Orto Questões

Fraturas e luxações do tálus

Trauma adultoResumo do capítulo27 min de leitura

Vascularização, HAWKINS e VALLIER, incidências de CANALE e BRODEN, redução urgente do corpo luxado, placa lateral contra o varo, processos lateral e posterior, sinal de HAWKINS e a luxação subtalar.

Atualizado em 28/10/2026 · 27 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 66 · Fractures and Dislocations of the Talus, em Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025). Autores do capítulo: David W. Sanders e Clayton I. Inculet.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de trauma adulto do Rockwood adulto, capítulo 66, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo foi escrito a partir do capítulo 66 do Rockwood and Green (10ª edição), na ordem em que as provas cobram o tema. Ele reorganiza as ideias do capítulo em português, explica o porquê de cada regra e mostra, no meio do texto, as questões reais do acervo sobre cada ponto. Os números são os do capítulo.

O tálus cai uma vez por prova, quase todo ano, e a banca gira em torno de poucos blocos: a necrose avascular e o tempo do sinal de HAWKINS, as incidências especiais (CANALE para o colo, BRODEN para a subtalar), a classificação de HAWKINS, agora também em imagem, e o processo lateral (a fratura do snowboarder). Tudo nasce de uma particularidade anatômica: o tálus é quase todo cartilagem, não tem músculo nem tendão inserido e recebe sangue por poucas portas, que o desvio do colo fecha.

Anatomia e vascularização

Cobrança confirmada · 1 questão

O tálus liga mecanicamente o tornozelo, a subtalar e a articulação transversa do tarso, e qualquer lesão dele mexe com as três. A maior parte da superfície é cartilagem; há inserções de cápsula e de ligamentos, mas nenhum músculo ou tendão se fixa nele. Divide-se em corpo, colo e cabeça.

  • Corpo: forma a maior parte do tornozelo pelo domo e a subtalar pela face inferior. É mais largo na frente que atrás, por isso, com o pé em flexão plantar, a pinça pode parecer alargada na radiografia. A face lateral da parte anterior do corpo forma o processo lateral; essa área, coberta pela gordura do seio do tarso e pelo extensor curto dos dedos, não tem cartilagem e é o melhor lugar para a placa.
  • Processo lateral: cunha larga na face inferolateral do corpo, com duas superfícies articulares (com a fíbula e com a parte anterior da faceta posterior do calcâneo). Da ponta nasce o ligamento talocalcâneo lateral; atrás e embaixo fica o talofibular posterior.
  • Processo posterior: tubérculos posteromedial e posterolateral, com o tendão do flexor longo do hálux entre eles. O lateral é maior e aparece no perfil. O processo nasce de um centro de ossificação secundário que se funde por volta dos 12 anos; quando não se funde, forma o os trigonum, presente em 50% dos pés normais.
  • Colo: projeta-se para baixo e desvia 15 a 20 graus para medial em relação ao eixo longo. A face superior não tem cartilagem e é cheia de vasos perfurantes, e é ela que bate no pilão. Na face lateral fixam-se o retináculo inferior dos extensores, o ligamento talocalcâneo interósseo e o talofibular anterior; na medial, fibras do deltoide e dos ligamentos talonaviculares; embaixo e por dentro, a faceta média do calcâneo.
  • Cabeça: toda cartilagem, encaixada no acetábulo do pé (navicular, processo anterior do calcâneo, ligamento mola e inserção do tibial posterior). A talonavicular é a articulação de maior movimento do retropé.

As portas de entrada do sangue

A pouca superfície livre explica por que a necrose avascular é o grande problema da fratura desviada do colo. O sangue chega pela artéria dorsal do pé, pelos ramos deltoides e pelas artérias do seio e do canal do tarso, que juntas formam uma rede anastomótica.

  • A artéria do canal do tarso é ramo da tibial posterior e forma uma alça com a artéria do seio do tarso. Irriga a face inferior do colo e a parte posterior do corpo e, para muitos autores, é a fonte mais importante, porque leva sangue aos dois terços laterais do corpo.
  • A tibial posterior também dá o ramo deltoide, que atravessa o ligamento e irriga a parte medial do corpo, e um plexo posteromedial anastomosado com ramos da fibular, que irriga a parte posterolateral.
  • A tibial anterior (dorsal do pé) irriga a face dorsal do colo e da cabeça; esses ramos costumam ser lesados quando o colo bate no pilão.
  • A face inferior da cabeça recebe ramos distais da alça do tarso.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 66-20. Anatomia vascular do tálus, em vista medial e lateral: tibial anterior, artéria do canal do tarso, ramos deltoides, tibial posterior, artéria do tubérculo posterior e ramos da fibular. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Duas consequências práticas aparecem adiante: com o corpo luxado para posteromedial, o deltoide pode ser a última ligação, e o ramo que passa nele pode ser a última fonte de sangue (daí a osteotomia do maléolo medial, em vez de cortar o ligamento); e a região posterolateral do domo, a mais distante do colo medial, é a mais acometida pela necrose.

Mecanismo, epidemiologia e lesões associadas

Cobrança confirmada · 2 questões

As fraturas do tálus são 2% das fraturas do membro inferior e 5% a 7% das lesões do pé, mas o tálus é o segundo osso do tarso mais fraturado, atrás do calcâneo. Os pacientes são jovens, mais homens; nas mulheres há distribuição bimodal, com lesões de menor energia dos processos lateral e posterior na idade mais avançada.

Como cada parte quebra

  • Colo: queda de altura e acidente automobilístico (46% das fraturas do colo vieram de colisões numa revisão). ANDERSON, em 1919, descreveu o "astrágalo do aviador" pela barra do leme no pé do piloto. Em cadáver, a hiperdorsiflexão sozinha não reproduziu a fratura; ela ocorreu com o tornozelo em dorsiflexão e carga axial aplicada no pé, à frente do tálus, como no pé apoiado no pedal do freio. A tíbia distal bate no colo e cria o traço; mais força, mais cominução.
  • Corpo: mecanismo parecido, só que mais posterior: compressão axial com o tálus subluxado para a frente e o pilão anterior batendo no domo. Numa série inglesa recente, foi a fratura mais comum do tálus (47%), seguida do colo isolado (20%) e do processo lateral isolado (9%); na classificação, o capítulo diz que a mais publicada e comum é a do colo.
  • Cabeça: compressão ou carga axial através da talonavicular, ou cisalhamento por subluxação da talonavicular.
  • Processos: energia menor, com rotação e inversão ou eversão (ver a seção dos processos).

O que vem junto

O paciente com fratura do tálus quase nunca tem só o tálus: 44% eram politraumatizados num centro nível 1, e os bancos nacionais de trauma mostram até 89% de lesões associadas, com lesão de órgão interno em até 20%. A fratura ipsilateral mais associada é a do tornozelo (43%), seguida da do calcâneo (28%). Os maléolos medial e lateral quebram quando o tálus é empurrado para dentro ou para fora da pinça (fratura maleolar em 19% a 43%); calcâneo, pilão tibial e sindesmose também aparecem. Até 20% das fraturas do tálus no trauma são expostas.

A avaliação segue o ATLS, com exame terciário cuidadoso (o politraumatizado tem alta taxa de lesões despercebidas). Articulações luxadas são reduzidas de urgência; se o tálus está muito desviado ou não reduz fechado, a redução cirúrgica, interna ou externa, vira prioridade, para tirar a pressão da pele e do feixe neurovascular. O corpo subluxado para posteromedial pode comprimir o nervo tibial posterior. Pulso assimétrico pede índice tornozelo-braço; abaixo de 0,9, angiotomografia.

Exame e imagem

Cobrança confirmada · 5 questões

Nas lesões de alta energia, edema, deformidade e pele em risco dominam o quadro: a pele é examinada atrás de feridas (fratura exposta) e de tensão, e a fratura luxada é reduzida com urgência. Nas de baixa energia, o quadro é discreto e a lesão passa por entorse: dor ou equimose no seio do tarso sugere fratura do processo lateral; dor posterior ou à flexão plantar, do processo posterior; movimento anormal da talonavicular, da cabeça. Com suspeita clínica e radiografia negativa, pede-se TC ou RM.

Radiografias

A série inicial é a do tornozelo (AP, perfil e encaixe) e do pé (AP e oblíqua).

  • Encaixe: relação do corpo com a pinça e com a subtalar; mostra o processo lateral e lesões osteocondrais do domo.
  • Perfil: o colo costuma cair em dorsiflexão e varo, e é aqui que isso se vê. A faceta posterior do calcâneo deve estar congruente com a face inferior do corpo; a perda dessa relação indica subluxação ou luxação subtalar. A talonavicular também deve estar congruente (a fratura da cabeça passa despercebida com facilidade). Duplo contorno do domo sugere fratura do corpo.
  • AP do pé: talonavicular e coluna medial; a oblíqua mostra o processo lateral e o mediopé.

CANALE e BRODEN

Duas incidências especiais servem antes da cirurgia e, sobretudo, na fluoroscopia, para julgar a redução.

Incidências especiais do tálus
IncidênciaComo se fazPara que serve
CANALE e KELLYpé apoiado no chassi, pronado 15 graus, raio inclinado 75 grausredução e comprimento medial do colo (evita o varo)
BRODENdecúbito dorsal, tornozelo em rotação interna de 30 a 45 graus, flexão neutra, imagens em 10, 20, 30 e 40 grausfaceta posterior da subtalar e fragmentos presos na articulação

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 66-11. Posição do pé na incidência de CANALE e KELLY para o colo do tálus. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A pronação gira o colo, que é desviado para medial, até ele aparecer no eixo longo. Por isso CANALE é a incidência contra o varo: a tabela de armadilhas do capítulo diz que o uso correto dela permite avaliar o alinhamento da coluna medial. BRODEN é, para o capítulo, o melhor exame simples para a subtalar.

TC e RM

A TC é rotina no planejamento: mostra local, tamanho, desvio e cominução, subluxações sutis, e sobretudo fragmentos presos na subtalar, que mantêm a redução ruim e destroem a cartilagem se não forem tirados. A reconstrução 3D ajuda, mas pode apagar fragmentos pequenos. A RM tem pouco papel na fase aguda; serve para a fratura oculta ou de estresse com radiografia normal, para lesões osteocondrais e para a necrose precoce, que ela mostra a partir da segunda semana, contra 6 a 8 semanas da radiografia.

Classificação

Cobrança confirmada · 1 questão

HAWKINS

Em 1970, HAWKINS classificou as fraturas do colo em três tipos e mostrou que as complicações (necrose, pseudartrose, consolidação viciosa, artrose e infecção) aumentam com o tipo; o tipo IV entrou em 1978. A lógica é contar as articulações do tálus fora do lugar.

Classificação de HAWKINS para a fratura do colo do tálus
TipoArticulação fora do lugarNecrose avascular no capítulo
Inenhuma (sem desvio)baixa, até 13%
IIsubtalar subluxada ou luxada; tornozelo e talonavicular preservados42% (HAWKINS), 50% (CANALE); 0% a 20% com a fixação moderna
IIIsubtalar e tornozelo: corpo extruso, em geral para posteromedial51% a 75% (27% em MACEROLI, 41% em VALLIER, 71,4% em CHOI para III e IV)
IVsubtalar, tornozelo e talonavicular (pan-talar)sequela comum

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 66-16. Tipos de HAWKINS: I sem desvio; II com luxação subtalar; III com luxação do tornozelo e da subtalar; IV com incongruência da talonavicular, do tornozelo e da subtalar. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).
  • Tipo I: verdadeiro é raro quando se faz TC; só ele permite tratamento sem cirurgia, e a TC tem de confirmar que fratura e articulações estão anatômicas.
  • Tipo II: o mais comum, porque o mecanismo quase sempre desvia o colo e subluxa a subtalar (medial na inversão, lateral na eversão).
  • Tipo III: o corpo vai mais para posteromedial. O deltoide pode prendê-lo ou estar roto, deixando o fragmento solto. O corpo comprime o tendão tibial posterior e o nervo, a artéria e a veia tibiais posteriores; se ficar preso, a redução fechada é impossível. Muitas são expostas (até 50% dos tipos III e IV).
  • Tipo IV: cominuições graves com o mesmo prognóstico também entram aqui.

VALLIER: IIA e IIB

VALLIER dividiu o tipo II em IIA (subtalar subluxada) e IIB (subtalar luxada). Em 81 fraturas do colo, nenhum IIA teve necrose (como o tipo I), enquanto 25% dos IIB tiveram necrose com colapso; a necrose com colapso nunca ocorreu sem luxação subtalar. A divisão também guia a urgência: o IIA sem partes moles em risco recebe tala; o IIB e o III, redução urgente.

OTA/AO e o corpo

O tálus é o osso 81: 81-A avulsões (A1), processos (A2) e cabeça (A3); 81-B colo, pelo raciocínio de HAWKINS (B1 sem desvio, B2 com incongruência subtalar, B3 com subluxação da subtalar e do tornozelo); 81-C corpo (C1 tornozelo e domo, C2 subtalar, C3 os dois). A cominução é qualificador e, em duas grandes séries, previu o resultado de forma independente.

O corpo responde por 13% a 20% das lesões do tálus. Separa-se do colo pelo traço: no corpo, a linha dorsal vai para trás do processo lateral e sai na faceta posterior; no colo, sai à frente dela. As do corpo são de cisalhamento (sagital ou coronal) ou de compressão.

Tratamento da fratura do colo

Cobrança confirmada · 2 questões

Quem opera

A fratura do colo desviada (HAWKINS II a IV) é cirúrgica. O sangue do tálus é precário e se rompe com o desvio; a redução anatômica estável permite a reperfusão e o movimento precoce sem carga, bom para a cartilagem. O colo é periarticular: SANGEORZAN mostrou que desvios residuais de apenas 2 mm já mudam o contato da subtalar, e o colo que fica em dorsiflexão e varo leva a adução do antepé, perda do movimento subtalar e até cavo rígido. Fragmentos soltos na subtalar, se ficarem, a destroem rápido. Só o tipo I verdadeiro (confirmado por TC) e o paciente sem condição cirúrgica ficam sem cirurgia: gesso sem carga por 6 semanas, começando em equino gravitacional e trazido aos poucos para neutro, com carga progressiva a partir de 10 a 12 semanas; há risco de perda da redução e de pseudartrose.

A redução é urgente; a fixação, nem sempre

O capítulo resume: o momento da fixação definitiva é discutível, a redução imediata do corpo do tálus, não.

  • IIA sem pele em risco: tala curta acolchoada em leve flexão plantar e fixação programada conforme as partes moles.
  • IIB e III: deformidade e pele em risco; redução urgente com analgesia e sedação adequadas. A técnica é levar o pé (com a cabeça) até o corpo: joelho fletido para relaxar o tríceps sural e pé em leve flexão plantar; a dorsiflexão excessiva desfaz a redução, por isso a imobilização fica em leve equino.
  • III com corpo posteromedial: no centro cirúrgico, joelho fletido, tração longitudinal e pressão manual para devolver o corpo sob o pilão. O fragmento costuma ficar em casa de botão na cápsula ou na fáscia. Não insistir: múltiplas tentativas lesam partes moles, osso e cartilagem; a legenda da figura 66-21 diz que a redução aberta é necessária se uma única tentativa fechada falhar. O fixador externo ou o distrator femoral podem só esticar as estruturas posteromediais e piorar a casa de botão. A saída é a redução aberta, em geral por incisão posteromedial separada, planejada pensando nas incisões futuras, com fixação no mesmo ato se o cirurgião estiver familiarizado.

Dois acessos e a ordem da fixação

A redução aberta com fixação interna é o padrão para toda fratura desviada do colo. O capítulo recomenda dois acessos, para ver a redução dos dois lados e corrigir rotação e angulação, com ponte de pele de 5 a 7 cm e retalhos de espessura total.

  • Anteromedial: da ponta do maléolo medial (ou da linha articular) até a naviculocuneiforme, entre os tendões tibial anterior e tibial posterior. Classicamente é feito primeiro quando não há cominução do colo. A cápsula talonavicular, aberta para o parafuso, é reparada depois. Situado um pouco mais posterior, permite a osteotomia do maléolo medial.
  • Anterolateral: do ângulo anterolateral do tornozelo em direção ao quarto metatarso; mostra o colo e o tornozelo e corrige rotação e cominução. Um fragmento cortical no ângulo anterolateral, à frente do processo lateral, costuma guiar a redução. Cuidado com os vasos do seio do tarso.
  • Seio do tarso: um pouco mais baixo, da ponta da fíbula em direção ao quarto raio, quando a fratura envolve o processo lateral e o tálus inferior; dá acesso à subtalar e aos fragmentos soltos.

Osteotomia do maléolo medial. Com o corpo posteromedial preso só pelo deltoide, a osteotomia preserva o deltoide e pode proteger a única fonte de sangue que restou ao corpo. Técnica: duas brocas de 2,5 mm paralelas antes do corte, afastador protegendo o tibial posterior, corte transversal com microsserra completado com osteótomo, entrando na articulação no ombro do maléolo; fixação com parafusos de posição ou placa antideslizante.

Fixação: comprimento antes de compressão

  • Sem cominução: parafuso de tração de 3,5 ou 4,0 mm pela face medial da cabeça, escareado, no terço medial; um segundo parafuso lateral, pelo ombro do colo e processo lateral. A fixação percutânea serve quando a redução fechada ficou anatômica e a fratura não é cominutiva. Parafusos de posterior para anterior e a placa anteromedial foram cerca de 25% mais resistentes que os de anterior para posterior em cadáver.
  • Com cominução ou processo lateral instável: primeiro a placa lateral (minifragmentos ou placa própria do colo), que dá uma construção estável em comprimento; depois, com o pé em abdução, um parafuso medial totalmente rosqueado, de posição, sem compressão, escareado para não bater no navicular. A compressão medial encurtaria o colo e levaria ao varo.
  • Coluna medial instável: placa em ponte de 2,0 ou 2,4 mm do colo ao cuneiforme medial ou ao primeiro metatarso. A placa medial direta é subótima: o colo medial é curto, e a placa bate no deltoide, no maléolo e na talonavicular. As duas exigem retirada antes da carga.
  • Defeitos: enxerto ou substituto ósseo nas áreas de cominução (sem apoio, o colo encurta pelo lado medial); cautela com aloenxerto na fratura exposta. Fragmentos osteocondrais: parafusos sem cabeça ou pinos absorvíveis.

Na fluoroscopia final: perfil, AP, CANALE e BRODEN, conferindo que o colo não ficou em varo nem em dorsiflexão.

Fraturas do corpo e da cabeça

Possível cobrança

Corpo. A maioria é cirúrgica: o tornozelo e a talonavicular são articulações muito congruentes, e qualquer desvio acelera a artrose. Só as incompletas, sem desvio ou de estresse ficam com gesso e sem carga. O acesso é o do colo, com a incisão medial mais posterior para a osteotomia do maléolo medial (o algoritmo dos autores osteotomiza quando o traço é posterior e usa dois acessos quando é anterior). A redução vai de posterior para anterior, com o pé em flexão plantar; defeitos maiores que 1 cm³ recebem enxerto da tíbia distal (2 a 3 cm³ por trepanação). Fixação com parafusos de minifragmentos (2,0 a 2,7 mm) escareados; fragmentos de cartilagem com pouco osso recebem pinos absorvíveis, pelo menos dois por fragmento. Repara-se o talofibular anterior se estiver roto e testa-se a sindesmose. Nas fraturas expostas do tálus, uma série mostrou 41% de infecção, maior com o grau de GUSTILO, a idade e o tabagismo.

Cabeça. Rara e muitas vezes despercebida (duplo contorno na talonavicular). A TC é indispensável. Sem desvio, gesso curto sem carga, com controle em 6 a 8 semanas; fragmento pequeno preso na talonavicular, retirada; fragmento grande desviado ou talonavicular instável, cirurgia por acessos medial e lateral, parafusos de minifragmentos e, se a coluna medial ficar instável, fios ou placa em ponte. O desvio residual leva à artrose rápida da talonavicular.

Processos lateral e posterior

Cobrança confirmada · 5 questões

Processo lateral: a fratura do snowboarder

Mecanismo: carga axial com o retropé em eversão e o tornozelo em dorsiflexão, reproduzido em cadáver; outro estudo obteve fraturas semelhantes com carga axial, rotação externa e inversão, também em dorsiflexão. Com mais energia, o fragmento cresce e cominui, e a subtalar pode ficar incongruente ou instável. A clínica é a de uma entorse com dor no seio do tarso; a incidência do encaixe mostra a fratura (figura 66-5), e a TC ou a RM confirmam quando a radiografia é negativa.

  • Sem cirurgia: fragmento pequeno, com pouco ou nenhum desvio: carga protegida e movimento precoce, com controle radiográfico.
  • Cirurgia: fragmento maior que 1 cm ou desvio da subtalar; a instabilidade subtalar criada por fragmento grande é indicação absoluta. Fragmentos pequenos presos na subtalar podem ser retirados sem criar instabilidade. A artrodese subtalar primária na cominução irreconstruível tem papel limitado.
  • Técnica: decúbito lateral, incisão de cerca de 3 cm no seio do tarso, parafusos de 2,0, 2,4 ou 2,7 mm ou placa de colo que se apoia no processo lateral; reparo do talofibular anterior.
  • Resultados: VALDERRABANO, 20 praticantes de snowboard com AOFAS médio de 93; VON KNOCH, 65% de retorno ao nível prévio; ROSS, melhor resultado com a fixação precoce das desviadas.

Processo posterior e tubérculo medial

O processo posterior quebra por compressão axial em flexão plantar extrema, esmagado entre a tuberosidade posterior do calcâneo e o pilão posterior; ou por tração do talofibular posterior na inversão; e por estresse na flexão plantar repetida de quem chuta ou dança. É preciso diferenciá-lo do os trigonum (figura 66-6C). Pequeno ou sem desvio, gesso; com a faceta posterior da subtalar envolvida, cirurgia em decúbito ventral, por via posteromedial (mobilizando o flexor longo do hálux, com o feixe neurovascular medial a ele) ou posterolateral (entre o flexor longo do hálux e os fibulares), com parafusos de tração escareados, sem placas (os fragmentos são cartilagem), deixando o flexor longo do hálux livre. O tubérculo medial quebra menos, por avulsão do ligamento tibiotalar posterior em dorsiflexão e pronação, impacto do sustentáculo na supinação ou trauma direto, e quase sempre só aparece na TC.

Nas fraturas dos processos posterior e lateral, o capítulo indica 6 semanas sem carga seguidas de carga protegida e movimento.

Tálus extruso

Relevância clínica

Lesão rara de fraturas expostas do tornozelo, em que o tálus sai pela ferida, preso por um pouco de partes moles ou totalmente solto. Os resultados são ruins (necrose, artrose, infecção), e a conduta segue os princípios da fratura exposta. Com partes moles presas, reduzir imediatamente no centro cirúrgico, junto com a irrigação e o desbridamento, e estabilizar com fixador externo e fios na subtalar e na talonavicular. Na maior série (SMITH), 27 reimplantes: dos 19 seguidos por pelo menos 12 meses, só 2 infectaram e 7 precisaram de nova cirurgia. O tálus que chega separado e íntegro pode ser irrigado e reimplantado, ou guardado alguns dias numa bolsa abdominal (LINDVALL). Tálus ausente, muito contaminado ou cominutivo: desbridamento, espaçador de cimento com antibiótico e fixador externo, e reconstrução tardia por técnica de MASQUELET; raramente, amputação de SYME ou abaixo do joelho.

Pós-operatório e necrose avascular

Cobrança confirmada · 3 questões

O pós-operatório é igual para todas as fraturas do tálus: tala em posição quase plantígrada até a pele cicatrizar, bota removível com 2 semanas e movimento de tornozelo e subtalar, sem carga por 10 a 12 semanas, depois órtese e fisioterapia, com radiografias seriadas para consolidação e necrose.

O sinal de HAWKINS

Com o pé sem carga, os ossos do pé e a tíbia distal ficam osteopênicos. O osso vivo participa dessa reabsorção; o morto, não. HAWKINS escreveu que o tempo de reconhecer a necrose é entre a sexta e a oitava semana: o AP do tornozelo sem gesso mostra ou não atrofia subcondral no domo, e a atrofia subcondral exclui a necrose. É o sinal de HAWKINS: uma faixa radiotransparente sob o domo (figura 66-38), altamente específica de viabilidade. A ausência do sinal não garante a necrose, e o acometimento do corpo é variável (há sinal parcial). A necrose aparece como aumento de densidade do corpo no AP e no encaixe e, segundo CANALE, em geral não se manifesta antes de 12 semanas.

RM, colapso e o tempo longo

A RM é o exame mais sensível: o primeiro achado é o edema medular (hipossinal em T1, sinal aumentado em T2), presente desde a segunda semana do infarto; estudos detectaram necrose em 3 semanas. A região mais acometida é a posterolateral do domo, a mais distante do colo medial. Mesmo assim, o diagnóstico precoce não muda o tratamento da fratura do colo.

A necrose pode surgir a qualquer momento até 36 meses após a fixação, e o tálus muitas vezes consolida apesar dela; a necrose pode regredir e remodelar até 36 meses. Prolongar a restrição de carga não se mostrou útil (se o sinal de HAWKINS começa a aparecer em 3 meses, pode-se segurar mais um mês num paciente responsável). O domo esclerótico aguenta carga; o problema vem na revascularização, meses ou anos depois, quando a carga colapsa o domo (avaliado por TC, figura 66-39). A deformidade residual mais comum é o equinovaro, e a reconstrução costuma ser a artrodese tibiotalocalcaneana, se o colo consolidou.

Outras complicações e resultados

Relevância clínica

Partes moles e infecção

Qualquer tensão de pele pede redução imediata e tala; atraso na redução ou no movimento leva à necrose rápida da pele. Incisões longe da pele ruim e das flictenas, retalhos de espessura total, e fixador externo temporário se a pele estiver muito ruim e o tálus reduzir fechado. Deiscência profunda: desbridamento e novo fechamento, ou curativo a vácuo com desbridamentos a cada 48 a 72 horas, enxerto de pele e, com osso, articulação ou tendão expostos, retalho livre. Na osteomielite, o corpo avascular funciona como grande sequestro: o antibiótico não penetra no osso morto, então o desbridamento é agressivo, com espaçador de cimento com antibiótico e 6 semanas de antibiótico venoso guiado por cultura.

Pseudartrose, consolidação viciosa e artrose

  • Retardo e pseudartrose do colo: raros. Retardo é a falta de consolidação após 6 meses; a pseudartrose fica entre 0% e 4% (média de 2,5%). Sem necrose ou artrose, revisão com enxerto; com necrose, enxerto em bloco e artrodeses.
  • Consolidação viciosa em varo: PETERSON 32%, LORENTZEN 28%, ambos com função ruim. A coluna medial curta força a subtalar em varo, com supinação fixa do antepé e sobrecarga lateral. A causa é não considerar a cominução medial; a prevenção é a placa lateral com o parafuso medial de posição. Tratamento: osteotomia de abertura medial do colo se não há artrose; senão, artrodese subtalar com osteotomias.
  • Consolidação viciosa dorsal: a hiper-redução de uma cominução dorsal tira o ângulo de declinação, com impacto anterior do tornozelo e, de novo, varo do retropé.
  • Artrose pós-traumática: 46% a 97% após fratura do colo, com ou sem necrose; a rigidez do tornozelo e da subtalar é esperada. Tratamento inicial conservador; infiltrações guiadas apontam a articulação doente. Artrodese isolada do tornozelo, da subtalar ou da talonavicular, ou tibiotalocalcaneana quando tornozelo e subtalar estão comprometidos, com aloenxerto de cabeça femoral e haste retrógrada nos colapsos; a artrodese de BLAIR (enxerto deslizante da tíbia distal no colo e cabeça) é uma alternativa; espaçadores de tântalo e a prótese total do tálus são opções de salvamento ainda sem seguimento longo.
  • Resultados: SANDERS mostrou 25% de reoperação em 1 ano e 50% em 10 anos após a fixação das fraturas desviadas; as cirurgias secundárias mais comuns são a artrodese subtalar ou tríplice, e o motivo mais comum é a artrose, ligada à cominução, aos tipos III e IV e às lesões ipsilaterais.

Luxação subtalar

Possível cobrança

A luxação subtalar (peritalar, subastragalina ou talocalcaneonavicular) é a luxação simultânea das articulações talocalcânea e talonavicular, com o tálus na pinça. É rara (menos de 1% das luxações). O nome vem da posição do pé em relação ao tálus.

Luxação subtalar medial e lateral
MedialLateral
Frequênciacerca de 75%17% a 26%
Mecanismoinversão forçada, muitas vezes baixa energia ("pé do basquete", GRANTHAM)eversão forçada com carga axial, alta energia
Por queligamentos laterais mais fracosprecisa romper os mediais, mais fortes
Radiografiacabeça do tálus acima do navicular no perfil; navicular medial no APcabeça abaixo do navicular no perfil; navicular lateral
O que bloqueiaretináculo dos extensores, extensor curto dos dedos, cápsula, fibulares, impacto talonaviculartibial posterior, flexor longo do hálux, flexor longo dos dedos
Falha da redução fechadacerca de 10%15% a 20%

A estabilidade da subtalar vem da arquitetura (a cabeça no acetábulo do pé) e do complexo do ligamento interósseo (raízes do retináculo inferior dos extensores, ligamento cervical e talocalcâneo interósseo). Lateralmente, os talocalcâneos resistem à inversão; medialmente, a talonavicular, o ramo tibiocalcâneo do deltoide e o ligamento mola resistem à eversão.

Tratamento. A maioria reduz fechada, com sedação profunda e joelho a 90 graus: acentuar a deformidade com tração e depois corrigi-la (na medial, inversão para destravar o calcâneo, depois eversão com tração e pressão na cabeça; na lateral, dorsiflexão e eversão, depois inversão e flexão plantar). Após a redução, TC para fragmentos osteocondrais e fraturas do processo lateral, da cabeça e do sustentáculo (BIBBO: 88% de lesões associadas). Estável, sem fixação: 2 semanas sem carga, carga em bota por 4 semanas e movimento a partir de 6 semanas. Irredutível: redução aberta urgente (anteromedial na medial, às vezes pelo seio do tarso; na lateral, o tibial posterior preso pode exigir varo extremo, abertura do retináculo dos flexores e, em último caso, secção com reparo); subtalar instável recebe fios de 2,0 mm (mais finos entortam ou quebram), retirados com 4 semanas.

Resultados. Rigidez é comum, artrose terminal é rara nas estáveis (PERUGIA: 1 artrodese em 45). Pior com exposição e fraturas periarticulares; a energia importa mais que a direção. Necrose de 0% a 10% nas fechadas e até 50% nas expostas. Nas de alta energia, BIBBO encontrou 89% de artrose radiográfica em 5 anos.

Controvérsias e o que falta saber

Fundamento

O grande debate é o momento da cirurgia. Estudos clássicos defendiam a fixação de emergência do colo para reduzir complicações de partes moles e a necrose; comparações retrospectivas de fixação precoce e tardia não mostraram diferença de resultado, função ou complicações. A conclusão do capítulo: o momento depende da gravidade da lesão, não da tentativa de prevenir a necrose. Sem ferida aberta, contaminação, necrose de pele ou comprometimento neurovascular, o colo pode ser reduzido e fixado quando houver os recursos ideais. O que não espera é a redução do corpo luxado.

As taxas de necrose e de artrose continuam altas apesar dos avanços, e as opções para a necrose terminal ainda sacrificam articulações. A impressão 3D e os implantes personalizados, como a prótese total do tálus, são promissores, mas sem resultado de longo prazo.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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