Orto Questões

Fratura da escápula

Trauma adultoResumo do capítulo40 min de leitura

Complexo suspensor superior e ombro flutuante, colo anatômico e cirúrgico, ângulo glenopolar e critérios de cirurgia, Ideberg-Goss, dissociação escapulotorácica e via de Judet: a escápula explicada pelo que a prova cobra.

Atualizado em 28/10/2026 · 40 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 33 · Scapular Fractures, em Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025). Autores do capítulo: Jan Bartoníček.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de trauma adulto do Rockwood adulto, capítulo 33, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo foi escrito a partir do capítulo 33 do Rockwood and Green (10ª edição), escrito por Jan Bartoníček, na ordem em que as provas cobram o tema. Ele reorganiza as ideias do capítulo em português, explica o porquê de cada regra e mostra, no meio do texto, as questões reais do acervo sobre cada ponto. Os números são os do capítulo.

O capítulo tem uma particularidade que muda a leitura: o autor tem uma das maiores séries do mundo (519 fraturas da escápula, 383 com tomografia e reconstrução 3D, 153 operadas) e usa essa experiência para contestar conceitos clássicos que as provas continuam cobrando. O exemplo mais forte é o ombro flutuante: o que a literatura chamou de "fratura do colo com fratura da clavícula" seria, na maioria das vezes, uma fratura do corpo mal lida na radiografia. Sempre que o gabarito oficial seguir o conceito clássico e o capítulo disser outra coisa, o resumo avisa num alerta.

A escápula raramente quebra porque é bem protegida: um envelope muscular grosso, mobilidade sobre a parede do tórax e o próprio tórax elástico por baixo. Quando quebra, a energia costuma ter sido alta e o paciente costuma ter outras lesões. Por isso o capítulo inteiro gira em torno de três perguntas:

  • A glenoide perdeu a ligação com o resto do esqueleto? É o centro do debate do ombro flutuante e do complexo suspensor superior.
  • O desvio é grande o bastante para mudar a mecânica do ombro? Ângulo glenopolar, angulação e translação da borda lateral, degrau articular.
  • O paciente aguenta e precisa de uma cirurgia longa, em decúbito quase ventral? Idade, demanda, pele, politrauma.

Complexo suspensor superior, ombro flutuante e colo da escápula

Cobrança confirmada · 9 questões

O anel de Goss

O complexo suspensor superior do ombro (em inglês, SSSC) foi definido por Goss. É um anel de osso e partes moles formado por:

  • processo glenoidal (a glenoide);
  • processo coracoide;
  • ligamentos coracoclaviculares e coracoacromial;
  • clavícula lateral;
  • articulação acromioclavicular;
  • acrômio.

O anel é sustentado por dois pilares (struts). O superior é o terço médio da clavícula; o inferior é a junção da parte lateral do corpo da escápula com a espinha. Goss dividiu o conjunto em três unidades: a ponte clavícula, acromioclavicular e acrômio; a junção da glenoide, do coracoide e do acrômio com o corpo; e a ligação clavícula, ligamentos coracoclaviculares e coracoide.

A função do anel, nas palavras de Goss, é manter uma relação estável entre a escápula, o membro superior e o esqueleto axial, permitindo o pouco movimento que existe na acromioclavicular e nos ligamentos coracoclaviculares. A regra que dele deriva é simples: uma ruptura isolada do anel costuma ser estável; duas rupturas (ou uma ruptura com fratura de um pilar) criam uma situação potencialmente instável, que pode levar a retardo de consolidação, pseudartrose ou consolidação viciosa.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-2. Complexo suspensor superior do ombro, vista anterior da escápula direita: acrômio, acromioclavicular, clavícula, coracoide, ligamentos coracoacromial e coracoclavicular, colo e borda lateral da escápula. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A história do ombro flutuante

O conceito nasceu mais estrito do que é usado hoje:

  • Ganz e Noesberger descreveram primeiro a lesão como fratura do colo da escápula com fratura da clavícula e ruptura dos ligamentos coracoclaviculares e coracoacromiais.
  • Herscovici criou o termo ombro flutuante (floating shoulder) e o definiu como fratura ipsilateral da diáfise da clavícula e do colo da escápula: a clavícula quebra medial à inserção do ligamento coracoclavicular.
  • Goss trouxe o conceito do anel: a fratura do colo da glenoide somada a outra ruptura do complexo (por exemplo, o terço médio da clavícula) produz a situação instável, o ombro flutuante.

Com o tempo, a definição foi reduzida a "colo mais clavícula", sem olhar os ligamentos. O resultado, diz o autor, é que quase toda fratura do corpo ou do colo com fratura da clavícula passou a ser chamada de ombro flutuante.

Por que tanta "fratura do colo" não é do colo

Este é o ponto mais autoral do capítulo. Na radiografia AP, uma fratura transversa em duas partes da porção infraespinal do corpo parece uma fratura do colo com medialização da glenoide. A tomografia 3D mostra outra coisa: a glenoide está no lugar (a clavícula intacta mantém a distância até o esterno) e quem se desloca é a parte de baixo do corpo, para lateral, puxada pelo subescapular, infraespinal e redondo maior, que continuam presos à cabeça do úmero apoiada na glenoide. Por isso o autor diz que o termo "medialização da glenoide" não é correto na maioria dos casos.

A confusão veio das classificações. Ada e Miller criaram o tipo IIC, "fratura do colo inferior à espinha", e Goss o chamou de fratura do colo infraglenoidal; para o autor, ambos são fraturas do corpo em duas partes. Uma pista na radiografia: a distância coracoclavicular está normal, o que mostra ligamentos íntegros.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-26. Erro comum de interpretação: a radiografia AP sugere fratura do colo com medialização, mas a distância coracoclavicular está normal; a reconstrução 3D mostra fratura do corpo em duas partes, com a porção infraespinal desviada para lateral pelo manguito. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

As três fraturas do colo e para onde vai a glenoide

As fraturas do colo são extra-articulares do ângulo lateral e separam a glenoide do corpo. São raras: 6% das fraturas da série. O autor distingue três tipos pelo traço e pela forma do fragmento:

Fraturas do colo da escápula
TipoPor onde passa o traçoO que o fragmento levaDesvio típico
Colo anatômico (muito raro)Da incisura coracoglenoidal (lateral à base do coracoide) pela espinoglenoidal até a borda lateral, 3 a 4 cm abaixo da glenoideSó a fossa e uma ponta da borda lateral; só a cabeça longa do bíceps e a do tríceps presasDistal e em valgo; espaço subacromial alargado; ângulo glenopolar aumenta (até 70°)
Colo cirúrgico (o mais frequente dos três)Da incisura da escápula (medial ao coracoide), abaixo da espinoglenoidal, até a borda lateral, 3 a 7 cm abaixo da glenoideA fossa e o coracoideDepende dos ligamentos do coracoide (abaixo)
Transespinhal (raro)Começa medial à incisura da escápula, cruza o centro da espinha e sai na borda lateral, 4 a 6 cm abaixo da glenoideFossa, colo, coracoide, acrômio e espinha lateralVaro, mais marcado na borda lateral; associa-se com frequência à fratura da diáfise da clavícula

O colo cirúrgico tem subtipos conforme os ligamentos presos ao coracoide, e é aqui que a prova cobra a direção do desvio:

  • Estável: coracoclavicular e coracoacromial íntegros; desvio mínimo, distâncias coracoclavicular e coracoacromial normais.
  • Instável em rotação: rompe o coracoacromial; a distância coracoacromial alarga, a coracoclavicular fica normal, e o ápice do coracoide gira para distal e medial pelos músculos presos a ele.
  • Totalmente instável (ligamentar): rompem coracoclavicular e coracoacromial; as duas distâncias aumentam, sobretudo a coracoclavicular, e o fragmento glenoidal gira e desvia para distal e medial, puxado pelos músculos presos ao coracoide.
  • Totalmente instável (ósseo): a base do coracoide se separa do colo, com os ligamentos íntegros; as distâncias ficam normais e, como no colo anatômico, o fragmento vai para distal e em valgo, porque os músculos do coracoide não o puxam mais.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-13. Subtipos da fratura do colo cirúrgico: estável (ligamentos do coracoide íntegros), instável em rotação (coracoacromial roto), totalmente instável ligamentar (os dois rotos) e totalmente instável ósseo (base do coracoide separada, ligamentos íntegros). Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

O conceito do autor

O argumento anatômico é este. A clavícula fraturada, a luxação esternoclavicular ou a acromioclavicular desfazem a ligação óssea da escápula com o tronco, mas a posição do corpo em relação à coluna e às costelas pouco muda, porque é controlada pelos músculos escapuloaxiais, sobretudo o trapézio. Williams mostrou que fratura da diáfise da clavícula com fratura do colo cirúrgico, sozinhas, não produzem ombro flutuante: é preciso romper também os ligamentos coracoclavicular e coracoacromial.

A glenoide só se separa do corpo por fratura do colo anatômico ou do colo cirúrgico. Daí a definição do autor: ombro flutuante é a lesão em que a glenoide perdeu toda conexão osteoligamentar com o resto da escápula e com o esqueleto axial. Isso só acontece em duas situações:

  • fratura desviada do colo anatômico (Arts e Louette já a chamavam de variante de ombro flutuante, mesmo sem clavícula);
  • fratura totalmente instável do colo cirúrgico.

A fratura da diáfise da clavícula é irrelevante para o desvio e a estabilidade do fragmento glenoidal, e fixá-la pouco muda a posição da glenoide.

Os números da série explicam a confusão. Entre 519 fraturas, houve só 6 do colo anatômico e 13 do colo cirúrgico (2,5%), e a fratura da diáfise da clavícula acompanhou o colo cirúrgico uma única vez; só um colo cirúrgico era totalmente instável. Já a fratura da diáfise da clavícula esteve em 16% de todos os casos, em 24% das fraturas do corpo e em 32% das fraturas infraespinais em duas partes (as "fraturas do colo infraglenoidal"). O "ombro flutuante" frequente da literatura é, em boa parte, corpo com clavícula.

A lesão do complexo suspensor sem fratura do colo é outra história: lesões duplas ou triplas que envolvem acrômio, espinha lateral, base do coracoide e luxação acromioclavicular influem no desvio desses fragmentos e, quando instáveis, são operadas pelos mesmos princípios.

Tratar o ombro flutuante

As séries trataram de tudo um pouco: as duas fraturas sem cirurgia, só a clavícula, ou as duas. Salvo exceções, os resultados não diferiram. Quem defende fixar só a clavícula argumenta que isso reduz o colo ou o corpo, e mostra o ângulo glenopolar antes e depois; o autor rebate que o ângulo na radiografia não mostra o desvio tridimensional, que a escápula forma calo muito rápido (reduzir dias depois já é difícil) e que viu desvios persistentes depois da fixação isolada da clavícula; Oh relatou duas falhas dessa estratégia. Labler e Leung tiveram bons resultados fixando as duas. E parte da vantagem relatada com a placa na clavícula pode vir apenas de permitir uma reabilitação mais precoce.

Na prática do autor, quando há fratura desviada do colo anatômico ou cirúrgico, a escápula é operada pela via de Judet. Quando há também fratura da clavícula, ele fixa a clavícula depois de reduzir e estabilizar o corpo ou o colo, por uma incisão oblíqua separada ("em colar"), que poupa os nervos supraclaviculares, com placa de reconstrução de 3,5 mm ou placa pré-moldada anterolateral.

Medir o desvio e indicar a cirurgia

Cobrança confirmada · 8 questões

O ângulo glenopolar e os outros três critérios

Nas fraturas extra-articulares do colo e do corpo, a decisão se baseia no desvio dos fragmentos da borda lateral e na relação da glenoide com o corpo. São quatro medidas, feitas nas incidências de Neer ou, com mais precisão, na reconstrução 3D:

  • Desvio mediolateral da borda lateral (a falsa "medialização da glenoide"): na Neer I (AP verdadeira da escápula) ou na vista anterior da 3D.
  • Angulação dos fragmentos da borda lateral: na Neer II (perfil da escápula, ou incidência em Y) ou na vista lateral da 3D.
  • Translação anteroposterior dos fragmentos da borda lateral: nas mesmas vistas da angulação.
  • Ângulo glenopolar (GPA): ângulo agudo entre a linha que une os polos superior e inferior da glenoide e a linha do polo superior da glenoide ao ângulo inferior da escápula. Segundo Tuček, o valor padrão na Neer I é 41° (faixa de 35° a 51°). Mede-se nas fraturas infraespinais do corpo e em todos os tipos de fratura do colo.

O capítulo faz duas ressalvas sobre o ângulo glenopolar. A medida e seus valores normais e críticos não foram padronizados, e o valor crítico habitual para operar, 20° ou menos, não tem apoio universal na literatura. E, na fratura do colo anatômico, o ângulo aumenta (pode chegar a 70°), em vez de diminuir.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-7. Ângulo glenopolar: entre a linha dos polos superior e inferior da glenoide e a linha do polo superior da glenoide ao centro do ângulo inferior da escápula. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Os critérios relativos de cirurgia

O capítulo resume as indicações num fluxograma (Figura 33-19) e num quadro do algoritmo do autor. São relativas: pesam junto com outras lesões, idade, condição física e pele.

Indicações relativas de cirurgia (Figura 33-19 e Algoritmo 33-1)
GrupoFavorece a cirurgiaFavorece o conservador
Intra-articularDegrau ou diástase maior que 4 mm em jovem ativo; ou menor que 4 mm com a articulação subluxadaMenor que 4 mm com articulação estável; idoso, debilitado ou sedentário
Extra-articular (colo e corpo)Ângulo glenopolar menor que 20° ou maior que 60°, angulação maior que 40° no perfil, translação maior que 20 mm, em jovem ativoÂngulo glenopolar entre 20° e 60°, angulação menor que 40°, translação menor que 20 mm
Lesões associadas (coracoide, acrômio, espinha, acromioclavicular)Desvio maior que 10 mm em jovem ativoDesvio menor que 10 mm, ou nenhuma lesão associada

No quadro do algoritmo 33-1, o desvio mediolateral dos fragmentos da borda lateral aparece como 15 a 20 mm; na Figura 33-19, a translação mediolateral é maior que 20 mm (medida no corpo, na parte alta da fossa infraespinal).

O sentido das medidas é mecânico: restaurar o alinhamento da glenoide com o corpo (o ângulo glenopolar) devolve o ritmo escapuloumeral e o trajeto normal dos músculos do manguito; restaurar a superfície anterior do corpo devolve o deslizamento sobre o tórax.

Quando não operar e como conduzir

Há consenso de que toda fratura sem desvio é conservadora. O conservador também vale para fraturas desviadas, intra ou extra-articulares, quando o estado geral ou as partes moles não permitem cirurgia. No algoritmo do autor, o politraumatizado ou com partes moles ruins aguarda a melhora e é reavaliado; o idoso ou doente vai para o conservador; o paciente em boa condição com desvio importante vai para a cirurgia.

O protocolo conservador:

  • analgesia e tipoia por 2 semanas;
  • passivos depois disso, buscando amplitude passiva completa em 1 mês;
  • amplitude ativa completa no segundo mês;
  • fortalecimento do manguito e dos periescapulares a partir do terceiro mês; no quarto mês, sem restrições;
  • exceções com imobilização mais longa, 5 a 6 semanas: fraturas-luxações da glenoide e fraturas da espinha e do coracoide, que têm mais risco de pseudartrose.

Por muito tempo, a cirurgia ficou restrita às fraturas desviadas da glenoide. Isso mudou com estudos de resultados ruins das fraturas extra-articulares desviadas tratadas sem cirurgia (dor, limitação, lesão do manguito). As séries conservadoras recentes apontam na mesma direção: Romero viu problemas com ângulo glenopolar final menor que 20°; Bozkurt achou correlação positiva entre o Constant e o ângulo glenopolar; em Van Nort, todos tinham ângulo acima de 20° e todos foram bem; Königshausen, em glenoides desviadas (Goss II a V), viu resultado melhor com desvio menor que 3 mm e pior acima de 5 mm; politrauma, escore de gravidade alto e fraturas de costelas pioraram os resultados.

Duas revisões resumem a literatura, ambas com dados heterogêneos:

  • Zlowodski (520 fraturas, 22 séries): 80% das fraturas da glenoide foram operadas (82% de bons e excelentes); 80% das fraturas isoladas do corpo foram tratadas sem cirurgia (86% bons e excelentes); 83% das fraturas do colo não articulares, sem cirurgia (77% bons e excelentes).
  • Lantry (243 fraturas operadas, 17 séries): a indicação na glenoide foi desvio de 4 a 10 mm, mais comumente 5 mm; infecção em 4,2%, lesão do nervo supraescapular em 2,4%, retirada do material em 7,1%; bons e excelentes em 83%.

Fraturas da glenoide

Cobrança confirmada · 6 questões

Ideberg modificada por Goss

Ideberg analisou radiografias de 338 fraturas e descreveu cinco tipos; Goss modificou a classificação e acrescentou o mecanismo de cada tipo (a posição da cabeça do úmero no momento do trauma). Ela separa as fraturas da borda (tipo I) das fraturas centrais da fossa (tipos II a VI). Para o autor, é a que melhor reflete as fraturas reais e virou a classificação mais usada das fraturas intra-articulares da escápula.

Ideberg-Goss (como a Figura 33-9 desenha)
TipoTraço
IaBorda anterior
IbBorda posterior
IITraço transverso ou oblíquo que separa a glenoide inferior e sai pela borda lateral do corpo
IIITraço que sai pela borda superior da escápula; o fragmento leva a metade superior da glenoide e o coracoide
IVTraço horizontal que atravessa o corpo até a borda medial
VaII + IV
VbIII + IV
VcII + III + IV
VICominuta

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-9. Classificação de Goss das fraturas da glenoide: Ia borda anterior, Ib borda posterior, II glenoide inferior, III glenoide superior com o coracoide, IV traço horizontal até a borda medial, Va a Vc combinações e VI cominuta. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A AO/OTA (14) e por que o autor a critica

Na versão de 2018 da OTA/AO, a escápula é o osso 14, dividido em processos (A), corpo (B) e segmento articular (F):

  • 14A: processos; A1 coracoide, A2 acrômio, A3 espinha.
  • 14B: corpo; B1 sai da circunferência do corpo em dois pontos ou menos; B2 em três ou mais.
  • 14F: fossa glenoidal; F0 extra-articular pelo osso subcondral (fratura do colo da glenoide); F1 simples (F1.1 borda anterior, F1.2 borda posterior, F1.3 transversa ou oblíqua curta); F2 multifragmentária (F2.1 fossa; F2.2 fratura-luxação central).

As críticas do autor: a AO eliminou o colo como grupo próprio (o colo anatômico foi para a glenoide e o cirúrgico sumiu); classificar a glenoide pelo trajeto do traço diz pouco, porque o que importa é o tamanho e o desvio do fragmento; e a fratura-luxação central (F2.2), com as bordas intactas, não existe na prática: os próprios autores não a acharam em 120 casos, e é improvável que a cabeça, muito maior, parta uma superfície quase plana preservando a periferia. As classificações antigas, além disso, foram feitas em radiografias, com poucos casos operados para conferir.

A classificação do autor: cinco padrões

Na série do autor, a glenoide foi 25% de todas as fraturas da escápula, em cinco padrões:

Fraturas da glenoide na série do autor
PadrãoFrequência entre as da glenoideIdeia central
Glenoide superior17%Fratura intra-articular da base do coracoide; o fragmento leva em geral o terço proximal (até dois terços); traço pode subir até o ângulo superior; desvio leve em varo e anteversão pelos músculos do coracoide; associa-se a lesão do acrômio e da espinha lateral
Borda anterior (anteroinferior)32%Associada à luxação anterior; três tipos: borda periférica, saliência anteroinferior (overhang) e fenda vertical
Borda posterior4% (a mais rara)Associada à subluxação ou luxação posterior; na glenoide direita, entre 6 e 10 horas
Glenoide inferior32% (a mais comum, empatada)Um a dois terços distais da fossa com parte da borda lateral, quase sempre com traços no corpo; impacto direto da cabeça em abdução, típica de ciclistas e motociclistas; muito grave
Glenoide inteira16%Toda a superfície separada do corpo entre os colos anatômico e cirúrgico, em dois ou três fragmentos; a mais grave

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-11. Tipos de fratura da glenoide na reconstrução 3D (escápula direita): normal, glenoide superior, borda anterior, borda posterior, glenoide inferior e glenoide total. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Quando operar a glenoide

O objetivo é devolver congruência e estabilidade. A indicação aceita hoje é degrau ou diástase de pelo menos 4 a 5 mm com pelo menos 25% a 30% da superfície articular envolvidos, ou subluxação persistente da cabeça. O que mais importa é a chamada área circular (os dois terços inferiores da fossa, principal superfície de contato com a cabeça), sobretudo o quadrante anteroinferior. O polo superior, que leva cerca de 20% da superfície, não é tão crítico. Fraturas sem desvio, pouco desviadas ou da borda com fragmento pequeno vão bem sem cirurgia. Na série do autor, 46% (59 de 128) das fraturas da glenoide foram operadas.

Por padrão:

  • Glenoide superior: tolera-se um pouco mais de incongruência; opera-se com desvio articular maior que 4 mm ou risco de impacto do coracoide (6 de 22 operadas). A fixação é difícil pela tração dos músculos do coracoide: parafusos de tração (canulados) pelo coracoide até a glenoide ou o colo.
  • Borda anteroinferior: as periféricas são conservadoras (artroscopia no jovem); a saliência anteroinferior desviada, sobretudo com instabilidade, é fixada; a fenda vertical de toda a metade anterior exige redução aberta e fixação (13 de 41 operadas). Parafusos de tração ou placa pequena, pela via deltopeitoral.
  • Borda posterior: se indicada, via posterossuperior ou artroscopia; as cinco da série foram conservadoras.
  • Glenoide inferior: trata-se a glenoide e o corpo, ambos pela via de Judet (34 de 50 operadas). Abre-se a cápsula paralela à borda posterior para ver e palpar a redução; fragmento longo é reduzido com dois parafusos-"joystick" no colo aproximados por uma pinça; fragmentos pequenos, com parafusos de 2,0 ou 2,4 mm.
  • Glenoide inteira: a fossa é reconstruída como um conjunto e depois fixada ao colo ou ao corpo por placas (6 de 10 operadas, todas por Judet, com resultados muito bons).

A artroscopia serve sobretudo às fraturas da borda anterior ou posterior, menos às da glenoide superior; as da glenoide inferior, que se propagam ao corpo, não são adequadas.

Dissociação escapulotorácica

Cobrança confirmada · 5 questões

O que é

É uma lesão rara, grave e de alta energia: o sistema osteoligamentar da escápula se desconecta do esqueleto axial em vários níveis, os músculos escapuloaxiais se separam, e há lesão dos grandes vasos do membro, do plexo braquial e das partes moles do tórax e do ombro, quase sempre com a pele intacta. Por isso alguns autores a chamam de amputação interna do quarto superior (internal forequarter amputation). A mortalidade relatada é de 11%, pelas lesões intratorácicas.

O mecanismo é uma distração lateral violenta (ou um desvio rotacional) da cintura escapular: o membro fica preso num objeto fixo enquanto o corpo segue em alta velocidade, ou é puxado por uma máquina pesada. A radiografia de tórax é importante justamente para ver a relação da escápula com a coluna. Na Figura 33-27, o caso mostra fraturas do coracoide, do acrômio e do ângulo inferior, com o espaço toracoescapular alargado.

Zelle: a classificação que a prova cobra

Classificação de Zelle da dissociação escapulotorácica
TipoLesões
1Só musculoesquelética
2AMusculoesquelética com lesão vascular
2BMusculoesquelética com déficit neurológico incompleto do membro
3Musculoesquelética com déficit neurológico incompleto e lesão vascular
4Musculoesquelética com avulsão completa do plexo braquial

O tratamento gira em torno do nervo

O foco é a lesão neurovascular. Mas a rede colateral em volta do ombro é extensa e pode suprir o vaso lesado, e reparar o vaso num plexo completamente perdido é questionável; o reparo neurológico também é controverso. Zelle mostrou que a extensão da lesão do plexo é o que mais prediz o resultado: lesões parciais foram melhor; todos os pacientes com lesão completa terminaram com amputação ou membro sem função. Ele recomenda amputação imediata acima do cotovelo quando a função do membro não pode ser restaurada, com resultados funcionais melhores e menos complicações. Na série do autor, houve 2 casos (0,4%) e mais um fora da coorte: um morreu e os outros dois tiveram resultado muito ruim.

Processos: coracoide, acrômio e espinha lateral

Cobrança confirmada · 5 questões

Por que quase nunca é avulsão

As fraturas dos processos e dos ângulos são 20% de todas as fraturas da escápula. A literatura costuma chamá-las de avulsão, mas o autor mostrou que a maioria resulta de impacto direto (da cabeça do úmero ou de um objeto), e que as fraturas do coracoide, em particular, não poderiam ser produzidas por tração. A contração muscular violenta existe (choque elétrico, convulsão), mas dá outros padrões: compressão do corpo, glenoide e avulsão da inserção de um músculo. Há ainda as fraturas por estresse: do coracoide em atletas, do acrômio e da espinha na insuficiência do manguito com subida da cabeça.

Acrômio, espinha lateral e coracoide se associam muitas vezes à luxação acromioclavicular, menos à fratura da clavícula lateral; fratura da diáfise da clavícula é raríssima nesse grupo. Quase todas comprometem o complexo suspensor, e o desvio depende do quanto o anel foi rompido.

Coracoide

O autor divide as fraturas do coracoide em ápice (tipo I), bico (tipo II, distal à inserção do ligamento coracoclavicular), base extra-articular (tipo III) e cominutas do processo inteiro (tipo IV). A base que se estende até a borda superior ou o ângulo superior costuma vir em varo, às vezes com desvio medial. A base intra-articular é a fratura da glenoide superior, vista acima.

Na literatura citada, a classificação usada é a de Ogawa. Van Doesburg reuniu 110 fraturas do coracoide: tipo I em 78% e tipo II em 13%. No tipo I, 76% tinham lesões múltiplas do complexo suspensor e 87% foram operados; no tipo II, só 14% tinham lesão do complexo, só 36% foram operados, e cinco de nove tratados sem cirurgia ficaram com pseudartrose assintomática.

O dado prático do autor: de 39 fraturas do coracoide, operou 13, mas fixou o coracoide diretamente só em 2. Nas outras, operou a lesão associada (luxação acromioclavicular seis vezes, ângulo do acrômio, colo cirúrgico, glenoide anterior), e, em todas as luxações acromioclaviculares, a fixação da acromioclavicular reduziu indiretamente o coracoide, que consolidou. Quando se fixa: base com parafusos de tração de 3,5 mm (técnica de Hill), bico com parafusos de tração canulados com arruela, e ápice desviado é excisado, com reinserção do tendão conjunto.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-15. Classificação das fraturas do coracoide: tipo I ápice, tipo II bico, tipo III base e tipo IV cominuta. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Acrômio e espinha lateral

Acrômio e espinha lateral são uma só estrutura, e o limite convencional entre eles é o ângulo acromial. A espinha medial, que nasce do corpo e forma o pilar espinal, entra nas fraturas do corpo na classificação do autor. Pela linha de fratura (Ogawa modificada), há três grupos:

  • acrômio: fragmentos do ápice, da borda lateral ou de toda a metade anterior, com traço transverso, em geral atrás da faceta acromioclavicular;
  • ângulo acromial: grupo de transição, traço transverso-oblíquo junto ao ângulo, fragmento grande com o acrômio inteiro;
  • espinha lateral: traço variável; o fragmento angula em varo, e cortical grossa, superfície de fratura estreita e tração muscular explicam as pseudartroses relativamente frequentes.

Como o tratamento conservador do acrômio e da espinha lateral desviados pode dar pseudartrose dolorosa, recomenda-se operar os desviados (10 de 39 na série): cerclagem, parafusos de tração ou placa de reconstrução; placa em malha bloqueada de 2,7 mm nas multifragmentárias; fragmentos pequenos da borda do acrômio, excisados.

Quando operar os processos

Não há consenso. Os únicos critérios exatos são os de Anavian e Hill: desvio maior que 1 cm, sozinho ou com lesão dupla do complexo suspensor. O autor acrescenta que, na prática, a lesão associada (sobretudo a luxação acromioclavicular) costuma ser a verdadeira razão para operar. Os ângulos superior (6) e inferior (22) da série foram todos tratados sem cirurgia; Chang recomenda operar o ângulo inferior desviado pelo risco de pseudartrose dolorosa.

Vias de acesso e técnica de fixação

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A via de Judet

A via posterior de Judet expõe toda a fossa infraespinal, as bordas lateral e medial, a espinha, os colos anatômico e cirúrgico e as bordas posterior e inferior da glenoide. É a via universal para fraturas do corpo, do colo, da glenoide inferior e suas combinações. O paciente fica em decúbito semiventral sobre o lado são, com o membro inteiro livre no campo.

Na modificação do autor, são três fases:

  • Pele: incisão em bumerangue da borda posterior do acrômio, ao longo da espinha, até o ângulo espinomedial, descendo pela borda medial até o ângulo inferior; levanta-se um retalho sem abrir a fáscia comum do deltoide e do infraespinal.
  • Deltoide: identifica-se a borda posterior do deltoide; a fáscia comum é aberta em T; a porção espinal do deltoide é solta da espinha até a borda posterior do acrômio e rebatida para laterodistal.
  • Infraespinal: antes de soltá-lo, abre-se o intervalo entre infraespinal e redondo menor e se ligam os vasos circunflexos da escápula, que perfuram o redondo menor 3 a 4 cm abaixo da borda inferior da glenoide. Depois o infraespinal é solto da espinha, das bordas, do ângulo inferior e da fossa e rebatido para proximal, com cuidado para não tracionar demais o feixe neurovascular supraescapular, visível na incisura espinoglenoidal.

No fechamento, o infraespinal é reinserido no ângulo inferior (de preferência pela fáscia) e o deltoide, na espinha.

A tendência é dissecar menos. Soltar o deltoide é bem tolerado; mobilizar todo o infraespinal dá mais dor e reabilitação mais longa. Por isso há três opções limitadas: só uma janela lateral entre infraespinal e redondo menor (sem soltar o deltoide); soltar o deltoide e abrir janelas lateral e medial (no ângulo espinomedial); ou soltar o infraespinal todo (ou só sua parte inferior).

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-20. Via de Judet, dissecção anatômica: fáscia comum do infraespinal e do deltoide, deltoide espinal rebatido, intervalo entre infraespinal e redondo menor com os vasos circunflexos da escápula, e o infraespinal rebatido para cima com o feixe supraescapular à vista. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

As outras vias

  • Posterossuperior: fraturas isoladas da borda posterior da glenoide, da espinha ou do acrômio; solta-se o deltoide da espinha e corta-se o tendão do infraespinal junto à cápsula; pode somar osteotomia do acrômio ou da espinha.
  • Dupont-Evrard (posterolateral): expõe a borda lateral pelo intervalo entre infraespinal e redondo menor; a desvantagem é não poder ser ampliada.
  • Deltopeitoral: fraturas da borda anteroinferior da glenoide e do coracoide.
  • Gauder: duas incisões limitadas (Dupont-Evrard mais o ângulo espinomedial), só para alguns padrões do corpo e para cirurgiões muito experientes.

Implantes e redução

  • Implantes pequenos: 3,5 mm (parafusos corticais e placas em T, L ou semitubulares) e 2,7 mm (preferidos pelo autor); parafusos canulados no coracoide; miniparafusos de 2,4 e 2,0 mm na glenoide e nos fragmentos intermediários da borda lateral.
  • Limpar o foco: a escápula consolida muito bem e rápido; como a cirurgia é feita dias depois, é preciso tirar hematoma e calo inicial.
  • Radioscopia: não substitui uma boa exposição, mas ajuda nas cominutas do ângulo lateral e do colo, para afastar parafuso intra-articular.
  • Corpo: a borda lateral é a estrutura-chave e se fixa primeiro. A contratura muscular encavala e encurta a borda; reduz-se com dois ganchos ou puxando parafusos postos nos fragmentos. Nas oblíquas instáveis, o "fio de Kirschner perdido" funciona como pino intramedular. Placa de reconstrução de 2,7 ou 3,5 mm: 2 + 2 (dois parafusos em cada fragmento) na fratura simples; 3 + 3 com fragmentos intermediários.
  • Ângulo espinomedial: soltar o infraespinal o desestabiliza; com desvio menor que 5 mm e pilar lateral estavelmente fixado, tolera-se algum movimento; senão, placa de 2,7 mm, parafusos bloqueados ou cerclagem.
  • Dois pilares: fixa-se primeiro o lateral, o que costuma melhorar o espinal.
  • Colo: em geral duas placas ou placa e parafusos; a fixação da borda lateral é completada por placa na face posterior do colo ou parafusos corticais da espinha para o fragmento glenoidal; cuidado com a incisura espinoglenoidal. O transespinhal quase sempre exige fixar os dois pilares.

Pós-operatório e resultados

Tipoia; dreno até 48 horas; radiografias em Neer I e II. Revisão com 2 semanas e radiografias com 6 semanas, 3 meses, 6 meses e 1 ano. A escápula consolida em 6 a 8 semanas, e a pseudartrose depois da cirurgia é raríssima. Passivos desde o primeiro dia, por cerca de 6 semanas; ativos com 4 a 5 semanas; se a amplitude estiver ruim com 6 semanas, examina-se sob anestesia e manipula-se; resistidos com cerca de 8 semanas; sem restrições com 3 meses. Nas fraturas complexas, a cirurgia costuma ser feita na segunda ou terceira semana e pode durar 3 a 4 horas em decúbito ventral ou semiventral.

As séries cirúrgicas são boas: Cole, 84 fraturas do corpo ou do colo pela via de Judet, todas consolidadas (três viciosas), sem infecção; Schandelmaier, glenoides Ideberg II a V acompanhadas de 5 a 23 anos, Constant de 94% do lado são; Anavian, 33 glenoides complexas, com lesão do supraescapular na incisura espinoglenoidal achada no acesso em 8; Cole, acima de 65 anos, todos voltaram às atividades.

Epidemiologia, mecanismo, lesões associadas e imagem

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Quem fratura e como

As fraturas da escápula são 0,4% a 0,9% de todas as fraturas e cerca de 3% a 5% das fraturas da cintura escapular. Predominam em homens de 20 a 50 anos, em geral unilaterais; bilaterais e expostas são raras. São comuns no politraumatizado.

Os mecanismos básicos, que podem se combinar:

  • golpe direto na escápula (acidente de trânsito, queda de altura, objeto pesado): atinge sobretudo o corpo e a parte alta (acrômio, espinha);
  • impacto da cabeça do úmero na glenoide ou nos processos (por exemplo, golpe no cotovelo): o padrão depende do vetor e da posição do braço;
  • luxação da cabeça: a anterior arranca a borda anteroinferior (comum); a posterior, raramente, a borda posterior;
  • contração muscular violenta (choque elétrico, convulsão), rara.

Nem toda fratura é de alta energia. O capítulo descreve três grupos: alta energia (politrauma verdadeiro), média energia (queda de bicicleta ou moto devagar, com a cintura escapular dominando) e baixa energia no idoso (queda da própria altura ou da escada), em geral lesão isolada.

As lesões associadas

As fraturas isoladas são a minoria: 14% a 33% (Thompson achou só 1,8%). A lesão associada mais frequente é a fratura de costelas (27% a 65%), o que se espera pela posição sobre o gradil. Depois vêm lesões do tórax e pulmão (pneumotórax, hemotórax, enfisema, contusão: 16% a 67%), da cintura escapular (clavícula, úmero proximal, acromioclavicular: 8% a 47%) e da cabeça (10% a 42%). Há séries com até 20% de lesões pélvicas, e Thompson descreveu lesão de grandes vasos do ombro em 10%; lembrar também plexo braquial, rins e aorta. A mortalidade é de 2% a 11%, por lesão intratorácica grave ou falência de órgãos.

No exame, a fratura da escápula do politraumatizado muitas vezes é achada por acaso na radiografia ou na tomografia do tórax, e pode esperar, salvo se for exposta. Achou uma lesão da cintura (por exemplo, a clavícula), procure as outras; palpe a axila e o pulso axilar; teste a sensibilidade do ombro, porque o déficit pode indicar lesão do plexo, sobretudo do nervo axilar.

A sequência de imagem

  • AP de toda a cintura escapular (escápula, clavícula inteira, acromioclavicular, esternoclavicular e úmero proximal): visão geral, insuficiente para o padrão.
  • Neer I, a AP verdadeira da escápula: espaço glenoumeral, desvio da glenoide em relação à borda lateral e ângulo glenopolar.
  • Neer II, o perfil da escápula (Y): translação, angulação e encavalamento das fraturas do corpo, sobretudo da borda lateral.
  • Radiografia de tórax: pulmões e parede, primeira pista no politrauma e base para ver a relação da escápula com a coluna (dissociação).
  • Tomografia: é hoje o exame padrão. Os cortes axiais avaliam a fossa e mostram fraturas sem desvio do coracoide e do acrômio; as reconstruções 2D coronais, a superfície articular (sobretudo na base do coracoide); a 3D define o padrão, com subtração de costelas, clavícula e úmero. Vista posterior para o corpo e a espinha, anterior para o colo (diferencia anatômico de cirúrgico), e lateral com subtração da cabeça do úmero para a glenoide.
  • Ressonância e ultrassom: só excepcionalmente, para partes moles.

Complicações

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Do tratamento conservador

  • Consolidação viciosa: é a complicação mais comum do conservador. A extra-articular viciosa muda a relação glenoide-corpo e o trajeto do manguito; o fragmento proeminente dói; a face anterior irregular atrapalha o deslizamento sobre o tórax. A glenoide viciosa dá incongruência, instabilidade e artrose.
  • Pseudartrose: sobretudo depois do conservador. A da espinha lateral é relativamente comum, e a angulada estreita o espaço subacromial e causa impacto. A do acrômio é menos frequente e deve ser diferenciada do os acromiale. No coracoide, é mais do bico que da base. No corpo e no colo, sobretudo na porção infraespinal. Na glenoide com fragmentos grandes, todos os três casos de Königshausen evoluíram para artrose.
  • Lesão do nervo supraescapular: na fratura do colo, o nervo pode ficar preso no traço; manifesta-se por atrofia do infraespinal. O autor o encontrou preso em três fraturas do colo cirúrgico.
  • Pseudartrose de costela: causa rara de dor crônica, tratada com fixação.

Da cirurgia

Lesão do supraescapular (2,4% em Lantry, difícil de separar do trauma inicial), redução ruim e parafuso intra-articular (pouco frequente; radioscopia generosa no fim ajuda). Hematoma e infecção, com taxa alta, 4,2%: hematoma se drena, a superficial vai com antibiótico, a profunda pede desbridamento e às vezes retirada do material. Rigidez que persiste além de 6 semanas pede manipulação. Falha da fixação, pseudartrose, incongruência residual, instabilidade, ossificação heterotópica (num caso comprimindo o axilar), material proeminente (acrômio, espinha, clavícula) e artrose pós-traumática em 1,9%.

Anatomia aplicada: arquitetura, músculos e nervo supraescapular

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Osso grosso e osso fino

O corpo da escápula é um triângulo com três bordas (superior, medial e lateral) e três ângulos (superior, inferior e lateral). O ângulo lateral engrossa até formar a glenoide, ligada ao corpo pelo colo, que não tem limite anatômico exato; o coracoide nasce da face superior do colo, e a espinha termina no acrômio.

Contra a luz, a massa óssea é muito desigual. O osso mais grosso está na glenoide, no colo (com a base do coracoide) e na borda lateral. Dois pilares levam a carga da glenoide: o pilar lateral, que liga a borda inferior da glenoide ao ângulo inferior, e o pilar espinal, que sai do centro da glenoide e segue para medial na base da espinha. Unidos pela borda medial, mais fina, eles formam o corpo biomecânico. O ângulo superior e a fossa supraespinal vizinha são só um apêndice para músculos: não transmitem compressão da glenoide.

Os pontos fracos explicam os traços: o osso mais fino é o centro da fossa infraespinal; o ponto mais fraco da circunferência do corpo biomecânico é o ângulo espinomedial, por onde passa um dos traços principais na maioria das fraturas do corpo; o centro da espinha é outro ponto fraco.

Músculos e vasos

São 18 músculos, mas só três nascem das fossas (subescapular, supraespinal e infraespinal). Eles formam dois sistemas: o escapuloaxial (prende a escápula à coluna e ao tórax e a mantém entre T1 e T9, sobretudo pelo trapézio) e o escapulobraquial (controla a glenoumeral).

O nervo supraescapular nasce da porção supraclavicular do plexo braquial e, com os vasos supraescapulares, passa pela incisura da escápula, corre no fundo da fossa supraespinal sob o músculo (dá ramos ao supraespinal e à parte alta do infraespinal), contorna a base da espinha pela incisura espinoglenoidal, sob o ligamento espinoglenoidal, e termina no infraespinal. A artéria circunflexa da escápula contorna a borda lateral cerca de 3 cm abaixo da glenoide, atravessa o redondo menor e se anastomosa com a supraescapular na incisura espinoglenoidal.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-3. Trajeto do feixe neurovascular supraescapular na face posterior da escápula direita, com o nervo axilar, a artéria circunflexa da escápula e a cabeça longa do tríceps. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Fraturas do corpo e fraturas complexas

Fundamento

A classificação anatômica do autor

O autor propõe uma classificação baseada em 519 fraturas, com tomografia e achados cirúrgicos, em cinco grupos que respeitam a anatomia: glenoide (25%), colo (6%), corpo (47%), processos e ângulos (20%) e complexas (3%), mais a dissociação escapulotorácica como grupo à parte (0,4%). A Tabela 33-1 do capítulo, que reúne esses tipos, não veio com conteúdo no arquivo enviado.

Os três padrões do corpo

O traço principal passa por um ou pelos dois pilares; fraturas isoladas da borda superior e dos ângulos não entram aqui.

  • Pilar espinal (6% das do corpo): traço pelo centro da espinha até a borda medial; o pilar lateral fica intacto e o desvio é mínimo. Todas foram tratadas sem cirurgia.
  • Pilar lateral (78% das do corpo e 36% de todas as fraturas da escápula: a mais frequente): só a parte infraespinal; em duas partes, três partes ou cominutas. A mais comum é a de duas partes, com traço transverso da metade superior da borda lateral ao ângulo espinomedial: é a que se chamou, de forma incorreta, de fratura infraglenoidal do colo. Cerca de 32% delas vêm com fratura da clavícula.
  • Dois pilares (16%): alta energia, muitas vezes cominutas; o traço do pilar espinal vai perto do ângulo espinomedial até o ângulo superior, ou pelo centro fraco da espinha. O pilar espinal desvia menos que o lateral.

O autor operou 25% das fraturas do corpo (61 de 243: 52 do pilar lateral e 9 dos dois pilares), sobretudo em jovens ativos, pela Judet com o mínimo de mobilização do infraespinal.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 33-14. Fraturas do corpo da escápula: pilar espinal, pilar lateral e dois pilares (fratura cominuta do corpo anatômico). Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Fraturas complexas

São de alta energia, em jovens com bom osso, com traços por vários elementos (corpo, colo, glenoide, processos); Tscherne e Christ já as separavam em 1975. As extra-articulares parecem fraturas dos dois pilares, mas soltam também um processo (espinha lateral, acrômio ou coracoide) do fragmento glenoidal. As intra-articulares são as mais graves: a glenoide se parte em geral em duas (inferior, presa ao pilar lateral, e superior, com o coracoide). Na série, foram 18 (6 extra e 12 intra-articulares), metade operada. Raramente cabem no conservador; operam-se as desviadas, sobretudo as articulares, em paciente ativo e colaborativo, depois de tratar as lesões mais graves do politrauma.

Resumo das controvérsias

Fundamento

O autor fecha com três mensagens. A primeira: o padrão exato da fratura só é definido com reconstrução 3D padronizada com subtração dos ossos vizinhos. A segunda: a classificação continua sendo um problema, sem uma aceita por todos. A terceira, a mais provocativa: o ombro flutuante, ou lesão do complexo suspensor, é um tema superestimado e cheio de pontos obscuros, que pede revisão do conceito. Como cada cirurgião vê poucas fraturas da escápula, ele defende concentrá-las em centros especializados.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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