Orto Questões

Exame físico do pé e tornozelo

Pé e tornozeloResumo do capítulo34 min de leitura

Gaveta anterior = fibulotalar anterior; inclinação talar 15° (LTFA), 15 a 30° (LTFA e LFC), mais de 30° (os três); squeeze e rotação externa = sindesmose; THOMPSON e MATLES = Aquiles; muitos dedos e elevação unipodal = tibial posterior; SILFVERSKIÖLD separa gastrocnêmio de sóleo; COLEMAN corrigiu = retropé flexível e deformidade guiada pelo primeiro raio (antepé); MCBRIDE sem alinhar = retração lateral; MULDER é clique, não dor plantar; TINEL no retináculo flexor = túnel do tarso; supinação = inversão, adução e flexão plantar.

Atualizado em 03/11/2026 · 34 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 86 · Surgical Techniques of the Foot and Ankle, com o Capítulo 94 · Sports Injuries of the Ankle, o Capítulo 53 · Traumatic Disorders (Rupture of Achilles Tendon), o Capítulo 88 · Disorders of the Tendons and Fascia and Adolescent and Adult Acquired Flatfoot Deformity e o Capítulo 92 · Neurogenic Disorders, em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026), com o Sizínio HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., e o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed.. Autores do capítulo: Benjamin J. GREAR (cap. 86 e 88); David R. RICHARDSON (cap. 94); David L. BERNHOLT e Frederick M. AZAR (cap. 53); Carson M. RIDER (cap. 92).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Campbell, capítulo 86, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo reúne o exame físico do pé e do tornozelo das provas de título. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., não tem um capítulo só de semiologia do pé: o cabeçalho usa o capítulo 86 (Surgical Techniques of the Foot and Ankle, Benjamin J. GREAR), que abre a parte do pé e dá a anatomia de superfície dos nervos, e cada teste vem do capítulo que o descreve (94, 53, 88 e 92). O Sizínio HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., traz os testes que o Campbell não nomeia (MCBRIDE, JACK, muitos dedos, COLEMAN em detalhe), e o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., a terminologia, a amplitude e a marcha.

A banca cobra quase sempre um epônimo e a estrutura que ele testa; a segunda camada é o mecanismo (por que o pé cai em neutro no MATLES, por que o bloco de COLEMAN corrige o varo), que resolve as alternativas que trocam um detalhe.

Entorse, tendões fibulares, pé plano adquirido, pé cavo e imagem do pé têm resumos próprios na Biblioteca; aqui fica só o exame: como fazer, o que é positivo e onde a prova engana.

O roteiro do exame e a anatomia de superfície

Fundamento

A ordem que evita erro

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4136), abre o diagnóstico da dor no tornozelo com uma frase seca: um exame físico cuidadoso é essencial para evitar o diagnóstico errado, e em seguida lista o que precisa ser palpado. A lista é o roteiro de qualquer exame do tornozelo, não só da entorse, porque cada ponto doloroso aponta uma estrutura diferente e várias delas imitam a lesão do ligamento lateral.

O que palpar no tornozelo doloroso (Campbell 15, cap. 94, p. 4136)
GrupoEstruturasPor que importa
LigamentosFibulotalar anterior, fibulocalcâneo, bifurcado, sindesmose, deltoideO bifurcado não estabiliza o tornozelo, mas é confundido com os laterais
TendõesAquiles, fibulares, tibial posterior, flexor longo do hálux, flexor longo dos dedos, inserção do fibular terceiro na base dorsal do quinto metatarsalTendinopatia e ruptura simulam entorse
OssosMaléolos medial e lateral, base do quinto metatarsal, processo anterior do calcâneo, processo lateral do tálusFraturas que passam como entorse

O ligamento bifurcado (do processo anterior do calcâneo, em Y, para o cuboide e o navicular) não estabiliza o tornozelo, mas a lesão dele é frequentemente tomada por entorse lateral (Campbell, cap. 94, p. 4136). Por isso a palpação vem antes das manobras.

Os cinco nervos do tornozelo

O capítulo 86 do Campbell (p. 3704 a 3707 aprox.) descreve o bloqueio do antepé e do tornozelo, e essa descrição é o melhor mapa de anatomia de superfície do livro: onde o cirurgião injeta é onde o examinador percute. O TINEL de cada nervo é procurado exatamente nesses pontos.

Onde estão os nervos do tornozelo (Campbell 15, cap. 86, p. 3704 a 3707 aprox.)
NervoPonto de referênciaTerritório e observação
Fibular superficial8 a 10 cm proximal à ponta do maléolo lateral, anterior à borda subcutânea da fíbula; já perfurou a fáscia e está subcutâneoDorso; ramos digitais para o 2º e 3º espaços; o ramo dorsomedial do hálux é o nervo encontrado sobre o joanete
Fibular profundoSob o retináculo extensor superior, 4 a 5 cm acima da articulação, entre tibial anterior e extensor longo dos dedos, lateral ao extensor longo do hálux; o nervo fica lateral à artéria tibial anteriorPrimeiro espaço interdigital, junto da artéria dorsal do pé
Safeno3 a 5 cm acima da ponta do maléolo medial, medial ou posterior à veia safenaFace medial
Sural5 cm acima do maléolo lateral, a meio caminho entre o fibular longo e a borda lateral do Aquiles, anterolateral à safena parva; atrás do maléolo os dois se cruzam e o nervo fica posterior à veiaBorda lateral
Tibial5 cm acima do maléolo medial, entre os tendões (flexor longo dos dedos e tibial posterior) e a borda medial do Aquiles; a artéria tibial posterior é a referênciaO mais difícil e o mais importante de bloquear; dá a sensibilidade plantar

No bloqueio popliteal, o ramo fibular responde com eversão e dorsiflexão e o tibial com inversão e flexão plantar (Campbell, cap. 86, p. 3707.e1), a divisão funcional usada no exame de força. E o garrote no tornozelo encurta os tendões longos e aumenta a garra dos dedos (p. 3700 aprox.): a posição do tornozelo muda o que se vê nos dedos.

Inspeção e marcha

Relevância clínica

O ciclo da marcha e os três rockers

O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 5, p. 61 a 63), dá os números básicos: o apoio ocupa 60% do ciclo e o balanço 40%. O tornozelo descreve três "rockers" (balancins) no apoio, e cada um depende de um grupo muscular diferente, o que explica as marchas patológicas.

O tornozelo na marcha (Tachdjian, cap. 5, p. 63 a 66 aprox.)
MomentoO que o tornozelo fazQuem controlaQuando falha
Contato inicialNeutro; o calcanhar toca o soloTibial anteriorSem disparo do tibial anterior, o pé "bate" no chão
Primeiro rockerFlexão plantar de 5 a 10° até o antepé apoiarTibial anterior (excêntrico)Pé que bate
Segundo rocker (apoio médio)Dorsiflexão enquanto a tíbia avança sobre o pé plantígradoGastrossóleo em contração excêntricaGastrossóleo fraco: dorsiflexão excessiva, impulsão pobre, marcha calcânea
Terceiro rockerFlexão plantar e elevação do calcanhar para a impulsãoTríceps suralRuptura do Aquiles: não sobe na ponta
BalançoVolta à dorsiflexão neutra para o pé passarDorsiflexoresParalisia fibular: pé caído e marcha escarvante (steppage), com flexão exagerada de quadril e joelho

O retropé tem a sua própria sequência, descrita pelo Campbell (cap. 88, p. 3814): neutro ou levemente invertido no contato, valgo no apoio médio, inversão no apoio terminal. Essa inversão final trava a articulação mediotársica e transforma o pé numa alavanca rígida para a impulsão. É a peça que falta na insuficiência do tibial posterior: o retropé não inverte, a mediotársica não trava e o arco recebe a carga máxima sem alavanca, o que gera dor. Quem decora a sequência neutro, valgo, varo entende ao mesmo tempo a ponta dos pés, o JACK e a elevação unipodal, porque todos testam a capacidade de levar o calcanhar de valgo para varo.

O que olhar com o paciente em pé e andando

O HEBERT (cap. 21.1) separa a inspeção estática (cavo ou plano, relevo, espessamentos, altura do coxim) da dinâmica (marcha); o cap. 21.2 liga pé plano valgo adquirido ao tibial posterior e pé caído à ruptura do tibial anterior.

O Tachdjian (cap. 4, p. 54 a 55) acrescenta uma rotina simples e muito útil: pedir que o paciente ande nos calcanhares, nas pontas dos pés e pule num pé só. Esses três gestos revelam fraqueza (não anda no calcanhar = dorsiflexores; não anda na ponta = tríceps), tornam evidente um padrão escondido (a marcha com rotação interna que a criança disfarça) e funcionam como teste de estresse quando há dor.

O pé deve ser olhado por trás, porque é a posição em que o valgo e o varo do retropé ficam mais fáceis de ver (Tachdjian, cap. 4, p. 55). Há uma exceção que o HEBERT (cap. 21.4) aponta no pé cavo: nos varos leves, por trás faltam pontos de referência, e a avaliação pela frente tende a ser mais eficiente (teste do peek-a-boo, o calcanhar que "espia" por dentro quando o paciente está de frente).

O sapato também é exame

O HEBERT (cap. 20.4) lembra que o desgaste do calçado conta a história da marcha: a criança com pé plano valgo flexível gasta a porção medial do solado, e a criança com Aquiles curto não gasta a porção posterior, porque começa o passo sem o toque do calcanhar, apoiando o pé inteiro pela dificuldade de dorsifletir. É um dado barato que diferencia um pé plano flexível simples de um pé plano com equino.

Amplitude de movimento: tibiotársica, subtalar e mediotársica

Cobrança confirmada · 1 questão

Três articulações, três tipos de movimento

O Tachdjian (cap. 3, p. 36 a 38) descreve cada nível com precisão. A tibiotársica é uma dobradiça, em posição neutra quando o pé está perpendicular à tíbia: o movimento para cima é dorsiflexão, para baixo, flexão plantar. A subtalar (talocalcânea) é complexa, com deslizamento e rotação, e é testada segurando o calcanhar com o pé em leve dorsiflexão: inclinar o calcanhar para dentro produz inversão, para fora, eversão; quando essas posições ficam fixas, chamam-se varo e valgo. O mediopé (talonavicular, calcaneocuboide, naviculocuneiforme e tarsometatarsais) faz sobretudo abdução e adução, movimentos horizontais em relação à linha média, com um pouco de rotação.

Amplitude e terminologia (Tachdjian, cap. 3, p. 36 a 38; HEBERT, cap. 21.3)
NívelMovimentoValor normal ou observação
TibiotársicaDorsiflexão e flexão plantarCerca de 30° de dorsiflexão e 50° de flexão plantar, com grande variabilidade (Tachdjian)
SubtalarInversão e eversão; fixas = varo e valgoTestada com o calcanhar na mão e o pé levemente dorsifletido
Mediopé (Chopart e tarsometatarsais)Abdução e adução; pouca rotaçãoRotação do primeiro metatarsal para baixo = pronação; para cima e lateral = parte da supinação
Movimento globalSupinação = inversão, adução e flexão plantarPronação = eversão, abdução e dorsiflexão
MetatarsofalangianasDorsiflexão 80°, flexão plantar 30° (HEBERT)Pequena abdução e adução; o hálux é o mais móvel
InterfalangianasDorsiflexão 10°, flexão plantar 45° (HEBERT)Só flexão e extensão (Tachdjian)

Supinação e pronação: a definição que cai

O Tachdjian (cap. 3, p. 38) chama supinação e pronação de termos mais complexos e um tanto confusos, para um movimento global do pé. Para produzir supinação, o examinador segura o mediopé e inclina e roda o pé para dentro, em flexão plantar; a figura 3.39 resume: supinação = inversão, adução e flexão plantar; pronação = eversão, abdução e dorsiflexão. É um movimento triplanar: um componente em cada plano (frontal, transverso e sagital).

O raciocínio que evita o erro é montar a supinação pelos três planos. No plano frontal, a planta vira para dentro (inversão). No transverso, o antepé vai para a linha média (adução). No sagital, o pé desce (flexão plantar). Qualquer alternativa que misture "inversão" com "abdução" ou "eversão" com "adução" está errada por definição, porque os componentes andam sempre juntos: os três "para dentro e para baixo" na supinação, os três "para fora e para cima" na pronação. Na alternativa de prova, "flexão" no pé quer dizer flexão plantar; "extensão" é a dorsiflexão.

O HEBERT (cap. 21.2) usa a palavra no mesmo sentido: o tibial anterior é o principal responsável pela dorsiflexão e pela supinação do pé.

Por que a mediotársica trava

A inversão do retropé no apoio terminal trava a mediotársica (Campbell, cap. 88, p. 3814); um calcanhar preso em valgo nunca vira alavanca rígida. Na criança, o Tachdjian (cap. 4, p. 55) manda balançar a subtalar em inversão e eversão com os pés pendentes: rigidez ou espasmo dos fibulares sugere coalizão tarsal ou artrite inflamatória. No adulto com coalizão unilateral, o Campbell (cap. 88, p. 3840 aprox.) encontra diferença definida de mobilidade subtalar entre os dois pés, com dor no seio do tarso.

O tornozelo depende do joelho: SILFVERSKIÖLD

O Tachdjian (cap. 3, p. 36) dá o princípio: com o joelho estendido, o gastrocnêmio pode limitar a dorsiflexão; fletir o joelho elimina o gastrocnêmio, porque ele cruza as duas articulações e o sóleo não. É a base do teste de SILFVERSKIÖLD, descrito no HEBERT (cap. 20.4) com o paciente em decúbito dorsal: mede-se a dorsiflexão com o joelho estendido; se está limitada, há encurtamento do tríceps. Flexiona-se o joelho: se a dorsiflexão melhora, o sóleo não está encurtado (o problema é o gastrocnêmio); se a limitação persiste, o sóleo também está contraído.

O Campbell (cap. 88, p. 3814 a 3815) usa o teste na disfunção do tibial posterior: a contratura do gastrocnêmio ou do gastrossóleo acompanha a doença desde cedo, porque o valgo do retropé encurta o braço de momento do Aquiles, e a contratura, ao impedir dorsiflexão e inversão, piora o valgo. A figura 88.4 é objetiva: redução significativa da dorsiflexão com o joelho estendido pode indicar recessão do gastrocnêmio. O HEBERT diz o mesmo pelo lado da criança: o teste escolhe a técnica de alongamento (alongar só o gastrocnêmio ou o tendão calcâneo inteiro).

SILFVERSKIÖLD lido nos três livros (Tachdjian, cap. 3, p. 36; HEBERT, cap. 20.4; Campbell 15, cap. 88, p. 3814 a 3815)
AchadoInterpretaçãoConsequência
Dorsiflexão limitada com joelho estendido, melhora com joelho fletidoGastrocnêmio isolado curto; sóleo normalRecessão do gastrocnêmio
Dorsiflexão limitada com joelho estendido e fletidoGastrocnêmio e sóleo (tendão calcâneo) curtosAlongamento do tendão calcâneo
Dorsiflexão obtida com joelho estendidoNa paralisia cerebral, deformidade dinâmica ou funcional (HEBERT)Se o pé fica em flexão plantar, deformidade estática ou fixa

Entorse lateral: gaveta anterior e inclinação talar

Cobrança confirmada · 2 questões

A anatomia que dá sentido aos testes

O Campbell (cap. 94, p. 4135 a 4136) descreve os três ligamentos laterais com uma hierarquia que a prova adora. O fibulotalar anterior é o mais fraco e o mais lesado; vai da borda anterior do maléolo lateral ao colo do tálus, mistura-se com a cápsula anterolateral e resiste à translação anterior do tálus com o tornozelo em posição relativamente neutra. O fibulocalcâneo é mais grosso e mais forte, sai da ponta do maléolo, passa profundo aos tendões fibulares e é o único ligamento lateral extracapsular. O fibulotalar posterior é o mais forte dos três.

A epidemiologia explica a frequência: 85% das lesões do tornozelo são entorses, e 85% delas por inversão lateral; até 40% dos pacientes ficam com dor ou instabilidade persistente (Campbell, cap. 94, p. 4135 aprox.). A inversão rompe primeiro o fibulotalar anterior e, com mais energia, o fibulocalcâneo; a eversão e a abdução podem romper o deltoide, mas isso é menos comum.

A gaveta anterior

A gaveta anterior indica ruptura do fibulotalar anterior (Campbell, cap. 94, p. 4138). A técnica que o livro recomenda é precisa: a ponta do polegar na ponta do maléolo lateral e a base do polegar no processo lateral do tálus; o tornozelo em neutro ou leve flexão plantar, e o pé livre para rodar internamente. Com estresse suave, avalia-se quanto o tálus anterioriza em relação à tíbia. Pode aparecer o sinal do sulco (ou sinal de sucção), uma depressão anterolateral quando o LTFA está roto (Fig. 94.7D).

Dois detalhes do Campbell mudam a forma de pensar o teste. Primeiro, uma carga de baixa magnitude basta para avaliar o LTFA na lesão aguda. Segundo, mais importante que os milímetros é a impressão clínica de que o tálus está subluxando para fora da pinça.

Por que a gaveta e não outro teste na entorse grave por inversão? Porque é o único teste que isola o ligamento que sempre rompe primeiro. O estresse em eversão olha o deltoide; o de rotação externa, a sindesmose; o THOMPSON, o Aquiles. Num jogador com entorse grave do complexo lateral, a pergunta "qual teste mais ajuda" tem uma resposta anatômica: o que testa o LTFA.

A inclinação talar (estresse em inversão)

Se os ligamentos laterais estão completamente rotos, o tálus inclina com o estresse em inversão; o estresse é melhor aplicado com o tornozelo em flexão plantar, embora não haja um ponto final absoluto que separe positivo de negativo (Campbell, cap. 94, p. 4138). No serviço do Campbell, estressam-se os dois tornozelos, e mais de 10° de inclinação acima do lado normal indica lesão ligamentar lateral significativa. A gradação é uma tabela clássica.

Inclinação talar no estresse em inversão (Campbell 15, cap. 94, p. 4138 e 4151 aprox.)
InclinaçãoInterpretação
Mais de 10° acima do lado normalLesão ligamentar lateral significativa (critério do serviço)
15°Pode indicar ruptura isolada do fibulotalar anterior
15 a 30°Fibulotalar anterior e fibulocalcâneo
Mais de 30°Os três ligamentos laterais (fibulotalar anterior, fibulotalar posterior e fibulocalcâneo)
8 a 10° a mais que o lado normal, na queixa crônicaInstabilidade mecânica; se não houver, procurar outra causa (fratura de estresse, por exemplo)

O Campbell é claro que as radiografias de estresse não precisam ser rotineiras, porque a maioria das lesões instáveis é tratada funcionalmente com bons resultados; entorses de repetição com dor contínua são a indicação, inclusive para ver se um os subfibulare (ossículo abaixo da fíbula) se move, já que ele pode ser avulsão e não variante normal (cap. 94, p. 4138). O HEBERT (cap. 69) vai na mesma direção: radiografias com gaveta e estresse em varo estão sendo cada vez menos utilizadas na fase aguda, porque doem e expõem a radiação desnecessária.

Quando examinar e como melhorar o exame

O Campbell (cap. 94, p. 4137 aprox.) diz que o exame físico é 100% acurado nas lesões de alto grau e só 25% nas de baixo grau (comparado à RM) e fica mais preciso 5 dias depois da lesão do que nas primeiras 48 horas; o HEBERT (cap. 69) prefere um segundo exame por volta do 10º dia. O Campbell ainda sugere anestésico na bainha dos fibulares e na goteira lateral antes das manobras e usa a atrofia da panturrilha como sinal objetivo de proteção do membro.

Uma última regra: os testes de estresse precisam mostrar diferença clara entre o lado lesado e o normal antes de serem considerados diagnósticos (Campbell, cap. 94, p. 4138). E quando a radiografia de estresse é negativa apesar de uma lesão clinicamente séria, ou o paciente relata instabilidade funcional crônica, deve-se suspeitar de entorse subtalar associada (p. 4139 aprox.). O restante (classificação, tratamento funcional e cirurgia da instabilidade crônica) está no resumo de entorse e instabilidade lateral do tornozelo.

O lado medial

No estresse em eversão, o tálus desvia lateralmente quando o deltoide está roto junto com a sindesmose ou com fratura do maléolo lateral (Campbell, cap. 94, p. 4138). Dor, edema e equimose no maléolo medial são maus preditores de instabilidade; o estresse radiográfico em rotação externa diagnostica a incompetência do deltoide nas fraturas por supinação-eversão (LAUGE-HANSEN). E a lesão medial deve ser diferenciada da ruptura isolada do tibial posterior (p. 4143 aprox.).

Sindesmose: squeeze, rotação externa e PILLINGS

Cobrança confirmada · 2 questões

Anatomia: quatro ligamentos e um que não conta

O Campbell (cap. 94, p. 4136) descreve a sindesmose tibiofibular distal mantida por quatro ligamentos: o tibiofibular anterior inferior (um feixe distal dele, o ligamento de BASSETT, pode causar impacto anterolateral no tálus), o tibiofibular posterior inferior, o componente mais forte, o transverso inferior, profundo e inferior ao posterior, que forma um lábio e aprofunda a articulação, e o interósseo, contínuo com a membrana. A frase de prova vem entre parênteses no livro: a membrana interóssea não faz parte da sindesmose distal. Com a dorsiflexão do tornozelo, a sindesmose deixa a fíbula transladar, rodar e migrar proximalmente; a fíbula recebe cerca de 16% da carga axial.

Por que os testes funcionam

Os dois testes clínicos do Campbell chegam à sindesmose por caminhos diferentes. A rotação externa (Fig. 94.16): joelho a 90°, tornozelo neutro, rotação externa do pé; positivo é dor sobre os ligamentos tibiofibulares anterior ou posterior e sobre a membrana interóssea. O squeeze (Fig. 94.15) separa a tíbia da fíbula distal por alavanca: comprimir a fíbula contra a tíbia acima do meio da panturrilha; positivo é dor distal nos ligamentos interósseos ou estruturas de suporte, longe de onde a mão aperta.

O Campbell faz um alerta técnico: o squeeze só deve ser feito depois que outras lesões da perna forem excluídas por exame e radiografia, porque apertar a panturrilha separa a fíbula e a tíbia distais (cap. 94, p. 4143 a 4144). A lógica é a mesma do HEBERT (cap. 69), que manda pedir radiografia da perna quando há dor à palpação proximal e mecanismo torsional, para não perder a fratura proximal da fíbula com lesão da membrana (MAISONNEUVE).

Testes da sindesmose (Campbell 15, cap. 94, p. 4143 a 4145)
TesteComoPositivoCuidado
Rotação externa (rotação lateral do tálus)Joelho a 90°, tornozelo neutro, rotação externa do péDor sobre os tibiofibulares anterior ou posterior e a membrana interósseaReproduz o mecanismo da lesão
Squeeze (compressão da perna)Comprimir a fíbula contra a tíbia acima do meio da panturrilhaDor distal na sindesmoseExcluir antes fratura da perna
Estresse em eversãoEversão forçadaDesvio lateral do tálusDesvio franco pede deltoide roto junto (ou fratura do maléolo lateral)

Números que a prova pode usar

As lesões da sindesmose respondem por cerca de 1% de todas as lesões do tornozelo e até 25% das entorses, provavelmente subnotificadas porque a diástase é rara na lesão isolada; sexo masculino e nível competitivo alto são fatores de risco (Campbell, cap. 94, p. 4143). São classificadas em grau 1 estável, grau 2 parcialmente instável e grau 3 instável, e o tratamento segue o grau. São lesões mais graves e com recuperação mais longa que a entorse lateral de alto grau.

E o PILLINGS?

Duas questões do acervo chamam a compressão lateral da perna de teste de PILLINGS e a ligam à sindesmose. Esse nome não aparece no Campbell, no HEBERT nem no Tachdjian. O que o Campbell descreve, com o mesmo gesto (comprimir a fíbula contra a tíbia) e a mesma estrutura (sindesmose), é o squeeze test. Para a prova, o raciocínio é anatômico: compressão laterolateral da perna, longe do tornozelo, com dor distal só pode estar testando a ligação entre tíbia e fíbula, e não o deltoide, o fibulocalcâneo ou o fibulotalar anterior, que ficam abaixo dos maléolos e não são tensionados por uma compressão na panturrilha.

Tendão calcâneo: THOMPSON, MATLES e O'BRIEN

Cobrança confirmada · 2 questões

Quem rompe e onde

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53, p. 2252 a 2253), coloca o Aquiles como o terceiro tendão que mais rompe, com pico entre 30 e 40 anos e risco contralateral quase 200 vezes maior. A ruptura se relaciona com uma área hipovascular de 2 a 6 cm acima da inserção.

A tríade clínica

O Campbell diz que o diagnóstico é feito de forma confiável por três achados: falha palpável no tendão, incapacidade de ficar na ponta do pé do lado afetado e THOMPSON positivo (cap. 53, p. 2253). O HEBERT (cap. 21.2) junta o THOMPSON a outras manobras ativas que examinam cada tendão: ponta do pé para o calcâneo, inversão contra resistência para o tibial posterior, eversão para os fibulares, dorsiflexão para o tibial anterior.

THOMPSON: o tríceps que não move o pé

O THOMPSON é feito com o paciente em decúbito ventral, apertando a panturrilha logo distal ao seu maior perímetro; o normal é a flexão plantar do tornozelo. O teste é positivo para ruptura completa quando não há flexão plantar (Campbell, cap. 53, p. 2253; HEBERT, cap. 21.2: "a expressão da panturrilha não produz flexão plantar"). O mecanismo é mecânico: apertar o ventre muscular encurta o conjunto músculo-tendão, e esse encurtamento só chega ao calcâneo se o tendão estiver contínuo. A AAOS chama o mesmo gesto de teste de THOMPSON clínico ou squeeze test de SIMMONDS (Campbell, cap. 53, p. 2254), o que explica a confusão de nomes: o "squeeze" do Aquiles é apertar a panturrilha; o "squeeze" da sindesmose é comprimir a fíbula contra a tíbia.

MATLES: a gravidade e o tônus

O teste de MATLES dispensa o aperto e usa o tônus de repouso. O paciente fica em decúbito ventral com as pernas para fora da maca e flexiona ativamente os joelhos até 90°. Essa flexão encurta o gastrocnêmio e, com o tendão contínuo, o pé fica em flexão plantar. Se o pé cai em neutro ou em leve dorsiflexão, o Aquiles provavelmente está roto (Campbell, cap. 53, p. 2253, Fig. 53.14).

O detalhe que diferencia o MATLES do THOMPSON na figura é exatamente esse: no THOMPSON o examinador aperta a panturrilha; no MATLES ninguém toca, o paciente está com os joelhos fletidos a 90° e o examinador olha a posição do pé. Em questão com imagem, joelhos dobrados e pés no ar sem as mãos do examinador na panturrilha é MATLES.

O'BRIEN: a agulha

No teste da agulha de O'BRIEN, uma agulha 25 G é colocada percutaneamente na linha média do tendão proximal; quando o pé é mobilizado passivamente, o movimento da agulha indica continuidade (Campbell, cap. 53, p. 2253). É um teste invasivo, citado como alternativa histórica.

Testes do tendão calcâneo (Campbell 15, cap. 53, p. 2253 a 2254; HEBERT, cap. 21.2)
TestePosição e gestoNormalRuptura
THOMPSON (SIMMONDS)Prono; apertar a panturrilha logo distal ao maior perímetroFlexão plantarSem flexão plantar
MATLESProno, pernas fora da maca, flexão ativa dos joelhos a 90°Pé em flexão plantarPé cai em neutro ou leve dorsiflexão
O'BRIENAgulha 25 G na linha média do tendão proximal; mobilização passivaA agulha se moveA agulha não acompanha
Ponta do péElevação unipodalSobeNão consegue do lado afetado
PalpaçãoAo longo do tendãoContínuoFalha palpável (defeito, perda de contorno)

O critério da AAOS

A recomendação de consenso da AAOS, reproduzida pelo Campbell (cap. 53, Box 53.6, p. 2254), pede dois ou mais dos seguintes para estabelecer o diagnóstico da ruptura aguda: THOMPSON clínico (squeeze de SIMMONDS), força de flexão plantar diminuída, falha palpável (defeito, perda de contorno) e dorsiflexão passiva aumentada com manipulação suave. Para escolher tratamento não operatório pelo ultrassom, o Campbell cita gap menor que 5 mm em flexão plantar máxima, menor que 10 mm em neutro e mais de 75% de aposição com o pé a 20° de flexão plantar.

Tibial posterior: ponta dos pés e muitos dedos

Cobrança confirmada · 1 questão

O que o tendão faz e como palpá-lo

O tibial posterior insere-se no tubérculo medial do navicular por um feixe principal e continua por um segundo feixe para a planta, onde se abre em leque para os três cuneiformes, o cuboide e as bases do segundo ao quinto metatarsais (Campbell, cap. 88, Fig. 88.3, p. 3814). Pode ser palpado no maléolo medial colocando o pé em equinovaro e pedindo ao paciente para mantê-lo ali (p. 3813 aprox.). A figura 88.1 mostra uma pegadinha clínica: quando o examinador coloca o pé em flexão plantar e inversão e pede para segurar, o paciente com tibial posterior insuficiente usa inconscientemente o tibial anterior para manter a posição.

A elevação unipodal do calcanhar

O Campbell (cap. 88, p. 3813 aprox.) explica o teste pelo mecanismo: levar o calcanhar para varo ao subir na ponta, apoiado só no pé afetado, é praticamente impossível sem um tibial posterior funcionante. Por isso, além de olhar a postura em carga, o examinador pede a elevação unipodal do calcanhar. O detalhe que separa o bom examinador: alguns pacientes com deformidade flexível conseguem subir depois de "jogar" o retropé e o mediopé numa posição em varo travado e compensar com o gastrossóleo; a observação cuidadosa mostra o pé "pulando" para essa posição enquanto o paciente busca apoio momentâneo no examinador ou na maca. Subir gradualmente, só no pé afetado, invertendo o calcanhar e sem apoio externo, não é possível quando o tendão é incompetente. No trajeto do tendão pode haver edema depressível.

Muitos dedos: a abdução do antepé vista por trás

O HEBERT (cap. 20.4) define o sinal: quando se olha por trás o tornozelo e o pé de um indivíduo normal, aparece lateralmente apenas um dedo; quando há abdução exagerada do antepé, surgem mais dedos lateralmente. É o sinal dos "muitos dedos" (too many toes), e o que ele mede é a abdução do antepé em relação ao retropé. O Campbell (cap. 88, Fig. 88.2) descreve a mesma deformidade na insuficiência do tibial posterior: calcanhar em valgo, antepé pronado e abdução marcada do mediopé, com convexidade da borda medial e concavidade da lateral. O livro lembra que esse componente importa porque nem a transferência tendínea nem a artrodese subtalar em neutro corrigem a abdução.

Exame da insuficiência do tibial posterior (Campbell 15, cap. 88, p. 3813 a 3815; HEBERT, cap. 20.4 e 21.3)
AchadoComo se vêO que significa
Muitos dedosPor trás, mais de um dedo aparece lateralmenteAbdução do antepé e do mediopé
Elevação unipodalNão sobe ou "joga" o retropé em varo travadoTendão incompetente para inverter o calcanhar
Calcanhar que não variza na pontaRetropé fica em valgoTendão insuficiente ou subtalar rígida
Edema depressível no trajetoAtrás do maléolo medialTenossinovite, processo ativo
Supinação do antepé (antepé varo)Antepé em supinação em relação ao calcâneoDeformidade compensatória da valgização
SILFVERSKIÖLD alteradoDorsiflexão limitada com joelho estendidoContratura do gastrocnêmio que agrava o valgo
Hálux valgo progressivoValgo do hálux aumentandoSinal de descompensação do tibial posterior (HEBERT, cap. 21.3)

Na marcha, o paciente não inverte o pé no apoio terminal e a mediotársica não trava (Campbell, cap. 88, p. 3814). O HEBERT (cap. 21.3) lembra que o valgo progressivo do hálux pode ser sinal de descompensação do tibial posterior, por isso a palpação da inserção no navicular é obrigatória.

O pé plano da criança: JACK, ponta dos pés e coalizão

Relevância clínica

O arco que ainda não existe

O HEBERT (cap. 20.4) lembra que o arco longitudinal medial não está presente ao nascimento e se desenvolve lentamente, por volta dos 5 anos (alguns autores falam em 7 a 10). O Tachdjian (cap. 4, p. 54 a 55) usa a idade para organizar o diagnóstico: no lactente, deformidade posicional, coxim adiposo medial que esconde o arco, pé calcaneovalgo ou, menos provável e mais grave, talo vertical; na criança pequena, quase sempre pé plano flexível; no adolescente, Aquiles curto com colapso secundário do mediopé ou pé plano fibular espástico por coalizão tarsal.

Com carga e sem carga

O exame específico do pé plano deve ser feito em pé e sentado (HEBERT, cap. 20.4): no pé plano hipermóvel, sentado, o arco é normal; em pé, colapsa. O Tachdjian (cap. 4, p. 55) define o pé plano flexível típico: criança entre 18 meses e 6 anos, sem dor, com amplitude livre e arco que se reconstitui na ponta dos pés ou sem carga. É frequente a hiperfrouxidão ligamentar generalizada associada (HEBERT).

Ponta dos pés: o subtalar que gira

O teste da ponta dos pés, segundo o HEBERT (cap. 20.4), avalia a integridade do tendão calcâneo e do tibial posterior e a capacidade neuromuscular de subir na ponta, e fornece dados sobre a mobilidade da subtalar. Ao subir na ponta (apoio nas cabeças dos metatarsais), o arco se eleva e o retropé passa de valgo para varo, mostrando subtalar livre. Se a subtalar está bloqueada, não ocorre a varização normal do retropé. O Tachdjian (cap. 4, p. 55) diz o mesmo: se o retropé permanece em valgo, pode haver coalizão.

JACK: a extensão do hálux

O teste de JACK, no HEBERT (cap. 20.4), é a hiperextensão passiva da metatarsofalangiana do hálux com o paciente em pé. Ele avalia a liberdade da subtalar, a integridade do flexor longo do hálux e a sincronização reflexa entre a musculatura intrínseca e extrínseca. É positivo quando, ao estender o hálux, aparecem ao mesmo tempo varização do retropé, surgimento ou acentuação do arco longitudinal e rotação externa da perna. No pé plano flexível o JACK é positivo (o arco aparece); no rígido, não.

Na talalgia, o HEBERT (cap. 21.1) usa a extensão dos dedos para a fáscia: a dorsiflexão passiva forçada dos dedos exacerba a dor no trajeto da fáscia plantar.

Testes do pé plano na criança (HEBERT, cap. 20.4; Tachdjian, cap. 4, p. 54 a 55)
TesteComoNormal ou flexívelAlterado
Com e sem cargaSentado e em péArco presente sentado, colapsa em pé (hipermóvel)Plano também sem carga = rígido
Ponta dos pésSubir nas cabeças dos metatarsaisArco eleva; retropé de valgo para varoRetropé fica em valgo: subtalar bloqueada (coalizão)
JACKEm pé, extensão passiva da MTF do háluxVaro do retropé, arco aparece, rotação externa da pernaSem resposta: subtalar rígida
Inversão e eversão passivasSentado, pés pendentes, balançar a subtalarLivre e indolorRigidez ou espasmo fibular: coalizão ou artrite inflamatória
SILFVERSKIÖLDDorsiflexão com joelho estendido e fletidoDorsiflexão adequadaAquiles curto, gastrocnêmio isolado ou com sóleo
Muitos dedosOlhar por trásUm dedo lateralMais dedos: abdução do antepé

Coalizão e talo vertical

A coalizão tarsal é a causa mais frequente associada ao pé plano fibular espástico (HEBERT, cap. 20.4). O Tachdjian (cap. 4, p. 55) dá o retrato: idade de 8 anos à adolescência, arco achatado fixo, valgo fixo do retropé, dor inespecífica ou ao exercício, espasmo dos fibulares na inversão passiva rápida e marcha com o pé em rotação externa e inflexível, "como se usasse uma bota gessada". O talo vertical congênito, no outro extremo, é rígido: antepé pronado, abduzido e dorsifletido nas mediotársicas, retropé fixo em equinovalgo, a "deformidade em mata-borrão"; cerca de metade dos casos se associa a síndromes ou doenças neurológicas (HEBERT, cap. 20.4), e o Tachdjian acrescenta o navicular palpável luxado dorsolateralmente sobre o tálus.

O HEBERT descreve ainda o pé em serpentina (skewfoot): adução intensa do antepé, translação lateral do mediopé e valgo do retropé.

Pé cavo: o bloco de COLEMAN

Cobrança confirmada · 2 questões

O tripé

O HEBERT (cap. 21.4) dá a melhor explicação do teste. COLEMAN e CHESNUT o idealizaram partindo do fato de que, no cavo, existe flexão plantar fixa do primeiro metatarsal. O pé é um tripé: cabeça do primeiro metatarsal, cabeça do quinto e calcâneo. Se o primeiro raio está mais baixo que os outros, ao apoiar o pé o tripé inclina, e o calcâneo é empurrado para varo. A pergunta do teste é: o varo do calcanhar é consequência do primeiro raio caído (e o retropé é flexível) ou é fixo no próprio retropé?

O Campbell (cap. 92, p. 4040 aprox.) mostra o mesmo mecanismo pela doença neurológica mais comum, a CHARCOT-MARIE-TOOTH: tibial anterior fraco e fibular longo preservado fazem o primeiro metatarsal descer; para acomodar a pronação do antepé, o retropé assume varo; o fibular curto fraco contra um tibial posterior quase normal piora a inversão. E resume a utilidade: os testes do bloco de COLEMAN diferenciam deformidades flexíveis guiadas pelo antepé de deformidades mais rígidas guiadas pelo retropé.

Como fazer e como ler

O paciente fica de costas para o examinador, que registra o varo do calcanhar. Depois sobe num bloco de madeira (ou num livro) de 2,5 cm, com o hálux e a cabeça do primeiro metatarsal pendentes fora da borda medial do bloco (HEBERT, cap. 21.4; Campbell, cap. 92, Fig. 92.29, p. 4043 aprox.). O bloco elimina o toque do primeiro raio no chão, isto é, desfaz o efeito do tripé.

Interpretação do bloco de COLEMAN (HEBERT, cap. 21.4; Campbell 15, cap. 92, p. 4040 a 4043 aprox.)
ResultadoLeituraOnde corrigir
O varo corrige para neutro ou leve valgoSubtalar flexível; o primeiro raio em flexão plantar (queda do primeiro raio) empurra o calcanharAntepé: corrigir a pronação causada pela queda do primeiro raio
O varo persiste ou corrige só em parteRetropé rígido; deformidade também no retropéAntepé e retropé
COLEMAN potencializadoPaciente roda externamente o pé contralateral em 90°; o membro ipsilateral roda internamente até o tálus, forçando ainda mais o primeiro raioAumenta a sensibilidade do teste

A frase do HEBERT que responde a questão de prova: se houver melhora do varismo, a subtalar é flexível e o primeiro raio fletido plantarmente está empurrando o calcanhar em varo; se o fator responsável pelo varismo está no antepé, a cirurgia é direcionada à correção da pronação do antepé causada pela queda do primeiro raio; se o varo persiste ou corrige parcialmente, a correção engloba antepé e retropé. A legenda da figura reforça: a falha na correção espontânea para valgo indica correção cirúrgica do retropé, além dos procedimentos no antepé.

Por isso o HEBERT chama o teste de avaliação da flexibilidade do retropé e de o mais importante para o planejamento cirúrgico do cavo: o primeiro raio está, por definição, em flexão plantar fixa; o que se decide é se o retropé precisa de cirurgia. O Campbell (cap. 92, p. 4042 aprox.) usa o bloco também para a radiografia AP em carga com o retropé corrigido, e o HEBERT lembra o exame da coluna (disrafismo) e que piora rápida do cavo na mielomeningocele pode indicar medula presa.

Antepé: MCBRIDE, primeiro raio e dedos menores

Cobrança confirmada · 2 questões

A amplitude que serve de base

O HEBERT (cap. 21.3) quantifica o antepé: as metatarsofalangianas dorsifletem 80° e fletem 30°; as interfalangianas dorsifletem 10° e fletem 45°. Diminuição da mobilidade com dor sugere artrose. E pede, sempre, que se avalie se as deformidades do hálux e dos dedos laterais são redutíveis (flexíveis) ou estruturadas (rígidas), porque essa resposta muda a cirurgia. A palpação procura dor na proeminência medial da MTF do hálux, dorsal nas interfalangianas dos dedos menores e plantar sob as cabeças (metatarsalgia).

MCBRIDE: o hálux que volta ou não volta

O teste de MCBRIDE é a prova da redutibilidade do valgismo do hálux (HEBERT, cap. 21.3). Avalia o grau de retração das estruturas articulares laterais. Com o paciente em apoio bipodálico, o examinador aplica uma força varizante no hálux para reduzir a deformidade. Sem contratura, o dedo se alinha com o metatarsal; quando não se alinha, há retração das estruturas laterais. O procedimento de MCBRIDE modificado inclui justamente a liberação capsuloligamentar lateral (HEBERT, cap. 21.3).

A hipermobilidade do primeiro raio

O mesmo capítulo descreve o teste da hipermobilidade da articulação entre o cuneiforme medial e o primeiro metatarsal, com o tornozelo em posição neutra (90° com a perna), porque outras posições alteram a mobilidade da tarsometatarsal. Na abordagem anterior, o examinador fixa a cabeça do segundo metatarsal entre polegar e indicador e desloca a cabeça do primeiro no plano sagital (dorsal e plantar), medindo em milímetros; na medial, estabiliza os quatro raios laterais e mobiliza o primeiro. Alguns autores aceitam até 30°.

Dedos menores e o KELIKIAN-DUCROQUET

O Campbell (cap. 89, p. 3910 aprox.) define que a deformidade em flexão da interfalangiana proximal dos dedos menores pode ser fixa (não corrigível passivamente para neutro) ou flexível (passivamente corrigível), e que nas deformidades longas a MTF se deforma em sentido oposto (extensão). É essa distinção, flexível ou fixa, que o teste de KELIKIAN-DUCROQUET procura: as questões o descrevem como a avaliação da flexibilidade da garra dos dedos com carga simulada no antepé. O raciocínio do teste: empurrar as cabeças dos metatarsais de baixo para cima simula o apoio; se a garra se desfaz, a deformidade é flexível e dependente da posição da MTF; se não se desfaz, está estruturada.

Testes do antepé (HEBERT, cap. 21.3; Campbell 15, cap. 89, p. 3910 aprox.)
TesteComoPositivo ou alteradoSignificado
MCBRIDEApoio bipodálico, força varizante no háluxO hálux não se alinha com o metatarsalRetração das estruturas laterais
Hipermobilidade do primeiro raioTornozelo neutro; fixa o 2º MT e move o 1º no plano sagitalInstabilidade vertical (mm)Instabilidade da primeira tarsometatarsal
KELIKIAN-DUCROQUET (nome das questões)Carga simulada sob o antepéA garra não se corrigeGarra fixa; corrigindo, garra flexível
Redutibilidade passiva dos dedosCorrigir a IFP para neutroNão corrigeDeformidade fixa (Campbell)
LACHMAN da MTFTranslação da falange sobre a cabeçaInstabilidade dolorosaInstabilidade da MTF, diferencial do neuroma (Campbell, cap. 92)

Nervos: TINEL do túnel do tarso, os túneis do dorso e o clique de MULDER

Cobrança confirmada · 1 questão

TINEL: a percussão que aponta o nervo

O HEBERT (cap. 21.1) define: a percussão sobre um nervo que provoca dor irradiada é patognomônica de patologia neurogênica (sinal de TINEL); no pé, os sítios de pesquisa são o trajeto do nervo tibial e dos seus ramos dentro dos túneis osteofibrosos e nas suas emergências. A pesquisa da sensibilidade tátil, térmica e dolorosa estadia o comprometimento e aponta o ramo afetado.

O túnel do tarso

O nervo tibial, antes de chegar ao pé, divide-se em calcâneo medial, plantar lateral e plantar medial (Campbell, cap. 92, p. 4026). O exame do Campbell (p. 4026) é cheio de detalhes de prova: anormalidades sensitivas difíceis de detectar, pele seca e escamosa apenas no território do plantar lateral ou do medial, atrofia do abdutor do hálux ou do abdutor do mínimo, que fica óbvia comparando com o lado assintomático. E a localização: dor pontual no "ponto mole" medial do calcanhar, na borda inferior do abdutor do hálux, sugere compressão distal dos ramos; TINEL sobre o retináculo flexor sugere compressão proximal.

O Campbell descreve dois testes provocativos. A tripla compressão: tornozelo em flexão plantar, pé invertido (o que aumenta a pressão no compartimento do túnel) e compressão digital sobre o nervo tibial; descrita com 86% de sensibilidade e 100% de especificidade. O teste de dorsiflexão-eversão: eversão e dorsiflexão máximas do tornozelo com todas as metatarsofalangianas em dorsiflexão máxima, mantidas por 5 a 10 segundos, com pressão sobre o tibial atrás do maléolo medial; positivo se houver dor (Fig. 92.4). Os dois testes fazem o contrário um do outro em termos de posição: um comprime o túnel (flexão plantar e inversão mais pressão), o outro estira o nervo (dorsiflexão, eversão e dedos estendidos).

Exame das neuropatias compressivas do pé (Campbell 15, cap. 92, p. 4026 a 4033 aprox.; HEBERT, cap. 21.1)
QuadroAchados de exameTestes
Túnel do tarso proximalTINEL sobre o retináculo flexor; pele seca no território plantar; atrofia dos abdutoresTripla compressão (flexão plantar, inversão, compressão); dorsiflexão-eversão
Compressão distal dos ramosDor no ponto mole medial do calcanhar, borda inferior do abdutor do háluxPalpação
Fibular profundo (túnel anterior)Dor no dorso e no 1º espaço; sensibilidade diminuída no 1º espaço; TINEL sob o retináculo extensor inferior; raramente atrofia do extensor curtoTINEL
Fibular superficialDor ou parestesia no dorso do terço distal da perna e do pé, piora com atividadeTINEL com defeito fascial
Neuroma interdigitalDor no espaço, mais no 3º; clique reproduzindo a dorMULDER; diferenciar com LACHMAN da MTF

O HEBERT (cap. 21.1) dá os critérios de suspeita da síndrome do túnel do tarso: dor neuropática (choque, queimor, ardor, dormência), sinal de TINEL e ENMG indicativa de compressão nesse nível; lembra a raiz L5-S1 como diferencial e que o bilateral sugere doença sistêmica. O Campbell (p. 4027 aprox.) é mais cauteloso com a eletrofisiologia (ver Divergências); a RM identifica a causa em até 88%.

O neuroma interdigital e o clique de MULDER

O Campbell (cap. 92, p. 4033 aprox.) descreve o neuroma interdigital (de MORTON) como compressão do nervo interdigital junto à borda distal do ligamento metatarsal transverso, mais comum no terceiro espaço, seguido do segundo; predomina em mulheres (8:1) e é em geral unilateral. A dor, em queimação, dor surda ou cãibra, localiza-se em torno da cabeça do terceiro metatarsal, piora andando e melhora com repouso, ao tirar o sapato ou massagear o antepé. Dormência subjetiva dos dedos do espaço é comum; perda objetiva da sensibilidade é menos.

O exame tem duas partes. A primeira é localizar a dor: LACHMAN da metatarsofalangiana, palpação dorsal e palpação sob a cabeça versus no espaço. Se a dor está mais no espaço e não sob a base da falange proximal ou na face dorsolateral da segunda MTF, o neuroma é provável. A segunda é o clique de MULDER: o examinador coloca o polegar sob o espaço com pressão dorsal e, com a outra mão, faz uma compressão suave do antepé de medial para lateral; repetindo e relaxando, reproduz o clique palpável e audível doloroso do neuroma (Fig. 92.15). O Campbell faz a ressalva que vale questão: o clique muitas vezes está presente sem dor no pé assintomático, quando as cabeças são comprimidas; por isso o clique isolado não é diagnóstico. O que conta é o clique que reproduz a dor do paciente.

A questão de prova sobre o MULDER troca justamente o mecanismo. "Dor à palpação plantar no terceiro espaço" é um achado do neuroma, mas não é o sinal de MULDER; o MULDER é o clique com compressão laterolateral do antepé. Há também um diferencial embutido: dor plantar sob a cabeça (e não no espaço) aponta mais para a metatarsofalângica (instabilidade, metatarsalgia) do que para o nervo.

Quadro geral: epônimo e estrutura

Fundamento

Testes nomeados do pé e tornozelo (Campbell 15, cap. 53, 88, 89, 92 e 94; HEBERT, cap. 20.4, 21.1, 21.2, 21.3 e 21.4; Tachdjian, cap. 3 e 4)
TesteEstrutura ou condiçãoPositivo
Gaveta anteriorFibulotalar anteriorTálus subluxa para anterior; sinal do sulco
Inclinação talar (inversão)Fibulotalar anterior e fibulocalcâneo (e posterior se > 30°)Mais de 10° acima do lado normal
Rotação externaSindesmoseDor nos tibiofibulares e membrana
Squeeze da perna (PILLINGS nas questões)SindesmoseDor distal ao comprimir a fíbula contra a tíbia na panturrilha
THOMPSON (SIMMONDS)AquilesApertar a panturrilha não flete o pé
MATLESAquilesJoelhos a 90° em prono, pé cai em neutro ou dorsiflexão
Elevação unipodalTibial posteriorNão sobe ou não variza o calcanhar
Muitos dedosAbdução do antepé (tibial posterior, pé plano)Mais de um dedo lateral visto por trás
JACKSubtalar, flexor longo do hálux, sincronia intrínseca-extrínsecaPositivo (normal no flexível): arco aparece, retropé variza, perna roda externamente
SILFVERSKIÖLDGastrocnêmio contra sóleoMelhora com joelho fletido = gastrocnêmio
COLEMANFlexibilidade do retropé no cavoCorrige = retropé flexível, guiado pelo primeiro raio
MCBRIDEEstruturas laterais da MTF do háluxNão alinha = retração lateral
KELIKIAN-DUCROQUET (nome das questões)Flexibilidade da garra dos dedosGarra que não corrige com carga simulada
TINEL no retináculo flexorNervo tibial no túnel do tarso (proximal)Dor irradiada à percussão
MULDERNeuroma interdigitalClique palpável e audível que reproduz a dor

Divergências entre os livros

Fundamento

Os três livros concordam no essencial, mas há diferenças que valem leitura atenta, porque a banca às vezes tira a questão de um só deles.

Onde os livros diferem ou se completam (Campbell 15; HEBERT; Tachdjian)
PontoCampbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.HEBERT, 5ª ed.Tachdjian, 6ª ed.
Quando repetir o exame da entorse5 dias depois da lesão é mais preciso que nas primeiras 48 h (cap. 94)Segundo exame por volta do 10º dia (cap. 69)Não trata
Eletrofisiologia no túnel do tarsoCondução recomendada, EMG sem dados; pode ser normal e não contraindica cirurgia (cap. 92)ENMG é critério de suspeita e distingue de radiculopatia (cap. 21.1)Não trata
COLEMANDistingue flexível guiado pelo antepé de rígido guiado pelo retropé (cap. 92)Avalia a flexibilidade do retropé; descreve o bloco de 2,5 cm e a versão potencializada (cap. 21.4)Não lido neste resumo

Duas diferenças merecem comentário. Para o segundo exame da entorse, o Campbell fala em 5 dias e o HEBERT em cerca de 10, com a mesma ideia: dor e edema escondem a instabilidade nos primeiros dias. A segunda é o papel da eletroneuromiografia no túnel do tarso: o HEBERT a coloca como um dos três critérios de suspeita, ao lado da dor e do TINEL; o Campbell recomenda o estudo de condução, mas lembra que ele pode ser normal no paciente com a síndrome e que um exame negativo não impede a cirurgia. Para a prova, os dois cabem juntos: a ENMG ajuda, sobretudo para afastar neuropatia sistêmica e radiculopatia, mas não exclui o diagnóstico quando normal.

Fechamento

Fundamento

O exame segue uma ordem: olhar em pé e andando, palpar ponto por ponto, medir as três articulações e só então aplicar os testes nomeados. Quase todos reproduzem o mecanismo da lesão (rotação externa para a sindesmose, inversão para os laterais) ou usam uma alavanca anatômica (o tríceps no THOMPSON e no MATLES, o tripé no COLEMAN).

As provas (TARO, TEOT, TEPOP, ENARE, SBOT-SP) cobram a associação direta entre teste e estrutura, às vezes com figura, e às vezes com epônimos pouco descritos nos livros (PILLINGS, KELIKIAN-DUCROQUET), que se resolvem pela anatomia do gesto.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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