Orto Questões

Politrauma e controle de danos

Trauma adultoResumo do capítulo36 min de leitura

ABCDE e mortalidade trimodal (precoce: hematoma epidural, hemopneumotórax, sangramento de extremidades); tríade letal (hipotermia, acidose, coagulopatia); SIRS (T > 38 ou < 36, FC > 90, FR > 20 ou PaCO2 < 32, leucócitos > 12.000 ou < 4.000 ou > 10% de jovens) e IL-6 como marcador; primeiro e segundo golpes; ISS (soma dos quadrados de três regiões, até 75) e NISS; estável, borderline, instável e in extremis; lactato como guia (EAC: pH ≥ 7,25, BE ≥ -5,5, lactato < 4 em 36 h); janela do 5º ao 10º dia; PIC ≤ 20 e PPC > 70; pelve: cinta nos trocânteres, tamponamento só com pelve estabilizada, arteriografia pelo extravasamento na TC; MESS ≥ 7.

Atualizado em 04/11/2026 · 36 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 14 · Management of the Multiply Injured Patient, em Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025). Autores do capítulo: Tejal S. Brahmbhatt e Heather A. Vallier.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de trauma adulto do Rockwood adulto, capítulo 14, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo é inspirado no capítulo 14 (Management of the Multiply Injured Patient) do Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição (2025), costurado com o capítulo 4.1 do AO Principles of Fracture Management, 3ª ed., os capítulos 9 e 11 do Skeletal Trauma, 5ª ed., o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., e o capítulo 74 do HEBERT, 5ª ed. As páginas do Rockwood são aproximadas, inferidas pelo índice remissivo.

A ideia central: o politraumatizado morre da fisiologia, não da radiografia. A placa perfeita no paciente frio, ácido e sangrando é um segundo golpe; a tração por semanas devolve o paciente à pneumonia e à embolia gordurosa. Quem está ressuscitado recebe o cuidado definitivo cedo; quem não está recebe o controle de danos e volta na janela certa. As bancas cobram o ATLS e as causas de morte, a tríade letal e a SIRS, a decisão entre cuidado total precoce e controle de danos, e as lesões que matam ou custam o membro (pelve instável, MESS).

Quem é o politraumatizado e como medir a gravidade

Fundamento

A definição mudou

O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 311), lembra a definição clássica: politrauma é uma síndrome de lesões múltiplas com ISS acima de 16, com reações sistêmicas que podem levar à disfunção ou falência de órgãos remotos, que não foram atingidos diretamente. Essa última parte é o coração da coisa: o pulmão que falha no terceiro dia muitas vezes não levou pancada nenhuma; falhou pela inflamação.

O consenso internacional de 2014 trocou o número por um critério mais fisiológico: duas lesões com AIS ≥ 3 mais pelo menos uma das condições abaixo (AO, p. 311).

Definição de politrauma pelo consenso de 2014 (AO Principles, cap. 4.1, p. 311)
Condição adicionalPonto de corte
HipotensãoPAS ≤ 90 mm Hg
InconsciênciaGCS ≤ 8
Acidosedéficit de base ≤ -6,0
CoagulopatiaTTPa ≥ 50 s ou INR ≥ 1,4
Idade≥ 70 anos

O HEBERT, 5ª ed. (cap. 74, seção Definição), usa ISS (EGL) acima de 17. Os cortes divergem (16, 17), mas politrauma não é "mais de um osso quebrado": é gravidade suficiente para disparar uma resposta sistêmica.

ISS, AIS e NISS

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 14, p. aprox. 472 a 473), divide os escores em fisiológicos, anatômicos e combinados. O ISS é anatômico e validado para morbidade e mortalidade: cada lesão recebe um grau no AIS; em cada região conta só o maior AIS; somam-se os quadrados das três regiões mais graves (ISS = A² + B² + C²). AIS 6 em qualquer lesão leva o ISS automaticamente a 75, o máximo; ISS acima de 15 associa-se a 10% de mortalidade.

ISS: regiões e graus do AIS (Rockwood and Green's, 10ª ed., cap. 14, Tabela 14-3, p. aprox. 473)
ElementoConteúdo
Regiõespartes moles; cabeça e pescoço; tórax; abdome; extremidades e/ou pelve
AIS 1 a 3menor; moderada; grave sem risco de vida
AIS 4 e 5grave com risco de vida; crítica, sobrevida incerta
AIS 6fatal: ISS = 75 automaticamente
FórmulaISS = A² + B² + C² (maior AIS das três regiões mais graves)
NISStrês maiores AIS, em qualquer região

O defeito do ISS é a regra "só o maior AIS de cada região": fêmur bilateral, tíbia exposta e pelve instável caem todos em "extremidades e/ou pelve" e só um conta. O NISS soma as três maiores lesões, independentemente da região, e se mostrou potencialmente mais preditivo de sobrevida; o ISS ainda é difícil de calcular na admissão (Rockwood, p. aprox. 473). Divergência: o ISS vai de 0 a 75 no Rockwood e de 3 a 75 no HEBERT. O HEBERT mostra a fragilidade do idoso: com ISS acima de 15, mortalidade de 4,8% abaixo dos 65 anos e 24,3% a partir dos 65.

Por que o paciente morre e em que momento

Cobrança confirmada · 1 questão

A distribuição trimodal

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 472) descreve a distribuição trimodal clássica da mortalidade, com a ressalva de que os limites de tempo não são uniformes na literatura e de que a maioria das mortes ainda ocorre nas primeiras 24 horas.

Mortalidade trimodal: o que mata em cada pico (Rockwood and Green's, cap. 14, p. aprox. 472; HEBERT, cap. 74)
PicoQuandoRockwoodHEBERT
Imediatono local ou no transporteperda da via aérea, grandes lesões cerebrais com efeito de massa, lesão medular alta, ruptura de grandes vasoslaceração cerebral, TRM alto, lesão de tronco cerebral
PrecocehorasTCE salvável por descompressão, hemotórax ou pneumotórax, órgão sólido, sangramento de fraturashematomas epi ou peridurais, baço e fígado, hemopneumotórax, perda de sangue por múltiplas lesões das extremidades
Tardiodias a semanasinfecção ou disfunção de múltiplos órgãosTCE, falência múltipla de órgãos, sepse

O pico precoce é o das lesões tratáveis: o hematoma epidural e o hemopneumotórax se drenam, o sangramento de fêmur e pelve se controla com redução e estabilização. É ali que o atendimento organizado salva vidas; o HEBERT frisa que 62% das mortes intra-hospitalares ocorrem nas primeiras quatro horas. Tronco cerebral e TRM alto matam na hora; sepse e falência de órgãos precisam de dias.

O atendimento inicial: ATLS

Fundamento

A origem e a lógica do ABCDE

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 468) lembra que o conceito do ATLS foi introduzido por James STYNER, um ortopedista, com a Universidade de Nebraska, em 1968. A ressuscitação horizontal (tarefas em paralelo, com líder de equipe) é a realidade dos centros de trauma, e o AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 317) confirma que muitos sistemas adaptaram o ATLS para avaliar e tratar em paralelo. Regra de ouro: só se passa à letra seguinte com a anterior segura, porque a via aérea mata mais rápido que o pneumotórax, e este mais rápido que a hemorragia.

Avaliação primária: o que cada letra exige (Rockwood and Green's, cap. 14, pp. aprox. 468 a 470)
LetraO que avaliarCondutas e números que caem
Avia aérea com imobilização cervicalO2 empírico; GCS ≤ 8 = intubação; cricotireoidostomia se não intubar
Brespiraçãopneumotórax hipertensivo: agulha (temporária) e depois dreno obrigatório
Ccirculação e hemorragiatodo paciente com fisiologia anormal está em choque hemorrágico até prova em contrário; dois acessos 14 ou 16 G (POISEUILLE: curto e largo); cristaloide primeiro; FAST; RX de tórax e AP de pelve; cinta pélvica; pressão direta e torniquete
DneurológicoGCS: ≥ 13 leve, 9 a 12 moderado, ≤ 8 grave; o componente motor é o mais prognóstico; agitação pode ser choque
Eexposiçãodespir tudo, rolamento em bloco, rápido pela hipotermia

Pelo POISEUILLE, o fluxo é proporcional ao raio à quarta potência e inverso ao comprimento: dois periféricos calibrosos vencem o cateter central fino. O sangue se esconde em tórax, peritônio, retroperitônio (contíguo à pelve), coxas e para fora, e o FAST não avalia o retroperitônio, justamente onde a pelve sangra. Na pelve, a cinta não é panaceia, e no cisalhamento vertical a tração esquelética vem antes da redução circunferencial.

Secundária, terciária e o papel do ortopedista

A secundária é o exame da cabeça aos pés com a história AMPLE; a terciária repete tudo quando o paciente pode colaborar. Lesões musculoesqueléticas despercebidas são comuns, sobretudo no TCE que foi direto para cirurgia (Rockwood, p. aprox. 470); o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 58, p. 2517), estima 5% a 20% de lesões não reconhecidas, e a terciária padronizada as reduziu em 36% (Skeletal Trauma, 5ª ed., cap. 9, p. 301).

O Rockwood (p. aprox. 470) define a cirurgia ortopédica de controle de danos: controlar a hemorragia, reduzir a contaminação pelo desbridamento e estabilizar osso e partes moles em quem não pode receber o reparo definitivo, inclusive em cirurgias simultâneas (craniotomia, fixador femoral e esplenectomia na mesma anestesia).

Choque: os quatro tipos e as classes da hemorragia

Fundamento

Os quatro tipos

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 14, pp. aprox. 470 a 472) define choque como perfusão inadequada dos órgãos-alvo e descreve quatro tipos: hipovolêmico, cardiogênico, neurogênico e séptico. A hemorragia é a causa mais comum e a principal causa de morte evitável; o choque hemorrágico responde por cerca de 40% das mortes traumáticas. O neurogênico (medula cervical ou torácica alta, 7% a 10% dos traumas raquimedulares) dá hipotensão com bradicardia e pele quente e seca; como a fase tardia da hemorragia também dá hipotensão com bradicardia, exclui-se a hipovolemia antes. Choque medular não é choque: é a perda temporária dos reflexos abaixo da lesão. O cardiogênico e o séptico são raros no início; sepse no politraumatizado manda procurar lesão despercebida. A frequência cardíaca engana no idoso e no usuário de betabloqueador.

As classes da hemorragia

A Tabela 14-2 do Rockwood (classificação do choque hemorrágico no homem de 70 kg) é uma figura no PDF e não pôde ser extraída. As classes do ATLS estão descritas no Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 9, p. 297):

Classes da hemorragia do ATLS (Skeletal Trauma, 5ª ed., cap. 9, p. 297)
ClassePerda (% da volemia)VolumeClínicaReposição
Iaté 15%até 750 mLsintomas mínimos; o próprio corpo repõe em 24 hpouco volume
II15% a 30%750 a 1.500 mLtaquicardia, taquipneia, pressão de pulso diminuída, alteração mental leveao menos 2 L de solução balanceada; sangue pode não ser necessário
III30% a 40%1.500 a 2.000 mLtaquicardia importante, taquipneia, alteração mental, queda da PAScostuma exigir sangue
IV> 40%> 2.000 mLtaquicardia grave, pressão de pulso diminuída, obnubilação ou comasangue

A PAS só cai na classe III: antes, o corpo compensa com taquicardia, e a pressão de pulso estreita. Quem estabiliza e volta a cair está sangrando (Skeletal Trauma, cap. 9, p. 297). O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 476) dá a perda média: fêmur 1.200 mL, úmero ou tíbia 750 mL; pelve e fêmur bilateral são as lesões que mais sangram, e múltiplos ossos longos chegam a 25% de mortalidade, com o sangue escondido em espaço fechado.

O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 315) recomenda PAS de 80 a 90 mm Hg até parar o grande sangramento sem TCE, e PAM ≥ 90 com TCE (GCS ≤ 8): hipotensão permissiva com bolus de 250 mL aquecidos, limitada no tempo. O Skeletal Trauma (cap. 11, p. 318) explica: normalizar a pressão antes da hemostasia desloca o coágulo, a hipotensão volta, mais cristaloide dilui os fatores e a hipotermia chega.

A tríade letal e a ressuscitação de controle de danos

Cobrança confirmada · 1 questão

Por que os três se alimentam

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 14, p. aprox. 473, Figura 14-1) define a tríade letal como hipotermia, acidose e coagulopatia, consequência aceita da hemorragia grave. O ponto central é que os três se retroalimentam até um ponto sem retorno:

  • a oferta inadequada de oxigênio leva ao metabolismo anaeróbio, que produz acidose;
  • a acidose altera o ambiente enzimático e torna disfuncionais a agregação plaquetária e os fatores de coagulação;
  • mais sangramento piora a acidose;
  • a hipoperfusão leva à hipotermia, que piora ainda mais as enzimas da coagulação e o sangramento.

O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 314) acrescenta que a coagulopatia do trauma é precoce, muitas vezes presente antes de o paciente chegar, e multifatorial: choque, lesão endotelial, complexo trombina-trombomodulina, queda da proteína C ativada, ativação fibrinolítica, hipotermia e a hemodiluição por grandes volumes de cristaloide. Alcalose e anúria não fazem parte da tríade: o choque gera ácido, não base.

Como se ressuscita hoje

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 473) usa a tromboelastografia para repor por defeito (R longo = plasma; K e ângulo alfa = crioprecipitado; amplitude máxima = plaquetas; fibrinólise = ácido tranexâmico) e a transfusão maciça 1:1:1 (plasma, plaquetas, hemácias). O REBOA oclui a aorta na zona 1 (sangramento intraperitoneal) ou na zona 3 (sangramento pélvico, onde está a melhor evidência), e o ortopedista vigia a síndrome compartimental de reperfusão. O AO Principles (cap. 4.1, p. 316) traz o CRASH-2: ácido tranexâmico em até 3 horas, 1 g de ataque e 1 g em 8 horas, e define a ressuscitação de controle de danos: hemostasia externa, hipotensão permissiva limitada, pouco cristaloide, hemoderivados precoces, ácido tranexâmico, aquecimento e cirurgia de controle de danos.

O termo "damage control" foi usado por ROTONDO em 1993, com três fases (FELICIANO): controlar sangramento e contaminação; corrigir a tríade na UTI; voltar para o reparo definitivo (Skeletal Trauma, 5ª ed., cap. 11, p. 317). O controle de danos ortopédico é a mesma lógica aplicada ao osso.

A resposta inflamatória: SIRS, CARS e os dois golpes

Cobrança confirmada · 6 questões

O que acontece no corpo depois do trauma

O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, pp. 312 a 313) descreve duas respostas que deveriam se equilibrar: a SIRS (síndrome da resposta inflamatória sistêmica) e a CARS (síndrome da resposta anti-inflamatória compensatória). Se a SIRS exagera, vêm SDRA, disfunção de múltiplos órgãos e morte; se a CARS descompensa, vêm imunossupressão e sepse precoce.

Logo após o trauma, corticosteroides e catecolaminas produzem taquicardia, taquipneia, leucocitose e febre, justamente os critérios da SIRS. Neutrófilos, monócitos e linfócitos aderem ao endotélio; quando a ativação é sistêmica, os neutrófilos liberam enzimas tóxicas que lesam órgãos distantes, como o pulmão. O HEBERT (cap. 74, Resposta metabólica ao trauma) resume: todo trauma provoca resposta inflamatória sistêmica seguida de imunossupressão relativa, e a cirurgia libera mediadores e deprime a função monocitária; separa as respostas cardiovascular (imediata), inflamatória (horas a dias) e metabólica (metabolismo basal 50% a 100% maior após grandes cirurgias).

Os critérios da SIRS

Critérios da SIRS: cada um vale 1 ponto (AO Principles, cap. 4.1, Tabela 4.1-1, p. 315; HEBERT, cap. 74)
ParâmetroPonto de corte
Temperatura> 38 °C ou < 36 °C
Frequência cardíaca> 90 bpm
Frequência respiratória> 20/min ou PaCO2 < 32 mm Hg
Leucócitos> 12.000 ou < 4.000/mm³; o HEBERT acrescenta > 10% de formas jovens (normal 3% a 5%)

A banca troca exatamente os números: 39 ou 34, 120, 40, 8.000 ou 10.000, 5% de bastões estão errados; o critério é 38 ou 36, 90, 20 (ou PaCO2 32), 12.000 ou 4.000, 10% de jovens. O AO define SIRS por "mais de dois pontos".

A IL-6 como marcador

O AO Principles (cap. 4.1, p. 313) sustenta a resposta: a IL-6 é o marcador útil porque tem padrão de expressão consistente e meia-vida plasmática adequada; 200 pg/dL foi diagnóstico de estado de SIRS (nos dias 0 e 1, p. 315), com correlação entre IL-6, SIRS e eventos adversos. O HEBERT (cap. 74, Critérios prognósticos) acrescenta que IL-6 de entrada acima de 800 pg/mL cursou sempre com falência múltipla de órgãos (SMITH e GIANNOUDIS). O Rockwood (cap. 26, p. aprox. 795) lista no surto pós-trauma os pró-inflamatórios IL-6, IL-8, IL-1β e TNF-α e os anti-inflamatórios IL-10 e TGF-β: TNF e IL-1 também sobem, mas é a IL-6 que os livros apontam como marcador confiável. A proteína C-reativa não aparece nos livros como marcador da fase aguda do politrauma.

O contrapeso anti-inflamatório

Se a SIRS é o fogo, a CARS é o bombeiro. O Rockwood traz a IL-10 (com o TGF-β) como anti-inflamatória pós-lesão (cap. 26) e a IL-10, a IL-13 e a IL-4 como os fatores que levam o macrófago do estado M1 (pró-inflamatório) ao M2 (anti-inflamatório) (cap. 2, seção de células mesenquimais e inflamação). O trio IL-4, IL-10 e IL-13 é o anti-inflamatório; IL-6, IL-8 e IL-12 ficam do lado pró-inflamatório. Como o macrófago é o monócito no tecido, e o HEBERT liga a imunodepressão à função monocitária, a banca atribui o trio aos monócitos.

Mediadores pró e anti-inflamatórios no politrauma (Rockwood and Green's, caps. 2 e 26; AO Principles, cap. 4.1; HEBERT, cap. 74)
LadoMediadoresO que os livros dizem
Pró-inflamatório (SIRS)IL-6, IL-8, IL-1β, TNF-α, interferonsIL-6 é o marcador: 200 pg/dL = SIRS; > 800 pg/mL = falência múltipla
Anti-inflamatório (CARS)IL-10, TGF-β, IL-4, IL-13levam o macrófago a M2; CARS exagerada = imunossupressão e sepse
Celularneutrófilos (elastase), monócitos e macrófagos, linfócitosneutrófilos ativados sistemicamente lesam o pulmão; cirurgia deprime a função monocitária

Primeiro golpe, segundo golpe

O AO Principles (cap. 4.1, p. 314) define: a SIRS depende primariamente da gravidade do trauma, o primeiro golpe; intervenções, cirurgias e complicações são segundos (ou terceiros) golpes, e a elastase sobe depois da haste femoral. O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 479) traduz: a cirurgia controla o sangramento ósseo, mas também sangra; acima de um limiar, vem a SIRS grave e a falência, sobretudo no sub-ressuscitado. O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 11, p. 317) distingue o modelo de um golpe (lesão maciça com choque já leva à falência precoce) do de dois golpes (hemorragia, ressuscitação incompleta, infecção ou cirurgia amplificam a resposta), e lembra que o pulmão falha primeiro, em 48 a 72 horas, depois rim e fígado, com mortalidade próxima de 80% quando os três falham. Nenhuma droga modula a resposta; o cirurgião controla a hora e o tamanho do segundo golpe.

Estável, borderline, instável e in extremis

Cobrança confirmada · 1 questão

As quatro categorias

Depois da avaliação inicial e das intervenções salvadoras, o AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 317) manda classificar o paciente em estável, borderline, instável ou in extremis, e reclassificar a qualquer piora. A Tabela 4.1-2 (PAPE) é a régua mais citada:

Estratificação fisiológica do politraumatizado (AO Principles, cap. 4.1, Tabela 4.1-2, p. 318)
ParâmetroEstávelBorderlineInstávelIn extremis
PA (mm Hg)≥ 10080 a 10060 a 90< 50 a 60
Hemácias em 2 h0 a 22 a 85 a 15> 15
Lactatonormal~2,5> 2,5acidose grave
Classe ATLSIII a IIIIII a IVIV
Plaquetas> 110.00090.000 a 110.000< 70.000 a 90.000< 70.000
Fibrinogênio (g/dL)> 1~1< 1CIVD
Temperatura> 34 °C33 a 35 °C30 a 32 °C≤ 30 °C
PaO2/FiO2350 a 400300 a 350200 a 300< 200
Pelve (AO)AB ou CCC com esmagamento
EstratégiaETCDCO se incerto, ETC se estávelDCODCO

O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 11, p. 320) descreve o borderline: fratura do membro inferior, sobretudo do fêmur, ou da pelve, mais uma lesão que pode piorar (contusão pulmonar ou TCE), episódios de instabilidade e hipóxia; precisa de tempo para as lesões "se declararem". O instável fica em tração esquelética ou fixador (até à beira do leito); o in extremis recebe fixador como ponte. O HEBERT (cap. 74, Considerações finais) lista quem é de risco: TCE, contusão pulmonar bilateral, múltiplos ossos longos, coagulopatia, hipotermia ou cirurgia estimada acima de seis horas.

O termo nasceu dos dados de PAPE: com trauma torácico grave, a haste femoral precoce teve SDRA em 33% e mortalidade de 21% (Rockwood, cap. 14, p. aprox. 480). O HEBERT chama o período de "era borderline", com três fatores para a função pulmonar: ISS, trauma torácico associado ao choque e haste fresada. O contraponto atual vem do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 59, p. 2638): a haste fresada imediata não aumenta complicações pulmonares clinicamente relevantes na maioria, e só o borderline ou de altíssimo risco se beneficia do controle de danos; o Skeletal Trauma (cap. 11, p. 320) diz que os centros norte-americanos usam o cuidado total precoce de forma bem mais agressiva que os critérios de PAPE.

O lactato decide

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 480) responde à questão do ENARE. A hipoperfusão gera acidose, medida por pH, déficit de base ou lactato, e a normalização em 24 horas prediz a sobrevida. pH e déficit de base são compensados mais facilmente e confundidos por álcool e doença renal; o lactato é o indicador mais confiável, e a melhora do lactato ao longo do tempo é um dos sinais mais acurados de ressuscitação. O que manda é a tendência: lactato e déficit de base que pioram dizem que o paciente não aguenta um segundo golpe. O Skeletal Trauma (cap. 11, p. 319) chama a capacidade de normalizar o lactato de fator prognóstico isolado mais importante. O HEBERT (cap. 74) nomeia a armadilha: hipoperfusão subclínica, com sinais vitais normais e lactato acima de 2,5 mmol/L, morbidade muito alta e indicação de controle de danos (GREY).

Quando fazer controle de danos: os cortes de cada livro (AO Principles, Tabela 4.1-3, p. 318; Rockwood and Green's, cap. 14, p. aprox. 480; HEBERT, cap. 74)
ParâmetroAO (seleção para cirurgia de controle de danos)HEBERT (período atual)Rockwood (EAC: pode fixar se)
pH< 7,2< 7,25≥ 7,25
Déficit/excesso de basenão citadoBE < -5BE ≥ -5,5
Lactato (mmol/L)> 4> 2< 4,0
Temperatura< 34 °C< 35 °Cnão citado
Coagulaçãocoagulopatiaplaquetas < 120.000; RNI > 1,5não citado
OutrosPA < 70; ~15 U transfundidas; ISS > 36na dúvida, controle de danosDCO se acidose prolongada, TCE grave ou isquemia cardíaca

Repare como os números variam. Hipotermia é < 34 °C no AO e < 35 °C no HEBERT; a alternativa "abaixo de 36,5 °C" não é critério de ninguém. Lactato "maior que 1,0" é praticamente normal. PAS "≤ 110" não está em lista nenhuma. E a tromboelastografia alterada que pesa contra a cirurgia é a da hipocoagulabilidade (sangramento), não a da hipercoagulabilidade.

Cuidado total precoce, controle de danos e cuidado apropriado precoce

Cobrança confirmada · 2 questões

O pêndulo da história

O pêndulo: como mudou o tratamento das fraturas no politrauma (HEBERT, cap. 74; Skeletal Trauma, cap. 11, pp. 315 a 317; AO Principles, cap. 4.1, pp. 311 a 312)
ÉpocaCondutaMotivo e evidência
1ª Guerratala de THOMAS no fêmurmortalidade da fratura exposta do fêmur caiu de 80% para ~7% (Skeletal) ou 20% (HEBERT)
Até os anos 1950 a 1970tração e repouso; "doente demais para operar"medo da embolia gordurosa; KÜNTSCHER (1967): "não pregue imediatamente"
Anos 1980cuidado total precoce (ETC); "doente demais para não operar"RISKA: embolia gordurosa 22% x 4,5%; BONE: haste < 24 h x > 48 h
Anos 1990"era borderline", controle de danosPAPE: tórax grave + haste precoce = SDRA 33%, mortalidade 21%
Anos 2000controle de danos ortopédico (DCO)fixador externo femoral; termo cunhado por SCALEA
Atualcuidado apropriado precoce (EAC)fixação definitiva em 36 h no paciente que responde (VALLIER); ETC e DCO complementares

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 14, pp. aprox. 479 a 480) dá os números do cuidado precoce: em 132 politraumatizados com ISS ≥ 18, SDRA de 7% com fixação precoce contra 39% após 24 horas; no ensaio de BONE, o atraso da haste (> 48 h contra < 24 h) trouxe mais pneumonia, SDRA e síndrome de embolia gordurosa, mais UTI e custo. O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 11, p. 317) critica o BONE: só o custo foi estatisticamente significativo, e a randomização deixou mais lesão pulmonar no grupo tardio. Fixar cedo controla a hemorragia, alivia a dor (cuja descarga simpática alimenta a hiperinflamação), tira o paciente da cama e reduz trombose, embolia gordurosa, pneumonia, SDRA e sepse (Rockwood, p. aprox. 479); o AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 312) acrescenta controlar a contaminação, prevenir a isquemia-reperfusão e facilitar ventilação e enfermagem.

O controle de danos ortopédico

O "damage control orthopaedics" nasceu como fixação externa femoral, com pouco tempo cirúrgico e pouco sangramento, indicada no TCE grave, na instabilidade hemodinâmica e no trauma torácico grave (Rockwood, p. aprox. 480). O preço é uma segunda cirurgia e o risco de infecção se o fixador ficar demais (Skeletal Trauma, cap. 11, p. 318). O AO Principles (cap. 4.1, p. 317) indica a cirurgia de controle de danos em 10% a 20% dos politraumatizados, por critérios fisiológicos (a tríade), padrão complexo de lesões (tórax, pelve, fêmur bilateral, idoso) ou vítimas em massa, de forma reativa ("bail-out") ou preemptiva.

O Skeletal Trauma (cap. 11, p. 321) dá a hierarquia no osso: (1) controlar a hemorragia da extremidade e da pelve; (2) corrigir a isquemia (reduzir luxações, fasciotomia, reparo vascular); (3) desbridar; (4) estabilizar ossos longos e pelve; (5) reconstruir articulares; (6) fraturas menores. A cirurgia índice fica em torno de 2 horas, e para-se diante de temperatura caindo, coagulopatia piorando, déficit de base sem melhora, hipóxia ou PIC subindo.

O HEBERT (cap. 74) responde à pergunta "quais são as cirurgias de emergência em pacientes instáveis?" com a lista de STAHEL: descompressão aguda de cavidades, controle da hemorragia, laparotomia, revascularizações, desbridamento de fraturas expostas e lesões articulares, fixação externa de ossos longos, fasciotomias e fixação dorsal de fraturas vertebrais instáveis. Fora da lista: fixação definitiva de ossos longos e fixação ventral da coluna. O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 481) confirma: no "spine damage control" de STAHEL, a instrumentação posterior entra em 24 horas e a fusão anterior só depois de 3 dias.

A técnica do fixador e da tração

O Rockwood (cap. 14, pp. aprox. 480 a 481) descreve o fixador femoral: pinos de SCHANZ, dois de cada lado, perto e longe, uniplanar; extensão distal pode exigir transfixar o joelho; a tração esquelética femoral distal é alternativa razoável; converter em até 2 semanas pelo risco de infecção. O Skeletal Trauma (cap. 11, pp. 324 a 326) mostra o relógio: fixador por menos de 8 dias reduziu em 83% o risco de infecção na conversão, e com 50 dias a infecção chegou a 40%; o HEBERT (cap. 74) cita intervalo menor que 14 dias na tíbia (BHANDARI).

E a tração? O Skeletal Trauma (cap. 11, p. 320) aceita a tração esquelética como estabilização inicial do instável e, temporariamente, do in extremis; o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 59, p. 2638) diz que fixador e tração são ambos eficientes como medida inicial. O que se condena é a tração prolongada como tratamento: para BORDER, ela produz um paciente obnubilado em supino forçado, com dano pulmonar e alta mortalidade (Skeletal Trauma, cap. 11, p. 317).

O cuidado apropriado precoce (EAC)

O Rockwood (cap. 14, pp. aprox. 480 a 483) fecha com o EAC (early appropriate care), de VALLIER: no paciente que responde, com pH ≥ 7,25, déficit de base de pelo menos -5,5 mmol/L ou lactato abaixo de 4,0 mmol/L, fixar coluna, pelve, acetábulo e fêmur em até 36 horas; controle de danos para quem não atinge esses números ou tem acidose prolongada, TCE grave ou isquemia cardíaca. Num estudo prospectivo de 335 pacientes, as complicações foram 16% nos fixados em 36 horas e 33% nos atrasados (71% dos atrasos por conveniência de agenda). O AO Principles (cap. 4.1, p. 319) resume: cuidado total precoce não significa cuidado total imediato; os critérios de ETC (Tabela 4.1-5) incluem lactato abaixo de 2 mmol/L, sem vasoativo, sem hipoxemia, coagulação normal, normotermia e diurese acima de 1 mL/kg/h. O AO pede lactato normal; o EAC aceita lactato < 4 em melhora.

O Rockwood (pp. aprox. 481 a 483) ordena a urgência. Emergentes: hemorragia maciça de pelve ou ossos longos, lesão arterial, síndrome compartimental. Urgentes: exposta; pelve, acetábulo ou fêmur instáveis; quadril; luxações. Subagudas: articulares, porque abordagens extensas de planalto, pilão e calcâneo nos primeiros 2 a 3 dias são desastrosas. Na sequência, a coluna instável com elementos neurais em risco vem primeiro e o fêmur que aceita fixador vem por último; durante a haste, evitar hipotensão.

A janela para a fixação definitiva

Fundamento

Depois do controle de danos, a cirurgia não deve cair na hiperinflamação nem na imunossupressão.

Janela de oportunidade depois do controle de danos (AO Principles, Tabela 4.1-4, p. 319; HEBERT, cap. 74)
PeríodoEstadoO que fazer
Dia 1normal: ETC; resposta transitória: controle de danos; sem resposta: cirurgia salvadoradepende da ressuscitação
Dias 2 a 3 (HEBERT: 2º ao 4º)hiperinflamação (SIRS)só "second look"
Dias 4 a 10 (texto do AO e HEBERT: 5º ao 10º)janela seguracirurgia definitiva
Dias 11 a 21imunossupressão (CARS)evitar cirurgia
A partir da 3ª semanafisiologia normalreconstrução secundária

O HEBERT (cap. 74, Fixação ortopédica definitiva) traz a evidência: PAPE, em 4.314 politraumatizados, viu complicações altas do 2º ao 4º dia e baixas do 6º ao 8º; o HLA-DR (GIANNOUDIS) cai logo após o trauma, sobe na primeira semana, cai depois dela e volta a subir na terceira. O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 11, pp. 323 a 326) diz que a maioria espera 5 a 8 dias. Divergência interna do AO Principles of Fracture Management, 3ª ed.: texto 5º ao 10º, tabela 4 a 10.

TCE e fraturas: a pressão que manda

Cobrança confirmada · 1 questão

Proteger o cérebro da lesão secundária

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 14, p. aprox. 476) separa a lesão cerebral primária da secundária (hipóxia, hipotensão, convulsão, febre, hipoglicemia), muitas vezes iatrogênica; o reflexo de CUSHING (hipertensão com bradicardia) indica herniação iminente.

Os números para operar

O Rockwood (p. aprox. 484): TCE acompanha 37% a 50% das fraturas de pelve ou fêmur, quase sempre leve. A PPC é a PAM menos a PIC, e PPC abaixo de 70 por horas causa dano permanente. Para a fixação definitiva de fraturas axiais e femorais, PIC de 20 mm Hg ou menos e PPC acima de 70 mm Hg; com PIC muito alta, ventriculostomia, craniotomia, manitol e controle de danos criterioso. PIC "estável entre 30 e 40" não autoriza a osteossíntese. O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 9, p. 299) usa PPC acima de 60: divergência real entre os livros.

O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 324) é o mais favorável à fixação: com boa resposta à ressuscitação, ela tem efeito positivo no TCE (menos estímulo doloroso e sedação), e o temor de mais mortalidade não é baseado em evidência. O Skeletal Trauma (cap. 11, p. 319) lembra o contrário: o TCE pede exames e TC seriados, que a cirurgia longa impede.

Tórax, fêmur, fresagem e embolia gordurosa

Fundamento

O tórax muda a conta

O tórax instável é pelo menos duas fraturas por costela em três costelas consecutivas (Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed., cap. 14, p. aprox. 476); o AO diz "três ou mais consecutivas em vários pontos". A contusão pulmonar é o substrato em que o segundo golpe da haste femoral vira SDRA.

Embolia gordurosa e fresagem

O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 311) explica a síndrome de embolia gordurosa: quebra da gordura em ácidos graxos livres, mediadores tóxicos e reação imunoinflamatória, com aumento da permeabilidade vascular, hemorragia alveolar, edema e SDRA. Instrumentar o canal aumenta a pressão intramedular e lança gordura e mediadores no pulmão, como mostrou o ecocardiograma transesofágico (p. 324); a haste bloqueada segue padrão-ouro, bem tolerada no isolado ressuscitado, mas perigosa no sub-ressuscitado.

Fêmur no politrauma: o que dizem os estudos (AO Principles, cap. 4.1, pp. 324 a 325; Skeletal Trauma, cap. 11; HEBERT, cap. 74)
PerguntaAchado
Fresada x não fresadaSDRA 3 de 63 x 2 de 46 (P = 0,42), sem diferença demonstrável
Haste < 24 h x fixador com conversão (165 pacientes)no borderline, lesão pulmonar aguda 6,69 vezes maior com haste; no estável, haste = menos ventilação
Estabilização precoce x tardia (RISKA)embolia gordurosa 4,5% x 22%
Fêmur bilateral com contusão pulmonaro HEBERT prefere evitar a fresagem

O HEBERT (cap. 74, Fresagem) resume: a fresagem não está contraindicada, mas evita-se no fêmur bilateral e, sobretudo, com contusão pulmonar. O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 11, p. 315) mostra que a fratura do fêmur é preditor independente de mortalidade e de SDRA, e cita a haste não fresada no fêmur bilateral monitorada pelos critérios de GURD.

Lesões associadas que não podem passar

Cobrança confirmada · 1 questão

O que vem junto com a pelve

A pelve quebrada é um marcador de energia. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 50, p. aprox. 2054) lista as lesões associadas mais frequentes: tórax 63%, ossos longos 50%, TCE 40%, órgão sólido 40% e coluna 25%. E lembra que a mortalidade do paciente com fratura do anel pélvico decorre muitas vezes das lesões associadas, não da pelve. O padrão da fratura também prediz o que procurar: na compressão anteroposterior, oito vezes mais lesão de aorta torácica; na compressão lateral, TCE em 50%; no cisalhamento vertical, choque hipovolêmico em 63%, mortalidade de 25%, TCE em 56,2%, pulmão em 23% e baço em 25%.

O painel do carro

Com o quadril fletido, a carga axial do painel empurra a cabeça contra a parede posterior do acetábulo, e mais adução favorece a luxação (Rockwood, cap. 51, p. aprox. 2181). O joelho é a primeira parte atingida e deve ser examinado; diante de luxação posterior, procuram-se as lesões de painel e de cinto (aorta, intestino delgado) (p. aprox. 2185). Nas luxações do quadril, lesões do joelho (luxação posterior, lesões dos ligamentos cruzados, patela) aparecem em 25%, algumas despercebidas (cap. 52, p. aprox. 2309).

MOREL-LAVALLÉE

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 58, p. 2526) define a lesão de MOREL-LAVALLÉE: pele e subcutâneo descolados da fáscia, com hematoma que pode ameaçar a pele; frequente nas fraturas da pelve, sobretudo em obesos com cisalhamento; tratar junto da fixação (drenagem percutânea de TSENG e TORNETTA em 3 dias). No capítulo de coluna (cap. 48, p. 1924), as lesões de partes moles são comuns nas fraturas do sacro, inclusive MOREL-LAVALLÉE.

A pelve instável no politrauma

Relevância clínica

De onde vem o sangue

O Rockwood (cap. 14, pp. aprox. 478 a 479 e 483): compressão anteroposterior e cisalhamento vertical sangram vários litros, em proporção ao desvio posterior; a compressão lateral só sangra se grave (CL-3). As fontes são óssea, venosa, arterial e extrapélvica, e quase 90% do sangramento é venoso. O retroperitônio intacto guarda cerca de 4 L antes de tamponar, e o volume cresce com o cubo do raio: fechar o anel reduz muito o espaço.

Os sinais no exame

O Rockwood (cap. 50, pp. aprox. 2058 a 2059) lista o que procurar:

  • sinal de DESTOT: hematoma palpável sobre o períneo, acima do ligamento inguinal ou na coxa proximal, indicando fratura com sangramento;
  • sinal de GREY TURNER: equimose no flanco, indicando sangramento retroperitoneal;
  • área flutuante: desenluvamento (MOREL-LAVALLÉE);
  • encurtamento e rotação externa: cisalhamento vertical; rotação interna: compressão lateral instável; edema de escroto: compressão anteroposterior;
  • testar a estabilidade uma vez só, porque manipular de novo desloca coágulos.

Um hematoma pélvico acima de 500 cm³ na TC aumenta 4,8 vezes o risco de lesão arterial e de angiografia.

Uretra e bexiga

Sangue no meato indica lesão uretral: no homem, uretrografia retrógrada antes da sonda de FOLEY, exceto in extremis (Rockwood, cap. 14, p. aprox. 479); a uretrografia retrógrada dinâmica é o melhor exame (cap. 50, p. aprox. 2054), e a próstata alta ao toque não é confiável nem útil (p. aprox. 2059). Cistostomia suprapúbica deve ser evitada: contamina o hematoma anterior e leva a osteomielite (cap. 14).

Cinta, lençol, fixador e C-clamp

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 479) manda fechar o anel do hipotenso com lençol ou cinta circunferencial na altura dos trocânteres maiores, com tração se houver desvio vertical; isso tampona o plexo sacral se não houver coagulopatia. A adução e a rotação interna dos membros ajudam (cap. 50, p. aprox. 2089); o HEBERT (cap. 74) repete os trocânteres com rotação medial, de preferência no pré-hospitalar. O Skeletal Trauma, 5ª ed. (cap. 11, p. 321) lembra que a cinta limita o acesso ao abdome e que retirá-la na laparotomia desestabiliza a redução.

O fixador pélvico reduz o anel anterior, mas, com o posterior completamente rompido, acentua o desvio posterior (Rockwood, cap. 14, p. aprox. 481); pinos na crista são mais fáceis, os supra-acetabulares dão mais controle rotacional, mas demoram e pedem fluoroscopia, e devem ser evitados no instável (Skeletal Trauma, cap. 11, p. 322). O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 324) lembra que uma cinta bem colocada pode dispensar a fixação precoce.

Angiografia ou tamponamento?

O próprio Rockwood se divide. O capítulo 14 (pp. aprox. 479 e 483 a 484) diz que a lesão arterial existe em 6% a 8% das pelves instáveis; que hipotensão persistente apesar de volume e redução pede angioembolização; que o "blush" na TC é mau preditor de sangramento ativo, embora a ausência de blush na angio-TC tenha alto valor preditivo negativo. O capítulo 50 (pp. aprox. 2087 a 2088) é direto: a única recomendação clara de arteriografia é o extravasamento de contraste na TC, independentemente da estabilidade hemodinâmica, com sensibilidade e valor preditivo negativo de 100% num estudo; embolizar em até 60 minutos reduziu a mortalidade, e a seletiva é preferível. A questão segue o capítulo 50.

O tamponamento pré-peritoneal abre o espaço de RETZIUS e coloca compressas até a angiografia, com a pelve reduzida e fixada antes da laparotomia (Rockwood, cap. 14, p. aprox. 483). O capítulo 50 (pp. aprox. 2088 a 2089) dá as condições: a pelve precisa estar estabilizada (C-clamp ou fixador) para haver parede contra a qual comprimir, e o espaço intraperitoneal não deve ser violado, com compressas bilaterais da sacroilíaca à sínfise; mortalidade de cerca de 21% num centro, contra mais de 30% na literatura. O HEBERT (cap. 74) descreve três compressas de cada lado por acesso anterior. O Skeletal Trauma (cap. 9, p. 297) explica a complementaridade: fechar a pelve controla o venoso, não tanto o arterial.

Hemorragia pélvica: cada fonte e sua arma (Rockwood and Green's, caps. 14 e 50; Skeletal Trauma, cap. 9; HEBERT, cap. 74)
FonteProporçãoArma principalCondição
Venosa (plexo sacral)~90%cinta/lençol, fixador, C-clamp; tamponamento pré-peritonealsem coagulopatia; pelve estabilizada antes do tamponamento
Óssea (superfícies de fratura)relevante no hipocoagulávelredução e estabilizaçãocorrigir coagulopatia
Arterial6% a 8% das instáveisangioembolização (seletiva)extravasamento na TC ou hipotensão persistente após redução
ExtrapélvicavariávelFAST positivo com muito líquido = laparotomiafixar a pelve antes da laparotomia

Trombose: a pelve é fator de risco

O Rockwood (cap. 50, p. aprox. 2171): a fratura do anel pélvico é fator de risco independente para tromboembolismo venoso; profilaxia nas primeiras 12 a 24 horas, com heparina de baixo peso molecular ou não fracionada, isolada ou com compressão pneumática intermitente. O filtro de veia cava não é primeira linha (reduz embolia, mas não melhora sobrevida; EAST e ACCP divergem).

Fratura exposta e membro esmagado no politrauma

Cobrança confirmada · 3 questões

A exposta no paciente grave

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 474) trata a exposta como emergência cirúrgica: cefazolina 2 g a cada 8 h (clindamicina na alergia), gentamicina na alta energia, penicilina na contaminação por solo, tétano; fixação provisória quando há contaminação maciça, ferida que não fecha ou paciente crítico, e definitiva com a cobertura. O AO Principles of Fracture Management, 3ª ed. (cap. 4.1, p. 312) acrescenta que o tecido morto é fonte de mediadores pró-inflamatórios, e o desbridamento precoce remove essa fonte.

Vaso: fixar antes de reparar

Mais de 75% das lesões arteriais são penetrantes; no trauma fechado, a luxação do joelho lidera (16% a 25%). Em 6 horas de isquemia vem a mionecrose; ITB abaixo de 0,9 pede o vascular; a fratura é estabilizada antes do reparo vascular definitivo, e a revascularização é seguida de fasciotomia (Rockwood, cap. 14, pp. aprox. 484 a 485). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 58, p. 2518) fala em dano irreversível com 8 horas ou mais: divergência entre os livros.

Salvar ou amputar no politraumatizado

O Rockwood (cap. 14, p. aprox. 476 e 485) aceita a amputação para parar o sangramento de um membro esmagado no paciente in extremis: salva a vida e reduz a carga de lesão. Esmagamento, isquemia prolongada, lesão sistêmica grave, idade avançada e doenças de base diminuem a chance de salvamento. O AO Principles (cap. 4.1, p. 326) é mais incisivo: no politrauma, o salvamento microcirúrgico é raramente indicado, porque reconstruções longas são um segundo golpe importante; a amputação primária é um desbridamento em tecido saudável, sem moldar retalhos, com o coto definitivo feito dias depois.

O MESS

O Rockwood (cap. 18, pp. 605 a 606) descreve o Mangled Extremity Severity Score (JOHANSEN e HELFET, 1990), baseado em quatro critérios: lesão esquelética e de partes moles, choque, isquemia e idade. Na série original e na validação, todos os membros salvos tinham 6 ou menos e todos os amputados, 7 ou mais.

MESS: pontuação (Rockwood and Green's, cap. 18, Tabela 18-4, pp. 605 a 606)
ComponenteSituaçãoPontos
Lesão esquelética e de partes molesbaixa energia (facada, fratura simples, arma de fogo civil)1
média energia (exposta ou múltipla, luxação)2
alta energia (espingarda à queima-roupa, arma militar, esmagamento)3
muito alta energia (o anterior + contaminação grosseira, avulsão)4
Isquemia do membro (dobrada se > 6 h)pulso diminuído ou ausente, perfusão normal1
sem pulso, parestesia, enchimento capilar diminuído2
frio, paralisado, insensível3
ChoquePAS sempre > 900
hipotensão transitória1
hipotensão persistente2
Idade< 30 anos0
30 a 50 anos1
> 50 anos2

Uma divergência que a prova pode explorar: no Rockwood, o escore de isquemia é dobrado se passar de 6 horas; no Campbell (cap. 58, Tabela 58.3, p. 2521), somam-se 2 pontos. O Campbell também relativiza o escore: algumas séries amputaram com 7 a 12 e salvaram com 3 a 6, mas outras não acharam utilidade preditiva; os escores têm alta especificidade e baixa sensibilidade (escores baixos preveem salvamento, mas escores altos não garantem a amputação) e não podem ser o critério único. O Rockwood (cap. 18) mostra que o MESS foi aplicado também ao membro superior, com todos os escores ≥ 7 amputados.

Os componentes que a banca troca: lesão neurológica não entra no MESS (entra no NISSSA, que é o MESS modificado com nervo); "tempo de sangramento", "só lesões ósseas" e "doenças sistêmicas prévias" também não entram. Entram energia da lesão, isquemia, choque e idade.

Fechamento

Fundamento

O politraumatizado é tratado em camadas de tempo. Nos primeiros minutos, o ABCDE: via aérea, ar, sangue, cérebro e exposição, e a pelve entra no C com a cinta nos trocânteres. Nas primeiras horas, mata o que é tratável (hematoma epidural, hemopneumotórax, sangramento de pelve e extremidades) e mata a tríade letal (hipotermia, acidose, coagulopatia), combatida com hipotensão permissiva limitada, 1:1:1, ácido tranexâmico e aquecimento.

No primeiro dia, a pergunta é fisiológica, não radiográfica. O paciente que normaliza o lactato e a acidose recebe o cuidado definitivo precoce (EAC: pH ≥ 7,25, BE ≥ -5,5, lactato < 4, fixação de coluna, pelve, acetábulo e fêmur em 36 horas). O que não responde, o borderline com tórax ou crânio graves, o in extremis, recebe controle de danos: fixador, desbridamento, fasciotomia, revascularização, sem fixação definitiva nem coluna anterior. A cirurgia é o segundo golpe; a IL-6 mede a SIRS; a CARS (IL-10, IL-4, IL-13) é o contrapeso. Depois, espera-se a janela do 5º ao 10º dia, longe da hiperinflamação do 2º ao 4º e da imunossupressão da segunda semana, e converte-se o fixador antes de 2 semanas.

Na pelve, as associadas (tórax em primeiro) matam mais que a pelve; o sangue é quase todo venoso; a embolização é para o arterial, com o extravasamento na TC como indicação mais clara; o tamponamento exige pelve estabilizada; a uretrografia vem antes da sonda; a profilaxia de TEV começa em 12 a 24 horas. No membro esmagado, o MESS soma energia, isquemia, choque e idade, e o corte clássico é 7, com a ressalva de que nenhum escore decide sozinho.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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