Orto Questões

Artrose do tornozelo, artrodese e artroplastia

Pé e tornozeloResumo do capítulo37 min de leitura

Artrose terminal do tornozelo é sobretudo pós-traumática e aparece em 1 a 2 anos após o pilão; conservador com AINE, órtese e infiltração; desbridamento só para osteófito anterior e corpo livre; supramaleolar para artrose de goteira com deformidade; distração no jovem que recusa artrodese; artrodese em flexoextensão neutra, 5 graus de rotação externa, 5 graus de valgo e leve translação posterior do tálus, contraindicada de forma absoluta por doença vascular e pele infectada, com fusão acima de 90% e artroscópica de escores melhores; ATT contraindicada por instabilidade importante, deformidade grande, neuropatia e infecção, com fratura maleolar intraoperatória (sobretudo medial) como complicação mais comum.

Atualizado em 04/11/2026 · 37 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 12 · Ankle Arthrodesis, com o Capítulo 11 · Total Ankle Arthroplasty, o Capítulo 90 · Arthritis of the Foot, o Capítulo 55 · Arthroscopy of the Foot and Ankle (artrodese artroscópica) e o Capítulo 91 · Neuropathic Foot, em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026), com o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed., e o Sizínio HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed.. Autores do capítulo: Clayton C. BETTIN (cap. 12); G. Andrew MURPHY (cap. 11); David R. RICHARDSON (cap. 90).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Campbell, capítulo 12, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo trata do tornozelo que se gastou: por que ele se gasta (quase sempre depois de uma fratura), o que se faz antes de operar, as cirurgias que preservam a articulação e as duas saídas para a artrose terminal, a artrodese e a artroplastia total do tornozelo (ATT). O texto principal vem do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., capítulo 12 (Ankle Arthrodesis, Clayton C. BETTIN) e capítulo 11 (Total Ankle Arthroplasty, G. Andrew MURPHY), com apoio do capítulo 90 (Arthritis of the Foot), do capítulo 55 (artrodese artroscópica) e do capítulo 91 (pé neuropático). A artrose pós-traumática do pilão vem do Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 64), e o HEBERT (cap. 69) dá o tempo de aparecimento da artrose depois da fratura do tornozelo. As artrodeses do retropé (subtalar, talonavicular, tríplice) estão no resumo de pé plano adquirido do adulto (campbell15-pe-plano-adulto); aqui elas só aparecem quando cruzam o tornozelo.

A ideia central: o tornozelo é uma dobradiça muito carregada, com pouca área de contato e cartilagem fina, mas que tolera bem a perda de movimento. Por isso ele se presta à artrodese melhor que o joelho ou o quadril, e por isso a prótese do tornozelo demorou tanto a funcionar. Cada decisão é uma conta entre alívio previsível (artrodese) e movimento com mais complicações (artroplastia).

A prova cobra quatro coisas, nessa ordem de frequência: a posição da artrodese (neutra, 5 graus de rotação externa, 5 graus de valgo, translação posterior do tálus), as contraindicações da artrodese e da prótese, a comparação entre artrodese artroscópica e aberta e as complicações da ATT (a fratura do maléolo medial no intraoperatório). Aparecem ainda o tempo da artrose após o pilão, a via anterior da prótese e o diabético com neuropatia.

Por que o tornozelo aceita a artrodese

Fundamento

A carga e a superfície

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 11), explica por que a prótese do tornozelo não repetiu o sucesso da do quadril e do joelho. São três fatos anatômicos: a área de contato entre as superfícies é bem menor que no quadril ou no joelho; o tornozelo recebe 5,5 vezes o peso corporal na marcha normal, contra três vezes no joelho; e a cartilagem é uniformemente mais fina que a do joelho (p. 514). Muita força, pouca área e pouca cartilagem: a pressão por unidade de superfície é alta, e qualquer incongruência pós-fratura se traduz rápido em desgaste.

A dobradiça que se pode travar

O capítulo 12 vira o argumento ao contrário para defender a artrodese. O tornozelo é basicamente uma dobradiça; o eixo de rotação muda ao longo do arco, mas fixá-lo em posição neutra não produz consequências biomecânicas graves no membro. O tálus fica numa pinça bem definida, sustentado pelo maléolo medial, pelo plafond congruente e pelo maléolo lateral, e todas essas superfícies são leito potencial de consolidação (p. 557).

O argumento decisivo é o arco necessário: a marcha normal usa só 10 a 12 graus de extensão (dorsiflexão) e 20 graus de flexão (plantar). Perder parte disso não é crítico, ao contrário do joelho e do quadril, onde perdas modestas já incapacitam. O movimento sagital que falta é compensado por dentro, pela articulação mediotársica móvel, ou por fora, com sola em mata-borrão (p. 557). O capítulo 11 repete os números (cerca de 12 graus de extensão e 20 de flexão no plano) e lembra que correr, trotar e andar em rampa exigem extremos maiores (p. 536).

Quem paga a conta depois

Se o tornozelo trava, a talonavicular passa a fazer a maior parte do movimento sagital (Campbell, cap. 12, p. 562), e o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 64), acrescenta que subtalar e talonavicular precisam ser preservadas a qualquer custo: os resultados da artrodese caem a longo prazo quando a subtalar se desgasta.

Etiologia: a artrose do tornozelo é pós-traumática

Cobrança confirmada · 1 questão

O peso do trauma

Diferente do quadril e do joelho, o tornozelo raramente se desgasta sozinho. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 55), afirma que a osteoartrite pós-traumática responde pela maioria dos casos de artrose terminal do tornozelo, e que mesmo depois da consolidação óssea fica um microambiente inflamatório pós-fratura capaz de levar à degeneração (p. 2321). O capítulo 11 registra que o uso da ATT cresceu muito justamente nos pacientes com artrose pós-traumática e osteoartrite (p. 513).

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 2), dá o mecanismo. A lesão condral, com ou sem fratura, é fator de risco estabelecido de artrose pós-traumática, e as lesões ligamentares do tornozelo também são fatores de risco importantes, porque se associam a lesão de cartilagem: na instabilidade lateral prolongada, a artroscopia encontrou cartilagem normal em só 23%, grau 1 em 35%, grau 2 em 24% e grau 3 (osso subcondral exposto) em 17%. Há relação clara entre a gravidade da lesão do osso subcondral e a degeneração: no pilão, a energia da fratura estimada pela TC teve 88% de concordância com o aparecimento da artrose, e a energia mais a cominuição explicaram 70% da variação da gravidade da artrose dois anos depois. O dano inicial piora com incongruência, instabilidade e mau alinhamento persistentes.

Quando a artrose aparece depois da fratura

Essa é a pergunta clássica. O Rockwood (cap. 64) conta a experiência de RÜEDI: 84 fraturas do pilão tratadas com redução e fixação, 74% com resultado bom ou excelente e 8% de artrodese; quem desenvolveu artrose teve sintomas cedo (antes de um ano), e os demais tendiam a melhorar com o tempo. Revistos em média nove anos depois, a maioria estava igual e não houve novas artrodeses. A conclusão: a fratura do plafond bem reduzida melhora com o tempo, a artrose pós-traumática do tornozelo se manifesta em 1 a 2 anos após a lesão e um bom resultado com um ano em geral se mantém. Na série de MARSH, os pacientes sentiram melhora até 2,4 anos depois da lesão.

O HEBERT (cap. 69), falando da fratura maleolar, chega a um número parecido: a artrite pós-traumática é comum quando não se consegue reduzir o tálus na pinça e costuma ocorrer por volta de 18 meses; a figura do capítulo mostra uma fratura sem congruência evoluindo para artrose em dois anos. Os dois livros contam a mesma história: a artrose que vem da fratura não espera cinco anos, ela se anuncia nos dois primeiros.

O que o pilão deixa para trás

Na série de MARSH (5 a 12 anos), 91% tinham artrose radiográfica, 87% não corriam e 12,5% tinham sido artrodesados, com correlação apenas fraca entre a imagem e a clínica; a artrose surge mesmo com redução anatômica, porque a lesão condral nasce no impacto. As taxas históricas de artrodese após pilão vão de 5% a 26%, e o paciente com artrose pós-traumática raramente tolera mais de cinco anos antes de pedir cirurgia (Rockwood, cap. 64).

As outras causas

O Box 12.1 do Campbell (cap. 12, p. 561) lista as indicações de artrodese, que são também o catálogo de etiologias: pós-traumática, osteoartrite, artrose por instabilidade crônica do tornozelo, artrite reumatoide ou autoimune, gota, artrite pós-infecciosa, neuroartropatia de Charcot, osteonecrose do tálus, falha de ATT, instabilidade por doença neuromuscular e fratura do pilão com cominuição articular grave e metáfise íntegra.

O capítulo 90 completa: os fatores de risco de osteoartrite são idade, sexo feminino, obesidade, história familiar, lesão e alinhamento articular e carga ocupacional (p. 3965); tornozelo e retropé são acometidos em 30% a 60% dos reumatoides (p. 3964). A osteonecrose do tálus vem em geral de fratura do colo ou do corpo, mas também de corticoide em dose alta e anemia falciforme (cap. 12, p. 580.e1).

Etiologias da artrose do tornozelo e de onde vem o dado (Campbell 15, caps. 12, 55 e 90; Rockwood and Green 10, caps. 2 e 64; HEBERT, cap. 69)
CausaO que os livros dizem
Pós-traumática (pilão, maléolos, tálus)Maioria da artrose terminal (Campbell, cap. 55); aparece em 1 a 2 anos (Rockwood) ou cerca de 18 meses (HEBERT)
Instabilidade ligamentar crônicaLesão condral associada; 17% com osso subcondral exposto na instabilidade lateral prolongada (Rockwood, cap. 2)
Osteoartrite primáriaIdade, sexo feminino, obesidade, história familiar, carga ocupacional (Campbell, cap. 90); melhor taxa de fusão na artrodese
Reumatoide e autoimuneTornozelo e retropé em 30% a 60% dos reumatoides (Campbell, cap. 90)
Gota e pós-infecciosaIndicações de artrodese no Box 12.1
Osteonecrose do tálusFratura do colo ou corpo; corticoide, anemia falciforme (Campbell, cap. 12)
Neuroartropatia de CharcotIndicação de artrodese; neuropatia favorece fusão em vez de prótese
Falha de ATTSalvamento com artrodese tibiotalar ou tibiotalocalcaneana

Quadro clínico, imagem e classificação

Fundamento

A queixa e a marcha

O capítulo 90 descreve a dor da artrose do pé e do tornozelo: piora com a atividade e alivia no repouso; com a doença avançada, menos atividade já dói, e aparecem dor em repouso e noturna; o paciente se queixa ao subir escadas, agachar, ficar na ponta dos pés e girar o corpo, como no golfe (p. 3964).

O capítulo 12 manda olhar a marcha: o "back-kneeing" (hiperextensão do joelho) e o pé mais virado para fora, que reduz a alavanca sobre o tornozelo, são os truques mais comuns; a marcha também revela discrepância de comprimento (p. 561).

O exame que decide a cirurgia

Antes de travar o tornozelo, o exame procura quem vai compensar: quadril, joelho (varo ou valgo do joelho muda o resultado; com os dois deformados, corrige-se o joelho primeiro), a talonavicular e o retropé. Um retropé rígido e irritável continua doendo depois da artrodese, e deformidade significativa do retropé exige procedimento separado (cap. 12, p. 561 e 562; cap. 11, p. 518). Pulsos diminuídos ou diabetes antigo pedem Doppler arterial. Quando tornozelo e retropé doem juntos, infiltrações seletivas com anestésico mostram a articulação culpada, e a melhora se correlaciona com o resultado da artrodese; se nem por um momento a dor melhora, a cirurgia daquela articulação dificilmente ajuda (cap. 12, p. 562; cap. 90, p. 3965).

A imagem

O Campbell (cap. 12) pede AP e perfil com carga em chassi longo, panorâmica dos membros na deformidade grave e a vista de alinhamento do retropé. No AP se medem perda de espaço, deformidade coronal, estoque ósseo e cistos; no perfil, subluxação anteroposterior do tálus e inclinação do plafond. A TC avalia defeitos e articulações vizinhas, e a medicina nuclear ajuda a investigar infecção após fratura exposta (p. 562 e 563). Para a supramaleolar, medem-se com carga o ângulo da superfície tibial (TAS) e a inclinação talar (TT) no AP e o ângulo tibial lateral (TLS) no perfil (p. 559). Na TC, tíbia abaixo de 200 unidades HOUNSFIELD se associou a fratura periprotética da prótese (cap. 11, p. 519).

E a classificação?

O enunciado deste tema fala em TAKAKURA, mas os livros conferidos não trazem a classificação de TAKAKURA para artrose do tornozelo; o nome aparece no Campbell só como coautor numa referência de prótese de tálus. O que os livros oferecem são graduações usadas para decidir: o capítulo 11 cita o grau 4 de KELLGREN-LAWRENCE para dizer que a artrose mais grave teve a maior melhora após a prótese, de modo que a gravidade radiográfica não contraindica a ATT (p. 520), e traz a classificação das deformidades de BONASIA, que separa deformidade tibial de inclinação talar por instabilidade.

Deformidades do tornozelo artrósico (Campbell 15, cap. 11, Tabela 11.2, BONASIA, p. 524)
TipoÂngulosLeitura
Varo tibial, articulação congruenteLDTA alterado, CORA na superfície articular da tíbia, ângulo tibiotalar normalProblema no osso, tálus acompanha o plafond
Valgo tibial, congruenteLDTA aumentado, CORA na superfície articular, tibiotalar normalProblema no osso
Varo tibial, incongruenteLDTA diminuído, CORA articular, tibiotalar acima de 10 grausOsso e ligamento
Valgo tibial, incongruenteLDTA aumentado, CORA articular, tibiotalar acima de 10 grausOsso e ligamento
Incongruente isoladaLDTA normal, tibiotalar acima de 10 grausInclinação talar por instabilidade

O detalhe que organiza a tabela: ângulo tibiotalar acima de 10 graus define articulação incongruente, e LDTA diminuído representa varo. Congruente quer dizer que o tálus está paralelo ao plafond e a deformidade é do osso (osteotomia resolve); incongruente quer dizer que o tálus inclinou dentro da pinça, o que envolve ligamentos e goteiras.

Tratamento conservador

Relevância clínica

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 12), pede que se pense na artrose do tornozelo como um problema de manejo: deve ficar claro ao paciente que voltar ao estado pré-artrósico não é possível, e o tratamento conservador alivia dor com pouco risco enquanto ele decide com calma sobre a cirurgia (p. 557). O quadro Campbell's Concepts resume: AINE, tornozeleira de amarrar e modificação de atividade; infiltrações têm papel terapêutico e diagnóstico; há órteses robustas para quem não é ou não quer ser candidato à cirurgia (p. 558).

Órteses e medicamentos

A órtese que limita o movimento é o pilar. A tornozeleira de amarrar é simples e bem tolerada por idosos; as AFOs vão do polipropileno sólido posterior à de couro tipo gauntlet e à dupla haste travada com alma de aço e sola em mata-borrão. Com deformidade significativa e edema flutuante por comorbidades, se o paciente não pode operar, a melhor é a dupla haste travada no tornozelo; jovens com artrose pós-traumática podem ganhar muito com uma órtese exoesqueleto dinâmica, ao custo de alto investimento (p. 557). Glucosamina, condroitina e outros suplementos têm eficácia questionável; AINE ajuda, com seus riscos.

Infiltrações

A combinação de corticoide com anestésico é comum, mas pode ter efeito deletério na cartilagem viável e nos condrócitos; o livro não recomenda uso rotineiro fora da artrose terminal e reserva o corticoide para diagnóstico e para alívio temporário em mau candidato cirúrgico ou em quem quer adiar a cirurgia. É preciso pensar no intervalo entre a infiltração e a cirurgia, pelo risco de problema de ferida e infecção (p. 557 e 558).

O hialuronato tem estudos conflitantes: múltiplas injeções superam a única, a injeção deve ser guiada por fluoroscopia, doença inicial e dor há menos de um ano predizem bom resultado (HAN), e o uso no tornozelo é fora da bula (p. 558.e1).

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 64), dá a versão do traumatologista para o pós-pilão: modificação de atividade e anti-inflamatório, órtese periódica, evitar narcóticos e desencorajar corticoide repetido, que destrói a cartilagem restante; se uma infiltração de lidocaína tira a dor, viscossuplementação, PRP ou concentrado de medula (BMAC) podem segurar o paciente por um tempo.

Desbridamento: para o osteófito, não para a artrose

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 12), lista as alternativas cirúrgicas à artrodese: desbridamento aberto ou artroscópico, osteotomias de realinhamento, artroplastia de distração, substituição por aloenxerto e ATT. A artrodese não serve para todos, pela perda de movimento e pela possível artrose das articulações adjacentes, e as alternativas precisam ser discutidas antes (p. 558).

O desbridamento tem lugar preciso. Há eficácia demonstrada na retirada dos osteófitos anteriores de impacto da tíbia e do tálus e no paciente com bloqueio mecânico por corpo livre demonstrável. Já na artrose mais avançada, o desbridamento dá só alívio curto e não é recomendado na maioria dos casos. O motivo é mecânico e merece atenção: ao tirar o osteófito, o tornozelo ganha movimento numa articulação de superfícies irregulares, e esse movimento novo pode trazer dor diferente ou maior; além disso, a ressecção agressiva dos osteófitos pode deixar o tálus extruir para anterior (Fig. 12.2). O desbridamento pode ser associado à osteotomia e à distração (p. 558).

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 64), concorda e vai além no pós-pilão: com piora da dor e perda de dorsiflexão, o desbridamento artroscópico pode ser indicado, mas a ressecção aberta dos osteófitos anteriores deve ser evitada, porque o ganho de movimento vem com aumento da dor que fecha as opções não operatórias. Os dois livros chegam ao mesmo lugar por caminhos diferentes: o Campbell aceita a retirada de osteófitos (aberta ou artroscópica) quando o problema é impacto, e o Rockwood, olhando o tornozelo pós-fratura, prefere a artroscopia e desaconselha a via aberta.

Osteotomias periarticulares e supramaleolar

Fundamento

A ideia

O Campbell (cap. 12) define o objetivo das osteotomias da tíbia, da fíbula ou do retropé: descarregar a parte mais artrósica da articulação e devolver ao tornozelo um eixo mecânico mais anatômico, redistribuindo forças e cargas. Elas adiam a artrodese ou a artroplastia em jovens ativos. O melhor candidato tem perda condral principalmente na goteira medial ou lateral, com pouco envolvimento da superfície superior do tálus, sobretudo com deformidade supramaleolar. A escolha depende da deformidade, das partes moles, da superfície articular e do comprimento do membro, e a cunha de abertura da tíbia para varo com artrose medial é particularmente eficaz (p. 559).

A técnica de cunha

A técnica 12.1 começa com artroscopia para desbridar osteófitos, cartilagem solta e fibrose. A fíbula é cortada de forma oblíqua por uma incisão de 2 cm, 3 a 4 cm proximal à superfície articular do maléolo medial, com um parafuso passado antes de completar o corte. Na tíbia, por via medial, o corte guiado por fio segue o planejamento sem seccionar a tíbia por completo, deixando cortical lateral. Na cunha de abertura, o corte é aberto com distrator de HINTERMANN ou espaçador laminar e preenchido com enxerto do ilíaco; na cunha de fechamento, retira-se a cunha planejada mantendo a cortical lateral. Fixa-se com placa medial e, se preciso, placa na fíbula. No pós-operatório, gesso de 4 a 6 semanas, carga progressiva em bota e carga total com 2 meses (p. 559 e 560).

AHN operou 18 pacientes com artrose medial e alargamento da pinça com cunha de abertura distal sem osteotomia da fíbula: a inclinação talar não foi corrigida, mas os resultados foram excelentes em tornozelos com mais de 7 graus de inclinação e bons num caso de 11 graus (p. 559.e1).

Quando o defeito está dentro da articulação: plafondplastia

As cunhas clássicas falham quando o defeito intra-articular medial da tíbia persiste, e o varo volta. BECKER e MYERSON descreveram, e MANN, FILIPPI e MYERSON aplicaram com reconstrução ligamentar lateral em 19 pacientes, a osteotomia de abertura medial intra-articular (plafondplastia): o corte medial mira o ápice da deformidade, três fios de KIRSCHNER subcondrais paralelos ao plafond impedem a serra de entrar na articulação e funcionam como dobradiça, e o plafond medial é "dobrado" até ficar paralelo à tíbia lateral, com enxerto e placa de suporte. Se houver instabilidade lateral, faz-se BROSTRÖM ou CHRISMAN-SNOOK. Dos 19, 15 ficaram satisfeitos e 4 precisaram de artrodese ou prótese entre 7 e 48 meses (p. 560.e1).

Osteotomia junto da prótese

O capítulo 11 usa as mesmas ferramentas para preparar a prótese: para varo acima da articulação, TAN e MYERSON indicam cunha de abertura medial (prótese em segundo tempo) ou osteotomia em cúpula (multiplanar, no mesmo tempo); com tálus inclinado e maléolo curto, preferem a osteotomia de alongamento do maléolo medial às liberações de partes moles (p. 525 e 526).

Distração articular (artrodiastase)

Fundamento

O conceito

A artroplastia de distração usa um fixador de fios finos para afastar as superfícies do tornozelo por um período, permitindo carga. O Campbell (cap. 12) explica o raciocínio: a descarga mecânica da articulação e o fluxo intermitente de líquido sinovial favorecem o reparo da cartilagem. Vários estudos mostram menos dor e melhor função, e a distração com movimento teve resultados mais precoces e mais consistentes que a distração fixa. Os efeitos adversos são infecção do trajeto dos pinos e neurapraxias. O benefício não é imediato: aparece entre 6 meses e 2 anos (p. 560.e1).

Quem é o candidato

O candidato ideal é jovem, motivado, sem alívio com o conservador e que não aceita a artrodese. As contraindicações são infecção ativa, deformidade coronal avançada, perda significativa de estoque ósseo e paciente que não tolera fixador; são relativas diabetes não controlado, tabagismo, edema crônico do membro, deformidade grave e anquilose grave (p. 560.e1). A evidência é limitada: HERRERA-PEREZ, num estudo randomizado, viu função e qualidade de vida semelhantes com desbridamento mais distração articulada e com desbridamento isolado, mas mais reoperações sem a distração; a revisão de SMITH concluiu que ainda não há evidência de alto nível suficiente para as indicações habituais.

Os detalhes que melhoram o resultado

TELLISI listou os pontos-chave: dobradiças no eixo do tornozelo (eixo de INMAN, linha entre as pontas dos maléolos), sem fio no antepé, no máximo 5 a 6 mm de distração aguda, movimento precoce e fixador circular, superior ao monolateral. Na técnica, um fio no tálus impede distrair a subtalar, a meta é cerca de 5 mm e o fixador sai com 12 semanas; BERNSTEIN sugere aspirado de medula e no máximo 3 mm agudos (p. 560.e1 a 560.e3).

Artrodese ou artroplastia: como escolher

Cobrança confirmada · 1 questão

O que cada uma entrega

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 12), resume a troca: a artrodese tem a vantagem do alívio previsível da dor e a desvantagem do movimento limitado; a artroplastia preserva movimento e tem complicações mais frequentes. Nas duas, a infecção fica abaixo de 5% e a revisão abaixo de 10%; a artrodese teve menos complicações e menos reoperações, e a prótese teve maior melhora funcional no seguimento médio a longo (p. 560). GLAZEBROOK encontrou falha da ATT de 1% a 32%, média de 12%, e mesmo assim a prótese foi custo-efetiva aos 60 anos. Quem recebe prótese chega com expectativas maiores e as vê atendidas com mais frequência (p. 560.e6). A marcha fica mais normal com a prótese (mais potência de flexão plantar e mais movimento sagital ao subir escadas), mas a participação em esportes é semelhante, cerca de 76% nos dois grupos; o suposto benefício de proteger as articulações vizinhas ainda não foi demonstrado (p. 561). PINSKER lembra a medida da realidade: só 15% resolveram todos os sintomas e limitações com qualquer das duas (p. 561.e1).

O capítulo 11 mostra a literatura dividida (Tabela 11.1): KRAUSE viu 54% de complicações com a prótese contra 26% com a artrodese; SOOHOO, mais complicações na prótese, mas menos artrose subtalar exigindo fusão. Não há estudo nível I comparando diretamente as duas (p. 520 e 521).

O paciente de cada uma

Os dois capítulos trazem quadros Campbell's Concepts que se completam. O do capítulo 12: ideais para artrodese são o jovem com artrose pós-traumática grave e o idoso com deformidade coronal e/ou sagital significativa; ideal para a prótese é o idoso com mínima deformidade tibiotalar; e pacientes com neuropatia são mais bem servidos com artrodese (p. 561). O do capítulo 11: a prótese serve ao mais velho, de menor demanda, com artrose adjacente ou doença bilateral; a artrodese, ao mais jovem, de maior demanda, com doença unilateral. A artrodese pode não ser a melhor escolha com artrose subtalar ou do retropé prévia, artrose do tornozelo contralateral ou limitação de quadril e joelho que se beneficiaria do movimento no tornozelo (p. 520).

Artrodese contra artroplastia total do tornozelo (Campbell 15, cap. 11, p. 520; cap. 12, p. 560 a 561)
AspectoArtrodeseArtroplastia total
Ganho principalAlívio previsível da dorPreserva movimento, marcha mais normal
Complicações e reoperaçõesMenosMais
Infecção e revisãoMenos de 5% e menos de 10%Menos de 5% e menos de 10%
Paciente ideal (cap. 12)Jovem pós-traumático grave; idoso com deformidade importanteIdoso com mínima deformidade
Paciente ideal (cap. 11)Mais jovem, maior demanda, unilateralMais velho, menor demanda, artrose adjacente, bilateral
NeuropatiaPreferidaDesfavorável
EsporteCerca de 76% ativosCerca de 76% ativos
Articulações adjacentesSobrecarga, artrose subtalarProteção não demonstrada; aumento moderado de artrose

O diabético com neuropatia

A questão do TARO 2025 junta vários fatos. O paciente tem neuropatia diabética, artrose avançada do tornozelo, instabilidade com quedas e falha do conservador. A prótese com reparo ligamentar cai em duas contraindicações do capítulo 11: diabetes não controlado com neuropatia e instabilidade significativa do tornozelo (p. 519); e o capítulo 12 manda o neuropata para a artrodese (p. 561). A distração tem diabetes não controlado e deformidade grave entre as contraindicações relativas e é cirurgia para o jovem motivado (p. 560.e1). Sobra a artrodese, e a dúvida passa a ser qual. O Campbell indica a tibiotalocalcaneana quando o tornozelo e a subtalar precisam ser fundidos (p. 572) e usa a haste intramedular retrógrada no Charcot do tornozelo e do retropé (Fig. 12.23, p. 576; cap. 91, p. 4014); a artrodese tibiotársica com três parafusos canulados é a montagem da miniincisão quando a deformidade coronal é menor que 10 graus e o osso é bom (p. 565). O capítulo 91 acrescenta que HbA1c acima de 7% ou glicemia acima de 200 mg/dL antes da artrodese de tornozelo ou retropé aumentam pseudartrose, infecção e problemas de ferida (p. 3996).

Indicações e contraindicações da artrodese

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell (cap. 12) indica a artrodese para o paciente com dor e movimento limitado do tornozelo, falha do tratamento conservador e um dos diagnósticos do Box 12.1. As contraindicações absolutas são duas: comprometimento vascular do membro e infecção da pele por onde passará a via. As relativas são artrose moderada a grave do retropé ipsilateral e artrose do tornozelo contralateral que provavelmente exigirá cirurgia em breve (p. 561).

O raciocínio é biológico. Uma artrodese precisa de osso vivo e partes moles que cicatrizem; sem sangue, nem uma coisa nem outra acontece, e a cirurgia vira porta para necrose e amputação. A gota, a artrite pós-infecciosa e a osteonecrose do tálus, que parecem ameaçar, estão no Box 12.1 como indicações: a osteonecrose muda a técnica (artroscópica, posterior, tibiotalocalcaneana), e a infecção antiga muda a investigação (medicina nuclear, exames), mas nenhuma impede a fusão. Os pacientes com artrodese bilateral relatam função física normal ou quase normal em alguns estudos, com menor função social (p. 561).

O preparo clínico está no Box 12.3: diabetes com HbA1c abaixo de 7,0, doença vascular periférica identificada e tratada, cardiopatia e pneumopatia compensadas (o pós-operatório de muletas exige mais do coração e do pulmão), tabagismo que atrapalha a consolidação, suspender o anti-TNF até a ferida fechar, repor vitamina D, investigar osteopenia moderada a grave e tratar apneia do sono (p. 562).

Indicações, contraindicações e preparo da artrodese (Campbell 15, cap. 12, Boxes 12.1 e 12.3, p. 561 e 562)
CategoriaItens
Indicações (Box 12.1)Pós-traumática, osteoartrite, instabilidade crônica, reumatoide e autoimune, gota, pós-infecciosa, Charcot, osteonecrose do tálus, falha de ATT, instabilidade neuromuscular, pilão com cominuição articular e metáfise íntegra
Contraindicações absolutasComprometimento vascular do membro; infecção da pele na via planejada
Contraindicações relativasArtrose moderada a grave do retropé ipsilateral; artrose contralateral do tornozelo com cirurgia provável
Preparo (Box 12.3)HbA1c abaixo de 7,0; tratar vasculopatia, cardiopatia e pneumopatia; parar de fumar; suspender anti-TNF; vitamina D; investigar osteopenia; tratar apneia
ExpectativaAlívio da dor, melhora funcional, alguma limitação, salto baixo, mata-borrão para longas caminhadas

A posição da artrodese

Cobrança confirmada · 4 questões

A frase que vale a prova

O Campbell (cap. 12) escreve a posição como regra comum a todas as técnicas: flexoextensão neutra, rotação externa de aproximadamente 5 graus, 5 graus de valgo e leve translação posterior do tálus sob a tíbia (p. 563). Cada componente tem um porquê.

Neutro no sagital, e nunca em extensão. O livro tolera leve flexão plantar, mas não a extensão (dorsiflexão), que leva a pressão excessiva e dor intratável sob o calcanhar: o pé travado para cima faz o calcanhar bater primeiro e sozinho. A flexão plantar exagerada, ao contrário, faz o paciente "subir" sobre o antepé e hiperestender o joelho.

Valgo de 5 graus, nunca varo. O valgo leve deixa a subtalar livre para continuar se movendo e acomodar o terreno; qualquer varo trava a subtalar, sobrecarrega a borda lateral do pé e é mal tolerado.

Rotação externa de 5 graus, nunca interna. É a rotação natural do pé na marcha, comparável à do outro lado; a rotação interna faz o pé tropeçar no apoio.

Translação posterior, nunca anterior. Com o tálus um pouco para trás, o braço de alavanca do antepé encurta e o pé "rola" mais fácil para a frente; varo, rotação interna e translação anterior do tálus levam a uma marcha em "salto com vara" (vaulting) e dor no joelho (p. 563).

As técnicas repetem a regra com pequenas variações: a transfibular pede extensão neutra, leve rotação externa em relação à tuberosidade tibial e neutro a leve valgo conforme o retropé, com o tálus levemente posterior (p. 567); a tibiotalocalcaneana, com a patela apontando para cima, pé neutro, 5 graus de valgo do calcanhar e leve deslocamento posterior do calcâneo (p. 574); a fusão de BLAIR, 0 grau de dorsiflexão, 5 de valgo e 10 de rotação externa (p. 580.e1); o salvamento da prótese falha, sagital neutro e 5 a 7 graus de valgo do retropé (p. 581).

Posição da artrodese do tornozelo e o que evitar (Campbell 15, cap. 12, p. 563, 567, 574, 580.e1 e 581)
PlanoPosição corretaEvitarConsequência do erro
SagitalNeutro (leve flexão plantar tolerada)Extensão (dorsiflexão)Pressão e dor intratável sob o calcanhar
CoronalCerca de 5 graus de valgoQualquer varoSubtalar travada, sobrecarga lateral
RotaçãoCerca de 5 graus de rotação externaRotação internaMarcha em salto com vara, dor no joelho
TranslaçãoLeve posterior do tálusTranslação anteriorAlavanca longa, marcha em salto com vara
TibiotalocalcaneanaNeutro, 5 graus de valgo do calcanhar, calcâneo levemente posteriorHaste mirando posterior na tíbiaEquino

Técnicas de artrodese: artroscópica, aberta e minimamente invasiva

Cobrança confirmada · 1 questão

Princípios comuns

Toda técnica busca osso sadio e vascularizado, com remoção ou preparo do osso subcondral denso, respeitando as partes moles. Incisões antigas estáveis e bem cicatrizadas devem ser reutilizadas; pele ruim deve ser evitada, e conhecer os angiossomas (tibial posterior, tibial anterior e dorsal do pé, fibular, plantares) previne problemas de ferida. CHALAYON, em 215 artrodeses sem complicação, encontrou pseudartrose semelhante qualquer que fosse a via, mas mais pseudartrose depois de subtalar prévia por artrose em varo (p. 563).

A artroscópica

O Campbell (cap. 12) lista as vantagens: mantém a congruência maleolar (menos má consolidação), mais superfície óssea e suporte anatômico para a fusão, permite conversão futura para prótese, em tese menos agressão ao suprimento sanguíneo do tálus e da tíbia e menos dor pós-operatória por menos descolamento. É indicada para deformidade coronal mínima ou pouca perda óssea e para osteonecrose. Os estudos mostram taxas semelhantes de união, reoperação e tempo cirúrgico entre artroscópica e aberta, com escores clínicos melhores e menos complicações na artroscópica (p. 563 e 565).

O capítulo 55 detalha os números. Portais anterolateral e anteromedial com distração não invasiva; curetas e shaver tiram a cartilagem e a fresa abrade o subcondral; parafusos percutâneos de 6,5 ou 7,0 mm, e um terceiro parafuso parece reduzir a pseudartrose e o tempo de união. A fusão é semelhante à aberta, com relatos de fusão mais rápida, menos morbidade e internação menor. ABUHANTASH, com cinco anos, não viu diferença nos desfechos relatados pelo paciente, mas menos infecção na artroscópica. As complicações chegam a 55% (quase todas menores); uma revisão sistemática achou 0% a 23,8% na artroscópica contra 6,7% a 47,1% na aberta. PARK: escores clínicos maiores, menos sangramento, internação mais curta e menos complicações, com união e reoperação semelhantes. Há recomendação grau B para tornozelos com deformidade até 15 graus (QUAYLE já operou acima disso com bons resultados), e cuidado especial em tabagistas e pacientes neuromusculares (p. 2323).

Miniincisão

Com deformidade coronal menor que 10 graus e boa qualidade óssea, a miniincisão dá benefícios semelhantes aos da artroscopia, talvez com tempo menor para quem não domina a artroscopia; MILLER relatou 98% de fusão. São duas incisões de 1,5 cm, uma medial ao tibial anterior e outra lateral ao fibular terceiro, cuidando do nervo cutâneo dorsal intermédio, que se vê invertendo o pé e fletindo o quarto dedo. A goteira lateral não tem consenso e em geral não é preparada formalmente. Usa-se enxerto autólogo e três parafusos canulados de 6,5 a 8,0 mm (dois parcialmente rosqueados para compressão e um totalmente rosqueado para estabilidade), com o parafuso "home run" da tíbia posterolateral ao colo e cabeça do tálus. O paciente fica sem carga no mínimo 6 semanas; o andador de joelho melhorou muito a adesão (p. 565).

Transfibular, poupando a fíbula e anterior

A transfibular (transmaleolar) é a técnica original de MANN, hoje com enxerto em ponte da fíbula, se possível vascularizado: COLMAN e POMEROY tiveram 96% de fusão em 48 pacientes, média de 82 dias; a fíbula é cortada 5 a 7 cm acima do plafond, e o equino residual pede hemissecção tripla do tendão calcâneo (p. 565 a 567).

A lateral poupando a fíbula (SMITH) bloqueia a deriva em valgo e permite conversão para prótese (p. 572.e1). A anterior com parafusos e/ou placa serve a jovens que talvez se convertam em prótese e à prótese falha: ROGERO e RAIKIN tiveram 97,5% de fusão com três parafusos. A via usa o intervalo entre o extensor longo do hálux e o tibial anterior, com o feixe afastado para lateral (p. 570).

Técnicas de artrodese do tornozelo (Campbell 15, cap. 12, p. 563 a 579; cap. 55, p. 2323)
TécnicaIndicação principalDados do livro
ArtroscópicaDeformidade mínima, pouca perda óssea, osteonecrose, partes moles ruinsUnião igual à aberta; melhores escores, menos complicações e sangramento
MiniincisãoDeformidade coronal menor que 10 graus, osso bom98% de fusão (MILLER); 3 parafusos, "home run"
Transfibular (MANN) com enxerto de fíbulaDeformidade, acesso à subtalar96% de fusão em 82 dias (COLMAN e POMEROY)
Lateral poupando a fíbulaConversão futura possívelBloqueia deriva em valgo
Anterior com parafusos ou placaJovem com possível prótese futura; prótese falha97,5% de fusão com 3 parafusos
TibiotalocalcaneanaTornozelo e subtalar a fundir, Charcot, osteonecroseHaste ou placa bloqueada
PosteriorOsteonecrose do tálus, pele lateral ruimPermite alongar o calcâneo
Fixação externaInfecção, úlcera, osso ruimMais complicações nas mãos não habituadas

Tibiotalocalcaneana e as situações especiais

Fundamento

Tibiotalocalcaneana

O Campbell (cap. 12) indica a artrodese tibiotalocalcaneana (TTC) quando o tornozelo e a subtalar precisam ser fundidos, por via transfibular ou posterior (pele lateral ruim). A placa bloqueada é mais rígida que a haste em cadáver, e placa e haste comprimem mais que parafusos; na haste, não se entra pelo sustentáculo (o calcâneo quebra e vai para valgo) nem se mira posterior na tíbia (o pé vai para equino) (p. 572 a 575). No Charcot do tornozelo, o capítulo 91 relata altas taxas de complicação com fixador ou haste retrógrada e usa construções híbridas de haste e placa (p. 4014).

Osteonecrose do tálus

Se não há colapso, a RM ou a cintilografia podem mostrar sangue suficiente para uma tibiotalar isolada; com o tálus estruturado, faz-se TTC posterior com enxerto do ilíaco; com colapso e fragmentação, retira-se o corpo do tálus, preenche-se com enxerto estrutural e fixa-se com placa ou haste. O livro evita a tibiocalcânea, que encurta a perna e dificulta o calçado se os maléolos ficam, mas a aceita como salvamento na infecção. A fusão de BLAIR, com enxerto deslizante da tíbia anterior ao colo do tálus, quase não encurta e mantém algum movimento do pé (p. 580.e1).

Prótese falha e infecção

Sem revisão possível, faz-se tibiotalar com bom estoque e subtalar íntegra, ou TTC com osso ruim, subtalar artrósica ou grande perda óssea; com infecção, espaçador com antibiótico e artrodese depois. As séries mostram fusão alta e função baixa (KAMRAD: 90% de união, menos da metade satisfeita) (p. 581 e 581.e1). Na osteomielite, a fusão é em estágios com fixação externa e seis semanas de antibiótico venoso; numa artrodese simples, o fixador nas mãos de quem não o usa rotineiramente aumenta pseudartrose e infecção (p. 579 e 581).

Enxerto, consolidação e artrose adjacente

Fundamento

Quanto enxerto

DIGIOVANNI mostrou que preencher mais de 50% do espaço da fusão na TC deu 81% de fusão, contra 21% com menos de 50%; com superfícies esponjosas sadias bem apostas, muitas vezes não se precisa de enxerto. Acima de 60 anos a fusão com autoenxerto cai, e o rhPDGF-BB foi tão eficaz quanto o autoenxerto (p. 583 a 585).

A consolidação e a pseudartrose

As taxas variam com técnica, diagnóstico e seleção. O que melhora o resultado: técnica artroscópica ou miniincisão, mais de dois parafusos ou placa adicional (ou ponte de fíbula) e diagnóstico de osteoartrite primária, em vez de inflamatória, pós-infecciosa ou pós-traumática. Com técnica moderna e comorbidades controladas, espera-se fusão acima de 90% na artrodese padrão. THEVENDRAN encontrou evidência razoável (grau B) para a fixação interna e evidência B em evolução de que as minimamente invasivas equivalem às abertas em selecionados (p. 586).

A união se confirma com calo em ponte em mais de uma incidência; edema persistente, dor no foco e dificuldade de carga fazem suspeitar, e às vezes só a TC resolve. Na investigação, o livro pede vitamina D, albumina, pré-albumina, PTH, TSH, cálcio, PCR, VHS e HbA1c. O estimulador eletromagnético consolidou só 5 de 19 retardos (SALTZMAN); a revisão da artrodese funde em 75% a 94% (p. 586).

Fatores de risco de pseudartrose da artrodese (Campbell 15, cap. 12, Tabela 12.1, THEVENDRAN, p. 586)
GrupoFatorGrau de evidência
SistêmicoDiabetesB
SistêmicoTabagismoB
SistêmicoÁlcool, osteoporose, idade, obesidadeI
SistêmicoAINE; má adesão à restrição de cargaC
LocalInfecção; vascularidade e osteonecroseI
LocalLesão de partes moles e cirurgia de revisãoB
CirúrgicoEstabilidade da montagem; falhas interfragmentáriasI
CirurgiãoAlto contra baixo volumeI

Os graus: A forte, B razoável, C conflitante, I insuficiente. Na prova, diabetes e tabagismo são os dois fatores sistêmicos com evidência B.

A artrose adjacente

A artrose das articulações vizinhas, sobretudo da subtalar, é muito descrita, mas se ela precisa de tratamento é discutível: em geral essas articulações ficam pouco sintomáticas. KERKHOFF, em 185 artrodeses com média de sete anos, encontrou 7% de dor subtalar confirmada por infiltração e 2% de artrodese subtalar. Com artrose pantalar antes da fusão, o livro sugere considerar a prótese. Quando a subtalar precisa ser fundida depois, a compressão faz perder altura e deixa o retropé em leve equino; um pequeno enxerto estrutural evita isso, mas aumenta a pseudartrose, que já é maior ao lado de um tornozelo fundido (p. 586). É a mesma história que o Rockwood conta pelo lado do trauma: o resultado da artrodese cai a longo prazo quando a subtalar se desgasta.

Artroplastia total: desenho e indicações

Cobrança confirmada · 1 questão

Das gerações ao implante atual

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 11), conta a evolução: a primeira geração, cimentada e constrita, falhava por soltura, afundamento e osteólise; a segunda, sem cimento, gastava o polietileno; as atuais, semiconstritas, têm base tibial metálica, componente talar e polietileno de ultra-alto peso molecular, com menos ressecção e ligamentos preservados. Há mais de 50 sistemas e nenhuma superioridade clara de um desenho (p. 513 a 515).

O polietileno pode ser fixo à base (duas peças) ou móvel (três peças). O móvel, mais usado na Europa, teria o "perdão" de pequenos erros de alinhamento, mas o desgaste da face posterior do polietileno contra a base preocupa; nos EUA, exceto o STAR, os aprovados são fixos. Os fixos tiveram AOFAS maior e menos radiolucências; os móveis, mais revisões; o livro não recomenda um sobre o outro (p. 515 e 516).

Quem pode receber

As indicações primárias são artrose degenerativa, inflamatória e pós-traumática, com pouca evidência para critérios mais finos. O candidato ideal clássico é mais velho, magro, de baixa demanda, com mínima deformidade e amplitude preservada. As contraindicações comumente citadas são: idade abaixo de 50 anos, má adesão, trabalho braçal pesado, tabagismo pesado, diabetes não controlado com neuropatia, instabilidade significativa do tornozelo, deformidade angular acima de 10 a 15 graus, insuficiência vascular, obesidade (acima de 250 lb), perda óssea significativa, osteonecrose e infecção ativa ou prévia (p. 519).

O livro avisa que várias foram questionadas: em 395 pacientes divididos por idade não houve diferença de dor, função, ferida, reoperação ou revisão; há bons resultados em obesos, em diabéticos controlados e em deformidades acima de 20 graus corrigidas. A instabilidade é diferente: a estabilidade ligamentar é imperativa, sobretudo nos desenhos menos constritos; as reconstruções laterais anatômicas habituais foram insatisfatórias com a prótese, e se recomenda uma reconstrução não anatômica (BROSTRÖM modificado com meio fibular curto levado à tíbia, COETZEE); a reconstrução do deltoide é avançada e complicada, e a artrodese pode ser aconselhável (p. 526 e 527).

Situações especiais

Rigidez não contraindica: os tornozelos mais rígidos tiveram o maior ganho funcional (p. 520 e 536). Varo e valgo de até 20 graus corrigidos ao neutro evoluem como o neutro, e o valgo pesa mais na sobrevida; na pós-traumática, há mais complicações e cistos, e o pilão tem mais risco de afundamento talar (p. 524, 536 e 537).

A osteonecrose com tálus avascular, fragmentado e colapsado não aceita prótese; sem colapso, ele pode revascularizar em 24 a 36 meses. No diabetes, a prótese é favorável com HbA1c abaixo de 7, sem neuropatia e vascular normal; IMC acima de 40 pede cautela. A conversão de artrodese em prótese pede fixação profilática do maléolo medial pelo estresse-blindagem, e o capítulo 11 não faz prótese eletiva em tabagista ativo (p. 518, 527 a 529).

Contraindicações da ATT e o que o livro diz delas (Campbell 15, cap. 11, p. 519 e 526 a 529)
Contraindicação citadaSituação atual no livro
Idade abaixo de 50 anosQuestionada; idade sem efeito em 395 pacientes
Instabilidade significativaMantida; reconstrução lateral não anatômica, deltoide difícil
Deformidade acima de 10 a 15 grausCorrigível; até 20 graus evolui como neutro, até 30 operados
Diabetes com neuropatiaMantida; diabético controlado sem neuropatia vai bem
Obesidade (acima de 250 lb)Cautela com IMC acima de 40
Insuficiência vascular, infecçãoMantidas
Osteonecrose do tálusColapso e fragmentação: artrodese; sem colapso pode revascularizar
TabagismoNão fazem prótese eletiva em tabagista ativo

A via anterior da prótese

Cobrança confirmada · 1 questão

A maioria dos sistemas usa via anterior, com o paciente supino, coxim sob o quadril e garrote na coxa. Na técnica 11.1, a incisão começa cerca de 10 cm acima do tornozelo, lateral ao tibial anterior e sobre o extensor longo do hálux, medial ao ramo cutâneo dorsal medial do fibular superficial (um pequeno ramo medial pode ser seccionado e deixar dormência). O tendão da bainha aberta é afastado para medial, e o feixe neurovascular (artéria e veia tibiais anteriores e nervo fibular profundo) vai para lateral junto com o extensor longo dos dedos (p. 520 e 521). Na técnica de revisão (11.7), o livro descreve o plano entre o tibial anterior e o extensor longo do hálux, com o feixe afastado para lateral junto com o extensor longo do hálux e o tibial anterior para medial (p. 551); a artrodese anterior usa o mesmo intervalo com o feixe lateral (cap. 12, p. 570). Para proteger a pele, EASLEY recomenda deixar o tibial anterior na bainha, incisões mais longas e afastamento profundo (p. 537).

Complicações da artroplastia total

Cobrança confirmada · 1 questão

Como classificar

GLAZEBROOK dividiu as complicações em três graus: alto grau (infecção profunda, soltura asséptica e falha do implante, com falha acima de 50%), médio (erro técnico, fratura pós-operatória e afundamento) e baixo (fratura intraoperatória e problema de ferida, com falha baixa). Numa revisão de 212 próteses, tudo menos a fratura intraoperatória e a ferida teve falha de pelo menos 50% (p. 537 e 537.e1).

A fratura intraoperatória

A complicação intraoperatória mais frequente da ATT é a fratura do maléolo medial ou lateral, em cerca de 10% das séries (até 35%). Ela acontece quando a serra passa dos limites do bloco ou quando a ressecção deixa pouco osso e a força para assentar o componente quebra o maléolo. O maléolo medial deve ser fixado (fios com ou sem banda de tensão, parafusos, placa), porque a estabilidade do implante pode depender dele; o lateral recebe placa; há quem fixe profilaticamente. MANEGOLD encontrou 21 fraturas periprotéticas em 503 próteses (4,2%), 11 intraoperatórias, e 14 das 21 no maléolo medial (p. 541). É o medial, fino e no caminho do corte tibial, que mais quebra; a dor maleolar medial tardia também pode ser fratura de insuficiência, sobretudo com espessura abaixo de 11 mm (p. 544).

As outras complicações

A ferida é das mais temidas (desnutrição, tabagismo, vasculopatia, inflamatória); não se suspendem corticoide oral nem metotrexato, só o anti-TNF. A infecção profunda fica abaixo de 1% em média, e a crônica exige retirar o implante, em geral em dois tempos (p. 537 a 544). A ossificação heterotópica varia de 4% a 82%, é sobretudo posterior e quase sempre sem repercussão (p. 544).

A soltura ou afundamento se diagnostica com migração acima de 5 graus ou 5 mm em radiografias seriadas; radiolucências aparecem em 86%, mas só 14% migram. Cistos pequenos não progressivos vêm do estresse-blindagem; grandes progressivos, da resposta macrofágica às partículas (p. 540). A artrose subtalar ou talonavicular progride em 12% a 19%: a prótese não protege o retropé (p. 544). O impacto de goteira é multifatorial, e a limpeza profilática das goteiras reduziu o impacto sintomático de 7% para 2% (p. 544 e 545). Nos registros, a sobrevida é de cerca de 87% em 5 anos e 81% em 10, e a revisão nos registros é cerca do dobro da publicada pelas séries, metade escrita por desenvolvedores (p. 534).

Complicações da ATT (Campbell 15, cap. 11, p. 534 a 545; Tabela 11.6, LEE)
ComplicaçãoDado principal
Fratura maleolar intraoperatóriaCerca de 10% (até 35%); medial mais comum; fixar
InfecçãoSuperficial média 8%; profunda abaixo de 1%; crônica em dois tempos
FeridaDesnutrição, tabagismo, vasculopatia, inflamatória; manter metotrexato
Soltura e afundamentoMigração acima de 5 graus ou 5 mm
Ossificação heterotópica4% a 82%, posterior; LEE: 0 nenhuma, I ilhas, II e III esporões (menos ou mais de 50% do espaço posterior), IV ponte
Dor maleolar medial8%; insuficiência com espessura abaixo de 11 mm; parafusos percutâneos
Artrose adjacente12% a 19%
Impacto de goteiraLimpeza profilática: 2% contra 7%
Sobrevida em registros94% em 2 anos, 87% em 5, 81% em 10

Fechamento

Fundamento

O tornozelo carrega 5,5 vezes o peso sobre pouca área e cartilagem fina, gasta-se quase sempre depois de uma fratura, e a artrose do pilão se anuncia em 1 a 2 anos. O conservador usa AINE, órtese e infiltração com parcimônia; o desbridamento serve ao osteófito anterior e ao corpo livre; a supramaleolar descarrega a goteira gasta com deformidade acima da articulação; a distração é para o jovem que recusa a fusão.

A artrodese é a solução previsível: contraindicada de forma absoluta por doença vascular e pele infectada, feita em flexoextensão neutra, 5 graus de rotação externa, 5 graus de valgo e leve translação posterior do tálus, sem extensão, varo, rotação interna ou translação anterior. A artroscópica consolida como a aberta e dá melhores escores e menos complicações; a fusão passa de 90%, e diabetes e tabagismo pesam na pseudartrose. A prótese é do idoso com pouca deformidade, contraindicada por instabilidade importante, neuropatia, infecção e tálus colapsado, e sua complicação intraoperatória típica é a fratura do maléolo medial. O neuropata vai para a artrodese.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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