Orto Questões

Biomecânica e marcha do pé e tornozelo

Pé e tornozeloResumo do capítulo34 min de leitura

Apoio 60% e balanço 40%, com duplo apoio nos 10% iniciais e finais; três rolamentos do tornozelo com fulcro no calcâneo (flexão plantar de cerca de 7°, tibial anterior excêntrico), no tornozelo (dorsiflexão até cerca de 10° em 40% do ciclo, sóleo excêntrico) e nas cabeças metatarsais (gastrocnêmio concêntrico, o maior propulsor); a marcha usa 10 a 12° de dorsiflexão e 20° de flexão plantar; eixo de INMAN pelas pontas dos maléolos, tálus em tronco de cone, estável em dorsiflexão; tornozelo carrega 5,5 vezes o peso; 1 mm de desvio lateral do tálus tira 42% da área de contato; BASSETT impacta na dorsiflexão; instabilidade subtalar no BRODEN em inversão; retropé neutro no contato, valgo no médio apoio e varo no apoio terminal, travando CHOPART para a impulsão; tibial posterior intertrava o mediopé; fáscia plantar e molinete de HICKS.

Atualizado em 04/11/2026 · 34 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 1 · Marcha normal e patológica, com os Capítulos 20.4 · Pé plano, 21.1 · Talalgias, 21.2 · Lesões tendíneas e 69 · Fraturas e lesões do tornozelo no adulto do mesmo livro e os Capítulos 11 · Total Ankle Arthroplasty, 12 · Ankle Arthrodesis, 88 · Disorders of the Tendons and Fascia e 94 · Sports Injuries of the Ankle do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., em Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), 5ª edição (2017), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 3, 11, 12, 17, 31, 55, 88, 89, 90, 93 e 94), o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (caps. 65 e 68) e o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (caps. 5 e 19). Autores do capítulo: Francesco Camara BLUMETTI, Marcelo Hideki FUJINO, Mauro César de MORAIS FILHO e Daniella Lins NEVES (HEBERT, cap. 1); Rogério Carneiro BITAR e José Vicente PANSINI (HEBERT, cap. 69); Antônio Egydio de CARVALHO JR., Marta IMAMURA e Décio Cerqueira de MORAES FILHO (HEBERT, caps. 21.1 e 21.2); Paulo Daw Wen SU, Chang Chia PO e Akel N. A. JUNIOR (HEBERT, cap. 20.4); G. Andrew MURPHY (Campbell, cap. 11); Clayton C. BETTIN (Campbell, cap. 12); Benjamin J. GREAR (Campbell, cap. 88); David R. RICHARDSON (Campbell, caps. 17 e 94).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), capítulo 1, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

Ler no leitor do Orto QuestõesCriar conta grátis

No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

Biomecânica do pé é tema de números curtos (60 e 40, 10 graus, 20 graus, 5 vezes o peso, 1 mm e 42%), mas quase todos têm lógica: onde passa a força de reação do solo, que músculo precisa frear ou empurrar contra ela, e como a forma dos ossos (o tálus em tronco de cone, as facetas da subtalar, as colunas do pé) decide quando o pé é mole e quando é rígido.

O texto principal é o capítulo 1 (Marcha normal e patológica) da Ortopedia e Traumatologia de SIZÍNIO HEBERT, 5ª ed., que descreve cada evento do ciclo com a força de reação e o tipo de contração. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., dá os números do tornozelo e a sequência do retropé; o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed., a geometria do tálus, as colunas e o tibial posterior no mediopé; o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed., a versão resumida dos rolamentos.

Este resumo não repete a marcha da criança. Os parâmetros de distância e tempo (passo, passada, cadência), os seis determinantes de SAUNDERS, o centro de gravidade, a maturação da marcha, o laboratório e as marchas patológicas (antálgica, TRENDELENBURG, DUCHENNE, paralisia cerebral, marchas rotacionais) estão no resumo de marcha na criança do Tachdjian (tachdjian6-marcha). Aqui o foco é o tornozelo e o pé: o que cada articulação faz, por que faz e o que a banca cobra disso.

O ciclo da marcha em números

Fundamento

Apoio, balanço e os dois duplos apoios

O HEBERT (cap. 1) define o ciclo de marcha a partir do toque do calcâneo e o divide em duas fases. A fase de apoio, em que o membro está em contato com o solo, corresponde a cerca de 60% do ciclo. A fase de balanço, sem contato, corresponde a cerca de 40%. Dentro do apoio há dois tipos de período: o duplo apoio, em que os dois membros tocam o solo, ocorre nos 10% iniciais e nos 10% finais da fase de apoio; nos 40% centrais, o apoio é simples.

A conta fecha assim: 10 de duplo apoio, 40 de apoio simples, 10 de duplo apoio, 40 de balanço. E o apoio simples de um lado coincide exatamente com o balanço do outro; por isso o balanço também dura 40%.

O capítulo acrescenta uma regra de raciocínio que cai em alternativas do tipo verdadeiro ou falso: quanto mais instável e lenta a deambulação, maior a fase de apoio e menor a de balanço; com o aumento da velocidade, aumenta o balanço. O idoso inseguro, o paciente com dor e o amputado passam mais tempo com os dois pés no chão; o corredor, ao contrário, elimina o duplo apoio.

Os oito eventos

O HEBERT descreve o ciclo em eventos, cada um com uma tarefa. O Tachdjian (cap. 5, p. 61) usa os mesmos nomes de forma resumida: o apoio começa no contato do pé com o solo (heel strike ou contato inicial), segue com a resposta à carga, em que o pé desce ao solo e o peso é aceito, depois o médio apoio, em que a tíbia avança sobre o pé plantígrado, e termina com a elevação do calcanhar no apoio terminal. O balanço tem três períodos: inicial, médio e terminal.

Os eventos do ciclo e a tarefa de cada um (HEBERT, cap. 1; Tachdjian, cap. 5, p. 61)
EventoTipo de apoioTarefa principalO que define o fim
Contato inicialInício do duplo apoioTocar com o calcâneo e iniciar o primeiro rolamentoO pé começa a receber carga
Resposta à cargaDuplo apoio (10% iniciais)Amortecer o impacto e receber o peso: primeiro rolamento e primeira onda de flexão do joelhoO pé fica plantígrado e o outro pé sai do chão
Médio apoioApoio simplesAvançar o corpo sobre o pé parado (segundo rolamento) com estabilidadeComeço do apoio terminal
Apoio terminalApoio simplesExtensão máxima de joelho e quadril; pico de dorsiflexão; o calcanhar sobeContato inicial do outro pé
Pré-balançoDuplo apoio (10% finais)Propulsão: terceiro rolamento e início da segunda onda de flexão do joelhoDesprendimento do pé
Balanço inicialSem apoioLiberar o pé; flexão máxima do joelho (cerca de 60°)O membro em balanço passa pelo contralateral
Balanço médioSem apoioPerna como pêndulo; quadril em flexão máxima (cerca de 35°)A tíbia fica vertical
Balanço terminalSem apoioPreparar o contato: joelho estendido, tornozelo a 90°Novo contato inicial

Por que a marcha normal economiza energia

O HEBERT lista os pré-requisitos da marcha normal: contato inicial com o retropé, estabilidade no apoio, liberação do pé no balanço, comprimento adequado de passo e conservação de energia. Esta depende de reduzir a oscilação do centro de massa (anterior a S2) pelos determinantes de INMAN (1981): elevação e rotação interna da pelve no início do apoio, primeira onda de flexão do joelho, leve valgo do joelho e adução do quadril na resposta à carga e os mecanismos de rolamento do tornozelo. E depende de preferir a estabilização passiva (cápsula, ligamentos, forma da articulação), que não gasta energia, à ativa, muscular.

Força de reação, momento e tipo de contração

Fundamento

Momento interno e momento externo

Para entender quem trabalha em cada fase, o HEBERT (cap. 1) define momento como toda força que atua através de um fulcro: M = F x D, em que D é a distância entre o ponto de aplicação da força e o centro da articulação. Os momentos externos vêm da força de reação do solo, da inércia e da gravidade; os momentos internos vêm dos músculos, da cápsula e dos ligamentos. O movimento observado é o resultado do predomínio de um sobre o outro.

A regra prática, que resolve quase todas as questões de músculo na marcha, é esta: descubra de que lado da articulação passa a força de reação do solo. Se ela passa atrás do tornozelo, tende a fletir o pé para baixo (momento externo flexor plantar), e quem precisa trabalhar é um dorsiflexor. Se passa à frente do tornozelo, tende a dorsifletir (momento externo dorsiflexor), e quem trabalha é um flexor plantar. O músculo convocado é sempre o antagonista do momento externo.

Concêntrica, excêntrica e isométrica

Os três tipos de contração na marcha (HEBERT, cap. 1; Tachdjian, cap. 5, p. 65 e 66)
TipoComprimento do músculoEnergiaFunçãoExemplo no membro inferior
ConcêntricaEncurta: origem e inserção se aproximamGera (acelera)Produz o movimento esperado pela anatomiaGastrocnêmio fletindo o tornozelo no pré-balanço; tibial anterior dorsifletindo no balanço
ExcêntricaAlonga: origem e inserção se afastamAbsorve (desacelera)Freia um movimento no sentido oposto ao da ação anatômicaTibial anterior no primeiro rolamento; sóleo no segundo rolamento; quadríceps na primeira onda de flexão do joelho
IsométricaNão mudaNem gera nem absorveEstabiliza um segmentoGlúteo médio no apoio simples, segurando a pelve no plano coronal

O HEBERT escolhe exatamente o sóleo para explicar a contração excêntrica: durante a fase de apoio, o tornozelo dorsiflete progressivamente, e o sóleo, que é flexor plantar, contrai-se de forma excêntrica durante um movimento de dorsiflexão para controlá-lo e evitar que seja excessivo. A frase que resume: na excêntrica, o músculo trabalha enquanto o movimento vai para o lado contrário ao que ele faria. A isométrica é o tipo menos observado na marcha.

Os três rolamentos do tornozelo

Cobrança confirmada · 2 questões

A ideia: três fulcros em sequência

O HEBERT (cap. 1) baseia a cinemática sagital do tornozelo nos três mecanismos de rolamento (rockers): o corpo rola primeiro sobre o calcanhar, depois sobre o tornozelo e por fim sobre as cabeças dos metatarsos. Cada troca de fulcro deixa o corpo avançar sem subir e descer bruscamente, e cada uma depende de um músculo diferente.

Os três rolamentos (HEBERT, cap. 1; Tachdjian, cap. 5, p. 63 e 66)
RolamentoFulcroEventoMovimento do tornozeloMúsculo e contraçãoSe falhar
PrimeiroCalcâneoContato inicial e resposta à cargaDo neutro à flexão plantar de cerca de 7° (HEBERT) ou 5 a 10° (Tachdjian)Tibial anterior excêntricoO pé "bate" no chão (slap)
SegundoArticulação do tornozeloMédio apoio e primeira metade do apoio terminalDorsiflexão contínua até cerca de 10°, em cerca de 40% do cicloSóleo (gastrocsóleo) excêntricoDorsiflexão excessiva, deformidade em calcâneo, impulsão pobre (marcha calcânea)
TerceiroCabeças dos metatarsosSegunda metade do apoio terminal e pré-balançoFlexão plantar até cerca de 15° no desprendimentoGastrocnêmio concêntrico, com sóleo e flexor longo dos dedosSem impulsão; não sobe na ponta

Primeiro rolamento: o calcanhar e o tibial anterior

O ciclo começa com o toque do calcâneo e o tornozelo em posição neutra (cerca de 90°). Nesse instante a força de reação do solo fica posterior ao centro articular do tornozelo e gera um momento externo flexor plantar: o pé tende a "cair" para a frente até apoiar a planta. Essa queda é desejável, porque acomoda o pé ao solo, mas precisa ser freada. Quem freia é o tibial anterior em contração excêntrica; na cinética, aparece um momento interno dorsiflexor durante o primeiro rolamento (HEBERT, cap. 1).

Há uma nuance. O HEBERT descreve que, até o toque, o tibial anterior (com os extensores longos dos dedos e do hálux) mantém o tornozelo a 90° por contração concêntrica, para que o contato seja com o retropé; assim que a força de reação aparece atrás do tornozelo, a contração vira excêntrica. O Tachdjian (cap. 5, p. 66) simplifica: o tibial anterior contrai excentricamente no contato inicial, disparando apesar da flexão plantar, para abaixar o pé suavemente; se não dispara, o pé bate no chão. Os dois concordam no que a prova cobra: no início do apoio, o tibial anterior freia.

Segundo rolamento: a tíbia avança e o sóleo segura

Quando o pé fica plantígrado, quem se move é a tíbia, que avança sobre o pé parado. No fim da resposta à carga a força de reação do solo passa para diante do tornozelo e cria um momento externo dorsiflexor; o tornozelo dorsiflete progressivamente durante todo o médio apoio e a primeira metade do apoio terminal, até um pico de cerca de 10° em aproximadamente 40% do ciclo (HEBERT, cap. 1). Esse avanço precisa ser modulado. Quem modula é o sóleo, em contração excêntrica (momento interno flexor plantar), "para que a dorsiflexão do tornozelo não seja excessiva e não cause deformidade em calcâneo". É esse aumento progressivo e controlado da dorsiflexão que o HEBERT chama de segundo mecanismo de rolamento.

O sóleo é monoarticular e prende a tíbia ao calcâneo. Ao segurá-la, faz a força de reação passar à frente do joelho, que se estende passivamente, sem o quadríceps (as estruturas posteriores evitam o recurvato). No apoio terminal o sóleo segue excêntrico até o alongamento máximo. O Tachdjian (cap. 5, p. 66) concorda: o gastrocsóleo é excêntrico durante todo o segundo rocker; fraco, gera dorsiflexão excessiva, impulsão pobre e marcha calcânea.

No apoio terminal o sóleo continua em contração excêntrica e atinge o ponto máximo de alongamento (HEBERT, cap. 1). O Tachdjian (cap. 5, p. 66) diz o mesmo com outras palavras: o gastrocsóleo contrai excentricamente durante todo o segundo rocker, controlando a velocidade da dorsiflexão enquanto a tíbia avança; sem essa força, a dorsiflexão é excessiva, a impulsão é pobre e surge a marcha calcânea.

Terceiro rolamento: as cabeças metatarsais e o gastrocnêmio

O terceiro rolamento tem fulcro nas cabeças dos metatarsos, começa com a elevação do calcanhar na segunda metade do apoio terminal e se completa no pré-balanço. No apoio terminal a força de reação está no ponto mais distante do centro do tornozelo e produz o pico de momento externo dorsiflexor; o tríceps sural, no estiramento máximo, responde com contração concêntrica e tira o calcanhar do chão. No pré-balanço, a ação combinada do sóleo, do gastrocnêmio e do flexor longo dos dedos acelera a flexão plantar contra o momento externo, até cerca de 15° no desprendimento (HEBERT, cap. 1).

Para o HEBERT, o gastrocnêmio é o mais importante propulsor da marcha normal, seguido pelos flexores e extensores do quadril; por cruzar o joelho, ele também inicia a segunda onda de flexão do joelho (cerca de 40° no fim do apoio, 60° no balanço inicial). O Tachdjian (cap. 5, p. 65) é mais cauteloso: gastrocsóleo e iliopsoas são os dois principais aceleradores, com controvérsia sobre qual contribui mais.

O balanço: o tibial anterior volta a trabalhar

No balanço não há força de reação, e a pequena massa do pé quase não gera momento (HEBERT, cap. 1). O tornozelo atinge o pico de flexão plantar, cerca de 20°, no balanço inicial; só na segunda metade do balanço inicial começa a dorsiflexão que o leva ao neutro (0 a 5°) para o contato. Quem faz isso é o tibial anterior em concêntrica, contra a gravidade; o gastrocnêmio cessa ao desprender o pé. Na paralisia fibular falta essa dorsiflexão, e o paciente hiperflete quadril e joelho: marcha escarvante (steppage) (Tachdjian, cap. 5, p. 63).

O Tachdjian (cap. 5, p. 63 e 66) lembra que no balanço a principal contração concêntrica é a do tibial anterior, e que a paralisia do fibular (pé caído) obriga o paciente a hiperfletir quadril e joelho para não arrastar os dedos: a marcha escarvante, ou steppage.

O tornozelo e o pé em graus ao longo do ciclo (HEBERT, cap. 1; Tachdjian, cap. 5, p. 63 e 64)
MomentoTornozelo no plano sagitalPé no plano transverso (ângulo de progressão)
Contato inicialNeutro (90°)Rotação externa de cerca de 10°
Resposta à cargaFlexão plantar até cerca de 7°Rotação externa de cerca de 10°
Médio apoio e primeira metade do apoio terminalDorsiflexão progressiva até cerca de 10°, em cerca de 40% do cicloRotação externa de cerca de 10° até o fim do médio apoio
Segunda metade do apoio terminal e pré-balançoFlexão plantar até cerca de 15° no desprendimentoLeve inversão; a rotação externa cai até 3°
Balanço inicialPico de flexão plantar de cerca de 20°Nova rotação externa de cerca de 15°, com eversão, para liberar o pé
Fim do balançoNeutro (0 a 5° de dorsiflexão)Prepara o contato
Valor globalÂngulo de progressão normal de 10 a 15° externo (Tachdjian, p. 64)

Quem trabalha em cada fase: o quadro inteiro

Músculos ativos em cada evento, com o tipo de contração (HEBERT, cap. 1)
EventoTornozelo e péJoelhoQuadril
Contato inicialTibial anterior concêntrico mantendo 90°Quadríceps concêntricoExtensores concêntricos (quadril a 30 a 35° de flexão)
Resposta à cargaTibial anterior excêntrico (primeiro rolamento)Quadríceps (vastos) excêntrico, limitando a flexão a 20°, depois concêntricoGlúteo máximo e isquiotibiais concêntricos
Médio apoioSóleo excêntrico (segundo rolamento)Extensão passiva; isquiotibiais, cápsula e ligamentos evitam recurvatoAbdutores isométricos (pelve no plano coronal)
Apoio terminalSóleo excêntrico até o alongamento máximoExtensão máxima (0 a 5°) mantida pela força de reação, cápsula posterior e cruzado posteriorEstabilização capsuloligamentar anterior após cerca de 40% do ciclo
Pré-balançoGastrocnêmio concêntrico (terceiro rolamento), com sóleo e flexor longo dos dedosInício da segunda onda de flexãoFlexores concêntricos (reto anterior proximal)
Balanço inicialTibial anterior concêntrico; gastrocnêmio cessaReto anterior distal excêntrico modula a flexãoIliopsoas, adutor longo, grácil e sartório aceleram a flexão
Balanço médioTibial anterior concêntrico (tornozelo a 90°)Extensão por inércia (pêndulo)Flexão máxima
Balanço terminalTibial anterior concêntricoIsquiotibiais excêntricos controlam a extensão; quadríceps concêntrico no fimIsquiotibiais excêntricos desaceleram a flexão e garantem o passo

O Tachdjian (cap. 5, p. 66) acrescenta duas observações gerais: há mais atividade muscular no apoio do que no balanço, porque no apoio os músculos da perna e do pé precisam estabilizar o pé plantígrado, e no balanço o membro é levado pela inércia gerada pelo gastrocsóleo e pelos flexores do quadril no apoio terminal. O HEBERT lembra que, na eletromiografia, a intensidade do sinal não guarda relação com a força muscular: o exame diz quando o músculo está ativo, não quanto ele é forte.

Os músculos intrínsecos do pé também têm um horário. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 89, p. 3893 aprox.), relata estudo eletromiográfico em que não houve atividade dos intrínsecos nos primeiros 35% do ciclo, nem em ortostase quieta; os interósseos, por passarem plantar ao eixo da metatarsofalangiana, são flexores dessa articulação. O dado é usado para mostrar que o dedo em martelo, que piora em pé, não se explica por perda dos intrínsecos.

Quanto o tornozelo precisa mexer

Cobrança confirmada · 1 questão

O tornozelo como dobradiça

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 12, p. 557 aprox.), descreve o tornozelo como sobretudo uma dobradiça, ainda que o eixo de rotação mude continuamente ao longo do arco de movimento. O tálus fica dentro de uma pinça bem definida (maléolo medial, plafond congruente e maléolo lateral). E dá o número que explica por que a artrodese do tornozelo é bem tolerada: a marcha normal requer apenas 10 a 12° de extensão do tornozelo (dorsiflexão) e 20° de flexão (flexão plantar). A perda de algum movimento, portanto, não é crítica, ao contrário do quadril e do joelho, em que perdas modestas incapacitam.

Esse número coincide com a cinemática do HEBERT (cap. 1): o pico de dorsiflexão na marcha é de cerca de 10° (apoio terminal) e o pico de flexão plantar é de cerca de 20° (balanço inicial). Os dois livros, por caminhos diferentes, chegam ao mesmo arco funcional de aproximadamente 30°.

O Campbell completa com a compensação: o movimento sagital que a marcha exige pode ser compensado internamente por uma articulação transversa do tarso móvel ou externamente por um sapato com sola em mata-borrão (rocker sole). É o primeiro lugar em que a articulação de CHOPART aparece como peça da marcha: quando o tornozelo não dobra, o mediopé dobra por ele.

Tornozelo: a pinça, o tálus em tronco de cone e o eixo oblíquo

Cobrança confirmada · 1 questão

O tálus é um tronco de cone

A peça que explica quase toda a biomecânica do tornozelo é a forma do tálus. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 65), descreve três particularidades do osso: 70% da superfície é coberta de cartilagem, não há inserção muscular e a irrigação é retrógrada e precária. O corpo do tálus é geometricamente um tronco de cone (frustum), deitado transversalmente na pinça, mais largo anteriormente e mais estreito posteriormente; além disso, a circunferência lateral da cúpula é maior que a medial.

Primeira consequência, a estabilidade: na dorsiflexão (toque do calcanhar) a parte larga entra na pinça, o tálus fica comprimido, a fíbula roda externamente e o tornozelo está na posição mais estável (close-packed); na flexão plantar (desprendimento) o tálus fica menos preso. O Campbell (cap. 94, p. 4136) diz que, com a dorsiflexão, a sindesmose deixa a fíbula transladar, rodar e migrar proximalmente; o HEBERT (cap. 69) mede: na marcha a fíbula lateraliza 1,5 mm e ascende 2,4 mm, porque o tálus é mais largo à frente. Por isso a inversão sob estresse se testa em flexão plantar (Campbell, cap. 94, p. 4138).

A segunda consequência é a rotação acoplada: como a cúpula é um cone com o lado lateral maior, o tálus não gira como uma dobradiça pura em torno de um eixo horizontal; o lado lateral percorre um arco maior que o medial, e o pé roda no plano transverso enquanto sobe e desce.

O eixo de INMAN

O Campbell (cap. 12, p. 561 aprox.), ao descrever a artroplastia de distração, define o eixo do tornozelo (eixo de INMAN) como a linha que une as pontas dos maléolos medial e lateral, e manda alinhar as dobradiças do fixador sobre ele para que a distração seja uniforme ao longo do arco. No capítulo do pé torto (cap. 31, p. 1066), o mesmo livro mostra a obliquidade desse eixo no plano transverso: no pé plantígrado, o eixo longo do pé deve ficar perpendicular ao eixo bimaleolar, não ao eixo do joelho, o que geralmente exige 20 a 30° de rotação externa do pé. Em outras palavras, o eixo bimaleolar é rodado externamente em relação ao joelho, porque o maléolo lateral fica atrás do medial.

O raciocínio que a prova cobra junta essas peças. Uma dobradiça perfeitamente transversa (perpendicular ao eixo longo do pé e horizontal) produziria só flexão e extensão. O eixo do tornozelo, porém, é oblíquo: passa pelas pontas dos maléolos, com o lateral mais posterior e mais baixo, e corre sobre um tálus cônico cujo lado lateral é maior. Girar o pé em torno de um eixo inclinado assim acopla um movimento no plano transverso ao movimento sagital: na dorsiflexão o pé roda para fora; na flexão plantar, roda para dentro. É a obliquidade do eixo (e não um eixo transverso) que explica a rotação interna do pé em flexão plantar.

Carga: quanto o pé e o tornozelo suportam

Cobrança confirmada · 1 questão

O tornozelo carrega mais que o joelho com menos área

O Campbell (cap. 11, p. 514 aprox.) explica por que a artroplastia do tornozelo demorou a alcançar os resultados do quadril e do joelho, e as três razões são biomecânica pura:

1. o tornozelo tem área de contato significativamente menor que o quadril e o joelho; 2. o tornozelo recebe 5,5 vezes o peso corporal na deambulação normal, contra 3 vezes no joelho; 3. a cartilagem do tornozelo é uniformemente mais fina que a do joelho.

A combinação é perversa: mais carga, menos área e cartilagem mais fina. O que salva o tornozelo é a congruência (HEBERT, cap. 69: congruente em todas as posições). Por isso qualquer perda de congruência, como se verá na próxima seção, tem efeito desproporcional.

Cargas no pé e no tornozelo, em múltiplos do peso corporal (Campbell 15, cap. 11, p. 514 aprox.; HEBERT, caps. 21.1 e 21.2; Campbell 15, cap. 94, p. 4136)
EstruturaCargaSituaçãoFonte
Tornozelo (tibiotalar)5,5 vezesDeambulação normalCampbell, cap. 11
Joelho (comparação)3 vezesDeambulação normalCampbell, cap. 11
Coxim plantar do calcanharAté 7 vezesToque do calcâneoHEBERT, cap. 21.1
Tendão calcâneo4 a 7 vezesMarcha; na maratona, 1.900 N para um corredor de 70 kgHEBERT, cap. 21.2
FíbulaCerca de 16% da carga axialTransmitida pela sindesmoseCampbell, cap. 94

O coxim plantar merece uma frase. O HEBERT (cap. 21.1) o define como estrutura especializada em receber e amortecer o impacto do peso do corpo na fase do toque do calcâneo, com cargas de até sete vezes o peso. É a primeira estrutura a receber o choque do primeiro rolamento; na atrofia do idoso, a tuberosidade fica exposta a pressões anômalas, com periostite e fratura de estresse.

Congruência: 1 milímetro e 42%

Cobrança confirmada · 1 questão

O estudo de RAMSEY e HAMILTON

O estudo de RAMSEY e HAMILTON aparece nos três livros. O Campbell (cap. 94, p. 4142): desvio lateral de 1 mm do tálus reduz em 42% a área de contato tibiotalar; como a tensão por área sobe quando a área cai, a instabilidade leva à artrose. O Rockwood adulto (cap. 65) repete os 42%, lembra que o estudo foi criticado e que a relação entre desvio, área e pressão é controversa, mas aceita que a perda de congruência explica os maus resultados do tálus desviado.

O HEBERT (cap. 69) usa outra grandeza: 1 mm de perda da relação tíbia-tálus aumenta em 42% a carga na tibiotársica, e 5 mm, em 80%; cita ainda HUGHES (2 a 4° de desvio do eixo vertical do tálus reduzem a área de contato) e conclui que a fíbula deve ser restaurada anatomicamente.

Os dois números são o mesmo fenômeno visto de lados opostos: se a área cai 42%, a mesma força se distribui sobre menos superfície, e a pressão sobe. Na prova, porém, a palavra importa. O Campbell e o Rockwood adulto falam em redução da área de contato; o HEBERT, em aumento da carga. Uma alternativa que diga "1 mm reduz a área em 42%" está correta pelos dois primeiros; uma que diga "aumenta a carga em 42%" está correta pelo HEBERT.

Congruência do tornozelo em números (Campbell 15, cap. 94, p. 4142; Rockwood adulto, cap. 65; HEBERT, cap. 69)
AlteraçãoEfeitoFonte
Desvio lateral de 1 mm do tálusRedução de 42% da área de contato tibiotalarCampbell, cap. 94; Rockwood adulto, cap. 65 (RAMSEY e HAMILTON)
Perda de 1 mm da relação tíbia-tálusAumento de 42% da carga na tibiotársicaHEBERT, cap. 69
Perda de 5 mmAumento de 80% da sobrecarga na cartilagem do tálusHEBERT, cap. 69
Desvio de 2 a 4° do eixo vertical do tálusRedução significativa da área de contato (HUGHES)HEBERT, cap. 69
Fíbula na marchaLateraliza 1,5 mm e ascende 2,4 mm, além de rodarHEBERT, cap. 69

Ligamentos como peças da biomecânica

Cobrança confirmada · 2 questões

O complexo lateral

O talofibular anterior (ATFL) é o mais fraco e o mais lesado; vai da borda anterior do maléolo lateral ao colo do tálus e resiste à translação anterior do tálus em posição neutra (Campbell, cap. 94, p. 4136); pelo HEBERT (cap. 69), restringe também rotação interna e inversão do tálus. O calcaneofibular (CFL), mais forte, desce posterodistalmente, profundo aos fibulares, cruza a faceta posterior da subtalar (Rockwood adulto, cap. 65), é o único lateral extracapsular, estabiliza a subtalar e é o principal restritor da inversão do retropé (HEBERT). O talofibular posterior, quase horizontal, é o mais forte.

A biomecânica dos testes decorre da geometria. Como o ATFL contém o tálus em posição neutra e a parte estreita do tálus fica na pinça em flexão plantar, a gaveta anterior é feita em neutro ou leve flexão plantar, deixando o pé rodar internamente, e a inclinação em inversão é mais bem aplicada com o tornozelo em flexão plantar (Campbell, cap. 94, p. 4138). Os graus de inclinação contam a história em sequência: cerca de 15° sugerem lesão isolada do ATFL; 15 a 30°, ATFL e CFL; mais de 30°, os três ligamentos; e mais de 10° acima do lado normal indicam lesão ligamentar significativa.

Ligamentos laterais do tornozelo (Campbell 15, cap. 94, p. 4136 e 4138; HEBERT, cap. 69; Rockwood adulto, cap. 65)
LigamentoDimensõesTrajetoFunçãoParticularidade
Talofibular anterior2,0 a 2,5 mm de espessura, 15 a 20 mm de comprimento, 6 a 8 mm de larguraBorda anterior do maléolo lateral ao colo do tálusResiste à translação anterior do tálus em neutro; restringe rotação interna e inversão (HEBERT)O mais fraco e o mais lesado
Calcaneofibular20 a 25 mm de comprimento, 6 a 8 mm de largura, 3 a 4 mm de espessuraPonta do maléolo lateral ao calcâneo, profundo aos fibulares, cruzando a faceta posterior da subtalarEstabiliza a subtalar; principal restritor da inversão do retropé (HEBERT)Único lateral extracapsular
Talofibular posterior30 mm de comprimento, 5 mm de largura, 5 a 8 mm de espessuraFossa digital da fíbula ao tubérculo lateral do tálus, quase horizontalContenção posteriorO mais forte
BifurcadoEm Y, do processo anterior do calcâneo ao cuboide e ao navicularFora do tornozeloNão estabiliza o tornozeloConfundido com entorse lateral

O complexo medial

O deltoide tem cinco componentes (Campbell, cap. 94, p. 4135 e 4136). O profundo (tibiotalares profundos anterior e posterior, este o mais forte do complexo) é intra-articular e dá a maior restrição à translação lateral do tálus. Pelo HEBERT (cap. 69), o superficial resiste à eversão e o profundo previne a rotação externa do tálus. É ele, junto com a fíbula, que segura o tálus contra o desvio dos 42%.

A sindesmose e o ligamento de BASSETT

A sindesmose tem quatro ligamentos (Campbell, cap. 94, p. 4136): o tibiofibular anteroinferior (AITFL), do tubérculo anterior da tíbia à fíbula, do qual um fascículo distal (o ligamento de BASSETT) pode impactar na face anterolateral do tálus; o posteroinferior, o mais forte; o transverso inferior, que forma um lábio e aprofunda a pinça; e o interósseo. A fíbula carrega cerca de 16% da carga axial.

A figura 94.45 do Campbell (p. 4160) explica o mecanismo do impacto: o fascículo distal do AITFL é paralelo e distal ao ligamento propriamente dito, separado dele por um septo fibrogorduroso, e com a dorsiflexão do tornozelo pode impactar na face anterolateral do tálus. O porquê é a geometria já vista: na dorsiflexão, a parte mais larga do tálus entra na pinça e se aproxima da sindesmose anterior, e a fíbula roda e sobe; um fascículo baixo fica no caminho. O Campbell (cap. 55, figura 55.11, na artroscopia) mostra o ligamento espessado sendo desbridado.

Subtalar: três facetas, dois compartimentos

Cobrança confirmada · 2 questões

Anatomia que explica o movimento

O Tachdjian (cap. 19, p. 749) descreve a subtalar como três facetas em dois compartimentos: anterior e média no compartimento anterior, posterior no posterior, separados pelo ligamento interósseo talocalcâneo. O Campbell (cap. 94, p. 4136) divide seus estabilizadores em intrínsecos e extrínsecos; o calcaneofibular, por cruzar a faceta posterior, é ligamento do tornozelo e da subtalar, e por isso a entorse em inversão pode lesar as duas.

O Campbell (cap. 88, p. 3839 aprox.) acrescenta: a posição relaxada da subtalar é o valgo, a de menor tensão no interósseo. Quando a subtalar dói, os fibulares evertem o retropé por reflexo para descomprimi-la, e a posição se fixa: o espasmo fibular é consequência, não causa.

Instabilidade subtalar e a incidência de BRODEN

As entorses da subtalar ganharam atenção recente (Campbell, cap. 94, p. 4138 a 4140). É difícil separá-las da entorse do tornozelo, e a maioria ocorre junto com a lesão lateral. Radiografias de estresse do tornozelo negativas diante de uma lesão clínica grave, ou de instabilidade funcional crônica relatada pelo paciente, devem levantar a suspeita de entorse subtalar. Biomecanicamente, a secção do ligamento interósseo talocalcâneo junto com o ATFL produz mudança significativa do movimento subtalar, maior que a lesão isolada do ATFL.

Para quantificar quanto da frouxidão em inversão vem de cada articulação, o Campbell cita as radiografias de estresse subtalar: a incidência de BRODEN em estresse de inversão ou o deslizamento subtalar (gaveta anterior em supinação), somadas às radiografias de estresse do tálus. O próprio livro faz a ressalva: vários autores questionaram a validade desses testes, uma revisão sistemática recente achou as imagens disponíveis pouco confiáveis para prever instabilidade subtalar, e o diagnóstico exige alto índice de suspeita, várias modalidades de imagem e investigação clínica cuidadosa.

A incidência de BRODEN é a mesma usada nas fraturas do calcâneo: o Campbell (cap. 93, p. 4064) a descreve com a perna em rotação interna de 40°, o tornozelo em neutro e o feixe angulado 10 a 15° em direção cefálica, para avaliar a congruência da faceta posterior (a figura 93.5 mostra a série com 45° de rotação interna e 10 a 40° de angulação). Como a faceta posterior aparece de frente nessa incidência, é nela que se vê a abertura da subtalar quando o retropé é forçado em inversão.

A coalizão como experimento natural

A coalizão mostra o que acontece quando a subtalar não se move (Tachdjian, cap. 19, p. 748 e 749): o pé não se acomoda ao terreno irregular e transfere força à tibiotársica, com entorses de repetição, pé em rotação externa e rigidez; na ponta dos pés o retropé não inverte; andar na borda lateral é impossível; o bico talar seria tração pelo movimento anormal do tornozelo; e, na coalizão congênita, o tornozelo vira bola e soquete para fazer inversão e eversão.

Quanto à localização, os livros apontam para a faceta média: o Campbell (cap. 88, p. 3842) usa o HARRIS e BEATH para a coalizão da faceta média, descreve a perda da subtalar média no perfil e o duplo maléolo medial, e suas figuras (fig. 88.14 e 88.45; cap. 3, fig. 3.54) são de faceta média; o Tachdjian (p. 749) descreve a ponte através da subtalar medial no HARRIS. Ressalva: o Tachdjian (p. 747) lista talocalcânea e talonavicular como as mais comuns, e o Campbell (p. 3839 aprox.) diz que, fora calcaneonavicular e talocalcânea, as sintomáticas são raríssimas.

CHOPART: a articulação transversa do tarso que trava e destrava

Cobrança confirmada · 1 questão

O que é CHOPART

O Rockwood adulto (cap. 68) define o mediopé como a região entre a linha de CHOPART e a linha de LISFRANC. A articulação de CHOPART, também chamada mediotársica ou articulação transversa do tarso, compreende a calcaneocuboide e a talocalcaneonavicular. Os dois cirurgiões franceses descreveram essas linhas originalmente como linhas de amputação, não de reconstrução. O Campbell (cap. 17, p. 696 aprox.) usa a mesma definição ao descrever a amputação de CHOPART, feita nas articulações transversas do tarso (calcaneocuboide e talonavicular).

Neutro, valgo, varo: a sequência do retropé no apoio

A peça central do travamento é descrita pelo Campbell (cap. 88, p. 3814), no capítulo do tibial posterior: em um retropé normal, a fase de apoio começa com o retropé neutro ou levemente invertido; no médio apoio, obtém-se o valgo; e no apoio terminal ou no desprendimento, o retropé inverte, travando a articulação mediotársica para produzir uma alavanca rígida para a impulsão.

A lógica mecânica é a seguinte. No contato e no médio apoio, o pé precisa ser flexível: deve se acomodar ao terreno e absorver o choque, e o valgo do retropé destrava a mediotársica, deixando talonavicular e calcaneocuboide móveis. No fim do apoio, o pé precisa ser rígido: o tríceps vai empurrar o corpo pelas cabeças metatarsais (terceiro rolamento), e uma alavanca mole dissiparia a força. A inversão do retropé trava a mediotársica e transforma o pé numa barra rígida. É por isso que o Campbell (cap. 12) diz que uma transversa do tarso móvel pode compensar a falta de movimento sagital do tornozelo: ela é a articulação que o pé amolece e endurece conforme a necessidade.

O Rockwood adulto (cap. 68) dá o motor dessa troca. O tibial posterior é o único tendão que se insere inteiramente no mediopé; sua inserção plantar liga todos os ossos do mediopé e funciona como estabilizador dinâmico durante o médio apoio e o desprendimento. A atividade do tibial posterior intertrava os ossos do mediopé, permitindo que o pé funcione como alavanca rígida no médio apoio e no desprendimento; quando ele relaxa, o pé fica flexível e adaptável durante o contato do calcanhar. Somando os dois livros: o tibial posterior trabalha a partir do médio apoio, enquanto o retropé ainda está em valgo, freando e depois revertendo esse valgo, e no apoio terminal leva o retropé à inversão que trava CHOPART.

O que acontece quando falha

O mesmo trecho do Campbell (p. 3814) descreve a falha: na insuficiência do tibial posterior, o pé não inverte no apoio terminal. Sem travar o retropé e sem produzir alavanca rígida justamente no ponto da marcha em que o arco recebe mais tensão, a deformação do arco é alta e o resultado é dor. Somam-se dois círculos viciosos: o valgo do retropé encurta o braço de momento do tendão calcâneo, o que leva à contratura do gastrocnêmio ou do gastrocsóleo; e a contratura, ao impedir dorsiflexão e inversão, piora o valgo. O teste de SILFVERSKIÖLD separa a contratura isolada do gastrocnêmio da contratura do gastrocsóleo.

O retropé e CHOPART ao longo do apoio (Campbell 15, cap. 88, p. 3814; Rockwood adulto, cap. 68; HEBERT, cap. 1)
MomentoRetropé (subtalar)Mediotársica (CHOPART)Função do péTibial posterior
Contato inicialNeutro ou levemente invertidoComeça a destravarReceber o choqueRelaxado: pé flexível e adaptável
Resposta à carga e médio apoioValgo (eversão)Destravada, móvelAcomodar ao terreno, amortecerAtivo como estabilizador dinâmico a partir do médio apoio
Apoio terminal e desprendimentoInversãoTravadaAlavanca rígida para a impulsão do terceiro rolamentoAtivo: intertrava os ossos do mediopé
Insuficiência do tibial posteriorNão inverteNão travaSem alavanca rígida; dor no arcoInsuficiente

Por que a talonavicular é a peça essencial

O Rockwood adulto (cap. 68) classifica as articulações pela importância funcional: a talonavicular é essencial, a calcaneocuboide não. O navicular sustenta a coluna medial e recebe a maior parte da carga do tarso.

O Campbell confirma pelo lado clínico. A artrodese talonavicular reduz significativamente o movimento de todo o complexo das três articulações (subtalar, talonavicular e calcaneocuboide), e por isso é reservada às fraturas graves (cap. 93, p. 4089 aprox.). Na artrodese do retropé, deixam-se 5 a 10° de valgo e evita-se fixar a talonavicular com o antepé supinado (cap. 90, p. 3983 aprox.). E, nas doenças do retropé, o movimento subtalar é o mais afetado (cap. 90, p. 3982).

Articulações do pé pela importância funcional (Rockwood adulto, cap. 68)
GrupoArticulações
EssenciaisTalonavicular; metatarsofalangianas do 2º ao 5º
Não essenciais mas úteis1ª metatarsofalangiana; 4ª e 5ª tarsometatarsais
Não essenciaisCalcaneocuboide; interfalangiana proximal do hálux
DesnecessáriasNaviculocuneiformes; metatarsocuneiformes 1 a 3; interfalangianas dos dedos menores

A amputação de CHOPART como prova do conceito

A amputação de CHOPART (Campbell, cap. 17, p. 696 e 697 aprox.) prova o conceito: proximal ao transmetatarsal, a marcha perde suporte e impulsão, e o coto tende ao equino, porque perde os dorsiflexores e mantém o tendão calcâneo sem antagonista. Daí a tenectomia do calcâneo (2 a 3 cm), a transferência do tibial anterior e dos extensores para o colo do tálus, a imobilização em leve dorsiflexão e o sapato em mata-borrão, que substitui o rolamento perdido.

Fáscia plantar e o mecanismo de molinete

Relevância clínica

A anatomia do cabo

O HEBERT (cap. 21.1) descreve a fáscia plantar nascendo na tuberosidade medial do calcâneo, com três feixes, inserida na base das falanges proximais: o principal estabilizador passivo do arco longitudinal medial. O Campbell (cap. 88, p. 3870 e 3872) acrescenta as inserções nas placas plantares e nas bainhas flexoras e afirma que ela é o suporte estático mais importante do arco, cuja secção muda o arco de forma significativa.

Como o molinete funciona

O nome vem do guincho de navio: um cabo que se enrola num tambor e encurta. No pé, o cabo é a fáscia plantar e o tambor são as cabeças dos metatarsos. Quando os dedos dorsifletem, a fáscia, presa às falanges proximais, é puxada em volta das cabeças metatarsais; o "cabo" se encurta entre o calcâneo e o antepé, o arco longitudinal se eleva e a origem da fáscia é tracionada (Campbell, cap. 88, p. 3870, fig. 88.82).

O HEBERT (cap. 21.1) descreve a cadeia inteira: a hiperextensão dos dedos traciona a fáscia plantar, elevando o arco longitudinal medial, invertendo o retropé e rodando externamente a perna. Esse é o teste de HICKS, o mecanismo de molinete (roldana, windlass).

A ligação com a marcha é direta. No terceiro rolamento, o calcanhar sobe e o corpo rola sobre as cabeças metatarsais; os dedos ficam em dorsiflexão nas metatarsofalangianas. O molinete, portanto, é acionado automaticamente no fim do apoio, e o resultado dele (arco elevado, retropé invertido) é exatamente o que o Campbell descreve como necessário para travar CHOPART e criar a alavanca rígida da impulsão. O tibial posterior trava por dentro, ativamente; a fáscia trava por baixo, passivamente; os dois convergem no mesmo momento do ciclo.

Os testes que usam o molinete

O HEBERT (cap. 20.4) descreve o teste de JACK (hiperextensão passiva do hálux) com o paciente em pé: ao estender passivamente a metatarsofalangiana do hálux, observa-se ao mesmo tempo a varização do retropé, o surgimento ou a acentuação do arco longitudinal e a rotação externa da perna, o que se chama teste de JACK positivo. O teste avalia a liberdade da subtalar, a integridade do flexor longo do hálux e a sincronização reflexa entre a musculatura intrínseca e extrínseca. O teste da ponta dos pés avalia os tendões calcâneo e tibial posterior: o arco se eleva e o retropé passa de valgo para varo, indicando subtalar livre; quando há bloqueio subtalar (coalizão), a varização não ocorre.

Na fascite, a dorsiflexão dos dedos distende a fáscia e reproduz a dor, e o primeiro passo matinal dói porque o pé passa a noite em equino, com a fáscia encurtada (HEBERT, cap. 21.1). Para não desmontar o arco, a liberação minimamente invasiva solta só a banda central, deixando intactos os 35 a 50% laterais (Campbell, cap. 88, p. 3872).

Testes clínicos que exploram a biomecânica do retropé (HEBERT, caps. 20.4 e 21.1; Campbell 15, cap. 88, p. 3814; Tachdjian, cap. 19, p. 748)
TesteManobraResposta normalO que mostra se falhar
HICKS (molinete)Hiperextensão dos dedosFáscia tensa, arco sobe, retropé inverte, perna roda externamenteMecanismo de molinete ou subtalar comprometidos
JACKHiperextensão passiva do hálux em péVarização do retropé, arco acentuado, rotação externa da pernaSubtalar bloqueada ou flexor longo do hálux lesado
Ponta dos pésElevação sobre as cabeças metatarsaisArco sobe; retropé de valgo para varoBloqueio subtalar (coalizão) ou insuficiência do tibial posterior ou do tendão calcâneo
Borda lateralAndar sobre a borda lateral do péPossívelImpossível quando falta inversão (coalizão)
SILFVERSKIÖLDDorsiflexão com joelho estendido e fletidoDorsiflexão adequada nas duas posiçõesMelhora ao fletir o joelho: gastrocnêmio curto; não melhora: sóleo também curto

Arcos, colunas e distribuição de carga

Fundamento

Coluna medial e coluna lateral

O mesmo capítulo divide o arco longitudinal em duas colunas funcionais. A coluna medial tem o tálus, o navicular, os três cuneiformes e os metatarsos de 1 a 3; a coluna lateral tem o calcâneo, o cuboide e os metatarsos 4 e 5. O navicular é a estrutura de suporte da coluna medial; o cuboide é a pedra angular da lateral. No mediopé, os cuneiformes e o cuboide formam o arco transverso, descrito como incompleto, dentro do qual as forças de tração são eliminadas e convertidas em compressão. Como a carga repetitiva da marcha é plantar, os ligamentos plantares são mais fortes que os dorsais.

As colunas do pé e a mobilidade das tarsometatarsais (Rockwood adulto, cap. 68)
EstruturaComponentesFunção ou mobilidade
Coluna medialTálus, navicular, cuneiformes 1 a 3, metatarsos 1 a 3Navicular como suporte; recebe a maior parte da carga do tarso
Coluna lateralCalcâneo, cuboide, metatarsos 4 e 5Cuboide como pedra angular
Arco transversoCuneiformes e cuboideIncompleto; converte tração em compressão
2ª e 3ª tarsometatarsaisColuna intermediáriaAs mais estáveis: até 0,6 e 1,6 mm de movimento sagital; a 2ª encaixada entre os cuneiformes
1ª tarsometatarsalColuna medialAté 3,5 mm de movimento vertical; superfície mais elipsoide e sem ligamento intermetatarsal entre 1º e 2º
4ª e 5ª tarsometatarsaisColuna lateralAs mais móveis: 9,6 e 10,2 mm; amortecedores, primeiros metatarsos a tocar o solo após o calcanhar

A lógica é a da marcha: a coluna lateral é móvel porque amortece logo após o calcanhar; a intermediária é rígida porque é o eixo da alavanca da impulsão. A pedobarografia mede essa distribuição de pressões (Tachdjian, cap. 5, p. 66).

Osso, ligamento ou músculo: quem segura o arco?

O HEBERT (cap. 20.4) resume a controvérsia: para DUCHENNE e JONES, o arco dependia da força muscular; para BASMAJIAN e STECKO, a altura é dada pelo complexo osso-ligamentos, e o músculo mantém equilíbrio e propulsão, mas não determina a forma do pé. A segunda visão combina com a fáscia como principal estabilizador passivo e com a ausência de atividade intrínseca em ortostase (Campbell, cap. 89).

Fechamento

Fundamento

O ciclo começa no calcanhar: 60% de apoio e 40% de balanço, com duplo apoio nos 10% iniciais e finais. O tornozelo rola sobre o calcâneo (tibial anterior excêntrico, cerca de 7° de flexão plantar), sobre si mesmo (sóleo excêntrico, dorsiflexão até cerca de 10° em 40% do ciclo, joelho estendido passivamente) e sobre as cabeças metatarsais (gastrocnêmio concêntrico, o maior propulsor). No balanço, o tibial anterior volta em concêntrica, após um pico de flexão plantar de cerca de 20°. A marcha usa só 10 a 12° de dorsiflexão e 20° de flexão plantar.

O tálus em tronco de cone fica estável em dorsiflexão e frouxo em flexão plantar; o eixo de INMAN é oblíquo e acopla rotação ao movimento sagital. O tornozelo recebe 5,5 vezes o peso com pouca área, e 1 mm de desvio lateral do tálus tira 42% da área de contato (ou soma 42% de carga, pelo HEBERT). O ATFL é o mais lesado, o CFL restringe a inversão do retropé, o BASSETT impacta na dorsiflexão e a subtalar instável aparece no BRODEN em inversão.

No pé, o retropé vai de neutro a valgo e a varo: valgo no médio apoio para amortecer, inversão no apoio terminal para travar CHOPART. O tibial posterior intertrava o mediopé; a fáscia plantar, pelo molinete de HICKS, eleva o arco e inverte o retropé. Para os parâmetros de distância e tempo, SAUNDERS e as marchas patológicas, veja o resumo de marcha na criança do Tachdjian.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

Abrir no leitorCriar conta grátis

No leitor do aplicativo, quem não tem conta lê as 6 primeiras partes; a leitura completa é grátis com a conta.

Continue estudando