Orto Questões

Osteogênese imperfeita

Ortopedia pediátricaResumo do capítulo34 min de leitura

Colágeno tipo I com duas cadeias alfa-1 (COL1A1, cromossomo 17) e uma alfa-2 (COL1A2, cromossomo 7) e glicina a cada terceira posição; tipo I quantitativo com esclera azul, tipos II a IV qualitativos e quantitativos; SILLENCE: I e IV autossômicos dominantes, II letal e de fragilidade extrema, III o mais grave que sobrevive, IV com esclera normal, A e B pelos dentes; tipo V (IFITM5) com calo hiperplásico que simula osteossarcoma, membrana interóssea calcificada e luxação da cabeça do rádio; vértebras bicôncavas, wormianos, calcificações em pipoca; escoliose torácica, mais nos tipos III (89%) e IV (61%); fratura imobilizada só até a dor passar, pseudartrose incomum; olécrano no tipo I; SOFIELD-MILLAR, BAILEY-DUBOW e FASSIER-DUVAL; bisfosfonatos aumentam a massa óssea; maus-tratos no diferencial.

Atualizado em 03/11/2026 · 34 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 38 · Metabolic and Endocrine Disorders of Bone (seção Osteogenesis Imperfecta), em Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª edição (2021), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 34). Autores do capítulo: Harry K.W. KIM e Mouin G. SEIKALY.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de ortopedia pediátrica do Tachdjian, capítulo 38, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo é inspirado na seção de osteogênese imperfeita do capítulo 38 (Metabolic and Endocrine Disorders of Bone) do Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (2021), escrito por Harry K.W. KIM e Mouin G. SEIKALY, e completado pela seção correspondente do capítulo 34 do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., de Benjamin W. SHEFFER. As páginas citadas são as impressas.

A osteogênese imperfeita (OI) é uma doença do colágeno tipo I, a proteína que dá ao osso a capacidade de dobrar sem quebrar. Quando falta colágeno, ou quando ele é feito torto, o osso fica quebradiço, a esclera fica fina e azulada, a dentina fica opalescente e o ouvido médio ossifica mal. Quase tudo o que a prova pergunta sai dessa frase: o que é o defeito molecular, como ele se distribui nos tipos de SILLENCE e o que o ortopedista faz com ossos que fraturam e encurvam a vida toda.

A banca cobra o tema por cinco portas, sempre as mesmas:

  • a molécula: a glicina a cada terceira posição, as duas cadeias alfa-1 e a alfa-2, os genes COL1A1 e COL1A2;
  • a classificação de SILLENCE: herança, cor da esclera, dentes, gravidade e o defeito quantitativo contra o qualitativo;
  • os tipos novos, sobretudo o tipo V (IFITM5) com o calo hiperplásico que simula osteossarcoma;
  • a imagem e a coluna: vértebras bicôncavas, wormianos, escoliose torácica e mais prevalente nos tipos III e IV;
  • o tratamento: fratura imobilizada por pouco tempo, osteotomias de SOFIELD-MILLAR, hastes telescópicas (BAILEY-DUBOW, FASSIER-DUVAL) e bisfosfonatos.

Em toda criança com fraturas repetidas, o diferencial com maus-tratos fica no fundo da cena, e erra-se para os dois lados.

O colágeno tipo I: as cadeias, os genes e a glicina

Cobrança confirmada · 1 questão

O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 38, p. 1944), começa pelo básico: a OI é um grupo heterogêneo de doenças genéticas raras, uma displasia esquelética das síndromes ligadas ao colágeno, com mais de 280 mutações descritas e prevalência em torno de 1 para 15.000 a 20.000 nascidos vivos.

A molécula

O colágeno tipo I (COL1) é o colágeno estrutural do osso, da pele, dos tendões, da dentina e da esclera. Essa lista é a chave da clínica: cada tecido que depende do COL1 adoece de algum jeito, e por isso a OI junta fratura, esclera azul, dente opalescente, frouxidão ligamentar e pele fina.

A molécula é uma tripla hélice com duas cadeias alfa-1 e uma cadeia alfa-2. As precursoras são sintetizadas no retículo endoplasmático rugoso do fibroblasto:

  • a pro-alfa-1(I) é codificada pelo COL1A1, no braço longo do cromossomo 17;
  • a pro-alfa-2(I) é codificada pelo COL1A2, no braço longo do cromossomo 7.

A montagem da hélice começa na extremidade carboxiterminal e corre em direção à aminoterminal. Chaperonas do retículo ajudam a alinhar as cadeias: GRP78, Serpin H1 e o complexo de 3-hidroxilação da prolina, formado por CRTAP, P3H1 e PPIB. Guarde esses três nomes, porque são exatamente os genes dos tipos recessivos VII, VIII e IX.

Por que a glicina

Para a hélice se enrolar, cada cadeia precisa de um resíduo de glicina a cada terceira posição, no padrão Gly-X-Y. A glicina é o menor aminoácido, o único que cabe no centro apertado da hélice, e é nesses resíduos que ocorre a ligação cruzada das três cadeias (p. 1944; Fig. 38.16, p. 1945). Trocar uma glicina por um aminoácido maior empurra as cadeias para fora, a hélice não fecha direito e o colágeno sai defeituoso.

Daí vêm duas regras que a prova adora:

  • substituições de glicina dão doença mais grave do que a simples falta de colágeno (haploinsuficiência) (p. 1949);
  • quanto mais perto da extremidade carboxiterminal estiver o erro, pior, porque a hélice começa a se enrolar por ali e o defeito contamina todo o resto da molécula; os casos letais tendem a ter o defeito na carboxila das cadeias pro-alfa-1 ou pro-alfa-2 (p. 1949).

Quantitativo contra qualitativo

A Fig. 38.16 (p. 1945) desenha os dois mecanismos que organizam toda a classificação:

  • Defeito quantitativo (tipo IA): um códon de parada num dos alelos do COL1A1 faz com que aquele alelo não produza RNA mensageiro. A pessoa fabrica cadeias pro-alfa-1 normais em cerca de 50% da quantidade normal e, portanto, cerca de metade do colágeno. O colágeno que existe é eletroforeticamente normal; não há colágeno anormal detectável. É a forma leve.
  • Defeito com colágeno mutante: saltos ou substituições de glicina no COL1A1 ou no COL1A2 produzem cadeias que se ligam pior. O procolágeno mutante costuma ser feito em menor quantidade, de modo que o defeito é qualitativo e quantitativo ao mesmo tempo. É o defeito típico dos tipos II, III e IV de SILLENCE.

O texto (p. 1945) resume: mais de 85% dos casos se associam a mutações autossômicas dominantes em COL1A1, COL1A2 e IFITM5, e o defeito fundamental em cerca de 90% é a redução absoluta do COL1 normal ou sua substituição por um colágeno mutante, também em menor quantidade.

Os dois defeitos do colágeno tipo I (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, Fig. 38.16 e p. 1945 e 1949)
AspectoDefeito quantitativoDefeito qualitativo (com quantitativo)
Mutação típicacódon de parada prematuro num alelo do COL1A1 (alelo nulo)substituição ou deleção, em geral de glicina, no COL1A1 ou COL1A2
Colágeno produzidonormal na estrutura, cerca de 50% da quantidadeestruturalmente anormal e, em geral, em menor quantidade
Eletroforesecolágeno normal, sem banda anormalcolágeno anormal
Tipo de SILLENCEI (IA e IB)II, III e IV
Gravidadelevemoderada a letal; pior se o erro estiver na carboxila
Escleraazul (camada fina de colágeno)normal no IV, apesar do colágeno anormal

O diagnóstico molecular clássico usa eletroforese do colágeno de fibroblastos dérmicos cultivados (p. 1949), e, quando o diagnóstico importa (como no suspeito de maus-tratos), a biópsia de pele com cultura de fibroblastos pode ser necessária (p. 1956). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 34, p. 1220), concorda: não há exame laboratorial específico além da biópsia de pele e do DNA.

A patologia: osso imaturo e turnover alto

Fundamento

Entender o osso da OI explica por que ele fratura, por que consolida e por que às vezes forma calo demais. O Tachdjian (cap. 38, p. 1945 e 1946) descreve mais osso imaturo (woven) que o normal (ainda mais no tipo II), trabéculas finas e desorganizadas, esponjosa escassa e matriz reduzida, com abundância relativa de osteócitos. Osteoclastos numerosos, com mais superfícies de reabsorção, e osteoblastos volumosos em seams largos de osteoide indicam turnover aumentado, confirmado pela tetraciclina. As lamelas são em malha no tipo V e em escama de peixe no tipo VI. A cortical é de osso imaturo, sem sistemas de HAVERS; a fise é larga, irregular e sem colunas.

No calo de fratura, o componente endosteal é sobretudo cartilaginoso e a reação periosteal é abundante: a semente do calo hiperplásico do tipo V. Nos graves, os ossos longos são delgados, com corticais extremamente finas, e as epífises cartilaginosas ficam desproporcionalmente grandes; na coluna, escoliose e vértebras em cunha; no crânio, ossos wormianos (p. 1946).

O raciocínio clínico que sai disso: o bisfosfonato faz sentido porque a reabsorção osteoclástica está aumentada, e o osso consolida (há osteoblastos de sobra), mas com osso de má qualidade.

A classificação de SILLENCE

Cobrança confirmada · 5 questões

A origem e o que mudou

Em 1979, SILLENCE e DANKS separaram quatro tipos de OI a partir de quatro achados clínicos: displasia esquelética, dentinogênese imperfeita, escleras azuladas e otosclerose (Tachdjian, cap. 38, p. 1946). Na descrição original, os tipos I e IV eram autossômicos dominantes e os tipos II e III, autossômicos recessivos (p. 1947).

A genética molecular corrigiu esse quadro: hoje se sabe que a transmissão autossômica recessiva verdadeira é rara (p. 1947). A Tabela 38.7 do mesmo capítulo (p. 1950) já lista os tipos II e III como autossômicos dominantes, quase 100% de novo, por mutações em COL1A1 ou COL1A2. O "recessivo" do quadro original era, na maior parte, mutação nova dominante em criança de pais sadios. Os genes realmente recessivos apareceram depois, nos tipos novos.

COLE propôs modificar a classificação de SILLENCE depois de analisar o defeito do colágeno em 200 pacientes, e a descoberta de defeitos não colágenos levou ao acréscimo dos tipos V a XI: o tipo V é dominante, os tipos VI a XI são recessivos, e juntos somam cerca de 5% dos casos (p. 1947).

A tabela que cai

Classificação de SILLENCE (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, Tabela 38.5, p. 1948, adaptada de SILLENCE e DANKS)
TipoHerança (original)DentesFragilidadeDeformidadeEstaturaSurdez pré-senilPrognósticoEsclerasColunaIncidência
IAADnormaisvariável, menor que nos outrosmoderada2% a 3% abaixo da média40%regulardistintamente azuis a vida todaescoliose e cifose em 20%1/30.000
IBADdentinogênese imperfeitavariável, menormoderada2% a 3% abaixo40%regulardistintamente azuis a vida todaescoliose e cifose em 20%1/30.000
IIARdesconhecidos (morte perinatal)muito extremaosso esmigalhado, fêmures em acordeãodesconhecidamorte perinatalazuis1/62.000 nascidos vivos
IIIARdentinogênese imperfeitagraveencurvamento progressivo dos ossos longos e da colunaos menores de todosnão deambula, cadeirante, pode morrer na terceira décadaazuladas ao nascer, clareiam, brancas no adultocifoescoliosemuito rara
IVAADnormaismoderadamoderadabaixabaixa frequênciaregularnormaiscifoescoliosedesconhecida
IVBADdentinogênese imperfeitamoderadamoderadabaixabaixa frequênciaregularnormaiscifoescoliosedesconhecida

A tabela tem colunas extras no livro: o crânio (wormianos nos tipos I, III e IV; ausência marcada de ossificação no II; hipoplásico no III e no IV, mais ossificado no III que no II) e o arco senil precoce no tipo I.

Três chaves para ler a tabela sem decorar cada célula:

  • A letra A ou B é só o dente. A = dentes normais; B = dentinogênese imperfeita. Isso vale para o tipo I e para o tipo IV. O tipo III tem dentinogênese, o II não tem dente para examinar.
  • A esclera acompanha a quantidade de colágeno. Tipo I (pouco colágeno, mas normal): azul a vida toda. Tipo IV (colágeno anormal em espessura normal): normal. Tipo III: azulada ao nascer e clareia com a idade. Tipo II: azul.
  • A gravidade sobe assim: I < IV < III < II. O tipo II é o de fragilidade muito extrema e morte perinatal; o III é o mais grave entre os que sobrevivem, o menor de todos, cadeirante; o IV é moderado; o I é o mais leve.

Quantitativo, qualitativo e a esclera

A pergunta clássica junta o tipo de defeito com a cor da esclera. O texto do Tachdjian (p. 1949) diz que o tipo I resulta de códon de parada prematuro num alelo do COL1A1, um defeito quantitativo, enquanto os tipos II a IV têm defeito qualitativo e quantitativo. A Tabela 38.7 (p. 1950) descreve o tipo I como "diminuição da quantidade de colágeno normal" (alelo nulo do COL1A1) e o tipo IV como "colágeno suficiente, porém de má qualidade". Há, portanto, uma pequena diferença de ênfase dentro do mesmo capítulo: o texto e a Fig. 38.16 chamam o defeito do IV de qualitativo e quantitativo; a tabela enfatiza a qualidade. As questões seguem o texto.

O porquê da cor (p. 1947): a esclera azul resulta da camada fina de colágeno, por produção diminuída de COL1, que deixa transparecer a coroide. A esclera de cor normal em quem tem OI tem espessura normal, mas colágeno anormal. Quer dizer: azul é sinal de pouco colágeno, não de colágeno ruim.

A herança

Para orientar a família, o que importa é a herança. Pelo quadro de SILLENCE, os tipos I e IV são autossômicos dominantes. Pela Tabela 38.7 (p. 1950), o tipo I é dominante com 60% de casos de novo; o II e o III, dominantes quase 100% de novo; o IV, dominante com 60% de novo. Na prática, a família de uma criança com tipo I pode ter um dos pais afetado, e a de uma criança com tipo II quase nunca tem.

O risco de recorrência no tipo II, mesmo sendo mutação nova, não é zero: casais com um feto tipo II têm 2% a 7% de risco de outro afetado, por mosaicismo em um dos pais (p. 1954).

A gravidade

O tipo II tem fragilidade "muito extrema": ossos esmigalhados, fêmures em acordeão, ausência marcada de ossificação do crânio e morte perinatal. A Tabela 38.7 (p. 1950) acrescenta que a maioria morre no primeiro ano por insuficiência respiratória, hemorragia cerebral e pulmões pouco desenvolvidos, e subdivide o tipo II pelo aspecto radiográfico:

  • IIA: ossos longos largos e curtos, costelas largas e em rosário;
  • IIB: ossos longos largos e curtos, costelas finas com pouco ou nenhum rosário;
  • IIC: ossos longos finos e mais longos, costelas finas e em rosário.

A versão do Campbell

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 34, Tabela 34.6, p. 1220), traz uma versão simplificada útil para revisar:

SILLENCE simplificado (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 34, Tabela 34.6, p. 1220)
TipoO que o Campbell destaca
Io mais leve; aparece na idade pré-escolar (tarda); surdez em 50%; A e B pelos dentes
IIletal no período perinatal
IIIfraturas ao nascer, baixa estatura progressiva; a forma sobrevivente mais grave
IVgravidade moderada; ossos encurvados e fraturas vertebrais comuns; audição normal; A e B pelos dentes
Vcalo hipertrófico após fratura; ossificação da membrana interóssea entre rádio e ulna e entre tíbia e fíbula
VImoderado, semelhante ao IV
VIIrizomelia e coxa vara

O Campbell lembra ainda que 90% dos pacientes são tipo I ou IV, que a OI provavelmente é um contínuo, e que os únicos achados presentes em todos os pacientes são as fraturas e a osteoporose generalizada; a esclera azul, embora frequente, não está em todos. A tríade diagnóstica clássica é esclera azul, dentinogênese imperfeita e osteoporose generalizada em paciente com fraturas múltiplas ou encurvamento.

Há divergências pequenas entre os livros: a surdez do tipo I é de 40% no Tachdjian e de 50% no Campbell; e o tipo IV tem surdez de "baixa frequência" na Tabela 38.5 e "perda auditiva precoce" na Tabela 38.7 do Tachdjian, mas "audição normal" no Campbell.

Outras classificações

A Tabela 38.6 do Tachdjian (p. 1949) agrupa os pacientes por gravidade e genótipo (leve a moderado: tipos 1, 4 e 5; progressivamente deformante: tipo 3; letal perinatal: tipo 2), mostrando que o mesmo quadro clínico pode vir de genes dominantes do colágeno ou de genes recessivos do processamento. O SHAPIRO usa outra lógica, voltada à marcha (congenita A e B, tarda A e B), vista no prognóstico.

Os tipos novos: IFITM5, SERPINF1 e os recessivos

Cobrança confirmada · 1 questão

O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 38, p. 1949), conta pelo menos 18 tipos e propõe agrupá-los pela etapa que falha:

  • síntese do colágeno: tipos I a IV;
  • mineralização óssea: tipos V e VI;
  • modificação do colágeno: tipos VII a IX;
  • ligações cruzadas do colágeno: tipos X a XII;
  • diferenciação e função dos osteoclastos: tipos XIII a XVIII.

Regra geral: as formas recessivas costumam ser mais graves que as dominantes. Os genes recessivos clássicos (tipos VI a XI) codificam peças do complexo de 3-hidroxilação e chaperonas que ajudam a montar a tripla hélice; somadas, as formas recessivas ficam abaixo de 5% dos casos.

Tipos de OI pela Tabela 38.7 (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, Tabela 38.7, p. 1950)
TipoDefeitoGeneHerançaClínica
Imenos colágeno normalalelo nulo do COL1A1AD, 60% de novoleve; IA dentes normais, IB dentinogênese; expectativa levemente reduzida (fraturas, invaginação basilar)
IImenos colágeno, e defeituosoCOL1A1, COL1A2AD, quase 100% de novomorte no primeiro ano; IIA, IIB, IIC pelas costelas e ossos longos
IIIquantidade adequada, mas defeituosoCOL1A1, COL1A2AD, quase 100% de novovida pode ser normal com grave limitação; fraturas antes do nascer (micromelia), tórax em barril, face triangular
IVsuficiente, mas de má qualidadeCOL1A1, COL1A2AD, 60% de novofragilidade pré-puberal, escoliose, deformidade leve a moderada; IVA e IVB
Vlamelas em malhaIFITM5ADsemelhante ao IV; calo hiperplásico; faixa radiopaca junto à fise; membrana interóssea do antebraço calcificada; luxação da cabeça do rádio; surdez mista
VIlamelas em escama de peixeSERPINF1ARsemelhante ao IV
VIIproteína associada à cartilagemCRTAPARgrave a letal; povos "First Nation" do Quebec
VIIIproteína leprecanLEPRE1 (P3H1)ARraro, grave a letal
OutrosPPIBAR

O tipo V: o que o ortopedista precisa reconhecer

O tipo V é o tipo novo que mais cai, porque tem sinais ortopédicos próprios. O gene é o IFITM5, que codifica a BRIL (bone-restricted IFITM-like protein), uma pequena proteína transmembrana específica do osteoblasto que parece regular as primeiras etapas da mineralização (Tabela 38.8, p. 1951). A herança é dominante. O quadro é leve a moderado, parecido com o tipo IV, com uma tríade (Tabela 38.7, p. 1950):

1. faixa radiopaca adjacente à fise dos ossos longos; 2. calos hipertróficos nos locais de fratura; 3. calcificação da membrana interóssea do antebraço, que dificulta a pronossupinação.

Somam-se luxação ou subluxação da cabeça do rádio (mais comum no tipo V que nos outros; p. 1952), encurvamento dos ossos longos e perda auditiva mista. À histologia, lamelas em malha. O Campbell (Tabela 34.6, p. 1220) descreve a ossificação da membrana interóssea entre rádio e ulna e entre tíbia e fíbula.

O porquê clínico: o calo hiperplásico do tipo V pode crescer rápido, doer, esquentar e simular um osteossarcoma. Isso está desenvolvido na seção de complicações.

Tipos novos pela Tabela 38.8 (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, Tabela 38.8, p. 1951 e 1952)
TipoGeneProteínaFunçãoFenótipo
VIFITM5BRIL (AD)mineralização inicial no osteoblastoleve a moderado; membrana interóssea mineralizada, cabeça do rádio luxada, calo hiperplásico, lamelas em malha
VISERPINF1PEDFsecretado pelo osteoblasto, liga-se ao colágeno; potente antiangiogênicomoderado a grave; escoliose; acúmulo de osteoide; escama de peixe
VIICRTAPproteína associada à cartilagem3-hidroxilação no processamento intracelulargrave a letal; úmero e fêmur curtos, coxa vara
VIIILEPRE1prolil-3-hidroxilase (P3H1)idemgrave a letal
IXPPIBciclofilina Bisomerase do complexomoderado a letal
XSERPINH1HSP47chaperona que estabiliza o procolágenograve a letal
XIFKBP10FKBP65chaperona; hidroxilação do telopeptídeovariável; síndrome de BRUCK, contraturas ao nascer
Não classificadosPLOD2, BMP1, sítio do C-propeptídeo, SP7, WNT1, TMEM38B, CREB3L1, PLS3ligações cruzadas, clivagem extracelular, maturação do osteoblasto, transcrição do COL1A1BMP1 e sítio do C-propeptídeo com massa óssea alta; WNT1 progressivamente deformante

Note a coerência com o que já foi visto: CRTAP, P3H1 (LEPRE1) e PPIB são justamente as três peças do complexo de 3-hidroxilação da prolina que ajuda a montar a hélice (p. 1944). O Campbell resume os tipos V, VI e VII dizendo que não têm mutação do colágeno tipo I, mas osso anormal à microscopia e fenótipo semelhante (p. 1220).

O quadro clínico: osso, olho, dente e ouvido

Cobrança confirmada · 2 questões

A OI é clinicamente marcada por fragilidade óssea, massa óssea baixa, deformidade, esclera azul, perda auditiva e dentes opalescentes e frágeis (Tachdjian, cap. 38, p. 1947). Fora do esqueleto: insuficiência valvar e dilatação da raiz da aorta, frouxidão, hérnias, equimoses e sudorese excessiva.

A face e o crânio

A fronte é larga, com parietais e temporais proeminentes e o occipício saliente. A calvária abaulada cria uma desproporção crânio-facial que dá à face um aspecto triangular, "de elfo"; as orelhas ficam deslocadas para baixo e para fora. O formato do crânio foi comparado a um capacete de soldado ("helmet head") (p. 1947).

Os ossos e as articulações

A baixa estatura vem da soma das angulações e encavalgamentos de fraturas, do distúrbio de crescimento fisário e da cifoescoliose. A hiperfrouxidão é comum; pé valgo é achado frequente; pode haver luxação recidivante da patela, e eventualmente da cabeça do rádio e do quadril. A displasia do desenvolvimento do quadril pode ocorrer, e já houve fraturas de fêmur causadas pelo próprio rastreio: o bebê com suspeita de OI deve ter o quadril examinado com muita delicadeza, completado pela ultrassonografia sempre que preciso. Adultos têm predisposição a ruptura do ligamento patelar e do tendão calcâneo. Os músculos são hipotônicos, a pele é fina e translúcida, e as cicatrizes cirúrgicas tendem a alargar (p. 1947).

Os olhos

A esclera azul é um dos principais sinais, mas não está presente em todos os tipos. A explicação já vista: camada fina de colágeno. O anel de Saturno é uma faixa de esclera branca logo em torno da córnea. Hipermetropia é frequente, mas a visão em geral é preservada; o embriotóxon (arco juvenil), uma opacidade periférica da córnea, é comum; pode ocorrer descolamento de retina (p. 1947). A Tabela 38.5 ainda registra arco senil precoce no tipo I.

Os dentes

Os dentes adoecem nos tipos IB e IVB (e no III, pela Tabela 38.5) por deficiência de dentina. O esmalte é essencialmente normal, porque é de origem ectodérmica, enquanto a dentina é mesenquimal. Os dentes decíduos e permanentes são afetados; quebram com facilidade, têm cáries e as obturações não seguram. A cor é amarelo-acastanhada ou cinza-azulada translúcida; os incisivos inferiores, os primeiros a erupcionar, são os mais afetados. Um detalhe que cai: a dentinogênese imperfeita (dentina opalescente hereditária) pode existir isolada, de modo que o diagnóstico de OI não pode se apoiar só nos dentes (p. 1949).

O ouvido

A surdez costuma começar na adolescência ou na vida adulta. Está presente em 40% do tipo I e é menos frequente no tipo IV. Pode ser de condução, por otosclerose (proliferação anormal de cartilagem que, ao ossificar, esclerosa a porção petrosa do temporal), ou neurossensorial, por pressão sobre o nervo auditivo na sua saída do crânio (p. 1949).

O metabolismo e a anestesia

Pacientes com tipo III, sobretudo, queixam-se de sudorese excessiva, atribuída a um estado hipermetabólico de repouso, com intolerância ao calor, dificuldade em tolerar órteses e constipação crônica. Daí a possível suscetibilidade a hipertermia maligna na anestesia (febre, acidose, arritmia), para a qual cirurgião e anestesista devem estar prontos (p. 1949).

A imagem: o que a radiografia mostra

Cobrança confirmada · 1 questão

A forma grave

No tipo II de SILLENCE, ou na congenita A de SHAPIRO, os achados são marcantes já ao nascer (Tachdjian, cap. 38, p. 1949 e 1950): ossos longos curtos e largos, com corticais finas, e diáfise tão larga quanto a metáfise. SHAPIRO notou que esse aspecto distingue a congenita A da congenita B, na qual a metáfise do fêmur tem uma tubulização mais normal. Há fraturas múltiplas em várias fases de consolidação; as fraturas de costela e a atrofia do tórax podem simular a distrofia torácica asfixiante. A deformidade da caixa torácica é o outro sinal que separa a congenita A da B.

As calcificações em pipoca

GOLDMAN descreveu calcificações em pipoca nas metáfises e epífises junto à fise: coleções de radiotransparências arredondadas ou recortadas, com margem esclerótica e às vezes centro denso, também chamadas "espirais de radiodensidade" (p. 1950 e 1951). Provavelmente representam fragmentação traumática da fise cartilaginosa. Aparecem na infância, costumam desaparecer ao fim do crescimento, são mais comuns nos membros inferiores e na forma congênita grave, acompanham a irregularidade da fise e aumentam no estirão. Na criança grave que não anda (congenita B), a falta de carga cria um padrão cístico em favo de mel nos ossos longos.

O crânio e os wormianos

O crânio tem aspecto em cogumelo, calvária muito fina, ossificação pobre e atrasada. Os ossos wormianos, descritos pelo anatomista dinamarquês Ole WORM em 1643, são porções destacadas dos centros primários dos ossos membranosos. Para serem significativos, devem ser mais de 10, medir pelo menos 6 por 4 mm e formar um mosaico. CREMIN os encontrou em todos os pacientes com OI e em nenhum crânio normal, mas eles também aparecem na displasia cleidocraniana, no hipotireoidismo congênito, na paquidermoperiostose, na síndrome de MENKES e em algumas trissomias: não são patognomônicos (p. 1951 e 1952). O Campbell (p. 1220) acrescenta que os wormianos múltiplos em torno da base do crânio são achado importante só na forma congênita.

A coluna

A coluna mostra osteoporose marcada, com corpos comprimidos que se tornam bicôncavos entre discos abaulados (Fig. 38.23, p. 1954). Escoliose e cifose surgem na maioria das formas congênitas graves (p. 1952). Nas formas leves, platispondilia e vértebras bicôncavas são comuns, e escoliose e cifose aparecem em até 40% (p. 1952 e 1953). Na vértebra bicôncava, o disco normal empurra as placas de um corpo fraco.

A forma leve

Nas formas mais leves, o quadro é de osteoporose: corticais e trabéculas intramedulares finas. As fraturas variam em frequência e idade e aparecem em várias fases de consolidação; tendem a consolidar e remodelar bem. O encurvamento plástico dos ossos longos é comum, por microfraturas, fraturas de estresse ou consolidação viciosa; um membro pode estar em valgo e o outro em varo. No quadril, coxa vara e protrusão acetabular; patela, cabeça do rádio ou quadril podem luxar (p. 1952). No tipo V, calos hipertróficos, luxação da cabeça do rádio e faixa radiodensa junto à fise.

Depois de bisfosfonato, aparecem faixas metafisárias densas (p. 1956).

Achados radiográficos (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1949 a 1956)
RegiãoForma graveForma leve
Ossos longoscurtos e largos, cortical fina, diáfise tão larga quanto a metáfise (congenita A); fêmur em acordeão no tipo IIcorticais e trabéculas finas; encurvamento plástico; valgo de um lado, varo do outro
Fraturasmúltiplas, em várias fases; costelas fraturadasem várias fases, consolidam e remodelam bem
Metáfise e epífisecalcificações em pipoca (somem ao fim do crescimento); favo de mel no não deambulantefaixa radiodensa junto à fise no tipo V; faixas após bisfosfonato
Crânioem cogumelo, calvária fina, ossificação ausente no II; wormianoswormianos
Colunavértebras bicôncavas entre discos abaulados, cifoescoliose na maioriaplatispondilia, bicôncavas, escoliose e cifose em até 40%
Quadril e cotovelocoxa vara, protrusão acetabular; cabeça do rádio luxada (tipo V)

Diagnóstico, prognóstico e pré-natal

Fundamento

Como se faz o diagnóstico

O diagnóstico, em geral, vem da história familiar positiva somada a sinais clínicos e radiográficos típicos e ao teste genético (Tachdjian, cap. 38, p. 1953). Os painéis de sequenciamento de nova geração permitem rastrear de uma vez as condições de massa óssea baixa (OI, EHLERS-DANLOS) e alta (osteopetroses, picnodisostose), com rapidez, precisão e custo razoáveis (Tabelas 38.9 e 38.10). Nos exames de rotina, cálcio e fósforo séricos são normais; a fosfatase alcalina pode subir, sobretudo na presença de fraturas.

Quem sobrevive

Os melhores indicadores de sobrevida do recém-nascido afetado são a localização e a gravidade das fraturas e o aspecto radiográfico do esqueleto (tipo II de SILLENCE e congenita A de SHAPIRO) (p. 1953). Pacientes leves, sobretudo tipo IA, costumam ter vida normal; PATERSON viu vida apenas modestamente reduzida nos tipos IB e IV. Os graves podem morrer de insuficiência cardíaca ou pulmonar pela deformidade torácica e pela cifoescoliose; dos 26 pacientes tipo III que tinham morrido, 19 morreram antes dos 10 anos, de modo que quem passa dessa idade parece ter melhor perspectiva. A impressão basilar e o politrauma em acidentes banais também matam.

Quem vai andar

A capacidade futura de andar é melhor prevista pela classificação de SHAPIRO (p. 1954):

Classificação de SHAPIRO e marcha (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1954)
GrupoPrimeira fraturaPrognóstico
Congenita Aao nascer, com deformidade costal e ossos largossobrevida improvável
Congenita Bao nascer, metáfises mais tubulizadassobrevive; um terço anda
Tarda Adepois do nascimento e antes de andar67% acabam andando
Tarda Bdepois de começar a andartodos seguem andando

DALY confirmou: 76% das crianças que sentavam sozinhas aos 10 meses andaram. A classificação de SILLENCE também previu a marcha: quase todos os tipo I andavam de forma independente, todos os tipo III eram cadeirantes e três de sete tipo IV andavam. ENGELBERT viu que quem sentava ou ficava em pé até os 12 meses tendia a andar.

O pré-natal

A OI é uma das displasias esqueléticas mais diagnosticadas pela ultrassonografia fetal, e a maioria dos casos é do tipo II, um achado inesperado porque em geral não há história familiar (p. 1954). Os sinais aparecem por volta da 16ª semana: deformidade de ossos longos (fratura), fêmur muito curto e ecogenicidade craniana diminuída. No tipo I leve, o exame pode ser normal. Em casais com um feto tipo II, o risco de repetir é de 2% a 7% por mosaicismo parental, e a biópsia de vilo corial com 13 a 14 semanas permite diagnóstico por DNA.

O que dizer aos pais

O Tachdjian insiste num ponto para os pais (p. 1965): os sobreviventes, mesmo muito frágeis, têm em geral inteligência normal, determinação e boas habilidades sociais, que compensam admiravelmente a limitação esquelética. Isso também justifica oferecer cedo cadeira de rodas motorizada a quem não anda.

Diagnóstico diferencial e maus-tratos

Fundamento

O recém-nascido e o lactente

O Tachdjian (cap. 38, p. 1954 e 1955) lista os diferenciais por fase:

Diagnóstico diferencial da OI (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1954 a 1956 e 1966)
CondiçãoO que confundeO que separa
Hipofosfatasia congênitaquadro letal do recém-nascido, parecido com o tipo IIfosfatase alcalina sérica baixa, sem atividade nos leucócitos, fosfoetanolamina alta na urina
Acondroplasiacabeça grande e membros curtosa radiografia separa facilmente
Nanismo campomélicoencurvamento e angulação congênitos dos ossos longosnão há fraturas
Cistinoseosteoporose e tendência a fraturadoença metabólica de base
Picnodisostosetendência a fraturaesclerose óssea, fontanelas abertas, micrognatia, clavículas hipoplásicas, osteólise das falanges distais
Leucemia inicialosteopenia difusa antes do hemograma típicoevolução hematológica
Osteoporose juvenil idiopáticafraturas vertebrais e de ossos longosautolimitada; começa cerca de um ano antes da puberdade (média de 7 anos); fraturas metafisárias; sem wormianos; recupera na maturidade
Corticoide prolongadoosteoporose e fratura vertebralhistória de uso
Maus-tratosfraturas múltiplas em fases diferenteshistória, família, escleras, dentes, exame genético ou biópsia

Maus-tratos: errar para os dois lados

O ponto mais delicado do capítulo (p. 1955 e 1956). O diagnóstico importante a considerar em criança com fraturas é a lesão não acidental, a síndrome da criança espancada. O livro registra que acontecem as três situações: acusação de maus-tratos em crianças depois provadas portadoras de OI, presunção de OI em crianças que eram vítimas e maus-tratos em crianças que de fato têm OI. Por isso, cada criança com fraturas suspeitas precisa de avaliação cuidadosa.

Em alguns pacientes, a distinção é fácil: história familiar, escleras azuis ou dentinogênese imperfeita resolvem. O difícil são as formas leves sem história familiar e sem esclera francamente azul, ou seja, SILLENCE III e IV e SHAPIRO tarda A e B. E o livro é taxativo: fora as fraturas múltiplas graves, com ou sem deformidade de costelas e crânio, do tipo II, nenhum padrão de fratura confirma ou exclui a OI. Quando o diagnóstico é clinicamente importante, faz-se a biópsia de pele para cultura de fibroblastos e análise do COL1.

Na prova: nenhuma fratura dispensa investigação; decide o conjunto (família, olhos, dentes, wormianos, osteopenia, laboratório).

Bisfosfonatos e tratamento clínico

Relevância clínica

Não há tratamento que corrija o gene (Tachdjian, cap. 38, p. 1956). Transplante de medula e de células estromais teve pega baixa; hormônios, fluoreto, calcitonina, cálcio, hormônio do crescimento e vitaminas falharam.

Os bisfosfonatos mudaram o cenário porque inibem a reabsorção osteoclástica, que está aumentada na OI. A indicação ainda depende de cada centro; no serviço dos autores, guia-se pela frequência de fraturas, dor e densidade mineral óssea, e cálcio, fósforo e 25(OH) vitamina D são normalizados antes de começar.

Bisfosfonatos na OI (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1956; Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 34, p. 1220)
DrogaEsquema e efeito
Pamidronato IV0,5 a 1 mg/kg/dose, 3 dias seguidos, a cada 4 a 6 meses; melhora a dor e a densidade na DXA; febre transitória e hipercalcemia na infusão
Alendronato oral4 anos: menos fraturas, melhor mobilidade e densidade
Ácido zoledrônico IV0,025 mg/kg (menores de 3 anos) ou 0,05 mg/kg (maiores de 3), em 1 hora, a cada 4 a 12 meses; potente e prático
Oral contra IVbenefícios equivalentes nas crianças
Efeitos adversoshipocalcemia, convulsão, quadro gripal, nefropatia colapsante, osteonecrose da mandíbula (não relatada em criança); retardo de consolidação de fraturas e osteotomias com pamidronato em alguns relatos
Alternativasdenosumabe (anti-RANKL) em casos selecionados; anticorpo antiesclerostina ainda em estudo na OI

Sobre o efeito nas fraturas, os dois livros pesam a evidência de modo diferente. O Tachdjian cita a revisão Cochrane (21 estudos, 819 participantes): bisfosfonatos orais e IV aumentam a densidade de modo semelhante e melhoram o tamanho e a forma das vértebras, mas não está claro se reduzem as fraturas; nenhum estudo mostrou aumento. O Campbell (p. 1220) afirma que os IV (pamidronato, zoledronato, risedronato) diminuem dor e fraturas e aumentam densidade, marcha, tamanho dos corpos vertebrais e espessura cortical, mas reconhece que não há diretriz padronizada e que, pela Cochrane, nenhum regime reduziu ou aumentou a taxa de fraturas, nem houve melhora clara da dor ou da mobilidade.

As fraturas

Cobrança confirmada · 1 questão

Princípios

O Tachdjian (cap. 38, p. 1956 e 1957) parte de três observações: a maioria das fraturas consolida, as fraturas se repetem e a imobilização prolongada piora a osteopenia, deixando a criança mais suscetível a nova fratura. Daí a regra: imobilizar só até os sintomas cederem, com o mínimo de imobilização externa que dê conforto, e devolver a criança à atividade habitual o quanto antes. Radiografias nem sempre são necessárias; a imobilização se guia pelos sintomas e radiografias seriadas não costumam ser preciso nas fraturas menores. Se a criança tem dor de fratura e a radiografia é normal, imobiliza-se como fratura, porque quase certamente é.

  • Recém-nascido: manuseio cuidadoso; a fratura instável ou que atrapalha os cuidados recebe tala de abaixador de língua acolchoado, alumínio ou gesso; 1 a 2 semanas bastam.
  • Criança maior ou adulto com doença leve: tratar como se trata a fratura (redução e gesso, fios percutâneos, fixação interna), com cuidado extremo no manuseio. Haste intramedular é preferível a placa e parafusos, que criam pontos de concentração de tensão. O uso de fixador externo para fratura na OI não foi descrito.
  • Órteses: HKAFO leve de plástico e metal permite ficar em pé e andar com andador ou muletas e reduz fraturas dos membros inferiores; não deambulantes se beneficiam de cadeira motorizada.

A pseudartrose é incomum

A pseudartrose é incomum, embora ocorra (p. 1957). GAMBLE a viu mais no fêmur e no úmero, também no rádio, na ulna e no púbis; 9 de 10 pacientes eram tipo III, e ela se associava a fraturas frequentes e deformidade. Oito de nove consolidaram com haste intramedular e enxerto. O Campbell (p. 1220) concorda: a consolidação costuma ser satisfatória, embora o osso consolidado talvez não seja mais forte que o original, e há pseudartroses difíceis.

O olécrano

O Tachdjian diz que, fora a fragilidade extrema e os ossos esmagados dos casos graves, nenhum padrão de fratura é exclusivo da OI. Mas destaca uma fratura que ocorre com frequência, em geral nos pacientes mais leves, tipo I: a fratura desviada do olécrano, muitas vezes bilateral, embora não simultânea, com padrão típico de avulsão; trata-se com banda de tensão, com boa função (Fig. 38.24, p. 1958).

A deformidade dos ossos longos e as osteotomias de SOFIELD-MILLAR

Fundamento

A deformidade dos ossos longos é uma das condições que mais exigem tratamento e é mais comum nos tipos III e IV (Tachdjian, cap. 38, p. 1957). O encurvamento nasce da fragilidade, das forças musculares e das fraturas repetidas e, por sua vez, gera mais fraturas: um círculo. Por isso, a indicação mais importante de correção é a fratura repetida induzida pela deformidade; outra é permitir a órtese ou a marcha. Correção isolada, porém, não garantiu marcha a longo prazo (DALY). Pelo Campbell (p. 1220), nos tipos I e IV a deformidade faz a criança passar de andar a sentar.

Opções para a deformidade dos ossos longos (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1957 a 1959)
TécnicaIndicaçãoDetalhe
Osteoclasia fechada sem fixaçãocriança frágil que não tolera cirurgia abertamanipulação sob sedação ou anestesia, imobilização e órtese; só quando as outras não forem possíveis
Osteoclasia fechada com fixação percutâneafraturas repetidas, cirurgia aberta inviávelfio de KIRSCHNER, pino de STEINMANN ou haste de RUSH passados enquanto o osso é dobrado; "radioscopia e boa sorte"
Osteotomia aberta com haste (SOFIELD-MILLAR)deformidade que impede órtese e prejudica função; fraturas repetidasmúltiplas osteotomias, realinhamento, fragmentos enfiados na haste
Fixador circular de ILIZAROVadultos jovensosteotomia e correção gradual

A técnica de SOFIELD e MILLAR (1959)

Fragmentação, realinhamento e fixação intramedular (p. 1958). Expõe-se o osso subperiostealmente, fazem-se osteotomias em cunha na metáfise e na diáfise até endireitar o osso, e os fragmentos são enfiados numa haste intramedular que mantém o alinhamento e serve de tala interna de longo prazo. As indicações são muito mais frequentes no membro inferior. SOFIELD e MILLAR usavam haste fixa (aço, RUSH ou KÜNTSCHER); outros usaram WILLIAMS, que na tíbia fica dentro do osso, sem cruzar tornozelo e subtalar. Complicações (pseudartrose, infecção, migração) são surpreendentemente incomuns para um procedimento que cria vários segmentos desvascularizados. O Campbell (p. 1221) chama essa técnica de o método cirúrgico mais bem-sucedido para as deformidades da OI.

Cuidados (p. 1958 e 1959): fratura iatrogênica no posicionamento; temperatura que sobe (vigiar hipertermia maligna); sangramento, que obriga a estagiar cirurgias bilaterais; fêmur por via anterolateral, tíbia anterior; gesso, carga precoce e HKAFO após a consolidação. O Campbell registra transfusão em 14% das cirurgias com hastes.

As hastes telescópicas: BAILEY-DUBOW, SHEFFIELD e FASSIER-DUVAL

Cobrança confirmada · 1 questão

A haste fixa tem um defeito na criança: o osso cresce além dela, a ponta fica no meio da diáfise e o segmento sem tala volta a encurvar e fraturar. A solução foi uma haste que cresce com o osso.

  • BAILEY e DUBOW (1963): primeira haste extensível. Manga externa tubular com T destacável e obturador interno com T fixo; cada T se ancora numa epífise e as duas peças deslizam uma dentro da outra com o crescimento. Hoje não está mais disponível e tem interesse histórico (Tachdjian, p. 1959).
  • SHEFFIELD (STOCKLEY, 1989): versão modificada, com mais tamanhos, T fixos nas duas peças em forma de borboleta; em 10 anos, menos fraturas e melhor marcha; variante com orifício de bloqueio (p. 1960).
  • FASSIER-DUVAL (2003, Canadá): a mais nova. Vantagens: entrada proximal única e porção epifisária rosqueada, que se aparafusa na epífise; colocada por pequenas incisões, com vários segmentos no mesmo ato (p. 1961).
Hastes intramedulares na OI (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1958 a 1962; Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 34, p. 1221 a 1223)
HasteTipoDetalhe
RUSH, KÜNTSCHER, STEINMANN, WILLIAMSfixasimples; o osso cresce além dela; reoperação 3,5 vezes mais frequente que com telescópica
BAILEY-DUBOWtelescópicaduas peças com T nas epífises; histórica, fora de uso
SHEFFIELDtelescópicaT fixos em borboleta, mais tamanhos
FASSIER-DUVALtelescópicaentrada proximal única, ponta rosqueada na epífise; a partir de 18 meses; fêmur, tíbia, úmero, antebraço

Resultados da FASSIER-DUVAL no Tachdjian (p. 1961): 53% de revisões em média aos 52 meses numa série de 58 pacientes, com 14,5% de pseudartrose ou retardo. Complicações das telescópicas (p. 1962): falha em alongar, extrusão (sobretudo na coxa proximal), encurvamento com fratura na junção das peças, infecção, pseudartrose, calo hipertrófico, raramente parada de crescimento; taxas de 7% a 100% (68% a 72% em séries comparativas). Quando funcionam, vale a pena: devem ser fortemente consideradas abaixo dos 10 anos.

O Campbell (p. 1221) dá números a favor da telescópica: sobrevida em 3 anos de 92,9% contra 7,2% e reoperação de 7,2% contra 31,6%; implantes estáticos falham 13 vezes mais que a FASSIER-DUVAL, que tem 9% de complicações por haste por ano. A FASSIER-DUVAL é indicada a partir de 18 meses; no fêmur, a osteotomia pode ser aberta ou percutânea (percutânea em ossos grandes com cortical fina), e na tíbia, aberta. Na Técnica 34.14 (p. 1222 e 1223), a fresagem do fêmur vai até o trocânter maior, por onde a haste entra.

A coluna

Cobrança confirmada · 2 questões

A coluna cervical é pouco acometida fora da base do crânio; a toracolombar, muito (Tachdjian, cap. 38, p. 1962). A deformidade mais comum é a escoliose, com ou sem cifose, com incidência de 39% a 100%. A curva mais comum é a torácica (p. 1947). Pode haver espondilolistese por alongamento dos pedículos sem lise da pars.

O risco acompanha a fragilidade: a prevalência é maior no tipo III (89%), depois no tipo IV (61%) e no tipo I (36%). Também é maior em quem senta tarde, e ISHIKAWA mostrou que seis ou mais vértebras bicôncavas antes da puberdade predizem curva acima de 50 graus.

Escoliose na OI (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1947, 1948, 1962 e 1963; Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 34, p. 1220)
AspectoDado
Prevalência por tipoIII 89%, IV 61%, I 36% (texto); tipo I 20% na Tabela 38.5
Curva mais comumtorácica
Fatores de riscofragilidade grave, sentar tarde, seis ou mais vértebras bicôncavas antes da puberdade
Coletenão impede a progressão e pode deformar as costelas; mal tolerado pela sudorese; raramente indicado
Bisfosfonatomenor progressão só no tipo III, sobretudo se iniciado antes dos 6 anos
Artrodesecurva grave progressiva acima de 40 ou 50 graus; posterior com parafusos pediculares (com ou sem cimento), 50% a 60% de correção
Pulmãocurva torácica acima de 60 graus piora a função pulmonar (Campbell)

Na artrodese (p. 1962 e 1963), o osso frágil dificulta a instrumentação, o sangramento é maior, a crista ilíaca dá pouco enxerto (ter aloenxerto à mão) e a imobilização é mal tolerada. Já se usaram HARRINGTON com metilmetacrilato, LUQUE sublaminar e halo-gravidade. A pseudartrose após fusão posterior não é alta, e a fusão anterior raramente é necessária.

Calo hiperplásico e osteossarcoma

Cobrança confirmada · 2 questões

O calo hiperplásico é raro, mas assusta (Tachdjian, cap. 38, p. 1963 e 1964). É característico do tipo V; antes do reconhecimento desse tipo, era atribuído aos tipos III e IV, e numa instituição só apareceu no tipo V.

O quadro: inflamação localizada aguda, com aumento progressivo e alarmante do membro em 1 a 3 semanas, de modo espontâneo, depois de trauma ou fratura, ou depois de cirurgia, sobretudo haste intramedular. É mais comum nos membros inferiores de meninos. A massa é dolorosa, quente e sensível, a pele fica tensa e translúcida, com veias dilatadas, e há febre baixa prolongada; num caso, o calo bilateral levou a insuficiência cardíaca de alto débito. VHS e fosfatase alcalina sobem. A radiografia mostra uma massa de calo irregular envolvendo o osso.

O problema é o diagnóstico diferencial com osteossarcoma. BANTA relatou 21 casos de calo hiperplásico, e três pacientes foram amputados por suposto osteossarcoma. E a preocupação não é vã: o osteossarcoma ocorre na OI, em todos os tipos sobreviventes. Se houver dúvida, biópsia, com culturas. A histologia do calo hiperplásico mostra tecido fibromucoide e condroide, enquanto o calo normal é osso imaturo em tecido conjuntivo denso. O tratamento é sintomático, com tala; a radioterapia paliativa exige cautela pelo risco de sarcoma, e os difosfonatos não funcionaram.

Calo hiperplásico contra osteossarcoma (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1963 e 1964)
AspectoCalo hiperplásicoO que preocupa
Tipo de OIcaracterístico do V (IFITM5)osteossarcoma em todos os tipos sobreviventes
Gatilhoespontâneo, fratura, cirurgia (haste)massa nova sem fratura
Evoluçãoaumento em 1 a 3 semanas, febre baixa, VHS e fosfatase alcalina altasmassa progressiva
Histologiafibromucoide e condroidesarcoma
Condutasintomática, tala; biópsia e culturas se houver dúvidatrês amputações desnecessárias na série de BANTA

Quadril e base do crânio

Fundamento

Protrusão acetabular

A protrusão acetabular é relativamente comum (Tachdjian, cap. 38, p. 1964): 45% de 109 quadris, mais nos tipos I e III (65%), com 30% mais risco de fratura do fêmur proximal.

As três anomalias da base do crânio

O osso mole afunda em torno do forame magno (p. 1964 e 1965):

Anomalias da base do crânio (Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., cap. 38, p. 1964 e 1965)
AnomaliaDefiniçãoPrevalência (76 pacientes)
Invaginação basilaro odontoide protrui para dentro do forame magno13%
Impressão basilaro odontoide está alto, mas sem entrar no forame magno15%
Platibasiaachatamento do ângulo da base do crânio29%

Podem coexistir (44% dos afetados têm mais de uma). A radiografia lateral do crânio rastreia; a RM mostra a anatomia e o efeito neural. O preditor mais forte é a gravidade clínica (escore Z da altura). A compressão do tronco dá cefaleia, sintomas bulbares e sinais longos. A impressão basilar foi causa de morte em seis pacientes de uma série, ocorre em todos os tipos exceto o II e é mais comum no adulto. A cirurgia fica para os sintomáticos: a descompressão posterior isolada alivia por pouco tempo; a descompressão anterior transoral com fusão occipitocervical (HARKEY) parece a mais adequada, com benefício duradouro em 60%.

Fechamento

Fundamento

A OI é a doença do colágeno tipo I: duas cadeias alfa-1 (COL1A1, cromossomo 17) e uma alfa-2 (COL1A2, cromossomo 7), que se ligam pela glicina a cada terceira posição. Quando falta colágeno normal (tipo I, alelo nulo), a doença é leve e a esclera é azul; quando a glicina é trocada (tipos II a IV), o colágeno sai ruim e em menor quantidade, e a gravidade cresce, sobretudo se o erro estiver na carboxila. SILLENCE ordena a gravidade como I < IV < III < II, separa A e B pelos dentes e chama de dominantes os tipos I e IV. Os tipos novos trazem o tipo V (IFITM5), com calo hiperplásico, membrana interóssea calcificada e cabeça do rádio luxada. A radiografia mostra ossos finos, wormianos, calcificações em pipoca e vértebras bicôncavas; a escoliose é torácica e predomina nos tipos III e IV. O tratamento combina bisfosfonato, imobilização curta, órteses e, para a deformidade que fratura, osteotomias de SOFIELD-MILLAR com hastes telescópicas. E diante de fraturas repetidas, a OI e os maus-tratos se investigam juntos.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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