quanto mais critérios presentes, maior a probabilidade de artrite séptica. Com nenhum, a chance é muito baixa; com os quatro, é muito alta. Estudos posteriores mostraram que o desempenho é um pouco menor que no estudo original, mas os critérios continuam muito usados.
Depois, Caird acrescentou a PCR (proteína C reativa) elevada como quinto critério.
Na prática, diante da suspeita, o passo decisivo é puncionar o quadril, geralmente guiado por ultrassom. Se sair pus, a criança vai para drenagem cirúrgica.
A limitação do movimento do quadril é esperada nas duas doenças e por isso não está entre os critérios.
D · incapacidade de apoio do membro inferior
Incapacidade de apoio do membro inferior. É um dos quatro critérios de Kocher, junto com febre, VHS acima de 40 e leucócitos acima de 12.000.
A · VHS de 20 mm
A VHS faz parte dos critérios, mas o corte é acima de 40 mm/h, e não 20.
B · PCR de 40mg/l
A PCR foi acrescentada depois, na modificação de Caird. Não é um dos critérios originais de Kocher.
C · diminuição da mobilidade do quadril
A diminuição da mobilidade aparece tanto na artrite séptica quanto na sinovite transitória e não faz parte dos critérios.
No controle da dor, o bloqueio do nervo femoral é usado para analgesia da região do:
joelho e medial da coxa
quadril e medial da coxa
joelho e anterior da coxa
quadril e anterior da coxa
Gabarito: C
Conceito-chave
O nervo femoral sai da região lombar, passa sob o ligamento inguinal, na virilha, e chega à frente da coxa. Ele tem três funções:
Motora: comanda os músculos da frente da coxa, principalmente o quadríceps, que estica o joelho.
Sensitiva: dá sensibilidade à pele da face anterior da coxa e, por um ramo longo chamado nervo safeno, à face de dentro da perna e do pé.
Articular: manda ramos para o joelho e para parte do quadril.
O bloqueio do nervo femoral, feito com anestésico injetado na virilha, guiado por ultrassom, alivia a dor do joelho e da frente da coxa. É usado em cirurgias como a prótese total de joelho e em fraturas do fêmur.
Ele tem um efeito colateral importante: como também bloqueia o quadríceps, a perna fica fraca e o paciente pode cair ao tentar andar. Por isso, na prótese de joelho, muitos serviços preferem o bloqueio do canal dos adutores, mais abaixo na coxa, que alivia a dor sem enfraquecer tanto o quadríceps.
O femoral não cobre tudo. A face medial da coxa é do nervo obturatório. A face lateral é do nervo cutâneo femoral lateral. E o quadril recebe vários nervos, então o bloqueio femoral sozinho não é suficiente; usam-se bloqueios que pegam mais de um nervo, como o da fáscia ilíaca ou o PENG.
C · joelho e anterior da coxa
Joelho e face anterior da coxa. São os territórios articular e sensitivo do nervo femoral.
A · joelho e medial da coxa
O joelho está certo, mas a face medial da coxa é do nervo obturatório.
B · quadril e medial da coxa
Erra os dois: a face medial da coxa é do obturatório, e o quadril tem inervação de vários nervos.
D · quadril e anterior da coxa
A face anterior da coxa está certa, mas o quadril recebe vários nervos e não é bem coberto só pelo bloqueio femoral.
A infecção óssea, após osteossíntese com placa que penetra o córtex, mas não cria instabilidade axial, é classificada por CIERNY–MADER como tipo:
II
III
IV
V
Gabarito: B
Conceito-chave
A classificação de Cierny-Mader é usada para a osteomielite do adulto e tem duas partes: o tipo anatômico (onde está a infecção no osso) e a classe do paciente (como está a saúde dele).
Tipos anatômicos:
I, medular: a infecção fica dentro do canal do osso, como em torno de uma haste intramedular infectada.
II, superficial: a infecção atinge só a superfície externa da cortical, geralmente a partir de uma ferida que expõe o osso.
III, localizada: a infecção atravessa toda a espessura da cortical numa área delimitada, mas depois de retirar o osso doente, o osso continua estável e aguenta carga. É o caso típico de uma infecção ao redor de uma placa e seus parafusos.
IV, difusa: a infecção toma o osso de forma extensa, em volta toda, e a limpeza cirúrgica deixa o osso instável, exigindo reconstrução.
Classe do paciente:
A: paciente saudável.
B: paciente comprometido, por doenças sistêmicas (como diabetes), por problemas locais (como pele ruim ou má circulação na perna) ou pelos dois.
C: paciente em que o tratamento seria pior que a própria doença.
A combinação (por exemplo, IIIB) orienta o quão agressivo será o tratamento. Não existe tipo V.
B · III
Tipo III. A infecção atravessa a cortical numa área localizada, mas o osso continua estável depois da limpeza.
A · II
O tipo II é superficial e não atravessa toda a espessura da cortical.
C · IV
O tipo IV é difuso, e a retirada do osso doente deixa o osso instável, o que não é o caso descrito.
Na investigação da pseudoartrose, a cintilografia com uma fenda fria entre duas áreas quentes de captação corresponde ao tipo:
sinovial
atrófico
oligotrófico
hipertrófico
Gabarito: A
Conceito-chave
Uma pseudartrose é uma fratura que não consolidou. Para tratá-la, é preciso entender por que ela não consolidou, e a cintilografia óssea ajuda. Nesse exame, injeta-se uma substância radioativa que se acumula onde o osso está ativo, com metabolismo e circulação. As áreas que captam muito aparecem "quentes"; as que captam pouco, "frias".
Pseudartrose hipertrófica: as pontas do osso estão cheias de vida, formam muito calo, mas não se unem porque há movimento demais. Na cintilografia, captação intensa e contínua. Falta estabilidade, não biologia.
Pseudartrose atrófica: as pontas estão sem vida, sem calo. Capta pouco. Falta biologia.
Pseudartrose oligotrófica: um meio-termo, com captação intermediária.
Pseudartrose sinovial: entre as duas pontas do osso formou-se uma falsa articulação, uma cavidade revestida por uma membrana parecida com a sinovial e cheia de líquido. Na cintilografia, as duas pontas captam (áreas quentes), mas a cavidade no meio, sem vasos, não capta. O resultado é uma fenda fria entre duas áreas quentes.
Isso muda a cirurgia: só estabilizar não basta. É preciso retirar a falsa articulação, abrir o canal das pontas do osso, avivar as superfícies, estabilizar e, em geral, colocar enxerto.
A · sinovial
Sinovial. A fenda fria é a cavidade com líquido e membrana formada entre as pontas do osso, que capta pouco por não ter vasos.
B · atrófico
A pseudartrose atrófica capta pouco de forma difusa, sem o padrão de duas áreas quentes.
C · oligotrófico
A oligotrófica tem captação intermediária, sem uma fenda fria no meio.
D · hipertrófico
A hipertrófica capta intensamente e de forma contínua, sem interrupção.
A osteomielite subaguda que acomete a vértebra é classificada, segundo a classificação de GLEDHILL modificada por ROBERTS, como tipo:
II
III
IV
VI
Gabarito: D
Conceito-chave
A osteomielite subaguda é uma infecção óssea de evolução arrastada, com pouca febre, pouca dor e exames de sangue pouco alterados. Por isso, muitas vezes ela imita um tumor na radiografia. A classificação de Gledhill, modificada por Roberts, organiza essas lesões pelo local e pelo aspecto:
Tipo I: lesão escura (lítica) na metáfise. Quando tem um halo de osso esclerótico ao redor, é o clássico abscesso de Brodie.
Tipo II: lesão na metáfise que corrói a cortical.
Tipo III: lesão na cortical da diáfise, que pode imitar um osteoma osteoide.
Tipo IV: lesão na diáfise com reação do periósteo em camadas, em "casca de cebola", que pode imitar o sarcoma de Ewing.
Tipo V: lesão na epífise, que pode imitar um condroblastoma.
Tipo VI: lesão na vértebra.
O ponto prático é que essas lesões se parecem com tumores. Por isso, quando há biópsia, o material deve ir sempre para patologia e para cultura: um tumor pode ser confundido com infecção, e uma infecção, com tumor.
D · VI
Tipo VI. Na classificação de Gledhill modificada por Roberts, o tipo VI corresponde ao acometimento vertebral.
A · II
O tipo II é a lesão metafisária com erosão da cortical.
B · III
O tipo III é a lesão na cortical da diáfise.
C · IV
O tipo IV é a lesão diafisária com reação periosteal em casca de cebola.
Na fratura exposta da tíbia, o uso da haste intramedular fresada em detrimento a uma haste intramedular não fresada gera um aumento:
do fluxo sanguíneo periosteal
no tempo de consolidação óssea
de complicações patelofemorais
do número de procedimentos secundários
Gabarito: A
Conceito-chave
A haste intramedular é colocada dentro do canal do osso. Antes de introduzi-la, o cirurgião pode fresar o canal, ou seja, alargá-lo com brocas progressivas, o que permite usar uma haste mais grossa e encaixada. A outra opção é a haste não fresada, mais fina, colocada sem alargar o canal.
A fresagem destrói a circulação endosteal, o sangue que corre por dentro do canal e irriga a parte interna da cortical. O osso responde aumentando o fluxo pelo lado de fora: o fluxo sanguíneo periosteal e das partes moles ao redor aumenta, como uma compensação. Isso foi demonstrado em estudos experimentais.
A fresagem tem outras vantagens: permite uma haste mais grossa e mais resistente, e os fragmentos de osso produzidos pelas brocas funcionam como um enxerto natural no foco da fratura.
Nas fraturas fechadas da tíbia, um grande estudo comparativo (SPRINT) mostrou menos reoperações com a haste fresada. Nas fraturas expostas, não houve diferença clara entre fresada e não fresada. Na prática, a haste fresada é muito usada também nas expostas de menor gravidade.
A · do fluxo sanguíneo periosteal
Do fluxo sanguíneo periosteal. Com a circulação de dentro do canal destruída pela fresagem, o osso compensa aumentando o fluxo pelo lado de fora.
B · no tempo de consolidação óssea
A fresagem não prolonga o tempo de consolidação.
C · de complicações patelofemorais
A dor na frente do joelho depende do ponto de entrada e do acesso, e não da fresagem.
D · do número de procedimentos secundários
Nas fraturas fechadas, a haste fresada reduziu reoperações; nas expostas, não houve diferença clara.
A placa de neutralização tem como função proteger o parafuso de tração de forças de:
flexão e rotação
flexão e compressão
rotação e compressão
rotação e cisalhamento
Gabarito: A
Conceito-chave
O parafuso de tração comprime dois fragmentos de osso um contra o outro, e é ótimo nisso. Mas sozinho ele não aguenta os esforços do dia a dia: não resiste a flexão (forças que dobram o osso), nem a rotação (forças que torcem), nem sustenta carga sobre o eixo. Se o membro for usado só com ele, o parafuso se solta.
A placa de neutralização, também chamada de placa de proteção, é colocada sobre a fratura depois que o parafuso já fez a compressão. Ela não comprime nada de novo. Sua função é absorver as forças de flexão e rotação (e de carga axial), protegendo o parafuso. Assim, ele só precisa manter os fragmentos comprimidos.
A combinação clássica parafuso de tração com placa de neutralização é usada em fraturas em espiral ou oblíquas longas, em que o traço permite um bom parafuso de tração, como em fraturas do úmero, da fíbula perto do tornozelo e do antebraço.
Um detalhe que ajuda a eliminar alternativas: compressão é o que o parafuso de tração produz. Não faz sentido protegê-lo da força que ele mesmo gera.
A · flexão e rotação
Flexão e rotação. São as forças que o parafuso de tração sozinho não aguenta e que a placa absorve.
B · flexão e compressão
A compressão é o que o parafuso produz, e não uma força da qual ele precise ser protegido.
C · rotação e compressão
Pelo mesmo motivo, a compressão não é a força a ser neutralizada.
D · rotação e cisalhamento
A definição clássica fala em flexão e rotação, e não em cisalhamento.
Na haste intramedular, o bloqueio com dois parafusos nas regiões proximal e distal, na fratura multifragmentar da diáfise do fêmur é indicado para controlar o desvio:
angular e a translação
angular e o encurtamento
rotacional e a translação
rotacional e o encurtamento
Gabarito: D
Conceito-chave
Na fratura multifragmentária, o foco não fornece um encaixe cortical confiável para manter comprimento e rotação. Os bloqueios proximal e distal prendem os segmentos à haste e controlam rotação e encurtamento, alternativa D.
No istmo, o ajuste da haste ao canal ajuda a conter o alinhamento. Fora dele e nas fraturas cominutivas, aumenta a dependência dos bloqueios e do planejamento. O resumo lembra que a cominuição ameaçava justamente comprimento e rotação antes de o bloqueio estático se tornar rotina (Rockwood, 10ª ed., cap. 57, “Classificação” e “Bloqueio”).
Os parafusos não recuperam uma redução que não foi feita. Comprimento e rotação devem ser acertados antes de bloquear. Na cominuição, o lado contralateral é a referência para medir; seguir apenas as corticais do foco pode deixar o membro curto ou rodado.
A quantidade de parafusos depende da montagem e do padrão; o segundo é útil em fraturas distais, cominuição, osso ruim e carga precoce. A questão pede o controle acrescentado pelo bloqueio, não todos os objetivos da haste como sistema.
D · rotacional e o encurtamento
D: rotação e encurtamento. O bloqueio vincula os fragmentos à haste, evitando giro e telescopagem quando o foco cominutivo não oferece contenção suficiente.
A · angular e a translação
Descreve alinhamento e deslocamento, mas omite os controles decisivos do bloqueio. O ajuste da haste no canal e a redução ajudam a orientar o eixo; a instabilidade particular do foco multifragmentário inclui giro e perda de comprimento.
B · angular e o encurtamento
Acerta comprimento e troca o outro componente. O encurtamento é uma ameaça real sem contato cortical. O par que caracteriza a função acrescentada pelos bloqueios é comprimento com rotação, não apenas ângulo.
C · rotacional e a translação
Acerta rotação e deixa de fora a telescopagem. A translação deve ser corrigida na redução, mas a ausência de apoio cortical permite que os segmentos encurtem ao longo da haste. Esse é o segundo controle pedido.
Na fixação externa uniplanar, o aumento da estabilidade está associado a:
menor distância entre as barras
maior distância entre o osso e as barras
maior distância entre os pinos no mesmo lado da fratura
maior distância entre os pinos centrais e o foco da fratura
Gabarito: C
Conceito-chave
O fixador externo segura a fratura por fora do corpo. Pinos atravessam a pele e se prendem ao osso, e uma barra externa liga os pinos de cima aos de baixo. No fixador uniplanar, todos os pinos estão num mesmo plano, ligados por uma barra de um lado só do membro.
A estabilidade dessa montagem segue a lógica de uma alavanca. Quanto menores os braços de alavanca e maior a base de apoio, mais firme ela fica. Os fatores que aumentam a estabilidade são:
Pinos do mesmo fragmento afastados entre si. Num mesmo lado da fratura, um pino perto do foco e outro longe dele formam uma base larga, que resiste melhor a dobrar. Pinos agrupados no meio do fragmento formam uma base estreita, que gira com facilidade.
Pinos perto do foco. Diminui o trecho de osso solto entre os pinos de cima e os de baixo.
Barra perto do osso. Quanto mais longe a barra está do osso, maior o braço de alavanca e mais o pino dobra.
Pinos mais grossos e em maior número.
Barra dupla ou montagem em mais de um plano.
O erro clássico é afastar demais a barra do osso, uma das formas mais rápidas de deixar o fixador frouxo.
C · maior distância entre os pinos no mesmo lado da fratura
Maior distância entre os pinos no mesmo lado da fratura. Pinos afastados dentro de cada fragmento formam uma base de apoio mais larga.
A · menor distância entre as barras
Em montagens com barra dupla, afastar as barras entre si aumenta a rigidez. Aproximá-las não estabiliza.
B · maior distância entre o osso e as barras
É o contrário: a barra longe do osso aumenta o braço de alavanca e deixa a montagem mais frouxa.
D · maior distância entre os pinos centrais e o foco da fratura
É o contrário: os pinos centrais devem ficar perto do foco, para encurtar o trecho de osso sem apoio.
Na avaliação do paciente com dor, o termo alodinia é utilizado quando existe:
ausência da sensibilidade a dor
sensação anormal de picadas e formigamentos
diminuição da sensibilidade em um único dermátomo
dor a estímulo que normalmente não deve ser doloroso
Gabarito: D
Conceito-chave
A avaliação da dor tem um vocabulário próprio, e cada termo descreve uma alteração diferente da sensibilidade.
Alodinia: dor provocada por um estímulo que normalmente não dói. Por exemplo, o lençol encostando no pé, uma brisa na pele ou um toque leve passam a doer.
Hiperalgesia: dor exagerada diante de um estímulo que já seria doloroso, como uma picada que dói muito mais do que deveria.
Hipoestesia: sensibilidade diminuída. Quando ausente, chama-se anestesia.
Analgesia: ausência de dor diante de um estímulo que deveria doer.
Parestesia: sensação anormal e espontânea, como formigamento ou picadas, que não chega a ser desagradável.
Disestesia: sensação anormal desagradável, como queimação.
Alodinia e hiperalgesia são sinais de sensibilização: o sistema nervoso fica "amplificado" e passa a interpretar estímulos comuns como perigosos. Aparecem na dor neuropática (por lesão de nervo), na síndrome dolorosa regional complexa (uma condição que pode surgir depois de traumas ou cirurgias, com dor desproporcional, inchaço e alterações de cor e temperatura) e na fibromialgia.
D · dor a estímulo que normalmente não deve ser doloroso
Dor a estímulo que normalmente não deve ser doloroso. É a definição de alodinia, sinal de que o sistema nervoso está sensibilizado.
A · ausência da sensibilidade a dor
A ausência de sensibilidade à dor é a analgesia.
B · sensação anormal de picadas e formigamentos
A sensação anormal de picadas e formigamento é a parestesia.
C · diminuição da sensibilidade em um único dermátomo
No controle da dor, o uso da dipirona tem como mecanismo a inibição:
da COX 1
da serotonina
do citocromo P450
das prostaglandinas centrais
Gabarito: D
Conceito-chave
A dipirona (também chamada de metamizol) é um analgésico e antitérmico muito usado no Brasil. Uma característica a denuncia: ela alivia bem a dor e a febre, mas quase não tem efeito anti-inflamatório nos tecidos. Isso indica que ela age principalmente no sistema nervoso central, e não no local da lesão.
O mecanismo mais aceito é a inibição das prostaglandinas no sistema nervoso central. As prostaglandinas são substâncias que participam da dor, da febre e da inflamação. Os anti-inflamatórios comuns (AINEs, como ibuprofeno e diclofenaco) bloqueiam as enzimas COX que as produzem em todo o corpo, inclusive no estômago e nas plaquetas. A dipirona age mais no centro, e há também participação de vias canabinoides e opioides próprias do organismo.
Por isso, ela tem vantagens práticas: não agride o estômago como os anti-inflamatórios e quase não interfere na coagulação. É muito útil no pós-operatório ortopédico e em pacientes que não podem usar anti-inflamatórios. Pode baixar a pressão se for injetada rápido na veia.
O efeito adverso mais temido é a agranulocitose, uma queda grave dos glóbulos brancos de defesa. É rara, mas por causa dela a dipirona é proibida em alguns países.
D · das prostaglandinas centrais
Inibição das prostaglandinas centrais. A dipirona age principalmente no sistema nervoso central, o que explica o bom efeito analgésico com pouco efeito anti-inflamatório.
A · da COX 1
A inibição da COX-1 nos tecidos é o mecanismo dos anti-inflamatórios comuns, responsável pela agressão ao estômago. A dipirona não age assim de forma relevante.
B · da serotonina
A inibição da serotonina não é o mecanismo da dipirona.
C · do citocromo P450
O citocromo P450 é um sistema de enzimas do fígado que metaboliza remédios. Não é o alvo da dipirona.
Na deformidade angular da tíbia em que o CORA difere do ponto óbvio, significa deformidade:
axial
uniapical
rotacional
translacional
Gabarito: D
Conceito-chave
Quando um osso está torto, o planejamento da correção usa o CORA (do inglês *center of rotation of angulation*, centro de rotação da angulação): o ponto em que se cruzam o eixo do fragmento de cima e o eixo do fragmento de baixo.
Numa angulação pura, o osso apenas dobrou num ponto. Os dois eixos se cruzam exatamente no vértice visível da curva, o "ponto óbvio" da deformidade.
Quando o CORA não coincide com esse ponto visível, é porque existe outro componente somado à angulação: a translação, ou seja, um dos fragmentos está deslocado para o lado em relação ao outro. Essa translação desloca os eixos e tira o cruzamento do lugar.
Isso tem consequência direta na cirurgia. Se o cirurgião cortar no vértice aparente e simplesmente endireitar o ângulo, o osso fica reto, mas com um "degrau" de lado. Para corrigir bem, ele pode cortar no próprio CORA, ou cortar no nível desejado e deslocar os fragmentos para compensar a translação.
Outras situações: deformidades com várias curvas têm vários CORAs (multiapicais). E a deformidade rotacional (osso torcido em torno do próprio eixo) não aparece no traçado da radiografia de frente ou perfil; ela é avaliada no exame físico ou na tomografia.
D · translacional
Translacional. Quando o CORA fica fora do vértice visível, há um deslocamento lateral somado à angulação.
A · axial
A deformidade axial é de comprimento e não tira o CORA do vértice.
B · uniapical
Na deformidade uniapical pura, o CORA coincide com o ponto óbvio.
C · rotacional
A rotação não aparece no traçado bidimensional da radiografia e não explica o CORA fora do vértice.
a intersecção dos eixos proximal e distal do osso envolvido
Gabarito: D
Conceito-chave
Quando uma fratura consolida torta (consolidação viciosa), é preciso medir a deformidade para planejar a correção. A ferramenta é o CORA, sigla em inglês para *center of rotation of angulation*, o centro de rotação da angulação.
A definição é geométrica. Na radiografia, traça-se o eixo do fragmento de cima e o eixo do fragmento de baixo. O ponto em que essas duas linhas se cruzam é o CORA. O ângulo entre elas é o tamanho da deformidade.
Os eixos podem ser anatômicos (a linha que passa pelo meio da diáfise do osso) ou mecânicos (a linha que liga o centro de uma articulação ao centro da outra). Eles são a matéria-prima do traçado; o CORA é o cruzamento.
O CORA é a chave do planejamento das osteotomias, segundo os princípios de Paley:
Se o corte e a "dobradiça" da correção estão no CORA, o ângulo é corrigido sem criar deslocamento lateral.
Se o corte está fora do CORA, mas a dobradiça está nele, a correção vem junto com um deslocamento que compensa e alinha os eixos.
Se o corte e a dobradiça estão fora do CORA, cria-se um deslocamento indesejado, e o osso fica alinhado em ângulo mas "em degrau".
D · a intersecção dos eixos proximal e distal do osso envolvido
A intersecção dos eixos proximal e distal do osso envolvido. É o ponto em que as linhas dos dois fragmentos se cruzam.
A · o centro anatômico do osso envolvido
O centro anatômico do osso não define o ponto de rotação da deformidade.
B · o alinhamento mecânico do osso envolvido
O eixo mecânico é uma das linhas usadas para traçar a deformidade, e não o CORA em si.
C · o alinhamento anatômico do osso envolvido
O eixo anatômico também é uma linha usada no traçado. O CORA é o cruzamento de dois eixos.
Na artrite séptica da criança, a análise do líquido sinovial revela contagem de leucócitos:
superior a 50.000 cel/mm3 e predomínio de linfócitos
superior a 50.000 cel/mm3 e predomínio de neutrófilos
entre 15.000 a 25.000 cel/mm3 e predomínio de linfócitos
entre 15.000 a 25.000 cel/mm3 e predomínio de neutrófilos
Gabarito: B
Conceito-chave
A análise do líquido retirado de uma articulação ajuda a separar três situações, principalmente pela contagem de leucócitos (glóbulos brancos) e pelo tipo de célula que predomina.
Líquido normal ou mecânico (como na artrose ou depois de um trauma): poucas células, abaixo de cerca de 2.000 por mm³, com predomínio de células mononucleares.
Líquido inflamatório (como na gota, na artrite reumatoide e nas artrites reativas): contagem intermediária, de cerca de 2.000 a 50.000.
Líquido séptico (infecção bacteriana): contagem alta, acima de 50.000 células por mm³, muitas vezes acima de 100.000, com predomínio de neutrófilos, as células de defesa que chegam primeiro contra bactérias. O líquido costuma ser turvo e a glicose, baixa.
Mas o número orienta, não decide sozinho. Uma artrite séptica no começo, ou já tratada com antibiótico, pode ter contagem mais baixa. Na criança pequena, a bactéria *Kingella kingae* costuma dar contagens menores e é difícil de crescer na cultura; por isso, é útil colocar o líquido em frasco de hemocultura e pedir PCR (exame que detecta o material genético da bactéria). Quem confirma o diagnóstico é a cultura, junto com o quadro clínico.
Em articulações com prótese, os limites para suspeitar de infecção são bem mais baixos.
B · superior a 50.000 cel/mm3 e predomínio de neutrófilos
Superior a 50.000 cel/mm³ e predomínio de neutrófilos. É o padrão do líquido de uma infecção bacteriana aguda.
A · superior a 50.000 cel/mm3 e predomínio de linfócitos
A contagem está certa, mas a infecção bacteriana aguda atrai neutrófilos, e não linfócitos.
C · entre 15.000 a 25.000 cel/mm3 e predomínio de linfócitos
A faixa de 15.000 a 25.000 com linfócitos aponta para um líquido inflamatório, e não para infecção bacteriana.
D · entre 15.000 a 25.000 cel/mm3 e predomínio de neutrófilos
Os neutrófilos estão certos, mas a contagem de 15.000 a 25.000 fica na faixa inflamatória.
O enxerto ósseo homólogo tem como principal propriedade a:
osteogênese
osteoindução
osteocondução
osteorregulação
Gabarito: C
Conceito-chave
O enxerto ósseo homólogo, também chamado de aloenxerto, é osso retirado de um doador, geralmente de banco de ossos. Antes de ser usado, ele passa por um processamento (congelamento, liofilização, irradiação) para reduzir o risco de transmitir doenças e de rejeição. Esse processamento muda as propriedades do osso.
Um enxerto pode ajudar a formar osso de três formas:
Osteogênese: trazer células vivas que formam osso. O processamento mata as células, então o aloenxerto não tem essa propriedade.
Osteoindução: trazer sinais (como as BMPs, proteínas morfogenéticas ósseas) que fazem as células do paciente virar células formadoras de osso. O processamento reduz muito esses sinais; no aloenxerto comum, a osteoindução é pequena e variável.
Osteocondução: servir de andaime, uma estrutura por onde os vasos e as células do paciente crescem e depositam osso novo. A arquitetura mineral do osso é mantida, então essa é a principal propriedade do aloenxerto.
Uma exceção: a matriz óssea desmineralizada, um tipo de aloenxerto em que se retira o mineral, preserva parte das proteínas indutoras e tem osteoindução relevante.
O enxerto do próprio paciente (autólogo) é o único que tem as três propriedades. O aloenxerto, por sua vez, incorpora mais devagar e, quando é um bloco grande, pode fraturar ou não consolidar com o osso do paciente.
C · osteocondução
Osteocondução. O processamento mata as células e reduz os sinais, mas mantém a estrutura mineral, que funciona como andaime.
A · osteogênese
A osteogênese exige células vivas, e o processamento do aloenxerto elimina as células.
B · osteoindução
A osteoindução do aloenxerto comum é pequena e variável, porque o processamento reduz as proteínas indutoras.
D · osteorregulação
Osteorregulação não é uma das propriedades clássicas usadas para classificar enxertos.
No princípio da estabilidade absoluta, a placa com compressão axial deve ser:
pré-moldada e os parafusos iniciais próximos ao traço de fratura
pré-moldada e os parafusos iniciais distantes do traço de fratura
pré-tensionada e os parafusos iniciais próximos ao traço de fratura
pré-tensionada e os parafusos iniciais distantes do traço de fratura
Gabarito: C
Conceito-chave
Na estabilidade absoluta, o objetivo é que os fragmentos fiquem tão comprimidos que não haja nenhum micromovimento entre eles. Assim, o osso consolida de forma direta (consolidação primária), sem formar calo. É a estratégia para fraturas simples, como as transversas e as oblíquas curtas, e para fraturas que entram na articulação.
Uma forma de conseguir isso é a placa de compressão, e dois detalhes técnicos fazem a diferença.
A placa pré-tensionada. Se a placa for moldada exatamente no formato do osso, ao apertá-la, ela comprime só a cortical que fica logo abaixo dela. A cortical do lado oposto tende a se abrir, deixando uma fenda. Para evitar isso, o cirurgião dobra a placa levemente a mais (um sobrecontorno), de modo que ela fique um pouco afastada do osso no meio, sobre a fratura. Ao parafusar, a placa se achata contra o osso e comprime também a cortical do lado oposto.
Os primeiros parafusos perto do traço. Os orifícios dessas placas têm uma rampa. Quando o parafuso é colocado de forma excêntrica (do lado do orifício mais longe da fratura), ao apertar, a cabeça desliza na rampa e empurra o fragmento em direção ao outro, comprimindo o foco. Colocar esses parafusos perto do traço aproveita melhor esse efeito.
C · pré-tensionada e os parafusos iniciais próximos ao traço de fratura
Pré-tensionada e os parafusos iniciais próximos ao traço de fratura. O sobrecontorno comprime também a cortical oposta, e os parafusos excêntricos perto do traço empurram os fragmentos um contra o outro.
A · pré-moldada e os parafusos iniciais próximos ao traço de fratura
Os parafusos perto do traço estão certos, mas uma placa apenas moldada ao osso deixa a cortical oposta abrir.
B · pré-moldada e os parafusos iniciais distantes do traço de fratura
Erra os dois: a placa só moldada deixa a cortical oposta abrir, e os parafusos longe do traço comprimem menos.
D · pré-tensionada e os parafusos iniciais distantes do traço de fratura
A placa pré-tensionada está certa, mas os parafusos iniciais devem ficar perto do traço.