Orto Questões

Fraturas e luxações da coluna toracolombar

ColunaResumo do capítulo50 min de leitura

Choque medular e neurogênico, ASIA, Denis, AO Spine, TLICS, load sharing, explosão, Chance, coluna anquilosada, fratura osteoporótica e cimentação: a coluna toracolombar explicada pelo que a prova cobra.

Atualizado em 28/10/2026 · 50 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 49 · Thoracolumbar Spine Fractures and Dislocations, em Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025). Autores do capítulo: Alex Kitto, Owen Edwards e Chadi Tannoury.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de coluna do Rockwood adulto, capítulo 49, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo foi escrito a partir do capítulo 49 do Rockwood and Green (10ª edição), na ordem em que as provas cobram o tema. Ele reorganiza as ideias do capítulo em português, explica o porquê de cada regra e mostra, no meio do texto, as questões reais do acervo sobre cada ponto. Os números são os do capítulo.

A coluna toracolombar concentra a maior parte do trauma vertebral: o capítulo estima mais de 150 mil lesões da coluna por ano na América do Norte, 6% de todas as fraturas, presentes em 5% a 30% dos politraumatizados, e 65% a 90% delas na coluna torácica e lombar. O segmento mais atingido é a transição T10–L2, e cerca de 27% dos pacientes com lesão toracolombar têm déficit neurológico.

O fio que costura o capítulo é uma pergunta só: a coluna está estável? Tudo o que vem depois (exame neurológico, imagem, classificações, colete ou cirurgia, via anterior ou posterior) serve para responder a ela e para proteger a medula enquanto a resposta não chega.

Exame neurológico: choque neurogênico, choque medular e ASIA

Cobrança confirmada · 14 questões

É o assunto mais cobrado do capítulo, porque o estado neurológico decide sozinho boa parte das condutas. Há dois "choques" com nomes parecidos e significados completamente diferentes, e a prova adora trocá-los.

Choque neurogênico não é choque hipovolêmico

O politraumatizado com lesão da coluna costuma chegar hipotenso, e há duas causas possíveis que muitas vezes coexistem. No choque hipovolêmico, falta volume, e o coração compensa acelerando: taquicardia. No choque neurogênico, a lesão medular desliga a resposta simpática; os vasos perdem o tônus e o coração perde o estímulo para acelerar, então a hipotensão vem com uma bradicardia paradoxal. O capítulo faz um alerta prático: a maioria dos politraumatizados tem pelo menos um componente hipovolêmico, mesmo quando há choque neurogênico. Antes de culpar a medula, procure o sangramento.

O capítulo descreve só a frequência cardíaca como marca da diferença. As provas acrescentam a pele e a diurese, que decorrem do mesmo raciocínio: no neurogênico, os vasos dilatados deixam as extremidades quentes e a diurese tende a se manter; no hipovolêmico, a vasoconstrição compensatória deixa a pele fria e o rim mal perfundido.

Pressão arterial: a medula lesada não se autorregula

Depois da lesão primária, a medula perde a capacidade de autorregular o próprio fluxo; a perfusão passa a depender da diferença entre a pressão arterial e a pressão dentro do saco dural. Por isso a hipotensão piora a lesão secundária. A estratégia sugerida na literatura é manter a pressão arterial média acima de 85 mmHg, mas o capítulo mostra a controvérsia: é difícil sustentar hipertensão até na UTI, há complicações cardíacas, uma revisão de 2010 sugeriu benefício maior nas lesões incompletas, e uma revisão de 2020 não encontrou evidência forte e associou vasopressores a mais eventos cardíacos. Um estudo com medida intratecal (Squair) mostrou que uma pressão de perfusão medular mínima de 50 prediz recuperação; a drenagem de líquor ainda é experimental.

O protocolo da instituição dos autores (Harborview) é PAM de 80 mmHg ou mais, monitorada em UTI, por 48 a 72 horas após a admissão e 24 a 48 horas após a cirurgia. O fluxograma do capítulo começa com bolo de 30 mL/kg de cristaloide isotônico; se não houver resposta (frequência acima de 60 e PAM acima de 80), entram vasopressores (fenilefrina ou noradrenalina) e, se a saturação venosa central cair abaixo de 70%, monitorização do débito e inotrópico (dobutamina); a atropina trata a bradicardia.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-19. Fluxograma do Harborview para o manejo hemodinâmico da lesão medular traumática isolada: reconhecer o choque neurogênico (PAM abaixo de 80 e frequência abaixo de 60), ressuscitar com volume, iniciar vasopressor e manter a PAM acima de 80 mmHg pelo período mais longo entre 48 horas e 24 horas de pós-operatório. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

O choque medular e o reflexo bulbocavernoso

O choque medular é neurológico, não hemodinâmico: logo depois da lesão, toda a atividade reflexa abaixo do nível some, inclusive os reflexos que dependem só de arcos locais. Enquanto ele dura, uma medula parcialmente viva fica silenciosa e não dá para classificar a lesão como completa ou incompleta.

O marcador que o capítulo manda pesquisar, e que ele chama de crítico, é o reflexo bulbocavernoso, um reflexo sacral cuja resposta é a contração do esfíncter anal. Ausente, sugere que o paciente ainda está em choque medular; presente, indica que o choque acabou e que a ausência de função abaixo do nível passa a ter valor. O capítulo acrescenta que um bulbocavernoso hiperativo provavelmente representa lesão medular completa: o arco sacral voltou a funcionar, mas nada desce de cima para modulá-lo. E lembra duas exceções úteis: o reflexo costuma demorar nas lesões do cone medular e da cauda equina, porque nelas o próprio arco reflexo foi atingido; e o priapismo é um sinal ominoso de lesão aguda completa. Os reflexos tendinosos ajudam a separar lesão medular de lesão de raiz, mas a hiper-reflexia costuma não aparecer na fase aguda.

Preservação sacral e a escala da ASIA

O exame sensitivo é feito por dermátomos, com tato leve e picada, e precisa incluir a região perianal. O motivo é anatômico: os segmentos sacrais são os mais distantes da lesão, e qualquer sinal de condução até eles prova que algumas fibras atravessaram a área lesada. A sensibilidade perianal pode ser o único sinal de preservação sacral e, portanto, de lesão incompleta, um fator prognóstico positivo que pode mudar a indicação ou o momento da cirurgia. O toque retal avalia o tônus.

A escala da ASIA (padrões internacionais, ISNCSCI) é idealmente aplicada nas primeiras 72 horas. O grau depende do que existe abaixo do nível neurológico:

  • A: completa, sem função motora nem sensitiva abaixo do nível.
  • B: incompleta, com sensibilidade preservada e nenhuma função motora abaixo do nível.
  • C: incompleta, com sensibilidade e motricidade, mas mais da metade dos músculos-chave abaixo do nível com força menor que 3.
  • D: incompleta, com sensibilidade e motricidade e pelo menos metade dos músculos-chave com força 3 ou mais.
  • E: função neurológica normal.

O texto do capítulo escreve "grau 3 ou menor" para o C e "3 ou maior" para o D, o que se sobrepõe no grau 3; a fronteira dos padrões internacionais que ele cita é força menor que 3 (C) contra 3 ou mais (D), e é ela que as provas usam. O escore motor da ASIA vai até 100 pontos: cinco músculos-chave por membro, nos quatro membros, cada um valendo até 5. A força segue a escala de 0 (nenhuma contração) a 5 (resistência completa), em que 3 é vencer a gravidade em todo o arco sem resistência.

O cone medular e a cauda equina

No adulto a medula termina em L1, e seu afilamento final, o cone medular, fica entre T11 e L1. Por isso a fratura da transição toracolombar pode produzir a síndrome do cone medular, uma emergência neurológica com dor lombar irradiada para as pernas, sinais mistos de neurônio motor superior e inferior, déficit motor e sensitivo nos membros inferiores, disfunção vesical, intestinal e sexual e anestesia em sela. Abaixo de L1 o canal contém só raízes soltas, a cauda equina, sem tecido do sistema nervoso central; o canal é mais largo e tolera mais compressão. O capítulo mostra uma fratura-luxação L1–L2 com explosão cominutiva e grave invasão do canal em que o paciente tinha só fraqueza discreta, "possível só porque a lesão estava abaixo do cone".

Um detalhe que o capítulo valoriza: nas explosões do nível do cone, a disfunção vesical isolada pode passar despercebida em pacientes que parecem neurologicamente normais, porque todos chegam sondados para controle de diurese.

Duas observações honestas sobre o que não está aqui: o capítulo não descreve as síndromes medulares incompletas (central, anterior, de Brown-Séquard, posterior), muito cobradas no subtema de lesão medular, nem dá a duração do choque medular. Essas perguntas precisam de outra fonte.

Lesão primária e lesão secundária

A lesão medular acontece em dois tempos. A primária é a fase aguda de compressão mecânica, no momento do trauma, por impacto direto ou comprometimento vascular. A secundária é uma cascata bioquímica que se instala nas horas seguintes, com isquemia, radicais livres, vasoconstrição, entrada de cálcio nas células, peroxidação lipídica e excitotoxinas, e amplia o dano. Proteger contra a lesão secundária é a razão de ser da descompressão, da estabilização, do controle da pressão e das tentativas farmacológicas.

Classificações: estabilidade, Denis, AO Spine e TLICS

Cobrança confirmada · 13 questões

Saber se a fratura é estável é, nas palavras do capítulo, o passo mais importante da decisão. Para White e Panjabi, estabilidade é a capacidade da coluna de, sob cargas fisiológicas, limitar o deslocamento de modo a não lesar medula ou raízes e a evitar deformidade ou dor incapacitantes. Instabilidade (aguda ou crônica) é o deslocamento excessivo que leva a déficit, deformidade ou dor. As classificações existem para traduzir essa ideia em categorias e, as melhores, em condutas.

De Holdsworth a Denis

As classificações antigas eram só morfológicas. Holdsworth atribuiu um mecanismo a cada padrão (flexão, flexão-rotação, extensão e compressão) e introduziu a ideia de colunas: uma anterior, que resiste à compressão, e uma posterior, que resiste à tração. Para ele, a instabilidade vinha da ruptura da banda de tensão posterior, conceito aceito até hoje. McAfee foi o primeiro a classificar com tomografia, em seis padrões de instabilidade crescente: compressão em cunha, explosão estável, explosão instável, Chance, flexão-distração e translação.

Denis discordou de Holdsworth num ponto: a ruptura isolada dos elementos posteriores não bastaria para a instabilidade sem lesão do ligamento longitudinal posterior e do ânulo. Criou então a coluna média:

  • anterior: ligamento longitudinal anterior, metade anterior do corpo vertebral e do ânulo;
  • média: metade posterior do corpo e do ânulo e ligamento longitudinal posterior;
  • posterior: arco neural, facetas e todo o complexo ligamentar posterior.

Para Denis, a instabilidade aguda só aparece quando as colunas posterior e média falham, e qualquer lesão que atinja a coluna média é em geral considerada instável. Ele dividiu as lesões maiores em quatro grupos (compressão, explosão, cinto de segurança e fratura-luxação), graduou a instabilidade em mecânica, neurológica e ambas, e foi o primeiro a sugerir cirurgia como tratamento de escolha da explosão.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-14. Modelo das três colunas de Denis: anterior (metade anterior do corpo e do disco e ligamento longitudinal anterior), média (metade posterior do corpo e do disco e ligamento longitudinal posterior) e posterior (elementos posteriores, incluindo pedículos, facetas e ligamentos); a lesão que se estende à coluna média é considerada instável. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A AO Spine revisada

A AO original dividia as fraturas em compressão (A), flexão (B) e rotação (C), mas, como outras taxonomias, não incluía o estado neurológico, não guiava a conduta e tinha confiabilidade fraca. A revisão AO Spine manteve os três tipos, em ordem crescente de instabilidade, e acrescentou neurologia e modificadores.

Classificação AO Spine toracolombar revisada
TipoO que é
A0Fraturas menores, sem importância estrutural (processo transverso, processo espinhoso)
A1Compressão em cunha: um platô, sem parede posterior
A2Fratura em pinça (split): dois platôs, sem parede posterior
A3Explosão incompleta: um platô e a parede posterior
A4Explosão completa: dois platôs e a parede posterior
B1Chance: falha transóssea de uma única vértebra, da banda de tensão posterior até o corpo
B2Ruptura da banda de tensão posterior, óssea ou ligamentar, no nível intervertebral, muitas vezes com fratura tipo A da vértebra de baixo
B3Hiperextensão: falha da banda de tensão anterior, típica da coluna anquilosada
CTranslação ou luxação em qualquer direção: falha das três colunas
N0 a N4Intacto; déficit transitório já resolvido; radicular; cauda equina ou medula incompleta; medula completa
NX, +Exame impossível (sedação, trauma craniano); compressão medular persistente
M1, M2Banda de tensão posterior indeterminada; comorbidade que muda o tratamento (anquilose, osteoporose, doença reumatoide)

Duas regras de notação caem na prova. Primeiro, a parede posterior é o que separa a compressão (A1, A2) da explosão (A3, A4), e o número de platôs separa o 1 do 2 e o 3 do 4. Segundo, as lesões B2 e C podem vir com uma fratura tipo A, que deve ser escrita à parte porque pode exigir reconstrução anterior: uma flexão-distração T12–L1 com explosão incompleta de L1 é T12–L1 B2; L1 A3.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-17. Desenhos da classificação AO Spine toracolombar revisada: tipo A (A0 a A4, da fratura menor à explosão completa), tipo B (B1 transóssea ou Chance, B2 ruptura da banda de tensão posterior, B3 hiperextensão) e tipo C (deslocamento ou translação). Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

O TLICS: a classificação que vira conduta

O Thoracolumbar Injury Classification and Severity Score (Vaccaro, 2005) foi criado justamente para corrigir as falhas das taxonomias: soma pontos de três domínios (morfologia, estado neurológico e integridade do complexo ligamentar posterior) e devolve uma conduta.

TLICS (Thoracolumbar Injury Classification and Severity Score)
DomínioAchadoPontos
MorfologiaCompressão1
MorfologiaExplosão (soma 1 à compressão)2
MorfologiaTranslação ou rotação3
MorfologiaDistração4
Complexo ligamentar posteriorÍntegro0
Complexo ligamentar posteriorSuspeito ou indeterminado2
Complexo ligamentar posteriorLesado3
NeurológicoIntacto0
NeurológicoLesão de raiz2
NeurológicoMedula ou cone, completa2
NeurológicoMedula ou cone, incompleta3
NeurológicoCauda equina3
Total3 ou menos: não cirúrgico; 4: decisão do cirurgião; 5 ou mais: cirúrgico

Entender a lógica ajuda a não decorar. A distração é a morfologia mais grave (4) porque significa banda de tensão rompida e coluna que se abre. No domínio neurológico, a lesão incompleta vale mais que a completa (3 contra 2): é ela que ainda tem tecido a salvar com descompressão. A cauda equina também vale 3, pelo mesmo motivo. A explosão aparece na tabela original como um ponto a mais sobre a compressão.

O capítulo é crítico: o TLICS é ótimo para ensinar o peso relativo de cada achado, mas depende de um exame neurológico que não se obtém em boa parte dos politraumatizados, não comunica a "personalidade" da fratura, não diz que cirurgia fazer e reflete a escola norte-americana, menos aplicável onde a explosão sem lesão ligamentar nem déficit é rotineiramente operada.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-15. Algoritmo de tratamento pelo TLICS: até 3 pontos, tratamento não cirúrgico com órtese; 4 pontos, órtese na explosão sem lesão do complexo posterior ou cirurgia se houver pontuação neurológica; 5 ou mais, estabilização e artrodese; deformidade progressiva ou pseudartrose dolorosa tardia levam à cirurgia. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A classificação de compartilhamento de carga (load sharing)

McCormack (1994) criou uma escala para prever quando a fixação posterior curta vai falhar por falta de apoio anterior. Ela pontua três aspectos da vértebra fraturada, cada um de 1 a 3 (leve, moderado, grave): a cominuição do corpo, a aposição (o afastamento) dos fragmentos e a cifose a corrigir. A ideia é mecânica: quanto mais destruído o corpo, mais tempo ele leva para voltar a carregar peso, e por mais tempo os parafusos posteriores ficam sozinhos sob forças em alavanca.

  • 6 pontos ou menos: fixação posterior curta (um nível acima e um abaixo) é suficiente.
  • Mais de 6: a coluna anterior está muito comprometida; pede fixação posterior longa (dois ou três níveis acima e abaixo) ou reconstrução anterior e posterior combinada.

A crítica do capítulo: é simples e orienta a técnica, mas ignora o estado neurológico e o complexo ligamentar posterior.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-16. Classificação de compartilhamento de carga: graus 1 (leve), 2 (moderado) e 3 (grave) para a cominuição do corpo vertebral, a aposição dos fragmentos e a cifose, identificando as fraturas que podem ser tratadas com fixação posterior curta. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Fratura em explosão (A3 e A4)

Cobrança confirmada · 6 questões

A explosão é a falha das colunas anterior e média em compressão: o corpo quebra no platô e na parede posterior, e fragmentos podem recuar para o canal (retropulsão). É a fratura toracolombar mais debatida: há controvérsia sobre operar ou não e sobre por qual via, e o capítulo admite que as vantagens da cirurgia, mesmo nas explosões chamadas instáveis e nas com déficit, ainda não foram demonstradas de forma reprodutível.

Sem cirurgia, com ou sem colete

A maioria das explosões sem lesão do complexo ligamentar posterior pode ser tratada sem cirurgia, com ou sem órtese. Para testar a estabilidade, os autores pedem radiografias em pé: a explosão instável, com complexo posterior comprometido, aumenta muito a cifose quando carrega peso. Revisões sistemáticas mostraram resultado funcional semelhante ao da cirurgia nos pacientes sem déficit, com menos complicações e menor custo.

Dois estudos sustentam isso. No ensaio de Bailey, 96 pacientes neurologicamente intactos, com menos de 60 anos, explosão A3 entre T11 e L3 e cifose abaixo de 35 graus, tiveram dor e incapacidade equivalentes aos 3 meses e aos 2 anos, com ou sem órtese (os sem órtese só evitavam carregar mais de 5 kg e girar ou fletir o tronco). Os autores concluíram que a A3 é mais estável do que se pensava, não que o colete seja inútil. Wood acompanhou por 16 a 22 anos 19 pacientes com explosão estável: os tratados sem cirurgia tinham menos dor e melhor função.

A recomendação dos autores é colete com seguimento próximo quando a neurologia está intacta e a deformidade é leve a moderada: cifose abaixo de 25 graus, perda de altura abaixo de 50% e cominuição moderada.

A órtese certa para o nível certo

  • Entre T7 e L3: órtese toracolombossacra (TLSO). Para deformidade no plano sagital, um colete em hiperextensão como o Jewett; para deformidade coronal ou rotacional, um modelo bivalvado ("clamshell"), pronto ou moldado.
  • T6 ou acima: órtese cervicotoracolombossacra (CTLSO).
  • Abaixo de L3: é preciso incluir uma das coxas (HTLSO), o que torna o tratamento difícil.

Qualquer que seja a órtese, a radiografia em pé com o colete confirma que o alinhamento se mantém sob carga. O uso dura em geral de 6 semanas a 3 meses, sempre que fora da cama, com restrição de carregar mais de 10 libras e de fletir ou girar o tronco, e o desmame é gradual com fisioterapia.

Quando operar a explosão

É consenso operar a explosão com lesão confirmada do complexo ligamentar posterior ou com déficit neurológico. No paciente intacto, as razões principais são uma explosão de três colunas em que a lesão posterior é uma subluxação facetária ou equivalente, múltiplas lesões associadas ou impossibilidade de usar colete (outras lesões, biotipo). São indicações relativas a cifose de 30 graus ou mais, a perda de mais de 50% da altura e a cominuição e retropulsão graves.

O capítulo também dá uma tríade radiográfica de instabilidade: perda de altura acima de 50%, cifose acima de 30 graus e translação de 2,5 mm.

O ponto que mais confunde: a invasão do canal sem déficit não se associa a pior resultado nem indica cirurgia. O fragmento retropulsado remodela: o capítulo mostra uma explosão de L5 em que o canal se expandiu mais de 50% em 9 meses sem cirurgia e sem colete.

A lâmina vertical e a dura-máter

Na explosão, procure uma fratura vertical (longitudinal) da lâmina, sobretudo se desviada: a lâmina se abre no impacto e volta, e pode prender a dura-máter e as raízes no traço. Essas fraturas se associam a lesão traumática da dura em até 19% dos casos. A laceração é longitudinal, na face dorsal, e pode ser longa; ao abrir o canal, muitas vezes se veem primeiro as raízes, porque as bordas da dura se retraíram para a frente. O reparo fica mais simples com duas suturas contínuas, uma de cada extremidade da laceração, aproximando as bordas até se encontrarem.

No conjunto das fraturas toracolombares, cerca de 12% têm durotomia traumática, mais comum nas fraturas-luxações (tipo C), pelo cisalhamento, e nas explosões com lâmina longitudinal. O reparo ideal é sutura estanque (ou selantes e "patches" nas lesões complexas) com fechamento firme da fáscia; a taxa de complicação pós-operatória é de só 2,1%.

Como os autores operam a explosão

A via posterior é a mais usada. Os parafusos pediculares fixam as três colunas, o que permitiu montagens curtas, de um nível acima e um abaixo. A crítica é que a fixação curta falha mais (quebra de implante, cifose) quando a coluna anterior não sustenta carga, porque os parafusos ficam expostos a forças de alavanca. Os autores reservam a fixação curta para pacientes jovens, saudáveis, com bom osso e boa pega dos parafusos, e estendem para pelo menos dois níveis acima e abaixo no osso osteoporótico, na coluna torácica e na transição (onde preservar movimento importa menos) e nas fraturas muito cominutivas.

A correção pode ser indireta: contornar as hastes em lordose, prendê-las primeiro nos parafusos de cima e trazer a ponta de baixo para a frente, usando a faceta como fulcro, e depois distrair. A distração descomprime o canal por ligamentotaxia (o ânulo e o ligamento longitudinal posterior puxam o fragmento de volta), com ganho de até 50% do canal, mas ela não funciona quando essas inserções se romperam, como no fragmento rodado 180 graus, com a cortical posterior virada para a frente. Distrair o paciente intacto pede cautela.

No nível da medula ou do cone, a descompressão direta por trás exige laminectomia e pelo menos uma facetectomia, empurrando o fragmento para dentro do corpo com curetas angulares, sem retrair a dura. Entre L2 e S1, onde só há raízes, a dura pode ser afastada. Como as lâminas ficam mais caudais que seus corpos, a laminectomia inclui a lâmina da vértebra fraturada e a metade inferior da lâmina de cima, onde costuma estar o fragmento (junto ao platô superior).

O algoritmo dos autores resume:

  • Explosão sem déficit e load sharing abaixo de 6: fixação curta, percutânea ou aberta.
  • Sem déficit, mas load sharing acima de 6: fixação posterior longa (dois ou três níveis acima e abaixo) ou combinada anterior e posterior.
  • Fragmento retropulsado grande com déficit: corpectomia (anterior ou posterior) com fixação posterior segmentar.
  • Déficit, cifose focal acima de 20 graus ou politrauma: descompressão e artrodese posterior; a tomografia pós-operatória decide se falta corpectomia anterior.

A via anterior dá acesso direto ao fragmento e à coluna que carrega peso. Suas indicações são retropulsão com déficit, compressão grave do canal, cifose acima de 30 graus, cominuição grave do corpo e hérnia discal traumática no nível da medula ou do cone. Na lombar, uma corpectomia por trás é muito difícil (as raízes de L2 a L5 não podem ser sacrificadas), e a via anterior é quase sempre a preferida. A combinação das duas vias é para os casos em que cada uma sozinha falharia: a posterior isolada falha na A3 e A4 muito cominutivas; a anterior isolada falha quando o complexo posterior está roto (B2, C).

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-24. Explosão de L5 em adolescente com radiculopatia leve: depois de 9 meses de tratamento sem cirurgia e sem colete, o fragmento retropulsado remodelou e o canal se ampliou em mais de 50%, com resolução da radiculopatia. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A4, A2, A1 e A0

  • A4 (dois platôs) pode seguir o algoritmo da A3, mas muitos acham que indica lesão mais grave, com mais falha do tratamento conservador e limiar mais baixo para operar; quando operada, precisa mais de reconstrução anterior.
  • A2 (pinça) é tratada como a A1, mas a pinça com fragmentos muito afastados tem disco impactado entre eles e risco maior de pseudartrose, cifose e dor; pode ser operada, de preferência pela frente.
  • A1 (cunha) é estável: sem colete ou com 6 a 12 semanas de colete. Perda de altura acima de 50% com 25 graus de cifose pede seguimento próximo; a dor crônica se correlaciona com a cifose.
  • A0 (processo transverso ou espinhoso) não precisa nem de colete, mas é sinal de alerta: num estudo com 881 pacientes, a fratura isolada de processo transverso lombar baixo se associou a fraturas da pelve e lesões abdominais. E uma lesão B2 pode se disfarçar de fratura de processo espinhoso; o traço transversal denuncia a falha em tensão.

Fratura vertebral osteoporótica e cimentação

Cobrança confirmada · 5 questões

A fratura osteoporótica é um problema de saúde pública: mais de 1,5 milhão de fraturas osteoporóticas por ano nos Estados Unidos, com a coluna respondendo por cerca de 50%, mais que quadril e rádio distal. Depois dos 85 anos, a taxa é 10 a 15 vezes a dos 60 a 65 anos, quase sempre por trauma de baixa energia. O risco de fratura de quadril, punho ou coluna ao longo da vida é de cerca de 40% nas mulheres e 13% nos homens.

Sem cirurgia: pouca evidência para quase tudo

O ortopedista que trata a fratura deve iniciar a investigação e o tratamento da osteoporose (cálcio, 25-hidroxivitamina D, PTH e, nos homens, testosterona); só isso melhora os resultados. A diretriz da AAOS não encontrou evidência conclusiva para repouso, fisioterapia, exercícios, opioides, estimulação elétrica ou medicina alternativa no paciente sem déficit, e a recomendação para órteses é fraca (as complicações delas incluem lesões de pele, redução da capacidade pulmonar e enfraquecimento da musculatura).

Os remédios aliviam a dor aguda: pamidronato venoso, teriparatida (melhor analgesia que placebo ou alendronato) e calcitonina. A AAOS recomenda, com força moderada, calcitonina por 4 semanas no paciente intacto que chega em até 5 dias da fratura, e, com força limitada, os bifosfonatos para prevenir novas fraturas sintomáticas. Medicamentos antiosteoporóticos reduzem em 19% o risco de nova fratura vertebral.

Quando operar e o que fazer

Até 30% dos pacientes tratados sem cirurgia evoluem com pseudartrose dolorosa, cifose progressiva ou déficit. A cirurgia é indicada para comprometimento neurológico progressivo, deformidade dolorosa ou pseudartrose, politrauma e padrões instáveis. Para quem falhou no tratamento conservador, usa-se a cimentação; os padrões com lesão do complexo posterior ou com déficit pedem artrodese instrumentada. A principal indicação de cirurgia aberta é a compressão neural com déficit, sobretudo se aguda, incompleta e progressiva.

Na artrodese do osso osteoporótico, evite montagens só anteriores (o corpo osteoporótico segura mal placa e parafuso) e reforce a fixação posterior com parafusos cimentados, suporte da coluna anterior e vertebroplastia dos níveis vizinhos. Aumentar o comprimento da montagem ou usar colete pós-operatório têm pouca evidência; parafusos de maior diâmetro e ganchos de proteção têm algum respaldo.

Vertebroplastia e cifoplastia

A vertebroplastia injeta cimento no corpo pelo pedículo. A cifoplastia primeiro infla um balão dentro do corpo para tentar corrigir a cunha e recuperar altura, e só depois injeta o cimento. A história da evidência é uma gangorra:

  • 2009: dois ensaios contra procedimento simulado não mostraram vantagem da vertebroplastia em nenhum momento.
  • Um ensaio europeu contra tratamento conservador e outros estudos (Boonen, Taylor) mostraram alívio da dor, mobilização precoce e melhor qualidade de vida no curto prazo, sem grupo simulado.
  • A recuperação de altura foi confirmada só de forma limitada para a cifoplastia, e não para a vertebroplastia; no alívio da dor as duas se equivalem, e a cifoplastia custa bem mais.
  • Uma análise do Medicare mostrou mortalidade menor com vertebroplastia (39% contra 50%).
  • A revisão Cochrane de 2018 concluiu que a evidência não sustenta a vertebroplastia de rotina, com qualquer duração de dor; o ensaio VAPOUR, cego, mostrou benefício quando feita nas primeiras 3 semanas.
  • A AAOS recomenda fortemente contra a vertebroplastia no paciente intacto e aceita a cifoplastia como opção, com força limitada.
  • A taxa de nova fratura não aumentou: 14,5% com vertebroplastia, 18,5% com cifoplastia e 22% sem cirurgia.

Na prática dos autores, a cimentação é indicação relativa, para dor intensa e limitante que persiste depois de pelo menos 6 semanas de tratamento conservador.

As complicações do cimento

As complicações vêm de três fontes: extravasamento, embolia e novas fraturas vizinhas. O extravasamento é comum, mas em geral sem consequência: ocorre em até 9 de cada 10 pacientes e aumenta com cimento menos viscoso, volume maior e fraturas mais graves. Para onde vai:

  • espaço discal, pelos platôs rompidos: 45% (e o cimento no disco pode predispor o platô vizinho a fraturar);
  • paravertebral: 35%;
  • epidural: 20%;
  • pré-vertebral: 18%.

A complicação neurológica é rara, 0,1%, mas pode ser grave e exigir descompressão. A embolia pode ser de fragmentos já curados ou de monômero que polimeriza longe; houve casos fatais, e revisões chegam a 26% de embolia pulmonar sintomática, com grande variação de critérios. Pode haver ainda embolia gordurosa da medula óssea. Quanto às fraturas vizinhas, a metanálise não mostrou aumento: cerca de 20% dos pacientes têm nova fratura entre 6 e 12 meses, com ou sem vertebroplastia; os fatores de risco são IMC e densidade óssea baixos e cimento no disco vizinho.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-32. Complicação da vertebroplastia: tomografia axial com cimento vazado pela face anterior do canal vertebral, causando paraplegia aguda durante vertebroplastia torácica de vários níveis em fraturas por corticoide. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Imagem: radiografia, tomografia e ressonância

Cobrança confirmada · 4 questões

Tomografia primeiro

A radiografia deixou de ser o exame de triagem: a tomografia tem sensibilidade de 99% e alta especificidade e virou o exame inicial de escolha no trauma de alta energia, em geral reconstruída a partir da tomografia de tórax, abdome e pelve feita logo depois da avaliação primária. Ela mostra o traço (corpo, pedículos, lâminas, facetas, processos), a cominuição e a invasão do canal. Rastreie toda a coluna no politraumatizado: até 20% têm fraturas não contíguas. O diagnóstico atrasado ou perdido ocorre em 5% a 24% dos pacientes e pode ter consequências neurológicas devastadoras. O ponto fraco da tomografia é não mostrar bem os ligamentos e a medula; ela só dá sinais indiretos (translação, alargamento das facetas, da distância interespinhosa e do disco).

Na coluna anquilosada (espondilite anquilosante, hiperostose idiopática difusa), qualquer fratura, mesmo sem desvio, ou qualquer alargamento deve ser tratado como lesão muito instável.

O que ler na radiografia

A radiografia ainda serve, e a em pé ajuda a decidir o tratamento. No AP e no perfil, avalie o alinhamento sagital e coronal, rotação e translação, as três colunas de Denis, a perda de altura e as distâncias:

  • Distância interpedicular aumentada: o corpo explodiu para os lados e afastou os pedículos; é o sinal da explosão. No exemplo do capítulo, 28 mm no nível fraturado contra 22 mm no nível de cima.
  • Distância interespinhosa aumentada: a banda de tensão posterior se abriu (lesão tipo B).
  • Perda de altura só anterior sugere compressão; se a parede posterior (coluna média) também quebrou, é explosão.
  • Alargamento assimétrico de um disco em relação aos vizinhos sugere lesão discoligamentar.

A cifose é medida pelo ângulo de Cobb, entre o platô superior da vértebra acima da fratura e o platô inferior da vértebra abaixo. Lembre que a cifose normal aumenta com a idade: o que é aceitável aos 70 anos não é aos 20.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-3. Explosão completa de T12 com falha da banda de tensão posterior em adolescente com lesão do cone: no AP, a distância interpedicular de 28 mm no nível fraturado contra 22 mm no nível de cima denuncia a explosão; a fixação só posterior falhou com quebra das hastes e cifose, corrigida depois com osteotomia de subtração pedicular. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

A ressonância: sensível demais

A ressonância é mais sensível que a tomografia para o complexo ligamentar posterior, os ligamentos longitudinais, o disco e as partes moles, e mostra a medula: contusão hemorrágica ou não, hematoma epidural (o mais comum dos hematomas espinhais), compressão por osso ou disco e secção. Ela também ajuda no prognóstico. O problema é a baixa especificidade: ela superestima a lesão do complexo posterior e leva a operar demais. O capítulo recomenda julgar o complexo posterior pela soma de radiografia, tomografia e ressonância, e usar a ressonância para complementar a tomografia, sobretudo com déficit ou piora neurológica. Rotina de ressonância em toda fratura só aumenta custo.

Regiões, anatomia e lesões associadas

Cobrança confirmada · 3 questões

O capítulo divide a coluna em três regiões, e cada uma tem biomecânica e neurologia próprias.

  • Torácica (T2–T10): cifose de 20 a 50 graus, rígida pelas facetas de orientação coronal, pelas costelas e pelos discos finos. Quebra pouco, só com energia muito alta. O centro de gravidade fica à frente: compressão nos corpos, tração atrás. O canal é estreito, com pouca reserva, e a medula depende da artéria espinal anterior; por isso há déficit até com pouca invasão do canal, por compressão ou por isquemia.
  • Transição toracolombar (T11–L2): é o fulcro entre o segmento rígido e o móvel, sem a proteção das costelas e das facetas coronais. É a região mais vulnerável a fraturas e com mais déficit neurológico. Aqui ficam o fim da medula e o cone.
  • Lombossacra (L3–S1): lordose de 40 a 60 graus; as facetas de orientação sagital permitem muita flexão e extensão. O eixo de carga fica atrás da coluna, com tração nos corpos e compressão nas facetas, o que reduz as forças em cifose. Canal largo, só com cauda equina: tolera mais compressão e se presta mais ao tratamento não cirúrgico.

O complexo ligamentar posterior (cápsulas facetárias, ligamentos interespinhoso e supraespinhoso e ligamento amarelo, com suas inserções ósseas) é a banda de tensão posterior; sua falha se associa a lesões instáveis. Os pedículos torácicos são mais finos em T4–T5, e os de T12 costumam ser mais largos que os de L1 e L2.

Mecanismo e lesões associadas

No adulto, acidentes de trânsito (36,7%) e quedas de altura (31,7%) são as causas principais. A distribuição de idade é bimodal: homens abaixo de 30 anos em trauma de alta energia e idosos com osso ruim em quedas da própria altura. As lesões associadas são a regra: no banco nacional de trauma americano, houve lesão óssea ou visceral associada em 79% das fraturas torácicas e 71% das lombares. A fratura torácica se associou a costelas (47%), pulmão (35%), coluna lombar (26%), coluna cervical (25%) e crânio (24%); a lombar, a costelas (38%), pulmão (26%), coluna torácica (22%), pelve (20%) e crânio (19%). A lesão medular ainda traz falência de órgãos por disfunção autonômica (hipotensão ortostática, disreflexia, bexiga e intestino neurogênicos, ossificação heterotópica).

No exame secundário, o paciente é rolado em bloco (uma pessoa segura a cervical e pelo menos outras duas o tronco e as pernas), inspecionado e palpado em busca de dor, degrau, falha interespinhosa ou desenluvamento interno. A prancha rígida deve sair assim que a imagem estiver feita, para evitar úlceras de pressão, ainda mais prováveis no paciente com déficit.

Flexão-distração e fratura de Chance (tipo B1 e B2)

Cobrança confirmada · 2 questões

As lesões tipo B são as de banda de tensão: a coluna dobra em torno de um eixo e a parte de fora do arco se abre em tração. A posição desse eixo de rotação explica quase tudo.

B1: a fratura de Chance

Na B1, a falha posterior em tração atravessa só osso e corta uma única vértebra de trás para a frente (processo espinhoso, lâminas, pedículos, processos transversos e corpo), sem atingir o disco. O eixo de rotação fica à frente do corpo vertebral, e é justamente por isso que a lesão se associa tanto a lesões viscerais e vasculares: o cinto abdominal funciona como fulcro sobre o abdome. O capítulo mostra uma criança passageira com cinto abdominal e uma variante de Chance em L3.

Como é uma lesão de três colunas puramente óssea, ela consolida bem. Por isso é a lesão tipo B que o capítulo aceita, com tranquilidade, tratar com órtese em hiperextensão (para a B2, só há alguma evidência em pacientes jovens, intactos e com angulação mínima), no paciente com alinhamento mantido, lesão isolada e bom potencial de consolidação, ou no paciente sem condição clínica. No paciente ativo, a cirurgia é uma montagem posterior curta em compressão, que se opõe diretamente à força de distração; como o disco está intacto, não precisa de artrodese, e o material pode ser retirado depois, devolvendo o movimento. O ligamento amarelo redundante é retirado antes da redução para não invadir o canal, e a técnica percutânea serve bem.

B2: a banda de tensão posterior

Na B2, o complexo posterior falha (por osso, ligamento ou ambos) no nível de um disco, e o eixo de rotação costuma ficar dentro do corpo vertebral, o que gera uma compressão ou explosão associada da vértebra de baixo. O mecanismo também envolve cinto ou outro fulcro anterior, então procure lesão abdominal. A B2 consolida menos sem cirurgia (há componente ligamentar e insuficiência anterior) e tem mais déficit que a B1 quando há explosão. Em menores de 16 anos, o colete falhou com cifose acima de 20 graus; outra série mostrou mau resultado acima de 17 graus. Como nenhum exame define sozinho o complexo posterior, os autores operam a B2: artrodese instrumentada posterior pelo menos um nível acima e um abaixo do segmento lesado, com reconstrução anterior se houver explosão importante. Nunca só pela frente: a via anterior não realinha nem estabiliza uma lesão de três colunas com banda posterior rota.

As lesões vasculares e intra-abdominais acompanham até 40% das flexões-distrações e explosões; os grandes vasos se lesam mais nas B1, B2, B3 e C, e o intestino, nas flexões-distrações.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-4. Variante de fratura de Chance (B1) em L3 numa criança com cinto abdominal: o traço chega à parte inferior dos pedículos e a distância interespinhosa aumenta no AP; como os pedículos estavam disponíveis, a fratura foi fixada só através do nível lesado, com parafusos e ganchos, e consolidou. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-5. Lesão de flexão-distração de três colunas (B2) tomada por explosão estável (A3) no pronto-socorro: o alargamento interespinhoso T11–T12 foi ignorado, a paciente teve alta sem seguimento e voltou 6 meses depois com cifose de 45 graus, tratada com reconstrução anterior e posterior. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Vias de acesso e a artéria de Adamkiewicz

Cobrança confirmada · 2 questões

A via posterior é a mais conhecida e a mais usada: acesso ao canal e à dura, correção da deformidade, montagens longas e nenhuma morbidade de acesso no paciente com lesão torácica ou abdominal. Na exposição, mantenha-se na linha média e no plano subperiosteal (lateralmente há um plexo venoso que sangra muito), preserve cápsulas e ligamentos dos níveis vizinhos e cauterize as artérias da face lateral da pars e das facetas.

A via anterior tem regras de lado que caem na prova:

  • Torácica acima de T11: dos dois lados, mas em geral pela direita, para fugir do coração. A incisão fica um ou dois arcos costais acima do nível (na torácica, tipicamente dois).
  • Transição toracolombar: pela esquerda, para evitar o fígado e manipular menos a veia cava inferior. O diafragma é cortado deixando uma bainha de 1 cm para a sutura, longe do centro (nervo frênico); cuidado com o ducto torácico e a cisterna do quilo.
  • L2 e L3: retroperitoneal esquerda, em decúbito lateral direito, sem abrir o diafragma.
  • L5–S1: supina; ligam-se os vasos sacrais médios, e o eletrocautério deve ser poupado à frente do disco para não lesar o plexo simpático, o que causa ejaculação retrógrada. Para chegar a L4–L5, liga-se a veia iliolombar, que, se arrancada ao afastar os vasos, sangra muito.

Os vasos segmentares são ligados perto da aorta, para preservar a circulação colateral da medula, e os grandes podem ser pinçados temporariamente com monitorização. A artéria de Adamkiewicz costuma nascer à esquerda, entre T8 e T10, mas pode surgir de T7 a L4; por isso se pinçam as segmentares de T8 a T12 e se observa a neuromonitorização antes de ligá-las.

A costotransversectomia (de T2 a L1) permite descomprimir e reconstruir pela frente a partir de um único acesso posterior, sacrificando uma raiz torácica; é tecnicamente difícil e tem complicação média de 15%, chegando a 57% em algumas séries.

Corticoide e o momento da cirurgia

Cobrança confirmada · 1 questão

A metilprednisolona

A ideia era que o efeito anti-inflamatório protegeria contra a lesão secundária. O NASCIS II mostrou melhor resultado neurológico com bolo de 30 mg/kg de metilprednisolona venosa seguido de 5,4 mg/kg/h por 23 horas, se iniciado em menos de 8 horas. O NASCIS III sugeriu que as 24 horas bastam se o início for em até 3 horas, e que entre 3 e 8 horas a infusão deve durar 48 horas. Vieram as críticas (análise post hoc, estudos que não confirmaram) e o risco: o corticoide em dose alta pode prejudicar idosos com comorbidades e agravar lesões de outros órgãos.

As diretrizes oscilaram: a CNS/AANS de 2002 a considerava uma opção; a de 2013 recomendou contra; a diretriz mais recente da AO Spine com a AANS/CNS voltou a aceitar a infusão de 24 horas como opção, se iniciada em até 8 horas. Os autores usam com seletividade e cautela, em pacientes mais saudáveis. No ferimento por arma de fogo, a metilprednisolona não é recomendada.

O riluzol (bloqueador de canal de sódio aprovado para ELA) está em estudo, e a hipotermia não tem evidência forte.

Quando operar

Os dois motivos principais para operar são déficit neurológico e instabilidade. Lesões com déficit são consideradas mecanicamente instáveis, com raras exceções (alguns ferimentos penetrantes e algumas explosões bem alinhadas cujo déficit vem só da retropulsão). As lesões que claramente ganham com cirurgia são as flexões-distrações, as lesões de três colunas com banda posterior rota (tipos B e C) e as com déficit; nas explosões sem déficit a indicação é controversa. No politraumatizado, operar pode facilitar a mobilização; e várias fraturas pequenas juntas podem somar uma deformidade inaceitável.

Sobre o momento, o estudo STASCIS mostrou que descomprimir antes de 24 horas é seguro e se associa a melhora de pelo menos dois graus da escala AIS aos 6 meses (os críticos dizem que o grupo tardio tinha mais tempo para melhorar antes). Uma revisão de Bellabarba mostrou que fixar cedo a coluna torácica reduz dias de ventilação, de UTI e de internação e as complicações respiratórias; na lombar, só encurta a internação. Operar cedo demais o paciente mal ressuscitado, instável ou com lesão craniana é perigoso.

Ferimento da coluna por arma de fogo

Cobrança confirmada · 1 questão

Cerca de metade dos ferimentos por projétil na coluna atinge a torácica e um terço, a lombar. Nos Estados Unidos, o projétil civil é a terceira causa de lesão medular, depois de quedas e trânsito, cerca de uma em cada cinco, quase sempre em homens de 15 a 34 anos. A divisão clássica é baixa velocidade (abaixo de 2.000 pés por segundo) e alta velocidade; hoje se fala em baixa energia (civil) e alta energia (militar, com cavitação e lesão extensa).

  • Lesões associadas em cerca de 90% (tórax, abdome, vasos); quando atinge a cervical, mais de 80% têm risco para a via aérea.
  • Instabilidade em 3% a 30% dos ferimentos civis toracolombares; déficit em 30% a 80%, e as lesões medulares ou do cone tendem a ser completas.
  • Ressonância: projéteis de chumbo com capa de cobre ou liga quase não se movem até 7 Tesla; os de aço sofrem forte atração.
  • Antibiótico: sem lesão visceral, 48 a 72 horas; quando o projétil passou pelo intestino, classicamente 7 dias ou mais, mas a evidência mais recente sustenta 24 horas após a cirurgia.
  • Estabilidade: a cirurgia é raramente necessária no projétil civil; lesão de uma coluna dispensa cirurgia e colete, mesmo com o complexo posterior atingido, porque o trajeto é limitado e não há a força de flexão que rompe as outras colunas.
  • Descompressão: indicada sobretudo no déficit incompleto e progressivo com lesão compressiva identificável; na lesão completa é de valor duvidoso, e operar ferimentos estáveis não melhorou a neurologia e teve mais complicações (21% contra 7%). Retirar o projétil do canal entre T12 e L4 melhorou a força; de T11 para cima, não houve efeito demonstrável.
  • Fístula liquórica: pede, em geral, reparo aberto da dura.
  • Chumbo: projéteis com cobre dentro do canal são mais neurotóxicos localmente. A intoxicação sistêmica por chumbo a partir da coluna é raríssima (quatro relatos, todos com fragmento no disco); o chumbo é absorvido sobretudo do líquido sinovial, e por isso a retirada de projéteis intra-articulares é rotina. O "efeito discograma" (chumbo se espalhando no disco na radiografia) é um aviso para dosar o chumbo.

O prognóstico neurológico é reservado: dois terços não melhoram o nível em um ano, embora o escore motor melhore, mais nas incompletas; depois podem surgir siringomielia (60%), cisto aracnoide (25%) e infecção (10%).

Hiperextensão na coluna anquilosada (B3) e fratura-luxação (C)

Possível cobrança

Nenhuma questão de prova real do acervo foi encontrada sobre estes dois tipos, mas o capítulo dá a eles muita atenção, e os simulados do site cobram os pontos centrais.

B3: a coluna anquilosada quebra como um osso longo

Na B3, o ligamento longitudinal anterior falha em tração, junto com o ânulo, o corpo ou ambos. É uma lesão de três colunas muito instável, típica da espondilite anquilosante, da hiperostose idiopática difusa (DISH) ou da artrose avançada. A coluna fundida se comporta como um osso longo fraturado: poucos tecidos moles segurando e braços de alavanca enormes dos dois lados. Os pacientes costumam ser idosos, osteoporóticos e com cifose prévia. Quatro cuidados práticos:

  • Faça tomografia da coluna inteira: lesões em outros níveis, não contíguas, são comuns (no caso do capítulo, uma B3 cervical estava escondida).
  • Transporte em decúbito lateral (reduz em parte a fratura e alarga o canal) ou supino com travesseiros sob o pescoço e o tórax alto, preservando a cifose. Deitar plano piora a hiperextensão e a compressão; nunca estenda o paciente para caber na ressonância.
  • Vigie a neurologia: o hematoma epidural compressivo aparece em cerca de 10% dos que têm déficit; se a ressonância não for possível, mielotomografia ou laminectomia exploradora com campo amplo.
  • Posicione com cuidado: a mesa comum, que corrige cifose, pode acentuar a extensão e lesar a medula; use neuromonitorização antes de virar em prono e, se os sinais caírem, reposicione ou reduza puxando os processos espinhosos com pinças.

A cirurgia é posterior e longa, pelo menos dois a três níveis acima e abaixo, para neutralizar a alavanca e compensar o osso ruim; a técnica percutânea ganha espaço quando não há déficit nem grande desvio. O objetivo é devolver o alinhamento prévio do paciente, não corrigir a cifose antiga. A B3 em coluna não anquilosada é rara, mais discoligamentar, e aceita montagens mais curtas.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-29. Fratura em extensão T10–T11 numa paciente com espondilite anquilosante que caiu sentada de uma cadeira (B3; N3; M2): transportada em decúbito lateral, melhorou de ASIA B para D no caminho; o rastreio da coluna inteira achou outra B3 em C5–C6, tratada com artrodese posterior longa. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

C: a fratura-luxação

A tipo C é a falha das três colunas com translação ou rotação, por forças de cisalhamento no plano transversal, quase sempre de alta energia e às vezes com lesão vascular grave. Traz déficit em 75% ou mais. A luxação pura das facetas é rara; o comum é fratura das facetas ou da pars com translação. A estenose do canal vem do deslocamento, mais que da retropulsão.

A conduta é cirúrgica, qualquer que seja a neurologia, começando por trás: redução aberta e artrodese posterior pelo menos dois níveis acima e abaixo, porque a lesão exige montagem longa e a correção multiplanar é muito mais fácil pela via extensível posterior. O realinhamento costuma descomprimir o canal indiretamente; a tomografia pós-operatória decide se falta reconstrução anterior. A via anterior isolada falha nessa lesão. O prognóstico depende da neurologia da chegada.

Complicações e deformidade tardia

Possível cobrança

Nenhuma questão de prova real do acervo foi encontrada sobre estes números, mas eles são bons candidatos a questão.

  • Infecção: 5,5% numa revisão; até 10% exigem nova cirurgia e antibiótico prolongado. A vancomicina em pó na ferida reduziu infecção no trauma. Superficial ou profunda, o desbridamento é agressivo; na profunda, tenta-se manter o enxerto aderido; o VAC ajuda nas feridas lombossacras.
  • Falha de implante com revisão: 4,4%.
  • Piora neurológica: cerca de 1% das cirurgias posteriores; os autores usam neuromonitorização em todo trauma instrumentado, com sinais basais antes de posicionar nos casos de risco.
  • Tromboembolismo: sintomático em 1% a 5% (cerca de 2,5% nas fraturas vertebrais); profilaxia química pode começar 24 a 48 horas após a cirurgia, compressão pneumática para todos e filtro de veia cava só com contraindicação absoluta.
  • Deformidade tardia: é a complicação de longo prazo mais comum, por acunhamento progressivo e afrouxamento da banda posterior. Opera-se a dor importante, o déficit progressivo ou a dificuldade postural com cifose focal de 25 graus ou mais. As osteotomias de uma coluna (Smith-Petersen, Ponte) corrigem 10 a 15 graus por nível e pedem discos móveis; a subtração pedicular, de três colunas, corrige até cerca de 30 graus num nível só e serve à coluna anterior rígida, como a explosão consolidada viciosamente. A complicação geral é de cerca de 10%.
  • Seguimento: sem cirurgia, consultas e radiografias em pé com 3, 6 e 12 semanas, 6 e 9 meses e 1 ano (semanais ou quinzenais no início nas fraturas mais duvidosas); com cirurgia, com 3 e 12 semanas, 6 e 9 meses e 1 ano.

Figura do original não reproduzida (sem licença de reprodução digital). Consulte a figura no livro.

Figura 49-13. Ressecção de coluna vertebral para corrigir deformidade torácica alta fixa após fratura-luxação T4–T5 tratada sem cirurgia: a vertebrectomia de T5 por costotransversectomia, com enxerto e artrodese posterior longa, restaurou o alinhamento e descomprimiu a medula. Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025).

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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