Orto Questões

Displasias esqueléticas e síndromes

Ortopedia pediátricaResumo do capítulo33 min de leitura

Acondroplasia (FGFR3, AD, 90% espontânea, falha endocondral, epífises poupadas, estenose do forame magno e lombar, cifose toracolombar tratada com órtese); MED (atraso da marcha, epífises simétricas, patela dupla) e SED (tronco curto, odontoide); McKUSICK (cabelo fino, imunodeficiência, Finlândia); MPS (HURLER e MORQUIO as mais comuns; retardo em HURLER, HUNTER e SANFILIPPO; MORQUIO AR, queratan sulfato, inteligência normal, frouxidão, platispondilia e odontoide hipoplásico; IV-B beta-galactosidase; MAROTEAUX-LAMY 4-sulfatase); DOWN (instabilidade C1-C2 em cerca de 10% a 15%, epifisiólise com hipotireoidismo); NF1 periférica com pseudartrose da tíbia; café com leite em McCUNE-ALBRIGHT e JAFFE-CAMPANACCI; Proteus com hemi-hipertrofia; KLIPPEL-TRÉNAUNAY com sindactilia e tromboflebite; KLIPPEL-FEIL; DUCHENNE (extensores do quadril, GOWERS, MERYON) e facioescapuloumeral com deltoide preservado.

Atualizado em 03/11/2026 · 33 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 36 · Skeletal Dysplasias; Capítulo 37 · Orthopaedic-Related Syndromes, em Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª edição (2021), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.. Autores do capítulo: John A. HERRING (capítulos 36 e 37).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de ortopedia pediátrica do Tachdjian, capítulo 36, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

Ler no leitor do Orto QuestõesCriar conta grátis

No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo é inspirado nos capítulos 36 (Skeletal Dysplasias) e 37 (Orthopaedic-Related Syndromes) do Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª edição (2021), escritos por John A. HERRING, complementados pelos capítulos de doenças musculares (35) e do sistema nervoso periférico (34) do mesmo livro e pelos trechos correspondentes do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição. As páginas citadas são as impressas.

Displasia esquelética é um defeito estrutural do próprio osso ou da cartilagem que altera o crescimento do tronco, dos membros ou de ambos. São mais de 200, quase todas raras; a prova, porém, cobra sempre o mesmo punhado: acondroplasia, as displasias que acometem a epífise (múltipla e espondiloepifisária), as metafisárias (com a de McKUSICK ganhando destaque), as mucopolissacaridoses (sobretudo MORQUIO), e as síndromes de interesse ortopédico: DOWN, neurofibromatose, síndromes de crescimento excessivo, KLIPPEL-FEIL, e as distrofias musculares (DUCHENNE e facioescapuloumeral).

O jeito mais rápido de estudar é pensar em três perguntas para cada doença: qual é a peça que falha (fise, epífise, metáfise, enzima lisossomal, proteína do músculo), como se herda (dominante, recessiva, ligada ao X) e onde está o perigo ortopédico (quase sempre a coluna cervical alta, a coluna toracolombar ou o quadril). As bancas TARO, TEOT, TEPOP e ENARE perguntam enzimas, padrão de herança, sinais clínicos com epônimo e porcentagens que aparecem uma vez no texto.

Como pensar uma displasia: forma, herança e genes

Cobrança confirmada · 1 questão

O exame que já faz metade do diagnóstico

O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., abre o capítulo 36 lembrando que baixa estatura é altura abaixo do percentil 3 para a idade e que ela pode ser proporcionada ou desproporcionada, e a desproporcionada se divide em membros curtos ou tronco curto (p. 1749). Comparar a altura sentada com a altura em pé, como nas curvas do capítulo 1, separa os dois grupos.

Depois vem o segmento mais curto. Rizomélico é o encurtamento do segmento proximal (fêmur e úmero), o padrão da acondroplasia; mesomélico, do segmento médio (antebraço e perna); acromélico, do distal (mãos e pés). A face ajuda: bossa frontal na acondroplasia, face triangular na osteogênese imperfeita; dentes anormais denunciam alteração de colágeno comum ao dente e ao osso (p. 1749).

Na radiografia, epífises alteradas lembram displasia epifisária múltipla; metáfises alteradas, raquitismo e condrodisplasias metafisárias. A coluna deve ser sempre radiografada, inclusive a cervical, porque a instabilidade muda a conduta antes de qualquer anestesia (p. 1749).

A classificação de RUBIN: onde está a falha

A classificação dinâmica de RUBIN (Box 36.1) é útil porque explica o fenótipo pelo local da falha. Nas displasias epifisárias, a hipoplasia pode ser da cartilagem articular (espondiloepifisária congênita e tardia) ou do centro de ossificação (epifisária múltipla); a hiperplasia epifisária é a displasia epifisária hemimélica. Nas fisárias, a falha da cartilagem proliferativa dá a acondroplasia e a da cartilagem hipertrófica dá a disostose metafisária; o excesso de cartilagem hipertrófica dá a encondromatose. Nas metafisárias estão a hipofosfatasia, a osteopetrose (falha em reabsorver a esponjosa primária) e as exostoses múltiplas. Nas diafisárias, a falha da formação óssea periosteal é a osteogênese imperfeita e o excesso é a displasia diafisária progressiva (p. 1753 aprox.).

Genes e proteínas das displasias mais comuns (Tachdjian, cap. 36, Tabela 36.1, p. 1750 e 1751)
Gene ou proteínaEfeitoDoenças
FGFR3ganho de função, crescimento endocondral lentoacondroplasia, hipocondroplasia, tanatofórica
Colágeno Ialelos nulos ou dominante negativoosteogênese imperfeita
Colágeno II (COL2A1)defeito da cartilagemSED congênita, KNIEST, STICKLER
COMPproteína da matriz retida no condrócitopseudoacondroplasia, MED
Colágeno IXmontagem do colágeno da cartilagemMED tipo II
Colágeno X (COL10A1)deficiência na zona hipertróficametafisária de SCHMID
Receptor PTH/PTHrPganho de funçãometafisária de JANSEN
DTDSTtransportador de sulfato, glicosaminoglicanos subsulfatadosdiastrófica, acondrogênese

O padrão de herança que a banca cobra

A pergunta do ENARE 2024 pediu, numa lista, a única doença autossômica recessiva. O raciocínio é por exclusão com o texto: a acondroplasia é autossômica dominante com penetrância completa (p. 1751); a neurofibromatose tipo 1 é autossômica dominante (p. 1871); a SED congênita é transmitida de forma dominante, embora a maioria dos casos seja esporádica (p. 1772); e a síndrome de MORQUIO é autossômica recessiva, como quase todas as deficiências enzimáticas lisossomais (p. 1831). A osteogênese imperfeita aparece na Tabela 36.1 pelos defeitos de colágeno tipo I, com alelos nulos e efeito dominante negativo.

Padrão de herança das doenças do tema (Tachdjian, cap. 35 a 37)
DoençaHerançaDetalhe que cai
AcondroplasiaAD90% mutação nova; idade paterna > 36 anos
PseudoacondroplasiaAD (debate sobre AR)COMP, cromossomo 19
SED congênitaAD, maioria esporádicaCOL2A1, cromossomo 12
SED tardaAR ou ligada ao XSEDL (sedlina), só meninos na forma ligada ao X
MEDAD (forma AR rara)COMP, colágeno IX, matrilina-3
DiastróficaARDTDST, cromossomo 5; Finlândia
Metafisária de SCHMIDADcolágeno X, cromossomo 6
Metafisária de McKUSICKARRMRP, cromossomo 9; Finlândia e amish
HURLER, SANFILIPPO, MORQUIO, MAROTEAUX-LAMYARdeficiências enzimáticas
HUNTERligada ao X recessivaquase só meninos
MARFANADFBN1, cromossomo 15
NF1 e NF2AD50% mutações novas
DUCHENNEligada ao X recessiva1/3 mutação espontânea
FacioescapuloumeralAD4q35

Acondroplasia

Cobrança confirmada · 1 questão

Genética e mecanismo

A acondroplasia é a forma mais comum de nanismo (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1751), e o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 41), a chama de a mais comum das displasias ósseas (p. 1661). É autossômica dominante com penetrância completa, mas 90% dos casos são mutação espontânea, ligada à idade paterna acima de 36 anos; por isso a mutação ocorre mais no cromossomo paterno. O paciente habitual é heterozigoto; filhos de dois pais acondroplásicos podem ser homozigotos, forma em geral fatal no período neonatal (p. 1751).

O gene codifica o FGFR3, no braço curto do cromossomo 4, e a mutação é sempre a mesma (troca de glicina por arginina), por isso os pacientes não aparentados se parecem tanto. A mutação aumenta a atividade do receptor, cuja função normal é frear a ossificação endocondral: inibe a proliferação e a diferenciação dos condrócitos da fise (p. 1751).

O resultado histológico é a falha da ossificação endocondral com condrócitos desorganizados, sem colunas. A ossificação intramembranosa e periosteal é normal, e isso explica três achados: clavículas e calota normais, diâmetro dos ossos normal (a largura vem do periósteo) e grande trocânter de tamanho normal, o que cria a aparência de varo sem coxa vara verdadeira (p. 1752 e 1753 aprox.). Nas radiografias, as metáfises alargam, mas as epífises não são acometidas (p. 1753 aprox.).

Clínica

A baixa estatura existe desde o nascimento e já aparece no ultrassom fetal pelo comprimento do fêmur. O tronco tem altura quase normal, e o encurtamento é rizomélico. Em vez de alcançarem o meio da coxa, as pontas dos dedos chegam ao trocânter maior; o ponto médio da altura sobe do umbigo para perto da ponta do esterno. A altura final fica em torno de 131 cm no homem e 124 cm na mulher (p. 1752).

A face tem bossa frontal, maxila pequena, mandíbula relativamente proeminente e ponte nasal achatada; a cabeça parece grande e levanta suspeita de hidrocefalia. A dentição é normal. A mão é curta e larga, com dedos de comprimento igual e o espaço entre o médio e o anular que dá a mão em tridente. O cotovelo pode não estender por arqueamento posterior do úmero e luxação posterior da cabeça do rádio. Os membros inferiores podem ser arqueados em varo, com fíbula relativamente longa. A inteligência é normal (p. 1752 e 1763).

Radiografia

Achados radiográficos da acondroplasia (Tachdjian, cap. 36, p. 1753 aprox.)
RegiãoAchadoPor quê
Ossos longoscurtos, diâmetro e densidade relativos maioresperiósteo normal, fise lenta
Fiseem V ou U, sobretudo no fêmur distalmetáfise "abraça" a epífise
Epífisenão acometidadefeito é fisário
Pelvelarga, plana, asas quadradas, incisura isquiática pequena, taça de champanheílio quase todo intramembranoso
Acetábulohorizontalcartilagem trirradiada lenta (PONSETI)
Coluna lombardistância interpedicular diminui de L1 a L5sinostose precoce entre corpo e arco
Pedículoscurtos e largos, recorte posterior dos corposestenose do canal
Crâniobase curta, forame magno pequenoestenose craniocervical

WYNNE-DAVIES encontrou o estreitamento interpedicular de L1 a L5 em 69% dos acondroplásicos e nenhum caso de alargamento (p. 1753 aprox.). No ultrassom pré-natal, o diagnóstico exato da displasia acerta em apenas 65%; ao nascer, a acondroplasia precisa ser separada das formas letais (tanatofórica, acondrogênese); na criança maior, das mucopolissacaridoses como MORQUIO e da hipocondroplasia.

Os três problemas da coluna

Estenose do forame magno. No lactente, a hipoplasia do forame magno comprime a junção craniocervical. Houve morte súbita antes de 1 ano e mortalidade de até 7,5% no primeiro ano (relato de 1987). Os sinais são hipotonia e apneia do sono. Um atraso motor de 3 a 6 meses é comum em quase todos; o que preocupa é clônus e hiper-reflexia. A apneia pode ser central (compressão medular) ou obstrutiva (hipoplasia da face média), e o tratamento da central é a descompressão neurocirúrgica (p. 1755 e 1756 aprox.). A instabilidade cervical, ao contrário, é rara (p. 1755 aprox.). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 34), reforça: mielopatia cervical é comum no nanismo de tronco curto e rara na acondroplasia, em que a compressão ocorre no forame magno (p. 1226.e1).

Cifose toracolombar. Aparece em quase todos os lactentes, piora quando a criança é sentada e costuma regredir quando ela começa a andar. A hipótese é a soma de cabeça grande, hipotonia e falta de controle do tronco. Recomenda-se evitar sentar sem apoio; a órtese toracolombossacra fica para quem ainda tem cifose aos 3 anos ou não melhora ao andar. Cirurgia se progressiva ou com 30° residuais aos 5 anos; mais recentemente, fusão para cifose de 50° ou mais com progressão. A fusão é anterior e posterior; instrumentar dentro do canal estreito já causou paraplegia, mas parafusos pediculares não invadem o canal (p. 1757 e 1758). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 41), dá os números de frequência (87% de 1 a 2 anos, 39% de 2 a 5, 11% de 5 a 10), o protocolo de PAULI (não sentar sem apoio nem acima de 60°, órtese se a cifose passar de 30°), os fatores de falha da órtese (cifose acima de 40°, cunha apical acima de 60%, translação) e a indicação cirúrgica acima de 50°, adiando até os 4 anos se possível (p. 1661).

Estenose lombar. Todos têm estenose anatômica, mas nem todos têm sintomas; a estenose fica sintomática em geral na terceira década, um terço até os 15 anos. A queixa é claudicação neurogênica que melhora ao agachar ou inclinar o tronco, porque isso reduz a lordose e abre o canal. Distância interpedicular de L1 abaixo de 20 mm e de L5 abaixo de 16 mm se associam a sintomas incapacitantes. A mielografia, se feita, usa punção cisternal, porque a lombar pode piorar o déficit. A descompressão precisa ser ampla, com foraminotomias; o erro comum é descomprimir poucos níveis. No Tachdjian, a fusão primária em geral não é indicada, só quando há cifose toracolombar (p. 1759 e 1760). O Campbell (cap. 41) diverge: diante do alto risco de cifose pós-laminectomia, recomenda artrodese posterior instrumentada concomitante e relata que cerca de um quarto dos pacientes precisa de cirurgia para estenose (p. 1662).

Membros

Geno varo e tíbia vara são mais comuns que valgo, atribuídos ao sobrecrescimento relativo da fíbula; a artrose do joelho é rara, então a cirurgia fica para varo sintomático ou inaceitável. Órteses não funcionam e já causaram paralisia fibular. A epifisiodese proximal da fíbula entre 7 e 10 anos é imprevisível; o tratamento habitual é a osteotomia proximal da tíbia e da fíbula, corrigindo pelo osso e não pela frouxidão do ligamento colateral medial (p. 1761 e 1763). O alongamento ganha 7 a 15 cm por procedimento, com 39% de complicações e pé caído em até um terço (p. 1763 a 1765). O hormônio de crescimento segue investigacional.

Hipocondroplasia, tanatofórica e pseudoacondroplasia

Fundamento

A família do FGFR3

A hipocondroplasia é a irmã leve: autossômica dominante, no FGFR3 com outra mutação (as duas são alélicas); não aparece ao nascer, a altura final vai de 118 a 165 cm e o geno varo surge em cerca de 8% (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1766 e 1767 aprox.).

A displasia tanatofórica é a forma letal mais comum, também no FGFR3 e sempre por mutação nova: tórax estreito, platispondilia grave com vértebras em U, fêmur em fone de telefone e, no tipo 2, crânio em trevo; morre no período neonatal (p. 1767 aprox.).

Pseudoacondroplasia: o nome engana

A pseudoacondroplasia não tem nada a ver com o FGFR3. O defeito é na COMP (proteína oligomérica da matriz da cartilagem, cromossomo 19), que se acumula dentro do condrócito e o mata; a fise cresce pouco e a cartilagem articular fica frágil (p. 1767 e 1768). É o mesmo gene de algumas formas de MED, o que explica a sobreposição entre as duas.

Pseudoacondroplasia contra acondroplasia (Tachdjian, cap. 36, Tabela 36.2, p. 1767 a 1772)
AspectoPseudoacondroplasiaAcondroplasia
Inícionormal ao nascer; aparece de 1 a 3 anospresente ao nascer
Facenormalbossa frontal, hipoplasia da face média
Colunaplatispondilia com projeção anterior em língua; interpedicular normalsem platispondilia; interpedicular diminui em direção caudal
Ossos longosepífise e metáfise acometidas; epífises fragmentadassó a fise; epífise poupada
Pelveacetábulo raso, incisura isquiática largaacetábulo horizontal, incisura em fenda
Frouxidãomarcada; joelhos em ventaniapresente, menor
C1-C2instabilidade por hipoplasia do odontoideinstabilidade rara
Futuroartrose precoce; ~50% dos adultos com prótese de quadriltíbia vara, estenose lombar

A ausência de estenose tem uma consequência prática: na escoliose da pseudoacondroplasia, a instrumentação é segura (p. 1772). Já a frouxidão com odontoide hipoplásico exige radiografia de C1-C2 antes de qualquer anestesia.

Displasias epifisárias: espondiloepifisária e epifisária múltipla

Cobrança confirmada · 1 questão

SED congênita: tronco curto e odontoide

A displasia espondiloepifisária (SED) acomete coluna e epífises. A forma congênita aparece ao nascer, com nanismo de tronco curto, coxa vara e encurtamento rizomélico e mesomélico que poupa mãos e pés (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1772). É causada por mutação no COL2A1 (cromossomo 12), colágeno tipo II, o mesmo grupo de KNIEST e STICKLER; por isso a miopia com descolamento de retina, a fenda palatina e a surdez aparecem juntas. Os olhos são afastados, o pescoço curto, o tórax em barril, há geno valgo, lordose acentuada por contratura em flexão do quadril e marcha anserina pela coxa vara; o pé torto pode existir (p. 1772).

A radiografia mostra atraso das epífises (a cabeça femoral só aparece por volta dos 5 anos), platispondilia e hipoplasia do odontoide ou os odontoideum. O Tachdjian frisa que a coluna é idêntica à de MORQUIO (p. 1773 aprox.). Instabilidade importante já foi vista antes de 1 ano, por isso radiografias em flexão e extensão antes de qualquer anestesia; com odontoide pequeno, a instabilidade pode aparecer em extensão, quando o atlas escorrega para trás. A cirurgia (artrodese posterior occipital ou C1 a C2 com halo) é indicada com 8 mm ou mais de instabilidade ou mielopatia (p. 1773 aprox.). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 41), cita instabilidade atlantoaxial em 30% a 40% (KOPITS) e lembra que a criança com SED que não anda aos 2 a 3 anos provavelmente tem compressão cervical alta (p. 1661).

No quadril, BASSETT recomenda osteotomia valgizante se o ângulo colo-diáfise for menor que 100°, o ângulo de HILGENREINER-epifisário maior que 60°, houver progressão ou fragmento triangular invertido (p. 1774). Como o canal não é estreito, a instrumentação da escoliose é possível.

A SED tarda é mais leve, autossômica recessiva ou ligada ao X (gene SEDL, proteína sedlina); a forma ligada ao X afeta só meninos. A queixa é dor no quadril na infância tardia ou adolescência; a altura é pouco afetada. Pode lembrar PERTHES bilateral, mas é simétrica, e há platispondilia com uma corcova posterior característica (p. 1774 a 1776).

MED: a epífise que ossifica tarde

A displasia epifisária múltipla (MED) é definida por atraso no aparecimento das epífises, epífises irregulares e simétricas, baixa estatura leve e artrose precoce. FAIRBANK descreveu a forma tipo I e RIBBING a mais leve, tipo II. É autossômica dominante em geral, com mutações na COMP (cromossomo 19, alélica à pseudoacondroplasia), no colágeno IX (mais joelho e menos quadril) e na matrilina-3 (p. 1776 a 1778).

Clínica e radiografia da MED (Tachdjian, cap. 36, p. 1778 e 1779 aprox.)
AspectoAchado
Nascimentonão reconhecível
Primeiro sinalpode ser o atraso da marcha
Diagnósticomuitas vezes só no início da adolescência
Queixasrigidez ou contratura, dor, claudicação, marcha anserina
Estaturanão há nanismo verdadeiro; muitos acima do percentil 3
Contraturasem flexão de cotovelos e joelhos
Neurologia e cogniçãosem achados neurológicos; inteligência normal
Epífisesossificação tardia; pequenas, fragmentadas, achatadas
Mais acometidascabeça femoral e cabeça umeral
Normaiscrânio, vértebras e pelve
Joelhopatela em duas camadas (característica); côndilos planos

O diagnóstico diferencial que cai é PERTHES bilateral. Na MED o acometimento é simétrico e sincrônico; no PERTHES um quadril adoece antes do outro, cada um em uma fase, e há cistos metafisários, ausentes na MED. Na dúvida, radiografar ombros e joelhos. Como a MED pode ter necrose avascular verdadeira, cintilografia e RM não separam as duas (p. 1778). A SED se distingue pela coluna: na MED não há alteração vertebral grave. O hipotireoidismo também imita a MED e se resolve com dosagem de tireoide (p. 1779 aprox.).

O tratamento na infância é manter a mobilidade e controlar o peso. Não há indicação de órtese ou cirurgia de contenção, apesar da semelhança com PERTHES. Com hinge abduction na artrografia, a osteotomia valgizante pode ajudar; a varizante é contraindicada pela coxa vara prévia (p. 1779 e 1780). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 34), resume que MED e SED acometem a epífise e causam artrose incapacitante precoce, e lembra a coxa vara comum na SED (p. 1226.e1).

Diastrófica, KNIEST, condrodisplasia punctata e o polegar do caroneiro

Cobrança confirmada · 1 questão

Displasia diastrófica

Diastrófico vem do grego "torcido". LAMY e MAROTEAUX separaram em 1960 esse nanismo micromélico da acondroplasia, e a tríade que o identifica é baixa estatura grave, pés tortos rígidos, escoliose e polegar do caroneiro (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1781). A herança é autossômica recessiva; o gene DTDST, no braço longo do cromossomo 5, codifica um transportador de sulfato, e a cartilagem fica com proteoglicanos subsulfatados, mecanicamente fraca e vulnerável à degeneração precoce. A incidência é maior na Finlândia.

O recém-nascido tem membros muito curtos e pés tortos bilaterais. Nas duas primeiras semanas, a orelha incha e depois calcifica, formando a orelha em couve-flor. A fenda palatina aparece em 56%. O polegar do caroneiro resulta do primeiro metacarpo curto e triangular, com subluxação radial da metacarpofalângica; o polegar fica quase perpendicular ao indicador. O pé repete o desenho: primeiro metatarso curto e triangular, hálux varo extremo e equino rígido que resiste à correção (p. 1781 e 1782). O diagnóstico, diz o texto, é feito mais facilmente pelo polegar do caroneiro e pela orelha em couve-flor (p. 1784).

A coluna é sempre comprometida: a cifose cervical do lactente costuma regredir até os 5 anos e progride acima de 60°; o odontoide é normal. A escoliose chega a 70% a 88% (p. 1786 e 1787); o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 41), cita 88% (p. 1660). O quadril luxa em cerca de 25%, de forma teratológica. Antes de operar o pé torto, documentar a coluna cervical (p. 1782 a 1786). A inteligência é normal.

KNIEST e condrodisplasia punctata

A displasia de KNIEST é autossômica dominante, no COL2A1: rigidez, descolamento de retina, fenda palatina, surdez, cifoescoliose e megaepífises. Lembra MORQUIO na radiografia, e a distinção é feita pelo exame da urina (p. 1788 a 1790).

A condrodisplasia punctata tem calcificações puntiformes epifisárias que desaparecem no primeiro ano; a forma CONRADI-HÜNERMANN é ligada ao X dominante e a rizomélica é autossômica recessiva, com catarata em 75% (p. 1790 a 1792).

O polegar do caroneiro na prova

O ENARE de Cirurgia da Mão 2023 perguntou em qual síndrome aparece o "polegar do caroneiro", sem colocar a diastrófica entre as opções. Das alternativas, a síndrome com deformidade característica do polegar descrita no Tachdjian é a de RUBINSTEIN-TAYBI: falanges distais largas do polegar e do hálux, nariz largo e longo, retardo mental (QI 35 a 80) e, como achado consistente, desvio radial do polegar por falange proximal em delta causada por epífise em colchete (p. 1906 e 1907). O livro ainda cita luxação da patela e espondilolistese cervical como as outras manifestações ortopédicas. A síndrome de RUBINSTEIN-TAYBI está na lista de disostoses com predomínio das extremidades da nomenclatura internacional (Box 36.2).

Polegares que identificam síndromes (Tachdjian, cap. 36 e 37)
SíndromePolegarOutros sinais
Diastróficado caroneiro: 1º metacarpo curto e triangular, subluxação radial da MForelha em couve-flor, pé torto rígido, hálux varo
RUBINSTEIN-TAYBIfalange distal larga; desvio radial por falange em deltanariz largo, hálux largo e varo, retardo mental
Cornelia de LANGEpolegar proximal por 1º metacarpo curtosobrancelhas espessas, luxação da cabeça do rádio
LARSENpolegar espatulado, falange distal curta e largaluxações múltiplas, ponte nasal deprimida
Acondroplasiadedos de mesmo comprimento, mão em tridenterizomelia, bossa frontal

Condrodisplasias metafisárias e a forma de McKUSICK

Cobrança confirmada · 1 questão

Por que a epífise escapa

Nas condrodisplasias metafisárias falha a mineralização da zona de calcificação provisória: as fises ficam largas e as metáfises nodosas, com condrócitos em ninhos em vez de colunas. Como a epífise é poupada, a artrose é rara, ao contrário da MED e da SED (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1792). O quadro radiográfico lembra o raquitismo, e a química sérica normal separa os dois.

Tipos de condrodisplasia metafisária (Tachdjian, cap. 36, p. 1792 a 1799)
TipoHerança e geneClínicaDetalhe
JANSENreceptor PTH/PTHrP, cromossomo 3a mais grave e mais rara; evidente ao nascer, exoftalmiahipercalcemia com PTH normal ou baixo
SCHMIDAD, colágeno X (COL10A1), cromossomo 6a mais comum; surge aos 3 a 5 anos com a carga; geno varo, coxa vara, marcha anserina; face normalconfundida com acondroplasia e raquitismo; química normal
McKUSICK (cartilagem-cabelo)AR, gene RMRP, cromossomo 9mais baixa que SCHMID (105 a 157 cm); dedos curtos e hiperextensíveis; cotovelo sem extensão completa; geno varo levecabelo fino, esparso, curto e quebradiço; anemia; imunodeficiência; linfoma

A paciente finlandesa de cabelo fino

A hipoplasia cartilagem-cabelo (tipo McKUSICK) é autossômica recessiva e particularmente prevalente na Finlândia e entre os amish (p. 1797 aprox.). O traço que a distingue de todas as outras é o cabelo fino, esparso, curto e quebradiço, que atinge também sobrancelhas e cílios. Diferente das demais condrodisplasias metafisárias, há anemia frequente e imunodeficiência por imunoglobulinas baixas; a mortalidade aumentada se deve ao defeito imune, e há risco maior de linfoma não Hodgkin. Os dedos são curtos e hiperextensíveis, a extensão do cotovelo pode ser limitada, o geno varo costuma ser leve e raramente precisa de tratamento, e a fíbula longa causa varo do retropé com antepé valgo. Escoliose ocorre em até um quarto; alguns têm hipoplasia do odontoide (p. 1798 e 1799 aprox.). O tratamento ortopédico mira tornozelo e pé: osteotomia de deslizamento do calcâneo e supramaleolar.

Com esses dados, a moça de 22 anos, filha de finlandeses, baixa, de cabelos finos e claros, geno varo discreto, frouxidão, discreta contratura dos cotovelos e história de varicela (marcador da imunodeficiência) tem o retrato do tipo McKUSICK.

Mucopolissacaridoses: o mapa das enzimas

Cobrança confirmada · 4 questões

O que é e como se diagnostica

As mucopolissacaridoses são o maior grupo de doenças de depósito lisossomal. Falta uma enzima que degrada glicosaminoglicanos, e o material semidegradado se acumula dentro das células e sai na urina: heparan sulfato, dermatan sulfato e queratan sulfato. A incidência total é de 1 em 25.000, e o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., afirma que as mais comuns são MORQUIO e HURLER (p. 1819). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 41), escreve que MORQUIO é a mais comum de todas (p. 1663); a resposta que concilia os dois livros é o par HURLER e MORQUIO.

O diagnóstico vem da análise da urina, da cultura de fibroblastos (que também permite diagnóstico pré-natal) e da genética (p. 1820). Toda MPS dá baixa estatura e o conjunto radiográfico chamado de disostose múltipla: crânio grande com calota espessa, clavículas largas medialmente, costelas em remo (largas na frente), vértebras ovoides, asas ilíacas alargadas, coxa valga, metacarpos pontudos na base e falanges em projétil. O Tachdjian avisa que não se diferencia o tipo só pela radiografia (p. 1820).

Mucopolissacaridoses (Tachdjian, cap. 36, Tabela 36.5 e Box 36.2, p. 1754 e 1823 a 1835)
TipoEnzima deficienteHerançaUrinaCórneaRetardo mentalMarca
I HURLERalfa-L-iduronidaseARdermatan > heparanturvagrave, progressivogárgula, giba com bico anteroinferior, morte antes dos 10 anos
I SCHEIE (antiga V)alfa-L-iduronidaseARdermatan > heparanturvaausenteestatura normal, longevidade normal
II HUNTERiduronato-2-sulfatase (sulfoiduronato sulfatase)ligada ao Xheparan > dermatanclaratardio e mais lentosó meninos, surdez 50%
III SANFILIPPOA sulfamidase; B alfa-N-acetilglicosaminidase; C acetil-CoA glicosaminídeo N-acetiltransferase; D N-acetilglicosamina-6-sulfataseARheparanclaragrave, com agressividadeesqueleto pouco afetado
IV-A MORQUION-acetilgalactosamina-6-sulfato sulfataseARqueratanturva, lentaausenteplatispondilia, odontoide, frouxidão
IV-B MORQUIObeta-galactosidaseARqueratanturvaausentemais tardia
VI MAROTEAUX-LAMYarilsulfatase B = N-acetilgalactosamina-4-sulfataseARdermatanturvaausenteesqueleto igual ao de HURLER
VII SLYbeta-glucuronidaseARvariávelturvavariávela mais rara; hidropisia fetal

As três com retardo mental

A pergunta clássica do TARO é qual trio cursa com retardo mental. O retardo é consistente e progressivo na HURLER (e ausente na variante SCHEIE), aparece mais tarde e progride mais devagar na HUNTER e é implacável na SANFILIPPO, em que a deterioração do sistema nervoso central vem com hiperatividade, agressividade e atraso ou regressão da linguagem em 56% (p. 1825, 1830 e 1831). MORQUIO, MAROTEAUX-LAMY e SCHEIE têm inteligência normal.

A SANFILIPPO tem muito sistema nervoso e pouco esqueleto; a MORQUIO é o oposto. A HUNTER se separa da HURLER pela córnea clara, pela herança ligada ao X e pela giba menos acentuada (p. 1829 e 1830).

HURLER: a face de gárgula

A HURLER (MPS I) é autossômica recessiva por falta de alfa-L-iduronidase. O recém-nascido é normal, e o diagnóstico sai em média aos 9 meses: face grosseira, cabeça grande, rinite crônica com respiração ruidosa, hérnias, opacidade corneana universal, hepatoesplenomegalia e giba toracolombar já aos 6 meses; giba em criança com atraso motor deve levantar a suspeita. O bico vertebral é anteroinferior (L1 ou L2), diferente da língua central da MORQUIO. Sem tratamento, morre antes dos 10 anos, em geral por cardiopatia. O transplante de medula óssea antes dos 24 meses dá os melhores resultados, mas não corrige o esqueleto: a displasia do quadril (86% displasia acetabular, 91% coxa valga) e o geno valgo progridem. A síndrome do túnel do carpo está quase sempre presente e é bilateral; as MPS respondem pela maioria dos casos pediátricos, com poucos sintomas e sinais como atrofia tenar, e o dedo em gatilho também aparece (p. 1825 a 1829).

A MAROTEAUX-LAMY (MPS VI) completa o grupo: deficiência de arilsulfatase B, também chamada N-acetilgalactosamina-4-sulfato sulfatase, acúmulo de dermatan sulfato, início aos 2 ou 3 anos com tronco e membros curtos, geno valgo, cifose lombar e pectus carinatum, estenose do forame magno possível; o esqueleto é parecido com o da HURLER, mas a inteligência é normal (p. 1835).

MORQUIO

Cobrança confirmada · 6 questões

Enzima, urina e herança

A síndrome de MORQUIO (MPS IV) é autossômica recessiva. No tipo A, falta a N-acetilgalactosamina-6-sulfato sulfatase, enzima que degrada queratan sulfato e condroitina-6-sulfato; o gene está no cromossomo 16 e a incidência é de 1 em 76.000 nascidos vivos (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1831). O tipo B é causado por deficiência de beta-galactosidase, manifesta-se mais tarde, também excreta queratan sulfato e também tem inteligência normal (p. 1831).

O diagnóstico é feito com teste positivo de queratan sulfato urinário, que tem pico entre 1 e 5 anos e cai com a idade; formas leves podem não excretar, o que dificulta a separação da SED (p. 1831). Na Tabela 36.5, a MORQUIO é a única MPS com queratan sulfato.

O fenótipo: corpo de displasia, cabeça normal

A criança parece normal ao nascer e, entre 12 e 18 meses, os pais percebem algo diferente. O nanismo é de tronco curto, com pescoço curto, criança em pé com quadris e joelhos fletidos, cabeça projetada à frente entre ombros altos. A inteligência é normal, ao contrário das outras MPS. Não há hepatoesplenomegalia. As epífises de joelhos, cotovelos, punhos e tornozelos parecem aumentadas. O traço que a separa das demais: frouxidão articular generalizada, enquanto nas outras MPS a rigidez é a regra. Há geno valgo, tornozelo valgo, pé plano, marcha anserina, opacidade corneana, surdez em quase todos ao fim da primeira década, valvopatia silenciosa e pectus carinatum com tórax rígido e doença pulmonar restritiva (p. 1831 e 1832).

A coluna: platispondilia e odontoide

As vértebras são ovoides no lactente e se achatam com o tempo (platispondilia), com língua central ou bico anterior nas torácicas baixas e lombares altas; a Tabela 36.5 descreve "platispondilia grave e difusa com língua central" como a alteração esquelética típica. A pelve fica estreita, em taça de vinho (p. 1832 e 1823).

Hipoplasia ou ausência do processo odontoide é característica da MORQUIO e está presente em todos os pacientes do tipo A. A MORQUIO é a MPS que mais produz instabilidade cervical alta. Os sintomas aparecem entre 4 e 6 anos como dificuldade para andar, que os pais atribuem ao geno valgo; na maioria das vezes, a resistência menor é mielopatia sutil. Por isso, radiografias em flexão e extensão antes de operar o geno valgo. O tratamento é a artrodese posterior com halo, feita ao primeiro sinal de instabilidade, porque a mielopatia raramente regride; há quem defenda a artrodese occipitocervical profilática (p. 1834). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 41), confirma inteligência normal, instabilidade atlantoaxial frequente e menor tolerância ao exercício como primeiro sintoma (p. 1663); no cap. 39, associa hipoplasia e aplasia do odontoide à SED e às MPS (HUNTER, HURLER, MORQUIO e MAROTEAUX-LAMY) e o os odontoideum a DOWN, KLIPPEL-FEIL, MORQUIO e SED (p. 1511 aprox.). No cap. 34, cita a luxação bilateral do quadril e a coxa valga da MORQUIO (p. 1226.e1).

MORQUIO em uma página (Tachdjian, cap. 36, p. 1823 a 1834; Campbell, cap. 41, p. 1663)
ItemMORQUIO
Herançaautossômica recessiva
Enzima AN-acetilgalactosamina-6-sulfato sulfatase
Enzima Bbeta-galactosidase
Urinaqueratan sulfato (pico de 1 a 5 anos)
Cogniçãonormal
Articulaçõesfrouxidão generalizada (outras MPS: rigidez)
Estaturananismo de tronco curto, abaixo de 4 pés
Colunaplatispondilia grave com língua central; cifose toracolombar
Cervicalodontoide hipoplásico ou ausente; instabilidade C1-C2
Membrosgeno valgo, coxa valga ou vara, quadril displásico
Olho e ouvidoopacidade corneana lenta, surdez
Tóraxpectus carinatum, doença restritiva
Fígado e baçosem hepatoesplenomegalia

Síndrome de DOWN

Cobrança confirmada · 3 questões

A trissomia do 21 é a trissomia mais frequente (1 em 600 a 800 nascidos vivos); 95% têm trissomia livre, 4% translocação e 1% mosaico. Hipotonia, hiperfrouxidão, prega simiana e clinodactilia do quinto dedo são os traços ortopédicos; a disfunção da tireoide é comum e a cardiopatia é a principal causa de morte precoce (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1861 a 1863).

Coluna cervical. A hipermobilidade atlantoaxial é a principal preocupação ortopédica. Numa série de 404 pacientes, estava presente em 14,6% (13,1% assintomáticos, 1,5% com sintomas); outros relatos variam de 9% a 31%. Considera-se hipermobilidade um intervalo atlanto-dental de 5 mm ou mais, e a causa é a frouxidão do ligamento transverso, às vezes com odontoide displásico (cerca de 7%) (p. 1863 e 1864). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 39), dá 10% a 20%, sintomas neurológicos em 1% a 2,6% e progressão em só 1,6%, e lembra que a Academia Americana de Pediatria não recomenda mais a triagem radiográfica de rotina (p. 1515 aprox.). A única indicação absoluta de artrodese C1-C2 é o déficit neurológico, e as complicações da artrodese chegam a 73% a 100% (p. 1867).

Conduta pelo intervalo atlanto-dental na DOWN (Tachdjian, cap. 37, Box 37.2, p. 1867)
AchadoConduta
IAD < 4,5 mmatividade livre
IAD 4,5 a 10 mm, neurológico normallimitar esportes de risco (mergulho, ginástica, futebol, rúgbi)
IAD > 4,5 mm com déficitlimitar, neurologia, RM; alteração medular = estabilizar
IAD > 9,9 mmartrodese
Occipitoatlantal > 2 mmmesma lógica: limitar; com déficit, RM

Instabilidade C1-C2 não traumática não é exclusividade da DOWN: o Tachdjian lista também MORQUIO e outras displasias e a artrite reumatoide juvenil (cap. 28, p. 1161), e na artrite idiopática juvenil o intervalo passa de 4,5 mm em 20% (cap. 22, p. 936 aprox.). Na síndrome de LARSEN, o perigo maior é a cifose cervical, mas o anel hipoplásico de C1 também é acompanhado (cap. 37, p. 1851 a 1863).

Quadril e joelho. O quadril luxa em cerca de 5%, entre 2 e 10 anos, de forma recorrente e indolor, por frouxidão. Também ocorrem necrose e epifisiólise; diante de epifisiólise numa criança com DOWN, é imperativo avaliar a tireoide, pela associação frequente com hipotireoidismo (p. 1868 e 1869). O Campbell (cap. 38) lista DOWN e hipotireoidismo entre as causas de epifisiólise atípica (p. 1427 e 1428). Instabilidade da patela, pé plano e hálux valgo completam o quadro.

Neurofibromatose

Cobrança confirmada · 3 questões

Há dois tipos distintos. A NF1, doença de von RECKLINGHAUSEN ou neurofibromatose periférica, vem de defeito no cromossomo 17 (neurofibromina, gene supressor de tumor). A NF2, antiga neurofibromatose acústica bilateral ou central, vem do cromossomo 22 (merlin). Manifestações ortopédicas, como deformidade da coluna e pseudartrose da tíbia, são quase sempre da NF1; a NF2 raramente exige o ortopedista (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1870 e 1871). A NF1 é autossômica dominante, 1 em 2.500 a 4.000, com cerca de 50% de mutações novas e penetrância próxima de 100%; menos de 10% dos pacientes precisam de tratamento ortopédico, mas quem precisa costuma operar várias vezes (p. 1871).

Critérios do NIH para NF1, dois ou mais (Tachdjian, cap. 37, Box 37.3, p. 1871)
CritérioDetalhe
Manchas café com leitemais de 6; ≥ 15 mm no adulto, ≥ 5 mm na criança
Neurofibromas2 de qualquer tipo ou 1 plexiforme
Sardasaxilares ou inguinais (sinal de CROWE)
Glioma óptico15% a 20% em exames de imagem
Nódulos de LISCH2 ou mais; patognomônicos; quase 100% aos 20 anos
Lesão ósseadisplasia do esfenoide ou afilamento cortical com ou sem pseudartrose
Parente de 1º graucom NF1 pelos mesmos critérios

As manchas café com leite estão em mais de 90% e têm bordas lisas, diferentes das bordas irregulares da síndrome de ALBRIGHT; as sardas axilares chegam a 80% aos 6 anos; os plexiformes (25%) têm 1% a 4% de transformação maligna (p. 1871 e 1872). A escoliose é a manifestação esquelética mais comum, com curva torácica curta e angulada de 4 a 6 vértebras; a distrófica é mais comum e progride, a não distrófica se comporta como idiopática (p. 1873 e 1874).

O arqueamento anterolateral da tíbia que evolui para fratura e pseudartrose congênita da tíbia está ligado à NF1 em até 55% no Tachdjian, e a deformidade pode aparecer antes de qualquer mancha (p. 1874). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 31), dá incidência de 1 em 250.000 e associação de 50% a 90% com estigmas de NF (p. 1073 aprox.). Por isso, diante de um recém-nascido com tíbias arqueadas para a frente e para fora, a associação esperada é NF1 com pseudartrose congênita da tíbia, não NF2.

Manchas, crescimento excessivo e malformações vasculares

Cobrança confirmada · 3 questões

Manchas café com leite não são exclusivas da NF1. Na McCUNE-ALBRIGHT, a tríade é puberdade precoce, manchas e displasia fibrosa poliostótica; as manchas têm bordas irregulares (costa do Maine) e não são elevadas (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 25, p. 1013 e 1014). A síndrome de JAFFE-CAMPANACCI reúne múltiplos fibromas não ossificantes com manchas café com leite (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 27, p. 934).

A síndrome de Proteus (WIEDEMANN, 1983) é um crescimento excessivo progressivo e assimétrico. Os achados principais são macrodactilia (o mais comum), hemi-hipertrofia (quase tão comum), nevos pigmentados (mais de 75%), tumores subcutâneos (sobretudo linfangiomas), espondilomegalia e a lesão em mocassim na planta. Genes AKT1 e PTEN. MERRICK, o "homem elefante", provavelmente tinha Proteus e não NF. O diagnóstico é clínico, e os nódulos de LISCH são da NF, não da Proteus (cap. 37, p. 1907 a 1910).

A KLIPPEL-TRÉNAUNAY é a tríade nevo vinho do Porto, varizes e hipertrofia óssea e de partes moles, no membro inferior em até 90%; se houver fístula arteriovenosa verdadeira, chama-se KLIPPEL-TRÉNAUNAY-WEBER. Com o tempo aparecem condições ortopédicas (DDQ, sindactilia, metatarso aduto, pé torto, escoliose) e não ortopédicas (tromboflebite, celulite recorrente, varizes pélvicas com sangramento, hematúria, sangramento retal, TVP e embolia). Discrepância acima de 2 cm se trata com epifisiodese do lado longo; amputações quase sempre complicam a ferida (cap. 37, p. 1911 a 1913). As duas síndromes pertencem hoje ao espectro CLOVES (PIK3CA), que pode responder à rapamicina.

Crescimento excessivo e manchas: diferenciais (Tachdjian, cap. 25 e 37; Campbell, cap. 27)
CondiçãoMarca cutâneaEsqueletoPista
NF1café com leite de borda lisa, sardasescoliose distrófica, pseudartrose da tíbiaLISCH, família
McCUNE-ALBRIGHTcafé com leite costa do Mainedisplasia fibrosa poliostóticapuberdade precoce
JAFFE-CAMPANACCIcafé com leitefibromas não ossificantes múltiplos-
Proteusnevos epidérmicosmacrodactilia, hemi-hipertrofia, espondilomegaliamocassim plantar
KLIPPEL-TRÉNAUNAYvinho do Portohipertrofia do membro, sindactiliavarizes, tromboflebite

MARFAN, LARSEN e KLIPPEL-FEIL

Cobrança confirmada · 1 questão

O MARFAN é autossômico dominante, gene FBN1 (cromossomo 15, fibrilina-1), com 15% a 30% de mutações novas: alto, aracnodactilia, ectopia do cristalino para cima e lateral, dilatação da aorta ascendente e insuficiência mitral (principal causa de morte), pectus, frouxidão, sinal do polegar (STEINBERG), escoliose em 30% a 100% e protrusão acetabular (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1837 a 1840). A síndrome de LARSEN reúne luxações múltiplas (joelhos, quadris teratológicos, cotovelos), pés tortos rígidos e face com ponte nasal deprimida; a cifose cervical é potencialmente letal, e a hipotonia não deve mascarar mielopatia (p. 1851 a 1863).

A KLIPPEL-FEIL é a falha de segmentação da coluna cervical. A tríade clássica é pescoço curto, implantação baixa do cabelo na nuca e limitação do movimento cervical, completa em só metade dos casos; o achado mais constante é a limitação, sobretudo da rotação e da inclinação lateral (Tachdjian, cap. 8, p. 95; Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 39, p. 1511 aprox.). Os sintomas vêm dos segmentos abertos hipermóveis vizinhos à fusão.

Associações da KLIPPEL-FEIL (Tachdjian, cap. 8, p. 96; Campbell, cap. 39, Box 39.5, p. 1511 aprox.)
AssociaçãoTachdjianCampbell
Escoliosenão quantifica60% a 70%, a mais frequente
SPRENGELaté 50%~20%
Geniturinária ou renal25% a 35%~30%
Cardiopatia14% a 29%4% a 14%
Surdez15% a 35%~30%
Sincinesiacitada~20%
Costela cervical-12% a 15%

Distrofias musculares e o contraste com a neuropatia

Cobrança confirmada · 5 questões

DUCHENNE

A DUCHENNE é a distrofia mais comum, 1 em 3.500 meninos, ligada ao X recessiva (meninas só com TURNER ou translocação), com gene em Xp21 que codifica a distrofina; um terço é mutação nova (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., p. 1706 e 1709). Começa entre 3 e 6 anos, com marcha na ponta dos pés, quedas e dificuldade nas escadas. A fraqueza é proximal, e os extensores do quadril são os primeiros; os glúteos fracos dão o TRENDELENBURG e a marcha anserina. O equino costuma ser o primeiro sinal, com panturrilha pseudo-hipertrófica de consistência de borracha e incapacidade de dorsifletir totalmente o tornozelo; o menino hiperestende o joelho para travar a cápsula posterior e compensar o quadríceps fraco (p. 1709 a 1711). Sem corticoide, a marcha se perde entre 7 e 16 anos; a prednisona adia essa perda em 2 a 5 anos (p. 1712 aprox.). A CK sobe 20 a 200 vezes e cai no fim da doença (p. 1708).

Sinais com epônimo nas distrofias (Tachdjian, cap. 35, p. 1706 a 1711; Campbell, cap. 37, p. 1329 aprox.)
SinalComo se fazO que mostra
GOWERSlevantar do chão "subindo as mãos pelas pernas"fraqueza dos extensores do quadril (e do quadríceps)
MERYONerguer a criança pelo tórax: os braços abduzem e ela escorregafraqueza da cintura escapular
TRENDELENBURGapoio unipodal: a hemipelve oposta caifraqueza dos glúteos
OBERdecúbito lateral, quadril estendido e aduzidocontratura do trato iliotibial (abdução > 30°)

Facioescapuloumeral

A FSH é autossômica dominante (4q35), 1 em 20.000, com sintomas na segunda década. Começa na face (sem rugas, sorriso transverso, não fecha os olhos com força, não assobia) e na cintura escapular: a fraqueza maior é do trapézio, romboides e levantador da escápula. O deltoide permanece forte, mas não abduz porque a escápula gira e se descola (escápula alada). Os membros inferiores costumam ser poupados, a CK é normal, e o tratamento é a artrodese escapulotorácica (KETENJIAN), com a escápula em 15° a 20° de rotação externa (Tachdjian, p. 1723 a 1725). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 37), exige deltoide com força pelo menos grau 4 para a artrodese (p. 1337).

CHARCOT-MARIE-TOOTH: nervo, não músculo

Na distrofia a condução nervosa é normal e a eletromiografia mostra potenciais pequenos e polifásicos; na neuropatia a condução é lenta (Campbell, cap. 37, p. 1326). A CHARCOT-MARIE-TOOTH é a mais comum das neuropatias hereditárias sensitivo-motoras (HMSN), de predomínio motor; a CMT-1 desmielinizante vem da duplicação do PMP22 (70%). Fracos ficam o tibial anterior e o fibular curto; o tibial posterior e o fibular longo, fortes, criam o cavovaro, em geral bilateral (78% de chance de CMT). A marcha é escarvante por fraqueza dos dorsiflexores, e as mãos têm atrofia intrínseca (Tachdjian, cap. 34, p. 1680 a 1683).

Fechamento

Fundamento

O tema se resolve com três perguntas. Onde falha? Fise na acondroplasia (epífise poupada), epífise na MED e na SED, zona de calcificação provisória nas metafisárias, enzima lisossomal nas MPS, distrofina na DUCHENNE. Como se herda? A maioria das displasias é dominante; diastrófica, McKUSICK e as MPS são recessivas; HUNTER e DUCHENNE são ligadas ao X. Onde mora o perigo? Na cervical alta (MORQUIO, SED, pseudoacondroplasia, DOWN), no forame magno e na coluna lombar (acondroplasia) e no quadril (MED, SED, DOWN).

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

Abrir no leitorCriar conta grátis

No leitor do aplicativo, quem não tem conta lê as 6 primeiras partes; a leitura completa é grátis com a conta.

Continue estudando