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Osteonecrose da cabeça femoral no adulto

QuadrilResumo do capítulo32 min de leitura

Doença da 3ª à 5ª década, bilateral em até 75% das atraumáticas; fatores de risco (corticoide, álcool, falciforme, GAUCHER, mergulho, LES) e mecanismos (isquemia por oclusão, compressão ou ruptura; toxicidade celular direta pela irradiação); dor inguinal; crescente patognomônico (fratura subcondral, FICAT 3, STEINBERG III); RM de escolha, dupla linha em T2; osteoporose transitória com edema até a intertrocantérica; FICAT e ARLET 0 a 4 (2 = reparo, osso novo entre trabéculas mortas); STEINBERG e ARCO com A < 15%, B 15% a 30%, C > 30%; ângulo necrótico combinado de KERBOUL (< 190° não colapsa, > 240° colapsa); descompressão em FICAT I e IIA; trapdoor e light bulb; fíbula vascularizada abaixo de 50 anos sem colapso; osteotomia abaixo de 30%; acima de 30% e após o colapso, artroplastia total.

Atualizado em 03/11/2026 · 32 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 7 · Hip Pain in the Young Adult and Hip Preservation Surgery (seção Osteonecrosis of the Femoral Head), com os capítulos 3, 4, 5, 60 e 68, em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026). Autores do capítulo: James L. GUYTON.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de quadril do Campbell, capítulo 7, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo é inspirado na seção Osteonecrosis of the Femoral Head do capítulo 7 (Hip Pain in the Young Adult and Hip Preservation Surgery) do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026), com apoio de outros capítulos do mesmo livro e do Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª edição. As páginas citadas são as impressas.

A osteonecrose da cabeça femoral é o tema de quadril do adulto jovem que mais gera questões de classificação. A banca pergunta qual estágio corresponde a um achado, qual exame a separa da osteoporose transitória, a partir de que tamanho a preservação perde força e até onde cada cirurgia funciona. Quem entende a sequência (isquemia, morte celular, reparo, fratura subcondral, colapso, artrose) responde quase tudo: cada classificação fotografa um ponto dela.

O fio condutor é simples. Antes do colapso, a cabeça ainda pode ser salva, e o que decide é o tamanho da lesão. Depois do colapso, a articulação caminha para a artrose, e o tratamento vira artroplastia. Tudo o que vem a seguir, das classificações às técnicas, gira em torno dessa linha divisória, que no raio X tem nome: o sinal do crescente.

O suprimento sanguíneo da cabeça femoral

Cobrança confirmada · 1 questão

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 52, pág. PDF 2584), descreve a irrigação. No adulto, o suprimento principal vem das artérias cervicais, que nascem de um anel extracapsular na base do colo femoral. Esse anel é formado pela artéria circunflexa femoral medial, por trás, e pela circunflexa femoral lateral, pela frente. Os vasos capitais atravessam a cápsula perto da sua inserção no colo e na crista trocantérica, sobem paralelos ao colo e entram na cabeça junto à borda da superfície articular.

O ponto que a prova explora é o da dominância. Os vasos superiores e posteriores, derivados sobretudo da circunflexa medial, são o suprimento dominante da cabeça. A circunflexa medial ainda fornece o ramo retinacular inferior, que corre ao longo do ligamento de WEITBRECHT e irriga a porção inferomedial. A artéria foveal, ramo da obturatória que viaja dentro do ligamento redondo, dá uma contribuição menor, embora significativa para a porção epifisária em cerca de 75% dos quadris. Ou seja: a cabeça adulta depende de vasos que correm na superfície do colo, sob a sinóvia, vulneráveis a fraturas, luxações, cirurgias e a qualquer aumento de pressão dentro da cápsula ou do osso.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7), reforça essa anatomia: a artrotomia é feita nas faces anterior e lateral do colo para poupar os vasos retinaculares, que correm nas faces posterior e superior, e nas vias posteriores preservam-se o obturador externo e o quadrado femoral, que protegem o ramo ascendente da circunflexa medial.

Vascularização da cabeça femoral no adulto (Rockwood and Green 10ª, cap. 52, pág. PDF 2584)
VasoOrigemPapel
anel extracapsularcircunflexa medial (posterior) e lateral (anterior)origem das artérias cervicais
artérias cervicais (capitais)do anel; atravessam a cápsula e sobem pelo colosuprimento principal
vasos superiores e posterioressobretudo da circunflexa medialdominantes
ramo retinacular inferiorcircunflexa medial, ao longo do ligamento de WEITBRECHTporção inferomedial
artéria fovealobturatória, no ligamento redondocontribuição menor; epífise em ~75%

Fatores de risco e mecanismos

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 384), define a osteonecrose (antes chamada necrose avascular) de forma literal: osso morto. O estado "avascular" do osso necrótico resulta da perda de circulação por inúmeras causas possíveis. Por isso o livro insiste que a osteonecrose é uma condição final, ponto de chegada de muitas vias patogênicas diferentes, e não uma doença única.

A lista de fatores de risco é longa (Box 7.4), mas em muitos pacientes nenhuma causa é encontrada, e eles recebem o rótulo de osteonecrose idiopática. Há ainda um paradoxo que o livro faz questão de registrar: muitos pacientes com fatores de risco nunca desenvolvem a doença, e muitos sem fator algum desenvolvem. Isso sugere suscetibilidade individual e um processo provavelmente multifatorial. Nenhuma das teorias propostas explica sozinha a variedade de causas.

Fatores de risco para osteonecrose (Campbell 15, cap. 7, Box 7.4, p. 384)
GrupoFatores
traumafratura do colo, luxação, cirurgia
fármacos e hábitoscorticoide, abuso de álcool, tabagismo
hematológicoshemoglobinopatias (anemia falciforme), distúrbios da coagulação
mieloproliferativosdoença de GAUCHER, leucemia
ambientaisdescompressão hiperbárica (mergulho, doença dos caixões)
metabólicoshiperlipidemias, doença renal crônica
imunológicos e infecciososdoenças autoimunes (LES), HIV

No capítulo de artroplastia, o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 246), repete a lista com outro arranjo: alcoolismo, corticoide, LES, doença renal e doença dos caixões (caisson), além de coagulopatias e HIV, deixando anemia falciforme e GAUCHER para seções próprias. A doença dos caixões é a da descompressão hiperbárica de mergulhadores e trabalhadores em ambiente pressurizado.

Os dois grandes mecanismos

O Box 7.5 (p. 385), adaptado de ZALAVRAS e LIEBERMAN, organiza a patogênese em dois blocos. O primeiro, de longe o maior, é a isquemia, que chega por quatro caminhos. O segundo é a toxicidade celular direta, em que a célula óssea morre sem que o vaso precise ser fechado.

Mecanismos patogênicos (Campbell 15, cap. 7, Box 7.5, p. 385)
MecanismoViaExemplos do livro
isquemiaruptura vascularfratura da cabeça, luxação do quadril, cirurgia
isquemiacompressão ou constrição vascularpressão intraóssea por infiltração gordurosa da medula; corticoide, álcool
isquemiavasoconstrição das artérias da cabeçacorticoide, polimorfismos da eNOS
isquemiaoclusão intravascular: tromboseproteína C e S baixas, resistência à proteína C ativada (fator V), homocisteína alta, eNOS
isquemiaoclusão intravascular: hipofibrinólisePAI alto e polimorfismos do PAI-1, lipoproteína(a) alta
isquemiaoclusão intravascular: emboliagordura, ar
isquemiaoclusão intravascularoclusão falciforme
toxicidade celular diretadano à célulaagentes farmacológicos, irradiação, estresse oxidativo, diferenciação alterada das células-tronco mesenquimais, corticoide, álcool

Cada fator cai em um bloco. A hiperhomocisteinemia é trombofilia (oclusão por trombo); a doença dos caixões, embolia gasosa; a anemia falciforme, oclusão falciforme; a doença de GAUCHER entra no Box 7.4 como distúrbio mieloproliferativo. A irradiação é o exemplo puro de toxicidade celular direta. Corticoide e álcool aparecem nos dois blocos: sobem a pressão intraóssea, contraem vasos e lesam a célula.

Epidemiologia, bilateralidade e história natural

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 384), descreve a osteonecrose como doença progressiva que acomete em geral pacientes da terceira à quinta década, com cerca de 20.000 casos novos por ano nos Estados Unidos. Quando sintomática, costuma levar ao colapso da cabeça e à deterioração da articulação.

Bilateralidade

O capítulo de artroplastia traz o número que mais cai: até 75% dos pacientes com osteonecrose atraumática têm evidência radiográfica ou na RM de doença bilateral já na apresentação (cap. 4, p. 246). Na anemia falciforme, o processo pode ser bilateral em quase 50% (p. 262), e na doença de GAUCHER a osteonecrose também é descrita como bilateral. Essa frequência explica a recomendação de imagem do capítulo 7: quando a radiografia mostra doença em um só lado, pede-se RM da pelve, para avaliar também o quadril assintomático.

História natural: o tamanho manda

A evidência sugere que a taxa de progressão é alta, sobretudo nos sintomáticos (p. 384). Mas o tamanho da lesão separa destinos. A osteonecrose assintomática com lesão menor que 30% da cabeça tende a continuar assintomática na maioria (95% por mais de 5 anos); quando a lesão passa de 50%, a dor aumenta. Um estudo longitudinal de 5 anos não encontrou nenhum colapso com ângulo necrótico combinado menor que 190° e encontrou colapso em todas as cabeças com ângulo maior que 240°.

Depois que ocorre o colapso subcondral e o espaço articular se perde, a artrose progressiva é em geral inevitável. Muitos estudos relatam prognóstico extremamente ruim nos sintomáticos: colapso em mais de 85% em 2 anos em pacientes com FICAT I ou II. Não se trata, portanto, de doença para "observar e ver": no paciente sintomático, a cabeça tende a cair.

O quadro clínico: dor inguinal

Cobrança confirmada · 2 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 385), lembra que os pacientes são tipicamente assintomáticos no início e acabam apresentando dor inguinal ao andar. A história e o exame devem caçar fatores de risco (corticoide, álcool, doenças de base) e definir o estado clínico do paciente.

Os quadros de orientação do exame (cap. 7, p. 357) ajudam a localizar a dor. Na osteonecrose, o início é descrito como agudo, o mecanismo é a interrupção do suprimento sanguíneo da cabeça por lesão, doenças ou medicamentos, e a queixa é dor surda ou latejante na virilha ou na nádega, seguida mais tarde de dificuldade para ficar em pé, apoiar o peso e mover o quadril.

Onde dói e o que sugere (Campbell 15, cap. 7, quadros da p. 357)
Localização ou fatorSugere
virilha ou dor profunda mal definida, sinal do Cpatologia intra-articular
posterior, na espinha ilíaca posterossuperior e nádegacoluna lombar ou sacroilíaca
lateral, descendo pela coxaperitrocantérica; excluir intra-articular
dor ao apoio, aliviada sentado ou deitadoartrose, osteonecrose, fratura de estresse, displasia, artrite inflamatória

O caso clássico da banca reúne tudo isso: homem de 50 anos, etilista, com dor no quadril irradiada para a virilha há dois anos, movimento limitado pela dor e radiografia de FICAT III. A dor inguinal, como o livro diz, aponta a articulação. A limitação do movimento acompanha a progressão do estágio (sintomas leves no FICAT 2, leves a moderados no 3, moderados a graves no 4).

Radiografia e o sinal do crescente

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 385), pede radiografias em AP da pelve e perfil em rã (frog-leg). As alterações dependem do estágio. Nas fases iniciais, os filmes podem ser normais; com a progressão, aparecem aumento da densidade ou lucência na cabeça femoral (a esclerose e os cistos do FICAT 2). Mais adiante surge o sinal que a prova adora: o sinal do crescente, que o livro chama literalmente de patognomônico e que se vê melhor no perfil em rã (Fig. 7.46, estágio III).

O crescente é uma fratura subcondral que se forma sobre o segmento necrótico, que começa na porção anterossuperior da cabeça (cap. 3, p. 166), bem mostrada pelo perfil em rã. Nas fases finais, a cabeça colapsa e a artrose aparece dos dois lados da articulação.

Esclerose e cistos são do reparo (FICAT 2) e inespecíficos; a dupla linha é da RM em T2. O crescente é o sinal radiográfico patognomônico.

RM, dupla linha e cintilografia

Cobrança confirmada · 2 questões

Por que a RM é o exame de escolha

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 385), coloca a RM como modalidade de imagem de escolha nas fases iniciais, porque determina o estágio exato e a extensão do processo sem métodos invasivos. Há duas regras práticas. Quando os dois quadris já mostram colapso típico, a RM é desnecessária, porque não muda a conduta. Quando a radiografia mostra alteração em um só lado, pede-se RM da pelve, para definir a extensão no lado sintomático e avaliar o assintomático, onde a doença pode ser flagrada cedo, quando os tratamentos funcionam melhor. A RM também segue a progressão da doença assintomática e mede a eficácia do tratamento.

O capítulo de imagem é ainda mais direto: entre as técnicas disponíveis, a RM é a mais sensível para detectar a osteonecrose precoce e delimita melhor a extensão da necrose medular (cap. 3, p. 165). O percentual de acometimento da cortical de carga definido pela RM, junto com o edema perilesional e o derrame articular, ajuda a prever o prognóstico e o valor da cirurgia.

O sinal da dupla linha

No T1, a imagem clássica é uma região geográfica de sinal anormal dentro da gordura normalmente brilhante da cabeça femoral, circundada por uma banda de baixo sinal, que representa o osso isquêmico. No T2, aparece uma margem de sinal brilhante por dentro dessa banda escura, e o conjunto recebeu o nome de sinal da "dupla linha". O Campbell diz que esse sinal é essencialmente diagnóstico de osteonecrose (cap. 3, p. 166). A lesão começa na medula subcondral anterossuperior; o centro necrótico pode ter sinais variados ao longo da doença (hemorragia, gordura, edema, fibrose). Nos casos avançados surgem fratura subcondral, colapso articular, perda de cartilagem, edema reativo e derrame.

A cintilografia

A cintilografia perdeu espaço. O Campbell (cap. 7, p. 387) a reserva para quando há contraindicação à RM ou quando se precisa avaliar várias articulações. A captação de tecnécio-99m costuma estar diminuída na fase muito precoce (o "ponto frio" do FICAT 1) e fica variável ou aumentada quando aparecem os sintomas (o reparo dos estágios 2 a 4). Uma vez sintomática a doença, não há relação entre o aspecto cintilográfico e a dor ou a função do quadril.

Cada exame e o seu papel (Campbell 15, cap. 7, p. 385 e 387; cap. 3, p. 165 e 166)
ExameO que mostraQuando usar
radiografia AP e perfil em rãnormal no início; densidade, lucência, crescente, colapso, artrosesempre, para estadiar
RMsinal geográfico em T1; dupla linha em T2; extensão; edema e derrameescolha nas fases iniciais; lado contralateral; seguimento
cintilografiaponto frio precoce; captação aumentada depoiscontraindicação à RM; várias articulações
RM dos dois lados já colapsadosnada que mude a condutadesnecessária

O diagnóstico diferencial: osteoporose transitória

Cobrança confirmada · 2 questões

A grande imitadora da osteonecrose inicial é a osteoporose transitória do quadril. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 385), dá a regra que a prova cobra: a diferenciação geralmente é possível, porque o edema medular da osteoporose transitória se estende para a região intertrocantérica do fêmur, sem demarcação de um segmento necrótico proximal. Na osteonecrose, ao contrário, há uma lesão focal, subcondral, delimitada pela banda (a dupla linha).

O capítulo de imagem detalha (cap. 3, p. 166): processo unilateral e autolimitado, descrito em gestantes no terceiro trimestre e hoje visto sobretudo em homens de meia-idade, às vezes com acometimento posterior de articulações vizinhas (osteoporose migratória regional). A radiografia é normal ou mostra osteopenia difusa com espaço preservado. Na RM, edema difuso da cabeça até a intertrocantérica (baixo em T1, alto em T2 com supressão de gordura), o padrão de edema medular, sem as alterações focais da osteonecrose; às vezes uma linha subcortical indica fratura por insuficiência.

Há uma armadilha honesta que o livro admite: relatos raros mostraram o padrão de edema medular como a fase mais precoce de uma osteonecrose. Por isso, se as radiografias iniciais forem normais, repetem-se os filmes 6 a 8 semanas após o início: a osteopenia da cabeça confirma a osteoporose transitória. A doença costuma resolver sem tratamento em 6 meses, com radiografia e RM voltando ao normal.

O capítulo 7 (p. 390 e 391) acrescenta a clínica: atrofia muscular local, sintomas bilaterais em cerca de um terço, desmineralização que pode demorar 6 semanas para aparecer (a cintilografia alterada pode precedê-la) e RM com edema da cabeça e do colo até a intertrocantérica, em geral com derrame. O que a separa da osteonecrose precoce é a ausência de comprometimento do osso subcondral. Como resolve com medidas conservadoras em meses, a cirurgia raramente ou nunca está indicada.

Osteonecrose x osteoporose transitória (Campbell 15, cap. 7, p. 385, 390 e 391; cap. 3, p. 166)
AspectoOsteonecroseOsteoporose transitória
quem3ª à 5ª década; fatores de riscohomem de meia-idade; gestante no fim da gravidez
radiografiadensidade, lucência, crescente, colapsonormal ou osteopenia difusa; espaço preservado
RMlesão focal subcondral, banda de baixo sinal, dupla linhaedema difuso da cabeça e do colo até a intertrocantérica, sem segmento demarcado
osso subcondralcomprometidopoupado
derrameem casos avançadosem geral presente
evoluçãoprogressiva; colapsoautolimitada, cerca de 6 meses
tratamentoconforme estágioconservador; cirurgia rara

FICAT e ARLET: a fotografia de cada fase

Cobrança confirmada · 7 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 384), diz que os esquemas mais usados são o de FICAT e ARLET (Tabela 7.3) e o de STEINBERG (Tabela 7.4), ambos baseados na radiografia, com a RM acrescentada ao STEINBERG. A tabela de FICAT e ARLET é rica porque cruza cinco colunas: sintomas, radiografia, cintilografia, achado patológico e biópsia. É exatamente esse cruzamento que a banca explora: pergunta um achado de biópsia e quer o estágio, ou dá a radiografia e quer a patologia.

Classificação de FICAT e ARLET (Campbell 15, cap. 7, Tabela 7.3, p. 385)
EstágioSintomasRadiografiaCintilografiaPatologiaBiópsia
0nenhumnormalcaptação diminuída?
1nenhum ou levenormalponto frio na cabeçainfarto da porção de cargamuitas células medulares mortas, osteoblastos, células osteogênicas
2levedensidade alterada, esclerose ou cistos; interlinha e contorno normaiscaptação aumentadareparo espontâneo da área infartadaosso novo depositado entre trabéculas necróticas
3leve a moderadoachatamento (crescente), perda da esfericidade, colapsocaptação aumentadafratura subcondral, colapso, compactação e fragmentação do segmento necróticotrabéculas mortas e células medulares dos dois lados da fratura
4moderado a graveestreitamento do espaço, alterações acetabularescaptação aumentadaalterações artrósicasdegeneração da cartilagem acetabular

Lendo a tabela como uma história

Estágio 1: o infarto silencioso. Há infarto na porção de carga, mas a radiografia é normal, porque o osso morto conserva o mineral. Só a cintilografia (ponto frio) e a RM o enxergam; por isso o estadiamento radiográfico não serve para flagrar o estágio 1.

Estágio 2: o reparo. Tecido vivo invade a borda e deposita osso novo entre as trabéculas mortas: na radiografia, esclerose e cistos, com interlinha e contorno normais; na cintilografia, captação aumentada. É o reparo espontâneo da área infartada.

Estágio 3: a fratura. O osso subcondral enfraquecido cede: fratura subcondral (o crescente), achatamento, perda da esfericidade e colapso, com osso morto dos dois lados do traço. O espaço articular ainda é normal.

Estágio 4: a artrose. A cabeça deformada desgasta o acetábulo: estreitamento do espaço, alterações acetabulares e degeneração da cartilagem acetabular.

Subestágios 2A e 2B

A Tabela 7.3 do Campbell 15 não subdivide o estágio 2. A divisão aparece apenas no box de indicações da descompressão, que fala em FICAT I e IIA (p. 388). O livro não define o que separa IIA de IIB. O que se pode afirmar pelo texto é que o estágio 2 é o da cabeça com esclerose ou cistos, contorno normal e sem crescente, e que o crescente com perda de esfericidade já é estágio 3.

STEINBERG e ARCO: o tamanho entra na classificação

Cobrança confirmada · 1 questão

O que FICAT e ARLET não dizem é quanto da cabeça está comprometido, e o tamanho é o que mais pesa no prognóstico. O sistema de STEINBERG resolve isso: incorpora a RM e acrescenta os modificadores A, B e C do estágio I ao IV (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 7, p. 384). O sistema ARCO (Association Research Circulation Osseous) é usado ocasionalmente e é semelhante em conceito ao STEINBERG.

Classificação de STEINBERG (Campbell 15, cap. 7, Tabela 7.4, p. 386)
EstágioAchadoModificador
0radiografia, cintilografia e RM normais ou não diagnósticas
Iradiografia normal; cintilografia e/ou RM alteradasA < 15% da cabeça; B 15% a 30%; C > 30%
IIlucência e esclerose na cabeçaA < 15%; B 15% a 30%; C > 30%
IIIcolapso subcondral (crescente) sem achatamentoA < 15% da superfície articular; B 15% a 30%; C > 30%
IVachatamento da cabeçaA < 15% ou depressão < 2 mm; B 15% a 30% ou 2 a 4 mm; C > 30% ou > 4 mm
Vestreitamento articular e/ou alterações acetabularesA, B, C pelo envolvimento médio da cabeça e acetabular estimado
VIalterações degenerativas avançadas
Classificação ARCO (Campbell 15, cap. 7, Tabela 7.4, p. 386)
EstágioAchadoSubdivisão
0biópsia compatível; demais exames normais
Icintilografia e/ou RM positivasIA < 15% (RM); IB 15% a 30%; IC > 30%
IIaspecto mosqueado, osteosclerose, cistos e osteopenia na radiografia; sem colapso na radiografia ou TC; acetábulo normalA < 15%; B 15% a 30%; C > 30%
IIIcrescente, classificado no AP e no perfilA < 15% ou < 2 mm; B 15% a 30% ou 2 a 4 mm; C > 30% ou > 4 mm
IVsuperfície achatada, espaço estreito, acetábulo com esclerose, cistos e osteófitos

Como montar as equivalências

O raciocínio é o mesmo nos três sistemas, só muda o número: crescente é FICAT 3, STEINBERG III e ARCO III. O STEINBERG separa o crescente (III) do achatamento (IV) e o estreitamento (V) da artrose avançada (VI); o FICAT junta crescente e achatamento no 3.

Os modificadores obedecem ao mesmo corte: A menor que 15%, B de 15% a 30%, C maior que 30%. No estágio III do STEINBERG, o percentual é da superfície articular ocupada pelo crescente. Um crescente que ocupa 20% da superfície, portanto, é IIIB. Note o detalhe do STEINBERG IV e do ARCO III: além do percentual, a profundidade da depressão (menor que 2 mm, 2 a 4 mm, maior que 4 mm) entra no modificador.

Equivalência entre os sistemas (Campbell 15, cap. 7, Tabelas 7.3 e 7.4, p. 385 e 386)
AchadoFICAT e ARLETSTEINBERGARCO
só biópsia alterada0
tudo normal00
radiografia normal, RM ou cintilografia alterada1I (A, B, C)I (A, B, C)
esclerose, cistos, sem colapso2II (A, B, C)II (A, B, C)
crescente sem achatamento3III (A, B, C)III (A, B, C)
achatamento da cabeça3IV (A, B, C)III
estreitamento articular, acetábulo4VIV
degeneração avançada4VIIV

O tamanho da lesão e o ângulo de KERBOUL

Cobrança confirmada · 2 questões

Se há um número que resume a osteonecrose, é 30%. A história natural mostra que a lesão assintomática menor que 30% da cabeça quase nunca dá sintoma em 5 anos; as osteotomias funcionam melhor abaixo de 30%; e o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 390), afirma literalmente que, se a osteonecrose envolve mais de 30% da cabeça, o sucesso das técnicas preservadoras tende a diminuir.

Como medir? O livro descreve o ângulo necrótico combinado (Fig. 7.45, p. 386): mede-se o ângulo da área necrótica no corte coronal médio da RM e o ângulo no corte sagital médio, e soma-se os dois (A + B). A figura vem do trabalho de HA e colaboradores, que propuseram um método de KERBOUL modificado com RM. O ponto que a prova cobra é o valor preditivo: o ângulo combinado prevê o colapso nos quadris ainda pré-colapso (p. 384 e 385). No estudo de 5 anos, abaixo de 190° nenhuma cabeça colapsou e acima de 240° todas colapsaram.

Tamanho da lesão e consequência (Campbell 15, cap. 7, p. 384 a 386 e 390)
MedidaValorConsequência
ângulo necrótico combinado (coronal + sagital)< 190°sem colapso em 5 anos
ângulo necrótico combinado> 240°colapso em todas
lesão assintomática< 30% da cabeça95% seguem assintomáticas por mais de 5 anos
lesão> 50% da cabeçamais dor
lesão para osteotomia< 30%melhores resultados
lesão> 30% da cabeçasucesso da preservação diminui

O raciocínio mecânico explica o corte. Uma lesão pequena e central fica cercada por osso vivo, que sustenta a placa subcondral e permite o reparo. Uma lesão grande, sobretudo se ocupa a área de carga lateral, deixa a placa subcondral sem apoio: qualquer tentativa de reparo enfraquece a interface e a cabeça cai. Por isso a descompressão funciona em "lesões centrais pequenas" e a osteotomia precisa de osso vivo suficiente para ser girado para a área de carga.

Tratamento não operatório

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 387), começa o tratamento com uma frase de humildade: nenhum método provou ser completamente eficaz para deter a doença antes do colapso subcondral nem para retardar a destruição da cabeça e a artrose depois do colapso. As condições subjacentes e os fatores de risco devem ser controlados. O curso é imprevisível, e a radiografia pode não corresponder aos sintomas. A remissão espontânea, mesmo de FICAT II, já foi relatada, mas é rara.

A conclusão sobre o tratamento conservador clássico é taxativa: muletas ou repouso no leito geralmente são ineficazes. O livro admite um uso: o paciente sintomático à espera de uma técnica preservadora pode ficar de muletas no intervalo, na esperança de evitar o colapso.

Opções não operatórias (Campbell 15, cap. 7, p. 387)
OpçãoRacionalO que o livro conclui
muletas ou repousodescargageralmente ineficazes; ponte até a cirurgia
bisfosfonatosinibem osteoclastos e o remodelamento (animais)estudo multicêntrico sem diferença em ATQ, progressão ou qualidade de vida em 2 anos
estatinasmenos gordura intraóssea e congestãobenefício precoce em insuficiência renal
oxigênio hiperbáricooxigenaçãoestudos limitados, benefício precoce
ondas de choque extracorpóreasaumento de densidade visto na litotripsiasem aceitação ampla

Uma questão com quatro afirmações

O TARO 2007 reuniu quatro afirmações. A de que muletas nas fases iniciais não são tratamento eficaz é a frase do livro. A descompressão no FICAT III não detém nada (falha de 100% após o colapso). O Campbell não nomeia a osteotomia de SUGIOKA, mas limita as osteotomias a lesões menores que 30%, não 50%. E a hemiartroplastia de superfície perde para a ATQ, porque o acetábulo do FICAT III já está lesado.

Descompressão do núcleo

Cobrança confirmada · 2 questões

O que ela faz

A descompressão do núcleo (core decompression) consiste em perfurar o osso necrótico para aliviar a pressão intraóssea causada pela congestão venosa, permitindo melhor vascularização e possivelmente retardando a progressão (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 7, p. 387). Repare no verbo: o livro diz "possivelmente retardar", nunca "impedir". Os resultados iniciais foram promissores, mas não se repetiram nas investigações seguintes. Ainda assim, a descompressão é melhor que o tratamento não operatório, é simples e tem baixa taxa de complicações.

O resultado depende do estágio: quanto mais precoce, melhor, com os melhores resultados no FICAT I. As falhas relatadas giram em torno de 60% mesmo nas fases precoces, pré-colapso, e chegam a 100% após o colapso. É a confirmação prática da linha divisória: depois do crescente, perfurar a cabeça não a reergue.

O que se coloca no túnel

No espaço deixado pela broca podem ser colocados enxertos não estruturais e não vascularizados ou substitutos ósseos. Há interesse em fatores de crescimento para estimular a osteogênese (BMP) ou a angiogênese (FGF ou VEGF), e resultados favoráveis com autoenxerto contendo células da medula óssea, com ou sem fatores. A haste de tântalo poroso, defendida para dar suporte estrutural, teve resultados desfavoráveis: pouca integração óssea, apoio insuficiente ao osso subcondral e preocupação com as partículas metálicas densas vistas nas radiografias.

As duas técnicas

Técnicas de descompressão (Campbell 15, cap. 7, Técnicas 7.5 e 7.6, p. 388)
AspectoHUNGERFORD (Técnica 7.5)MONT (Técnica 7.6, percutânea)
acessoincisão lateral de 2 a 3 cm, subtrocantéricapercutânea, sob fluoroscopia
instrumentofio-guia de 3,2 mm e broca de 8 mm (ou trefina para histologia)pino de Steinmann de 3,2 mm, várias passagens
ponto de entradaentre a cortical lateral da parte inferior do trocânter maior e a porção distal do trocânter menorcortical lateral da metáfise, oposta ao topo do trocânter menor
cuidadojanela abaixo do trocânter menor aumenta o risco de fratura2 passagens em lesões pequenas, 3 em grandes; não perfurar a cartilagem
pós-operatóriomuletas por pelo menos 6 semanas; mais na doença avançadacarga parcial ~50% por 5 a 6 semanas; sem impacto por 12 meses
vantagemtrajeto amplo, permite enxertomenor taxa de colapso que a tradicional, pouca morbidade

O ponto de entrada tem razão mecânica: abaixo do trocânter menor, a cortical lateral está sob tração máxima, e o furo vira concentrador de tensão para uma fratura subtrocantérica. Sem colapso e sem sintomas aos 12 meses, liberam-se as atividades de impacto.

Para quem

Indicações da descompressão (Campbell 15, cap. 7, Campbell's Concepts, p. 388; cap. 4, p. 246)
ItemO que o livro diz
estágioFICAT I e IIA
lesãopequena e central
pacientejovem, não obeso, sem corticoide
FICAT IIIresultados muito menos previsíveis; buscar alternativas
ATQ futuracampo cirúrgico pouco alterado
aviso ao paciente30% de chance de ATQ em 4 a 5 anos, mesmo na doença precoce
capítulo de artroplastiaidiopáticos e por corticoide sem colapso (estágios I e II): descompressão (HUNGERFORD), fíbula vascularizada ou osteotomia valgizante

Enxertia estrutural: trajeto padrão, trapdoor e light bulb

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O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 388), relata sucesso de 50% a 80% com descompressão associada a enxerto estrutural. Foram usados enxertos corticais, esponjosos e vascularizados. Nos estágios I e II, não houve diferença entre autoenxerto de tíbia ou fíbula e aloenxerto de fíbula, mas o enxerto vascularizado mostrou melhores resultados clínicos e prevenção mais eficaz do colapso. Em qualquer caso, o posicionamento exato do enxerto dentro da lesão e sob o osso subcondral é essencial (Fig. 7.48: enxerto cortical press-fit no estágio I ou II). O enxerto age como escora: sustenta a placa subcondral enquanto o osso morto é substituído.

O livro descreve três vias para levar o enxerto: o trajeto padrão do núcleo, o trapdoor ("alçapão") e o light bulb ("lâmpada").

Trapdoor

A Técnica 7.7 exige luxação cirúrgica do quadril: levanta-se um retalho da superfície condral, remove-se o osso necrótico, enxerta-se e recoloca-se e fixa-se o retalho (Fig. 7.49A). Ganha-se visão direta da cartilagem e da lesão; perde-se em dificuldade técnica, risco de lesão condral e de osteonecrose pela própria luxação.

Light bulb

Na Técnica 7.8, abre-se uma janela de cerca de 2 x 2 cm na junção cabeça-colo, cureta-se todo o osso necrótico com broca em cogumelo, deixando a cavidade com formato de lâmpada, enche-se com aloenxerto e recoloca-se o tampão com três pinos de 2 mm (Fig. 7.49B). É simples, permite desbridamento amplo, dispensa a luxação e complica pouco; o risco é a fratura pelo defeito cortical no colo.

Trapdoor x light bulb (Campbell 15, cap. 7, Técnicas 7.7 e 7.8, Fig. 7.49, p. 389 e 390)
AspectoTrapdoorLight bulb
acessoluxação cirúrgica do quadriljanela de ~2 x 2 cm na junção cabeça-colo
porta de entradaretalho de cartilagem da cabeçacórtex do colo
enxertoenxerto ósseo na cavidadealoenxerto; tampão fixado com 3 pinos de 2 mm
vantagemvisão direta da cartilagem e da lesãosimples, desbridamento amplo, sem luxação, baixa complicação
desvantagemdifícil; lesão condral; osteonecrose pela luxaçãofratura pelo defeito no colo

A distinção visual na prova é imediata: se a imagem mostra uma janela no colo e uma cavidade em forma de lâmpada, é light bulb; se mostra um retalho de cartilagem levantado na cabeça, é trapdoor. Quanto ao estágio, o livro situa a enxertia estrutural nos estágios I e II, pré-colapso, porque depois do crescente o retalho condral já está fraturado e o colapso não se desfaz com enxerto.

Fíbula vascularizada

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Por que vascularizar

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 390), apoia o enxerto de fíbula vascularizada em quatro pilares: a descompressão da cabeça, que pode interromper o ciclo de isquemia e hipertensão intraóssea; a excisão do sequestro, que poderia inibir a revascularização; o preenchimento do defeito com esponjoso osteoindutor e uma escora cortical viável, que sustenta o osso subcondral e estimula a revascularização; e a proteção do conjunto por um período de carga limitada. A técnica de obtenção da fíbula fica no capítulo 68.

Fíbula vascularizada x ATQ (Campbell 15, cap. 7, p. 390)
ItemO que o livro diz
vantagenscabeça cicatrizada, mais atividade; antes da fratura subcondral, chance de a cabeça durar a vida inteira
desvantagensrecuperação longa, alívio da dor menos confiável, morbidade do doador, sobrevida menos previsível
bons resultados80% a 91%
indicação razoávelabaixo de 50 anos, sem colapso
acima de 50 anosATQ, se os sintomas justificarem cirurgia
corticoide em usonão contraindica
assintomático precocecontroversa: morbidade do doador; descompressão possivelmente igual

O que o capítulo de microcirurgia acrescenta

O capítulo 68 do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (p. 3048), é mais cético: a fíbula vascularizada já foi usada na osteonecrose da cabeça femoral, mas os resultados são inconclusivos, porque ainda faltam resultados de longo prazo em número significativo de pacientes.

A indicação geral do enxerto ósseo vascularizado no capítulo 68 (p. 3066) é outra: ele é indicado quando as técnicas tradicionais de enxertia não podem ser feitas, sobretudo com cobertura de partes moles inadequada, ou quando falharam. Também é usado na pseudartrose congênita da tíbia e na reconstrução após ressecção de tumores ou displasia fibrosa.

A anatomia do enxerto

A fíbula é o osso mais usado nas transferências ósseas livres: longa, reta, cortical forte e dispensável (cap. 68, p. 3068). O pedículo é a artéria fibular (peroneal), de 1,5 a 3 mm, com as veias comitantes e 6 a 8 cm de comprimento; a nutrícia entra no terço médio, e cerca de 26 cm podem ser retirados. O livro prefere a via lateral (GILBERT; TAMAI; WEILAND).

Osteotomias femorais proximais

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O raciocínio das osteotomias é geométrico. Quando a osteonecrose se instala, o segmento acometido tende a estar na porção de carga da cabeça. As osteotomias femorais proximais foram desenvolvidas para tirar o segmento necrótico da área principal de carga e trazer para ela osso vivo (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 7, p. 390).

O livro é preciso nos critérios. Os melhores resultados ocorreram em lesões pequenas ou médias, com menos de 30% de envolvimento da cabeça, em pacientes jovens nos quais é desejável adiar a ATQ. Pacientes com menos de 55 anos foram melhor que os mais velhos, e as formas idiopática ou pós-traumática foram melhor que as induzidas por álcool ou corticoide. O capítulo de artroplastia (cap. 4, p. 246) cita a osteotomia valgizante, com ou sem enxerto, entre as opções para os estágios I e II sem colapso.

Lesão pequena deixa osso vivo suficiente para ser girado para a carga; lesão grande mantém osso morto apoiado, gire-se para onde for.

Artroplastia

Relevância clínica

Quando a cabeça não tem mais salvação

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 390), fecha o tratamento com dois limites: se a osteonecrose envolve mais de 30% da cabeça, o sucesso das técnicas preservadoras tende a diminuir; e, uma vez iniciado o colapso, o quadril inevitavelmente progride para artrose terminal. As opções para lesões grandes e doença avançada são a artroplastia de superfície e a artroplastia total do quadril (capítulos 4 e 5).

A hemiartroplastia deve ser evitada. O motivo é patológico: no FICAT III, a cartilagem acetabular já se mostrou rotineiramente danificada, embora a radiografia ainda mostre espaço articular normal. Uma cabeça metálica contra esse acetábulo doente dói e desgasta. Além disso, como nas fraturas do colo femoral, o seguimento longo favoreceu a ATQ sobre a hemiartroplastia.

A artroplastia de superfície

O capítulo 5 (p. 337 e 338) restringe a artroplastia de superfície (SRA). A osteonecrose tem taxa de revisão precoce maior que a artrose, junto com displasia e artrite inflamatória. O candidato ideal é o homem ativo com cabeça de 48 mm ou mais e artrose, com anatomia femoral proximal quase perfeita; pacientes com cistos grandes na cabeça ou com osteonecrose não são considerados candidatos. A razão é intuitiva: a superfície apoia-se sobre o osso da cabeça, e a cabeça necrótica não dá suporte.

As particularidades da ATQ na osteonecrose

O capítulo 4 (p. 246) dá os detalhes técnicos. Cápsula e sinóvia hiperêmicas sangram, e um grande derrame pode sugerir infecção, que é incomum. Após fíbula vascularizada, é preciso remover todo o enxerto intramedular: FEHRLE achou componente femoral pequeno e em varo por remoção incompleta e recomendou broca de alta rotação e radiografia intraoperatória. No jovem, a ATQ foi historicamente menos satisfatória, em parte pela cimentação de primeira geração; com cerâmica de alumina e polietileno altamente reticulado, não houve soltura nem osteólise em 8,5 anos, e o livro defende superfícies avançadas nessa população. Há mais sepse, transfusão e readmissão (STAVRAKIS; LOVECCHIO).

Artroplastia na osteonecrose (Campbell 15, cap. 7, p. 390; cap. 4, p. 246; cap. 5, p. 337 e 338)
OpçãoPosição do livro
hemiartroplastiaevitar: acetábulo do FICAT III já lesado; seguimento longo favorece a ATQ
artroplastia de superfícieosteonecrose tem mais revisão precoce; não é candidata no capítulo 5
ATQopção para lesões grandes e doença avançada; superfícies avançadas no jovem
após fíbula vascularizadaremover todo o enxerto intramedular (risco de componente pequeno e em varo)
riscosmais sepse, transfusão e readmissão

As doenças de base na prática

Relevância clínica

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 262), trata separadamente três doenças que levam à osteonecrose e mudam a cirurgia.

Anemia falciforme. Doença e traço podem dar osteonecrose, bilateral em quase 50%; o traço a causa menos, mas é muito mais comum. Na cirurgia: transfusão com mais aloimunização, evitar hipóxia, acidose, hipotermia e desidratação, acetábulo fraco com algum grau de protrusão e infartos medulares que formam o "fêmur dentro do fêmur", com canal às vezes obstruído por osso denso e alto risco de fratura e perfuração. A asplenia funcional predispõe à infecção hematogênica; a Salmonella não justifica profilaxia e o VHS não tem valor. Complicações em quase 50% das ATQs; não cimentadas, 98% em 10 anos.

Doença de GAUCHER. Na forma crônica não neuropática, a osteonecrose é bilateral e pode ser o primeiro sintoma. Osteopenia, trabéculas roídas por traça, medula ocupada por células de GAUCHER, canal largo com fixação difícil, fratura fácil, anemia, plaquetopenia, hemorragia e soltura.

Insuficiência renal crônica. Osteoporose, osteonecrose e fratura do colo são sequelas comuns. Pacientes em diálise têm mais complicações, infecções e revisões do que os transplantados; para quem vai transplantar, pode valer adiar a artroplastia. No capítulo 7, as estatinas aparecem com benefício na osteonecrose precoce justamente na insuficiência renal.

A osteonecrose pós-traumática

Possível cobrança

O trauma lidera o Box 7.4, e o capítulo 60 do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., dá os números. Após fratura do colo femoral, a osteonecrose continua sendo problema mesmo nas fraturas não desviadas: nelas, foram medidas pressões intracapsulares maiores do que nas desviadas, porque a cápsula não rasgou e o hematoma fica preso. A capsulotomia de rotina é controversa, mas provavelmente é mais eficaz em GARDEN I e II, em que o tamponamento pode ser causa importante da necrose; o livro costuma considerá-la em jovens com fratura não desviada (p. 2663).

Em metanálise de pacientes de 15 a 50 anos, a osteonecrose ocorreu em 23% e a pseudartrose em 9%; em idosos com fratura desviada, 16% e 33% (p. 2663 e 2664). Na luxação posterior do quadril, a osteonecrose complica 1% a 22% dos casos, e o risco aumenta com o tempo até a redução; evitam-se tentativas múltiplas de redução fechada (p. 2686).

A decisão por estágio

Fundamento

A conduta responde a três perguntas: já colapsou?, qual o tamanho? e quem é o paciente? O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 387 a 390), não traz algoritmo pronto, mas seus limites o montam.

Conduta por fase (Campbell 15, cap. 7, p. 387 a 390; cap. 4, p. 246)
FaseAchadoOpções do livro
pré-colapso precoceFICAT I e IIA; lesão pequena e centraldescompressão (melhor no I), com ou sem enxerto ou células da medula
pré-colapso, jovemFICAT I e II; < 50 anosfíbula vascularizada (80% a 91%); enxerto estrutural (trapdoor, light bulb)
pré-colapso, lesão < 30%jovem < 55 anos, causa idiopática ou traumáticaosteotomia femoral proximal
> 30% da cabeçaqualquer fasepreservação com sucesso menor
pós-colapsoFICAT 3 (crescente)descompressão falha em 100%; ATQ; evitar hemiartroplastia
artroseFICAT 4ATQ
> 50 anos sintomáticoATQ em vez de fíbula vascularizada

Antes do colapso, descomprime-se, escora-se ou gira-se a cabeça; depois dele, a superfície já fraturou e o acetábulo sofre antes de a radiografia mostrar, e a resposta é a prótese total.

Fechamento

Fundamento

A osteonecrose é a doença de um osso que perdeu a circulação, frágil por depender da circunflexa medial. Causas diferentes levam à mesma morte celular; a cabeça morre em silêncio, tenta se reparar, fratura sob o osso subcondral e colapsa. As classificações fotografam essas fases, e o tamanho da lesão diz se ainda há o que salvar: antes do colapso e abaixo de 30%, preserva-se; depois, prótese total.

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