Orto Questões

Pé plano adquirido do adulto e disfunção do tibial posterior

Pé e tornozeloResumo do capítulo37 min de leitura

Colapso peritalar por disfunção do tibial posterior com valgo do retropé, abdução do mediopé e pronação do antepé; muitos dedos pela pronação e abdução; JOHNSON e STROM com I tenossinovite, II flexível sem elevação unipodal e compensação pelo tibial anterior (BLUMAN IIA menos e IIB mais de 30% da cabeça do tálus descoberta), III rígido com tríplice, IV de MYERSON com valgo do tornozelo; PCFD da AOFAS flexível ou rígido com classes A a E; MÉARY entre tálus e 1º metatarso, talocalcâneo AP acima de 40 graus, incongruência talonavicular lateral no IIB; no flexível, flexor longo dos dedos com osteotomia medializante ou EVANS (descobertura acima de 40%) e COTTON flexionando plantarmente o 1º metatarso.

Atualizado em 03/11/2026 · 37 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 90 · Arthritis of the Foot (seção Hindfoot: subtalar, talonavicular e triple arthrodesis), com o Capítulo 88 · Disorders of the Tendons and Fascia and Adolescent and Adult Acquired Flatfoot Deformity (seção Disorders of the Posterior Tibial Tendon and Adult Acquired Flatfoot Deformity), em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026), com o Sizínio HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed.. Autores do capítulo: David R. RICHARDSON (cap. 90); Benjamin J. GREAR (cap. 88).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Campbell, capítulo 90, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo trata do pé plano que aparece na vida adulta, de um lado só, e piora com o tempo. O texto principal vem do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.: capítulo 90 (Arthritis of the Foot, David R. RICHARDSON), com as artrodeses do retropé do estágio rígido, e capítulo 88 (Benjamin J. GREAR), casa natural do tema, com classificações, exame, imagem e reconstruções. Completa o Sizínio HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 21.2, Lesões tendíneas, e cap. 20.4, Pé plano). As páginas citadas são as impressas; o HEBERT digital não tem paginação.

Uma frase organiza tudo: o tibial posterior segura a cabeça do tálus; quando ele falha, os ligamentos trabalham sozinhos e cedem um depois do outro. Primeiro a dor é do tendão (medial); depois o pé desaba de forma flexível; depois endurece e a dor vira lateral, no seio do tarso; por fim o deltoide cede e o tálus inclina na pinça. Cada estágio de JOHNSON e STROM é um desses momentos, e o tratamento acompanha: proteger o tendão, substituí-lo realinhando o osso, fundir articulações, tratar o tornozelo.

A prova cobra a direção de cada componente da deformidade, o exame (muitos dedos, elevação na ponta de um pé só, uso do tibial anterior), o estágio de JOHNSON e STROM e o tratamento de cada estágio e os ângulos e osteotomias com nome próprio (MÉARY, incongruência talonavicular, COTTON, EVANS, KOUTSOGIANNIS). O estágio IV também aparece no resumo de tendões fibulares e outras tendinopatias (campbell15-tendoes-fibulares).

Por que o nome mudou: de disfunção do tibial posterior a PCFD

Fundamento

Durante anos a doença foi chamada de insuficiência ou disfunção do tibial posterior. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), explica que o tendão pode ficar insuficiente por três caminhos: tenossinovite crônica (traumática, degenerativa ou de doença inflamatória), perda de continuidade (rotura completa ou incompleta) e perda da relação normal com a inserção, como no navicular acessório. Em qualquer dos casos, o tendão deixa de cumprir suas três tarefas: flexão plantar, inversão e estabilização do arco longitudinal medial (p. 3811).

O nome antigo põe toda a culpa no tendão, mas o arco também pode cair por insuficiência do ligamento mola ou hipermobilidade da coluna medial com um tibial posterior que funciona; daí pé plano adquirido do adulto (AAFD). Depois, um painel da AOFAS chegou a um consenso unânime pelo nome deformidade progressiva do pé em colapso (PCFD, progressive collapsing foot deformity): ela progride e é um colapso de várias articulações, não só uma tendinopatia (p. 3811 e 3812).

Adquirido contra flexível de nascença

O quadro Campbell's Concepts (p. 3812) separa o pé plano adquirido, assimétrico, por instabilidade peritalar, associado a faceta posterior em valgo no plano coronal e obesidade, com valgo do retropé, abdução talonavicular e pronação do antepé com carga, do pé plano flexível de base, simétrico, com tibial posterior funcionante e menos sintomático, que ainda assim pode evoluir para disfunção (p. 3811).

Pé plano adquirido contra pé plano flexível de base (Campbell 15, cap. 88, Campbell's Concepts, p. 3811 e 3812)
CaracterísticaPé plano adquirido do adulto (PCFD)Pé plano flexível de base (FFD)
SimetriaAssimétrico, adquiridoTipicamente simétrico
Tibial posteriorDisfuncional ou insuficienteFuncionante
OrigemInstabilidade peritalar adquiridaMorfologia do paciente
AssociaçõesFaceta posterior em valgo no plano coronal, obesidadeMorfologia óssea
SintomasMais sintomático, progressivoMenos sintomático
EvoluçãoColapso progressivoPode evoluir para disfunção do tendão e dor

Anatomia que explica a doença: tendão, mola e deltoide

Fundamento

O tibial posterior

O HEBERT (cap. 21.2) descreve a origem do músculo na face posterior e lateral do terço proximal e médio da tíbia e da fíbula, na membrana interóssea e no septo intermuscular. O tendão faz uma curva e usa como polia a face posterior do maléolo medial, atravessa o túnel sob o retináculo flexor e chega à tuberosidade do navicular, de onde abre expansões em leque. Ele é revestido por bainha sinovial em toda a extensão até perto da inserção e recebe sangue por vínculos com ramos da artéria tibial posterior.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), detalha a inserção: uma faixa principal na tuberosidade medial do navicular e uma segunda faixa que segue para a planta, onde se ramifica e insere nos três cuneiformes, no cuboide e nas bases do 2º ao 5º metatarsos (Fig. 88.3, p. 3813). É essa arborização plantar que faz do tibial posterior um "laço" que abraça o mediopé por baixo.

A função principal, segundo o HEBERT, é inverter o pé; secundariamente participa da flexão plantar e da supinação e trabalha em sinergia com o tríceps na elevação na ponta dos pés. Os fibulares longo e curto são os antagonistas. Esse antagonismo é a chave da patogenia: quando o tibial posterior perde força, predomina a ação dos fibulares, que puxam o pé para eversão e abdução e agravam e perpetuam a deformidade (HEBERT, cap. 21.2).

Onde o tendão se gasta

O HEBERT atribui a degeneração ao atrito na polia com o envelhecimento; a redução da circulação já foi responsabilizada, mas sem comprovação definitiva. As lesões ficam na polia retro e submaleolar e na inserção, numa escada de tenossinovite, alteração do parênquima, rotura parcial e secção completa. Fatores: diabetes, espondiloartropatias soronegativas, artrite reumatoide, gota, distúrbios hormonais; agravantes: tabagismo, álcool, hipertensão, sangue tipo O e corticoterapia.

Os estabilizadores estáticos: a mola e o deltoide

O arco longitudinal medial é sustentado pela arquitetura óssea e pelos ligamentos, mas o HEBERT lembra que a perda da função dinâmica do tibial posterior na marcha sobrecarrega os elementos estáticos até a falência. O Campbell (cap. 88) descreve a sequência: à medida que o retropé vai para valgo e o mediopé prona, o ligamento mola falha e perde o suporte da cabeça do tálus; outras estruturas do arco também podem ceder, criando instabilidade nas articulações naviculocuneiforme e cuneiforme-1º metatarso; nos casos graves, o deltoide se alonga, principalmente a porção anterior (tibionavicular) do deltoide superficial, e passa a ser componente importante de instabilidade medial do tornozelo (p. 3811 e 3812).

O ligamento mola é o calcaneonavicular plantar: sua porção superomedial fica logo abaixo da cabeça do tálus e insere na face plantar e plantaromedial do navicular (técnica 88.3, p. 3823). É a rede onde a cabeça do tálus repousa; quando cede, a cabeça desliza distal, medial e plantarmente (Fig. 88.1, p. 3813). É a estrutura ligamentar mais comumente envolvida, ao lado da banda anterior do deltoide superficial, dos ligamentos plantares metatarsais e do naviculocuneiforme (p. 3812).

A deformidade em três planos

Cobrança confirmada · 2 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), resume a patologia em três componentes, que valem para o pé com carga: valgo do retropé, abdução do mediopé na articulação talonavicular e pronação do antepé (p. 3811). Cada componente pode ser mais ou menos intenso conforme a magnitude da disfunção, o local e o grau do colapso ósseo do arco, a cronicidade, a rigidez e o formato do arco antes da doença.

Sem o tibial posterior, o calcâneo gira em eversão sob o tálus (valgo do retropé); sem a mola, a cabeça do tálus cai para medial e plantar e o navicular escorrega para lateral (abdução, cabeça do tálus descoberta no AP); o antepé apoiado acompanha em pronação (metatarsos sobrepostos no AP).

A pegadinha do antepé: pronado com carga, supinado sem carga

O detalhe que mais confunde: com carga o antepé está pronado, mas sem carga, com o retropé corrigido ao neutro, o 1º raio fica elevado, o que o Campbell chama de antepé varo ou supinação do antepé (p. 3811). É compensação: com o calcâneo em valgo, o antepé supina em relação ao retropé para apoiar o 1º metatarso, e essa supinação aparece quando o retropé é corrigido (daí a COTTON). O HEBERT descreve valgo do retropé, arco baixo, abdução do antepé e rotação externa do eixo do pé (cap. 21.2).

Na prova, a pergunta "quais são as deformidades da insuficiência do tibial posterior" quer a combinação com o pé apoiado: retropé valgo, mediopé abduzido, antepé pronado. Qualquer alternativa com varo de retropé ou adução de mediopé descreve outro pé (o cavo ou o metatarso aduto).

Os componentes da deformidade (Campbell 15, cap. 88, p. 3811 a 3813; HEBERT, cap. 21.2)
SegmentoDireção com cargaMecanismoComo se vê
RetropéValgoCalcâneo everte sob o tálus sem o inversorCalcanhar desviado para fora na vista posterior
Mediopé (talonavicular)AbduçãoNavicular escorrega lateralmente sobre a cabeça do tálusCabeça do tálus descoberta no AP; muitos dedos
AntepéPronaçãoAcompanha o mediopé apoiadoMetatarsos sobrepostos no AP
Antepé sem carga, retropé no neutroSupinação (antepé varo)Compensação para apoiar o 1º raio1º raio elevado; aparece após corrigir o retropé
TálusFlexão plantar, cabeça medial e distalFalência da molaTalo-1º metatarso aumentado no perfil

O quadro clínico e o exame

Cobrança confirmada · 2 questões

A história

Segundo o HEBERT (cap. 21.2), o quadro é insidioso, em pessoas acima dos 50 anos, com predomínio feminino e mais no lado esquerdo. A dor começa ao longo do trajeto do tendão e, quando fica pontual, marca o local da lesão. O paciente relata deformidade progressiva, desgaste medial do salto, deformação rápida do calçado, dificuldade para as distâncias habituais e insegurança em terreno irregular.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), acrescenta a migração da dor, que é um marcador de estágio: a dor é medial no início, mas com a pronação prolongada ela passa a ser lateral, onde a face anterior do processo lateral do tálus bate contra o assoalho do seio do tarso; quando a deformidade fica fixa, a dor lateral pode ser a queixa principal (p. 3812). O HEBERT acrescenta a artrose subtalar como causa dessa dor lateral. A dor é a queixa mais comum; também aparecem fadiga após pouca atividade, sensação de falta de apoio e o pé "rolando para fora". Pode haver história de trauma com colapso rápido, mas geralmente o paciente não lembra de trauma e descreve um colapso gradual.

A inspeção por trás: muitos dedos

O sinal que mais cai em prova está no HEBERT. No capítulo de pé plano (cap. 20.4), o livro explica: olhando por trás o tornozelo e o pé de uma pessoa normal, aparece lateralmente só um artelho; quando há abdução exagerada do antepé, surgem mais dedos lateralmente. É o sinal dos "muitos dedos" (too many toes), que indica abdução do antepé em relação aos demais segmentos. No capítulo de lesões tendíneas (21.2), aplicado ao tibial posterior, o HEBERT diz que na inspeção posterior do lado afetado se vê maior número de dedos, devido ao pé pronado e em abdução.

O mecanismo é geométrico: o examinador olha na linha do calcâneo; se o antepé abduz (aponta para fora) e o retropé está em valgo (pronado), os dedos laterais saem de trás da perna e ficam visíveis. Por isso a resposta correta combina pronação do retropé com abdução do antepé. Supinação ou adução esconderiam os dedos em vez de mostrá-los.

A elevação na ponta de um pé só

O teste funcional do tendão é a elevação unipodal do calcanhar. Para subir na ponta dos pés o calcanhar precisa ir para varo, e fazer isso sem tibial posterior é praticamente impossível apoiado só no pé afetado. Alguns pés flexíveis sobem depois de "jogar" o retropé numa posição travada em varo e compensar com o gastrocsóleo, e o examinador vê o pé "pular" enquanto o paciente busca apoio; subir devagar, só no pé afetado, invertendo o calcanhar e sem apoio, não é possível (Campbell, cap. 88, p. 3813). O HEBERT descreve o mesmo: não ocorre varização do calcâneo na ponta dos pés (cap. 21.2); e lembra que o teste também depende de uma subtalar livre, porque na coalizão a varização não ocorre (cap. 20.4).

O tibial anterior como inversor de socorro

Outro achado fino do exame está na figura 88.1 do Campbell: com o paciente sentado, o examinador leva o pé para flexão plantar e inversão e pede que ele mantenha a posição; o paciente usa inconscientemente o tibial anterior para inverter, porque o tibial posterior não responde (p. 3813). O tendão pode ser palpado no maléolo medial com o pé em equinovaro, e pode haver edema depressível subcutâneo ao longo do trajeto. O HEBERT completa: dor à contração resistida e força supinadora diminuída no teste de inversão forçada.

A marcha e o tendão calcâneo

Na marcha normal, o retropé inverte na saída do passo e trava a mediotarsal, formando uma alavanca rígida; com o tendão insuficiente o pé não inverte no apoio terminal e o arco sobrecarregado dói (Campbell, cap. 88, p. 3814).

A contratura do gastrocnêmio ou do gastrocsóleo acompanha a doença desde cedo. O valgo do retropé encurta o braço de momento do tendão calcâneo, o que leva à contratura; e a contratura, impedindo dorsiflexão e inversão, piora o valgo. O teste de SILFVERSKIÖLD separa a contratura isolada do gastrocnêmio (melhora da dorsiflexão com o joelho fletido) da contratura do conjunto gastrocsóleo. O livro é enfático: tratar a contratura, de forma conservadora ou cirúrgica, é vital para o sucesso (p. 3814).

O exame da insuficiência do tibial posterior (Campbell 15, cap. 88, p. 3812 a 3814; HEBERT, caps. 20.4 e 21.2)
AchadoComo pesquisarO que significa
Muitos dedosInspeção por trás, em péRetropé pronado e antepé abduzido
Elevação unipodal impossívelSubir devagar na ponta do pé afetado, sem apoioTendão incompetente (estágio II em diante)
Calcanhar não variza na ponta dos pésObservar o retropé ao subirTendão insuficiente ou subtalar bloqueada
Uso do tibial anteriorSentado, manter flexão plantar e inversãoCompensação do inversor perdido
Dor e edema retromaleolar medialPalpação do trajetoTenossinovite, fase inicial
Dor no seio do tarsoPalpação lateralImpacto do processo lateral do tálus, fase avançada
SILFVERSKIÖLDDorsiflexão com joelho estendido e fletidoContratura do gastrocnêmio ou do gastrocsóleo

JOHNSON e STROM, BLUMAN e MYERSON

Cobrança confirmada · 3 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), começa com uma advertência que serve para toda a ortopedia: classificações só valem na medida em que ajudam a planejar o tratamento ou prever o resultado. A classificação de JOHNSON e STROM, de 1989, continua útil no manejo da insuficiência do tibial posterior e aparece na Tabela 88.1 com a modificação de BLUMAN (que divide o estágio II) e o estágio IV acrescentado por MYERSON (p. 3812).

Estágio I: o tendão inflamado

Há edema, dor, inflamação e derrame na bainha do tibial posterior, com irritação à eversão passiva ao longo do trajeto. O retropé é flexível e sem assimetria, e o paciente ainda consegue inverter o pé na elevação unipodal. O problema é do tendão; o pé ainda não caiu.

Estágio II: o pé cai, mas ainda é flexível

Aqui está o coração das questões. O Campbell lista: perda da função do tibial posterior, deformidade flexível, incapacidade de fazer a elevação unipodal e tentativa de compensação usando o tibial anterior como inversor acessório do retropé, com leve dor lateral ou de impacto no seio do tarso. A modificação de BLUMAN separa:

  • IIA: menos de 30% da cabeça do tálus descoberta na radiografia AP com carga; abdução mínima.
  • IIB: mais de 30% da cabeça do tálus descoberta; abdução grave.

É no estágio II que aparece pela primeira vez a incapacidade de ficar na ponta de um pé só. É o que a banca pergunta quando quer saber "em que estágio surge a incapacidade de elevar o calcanhar". E a alternativa que fala em "compensação para inversão com o tibial anterior" é tirada literalmente da tabela.

Estágio III: rígido

A função do tibial posterior está perdida, a deformidade do retropé é rígida ou semirrígida, em valgo e abdução, podem aparecer alterações degenerativas nas radiografias e há dor lateral importante no seio do tarso.

Estágio IV: o tornozelo entra

São os achados do estágio III mais o posicionamento incongruente em valgo da articulação do tornozelo. Foi acrescentado por MYERSON, e o deltoide insuficiente é o que permite essa inclinação. O detalhe do tratamento do tornozelo está mais adiante e no resumo de tendões fibulares e outras tendinopatias (campbell15-tendoes-fibulares, seção do estágio IV).

Classificação de JOHNSON e STROM com BLUMAN e MYERSON (Campbell 15, cap. 88, Tabela 88.1, p. 3812)
EstágioTendãoDeformidadeExame e imagem
ITenossinovite, função mantidaNenhuma; retropé flexível e simétricoDor, edema, derrame na bainha; inverte na elevação unipodal
IIA (BLUMAN)Função perdidaFlexível, abdução mínimaSem elevação unipodal; usa o tibial anterior; menos de 30% da cabeça do tálus descoberta
IIB (BLUMAN)Função perdidaFlexível, abdução graveMais de 30% da cabeça do tálus descoberta
IIIFunção perdidaRígida ou semirrígida, valgo e abduçãoDegeneração radiográfica; dor importante no seio do tarso
IV (MYERSON)Função perdidaAchados do IIIValgo incongruente do tornozelo

A versão do HEBERT

O HEBERT (cap. 21.2) descreve os estágios pela lesão do tendão: I tenossinovite sem lesão do parênquima e sem deformidade; II sinais inflamatórios com deformidade redutível no apoio da ponta dos pés, tendão ainda funcional apesar das microrroturas; III insuficiência por degeneração, deformidade estruturada e sofrimento articular; e cita um quarto tipo com a tibiotársica acometida. A divergência está no II: para a Tabela 88.1 do Campbell o paciente já não sobe na ponta de um pé só; para o HEBERT a deformidade ainda se corrige na ponta dos pés. As questões seguem a tabela clássica.

O consenso PCFD da AOFAS

Possível cobrança

Mesmo com as modificações, JOHNSON e STROM não descreve todos os detalhes anatômicos e radiográficos de cada pé. Por isso a AOFAS propôs, junto com o novo nome, uma nova classificação, publicada por MYERSON, THORDARSON, JOHNSON e colaboradores em 2020 (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 88, Tabela 88.2, p. 3812 e 3814). Ela responde a duas perguntas independentes:

1. A deformidade é flexível ou rígida? Estágio I (flexível) ou estágio II (rígido). 2. Onde está a deformidade? Classes A a E, isoladas ou combinadas.

A confiabilidade interobservador é moderada e a intraobservador, muito boa, e a acurácia diagnóstica cresce com a experiência: 71% entre fellows, 78% entre cirurgiões com 1 a 4 anos de prática e 81% acima de 5 anos (p. 3812).

Atenção à armadilha de numeração: o estágio 1 do PCFD é flexível, mas o estágio flexível de JOHNSON e STROM é o II. O próprio Campbell reconhece a confusão e, para evitá-la, passa a falar simplesmente em deformidade flexível ou rígida (p. 3818). Assim, um "IIB de STROM e JOHNSON" corresponde, no PCFD, a um pé flexível com classe B (abdução) ou D (subluxação peritalar), e o livro usa exatamente essa correspondência ao discutir as limitações da osteotomia medializante (p. 3821).

Classificação PCFD do consenso da AOFAS (Campbell 15, cap. 88, Tabela 88.2, p. 3814)
ClasseTipo e local da deformidadeAchados clínicos e radiográficos consistentes
AValgo do retropéAlinhamento em valgo; braço de momento do retropé, ângulo de alinhamento do retropé e offset pé-tornozelo aumentados
BAbdução do médio e antepéCobertura da cabeça do tálus diminuída; ângulo de cobertura talonavicular aumentado; impacto no seio do tarso
CAntepé varo ou instabilidade da coluna medialTalo-1º metatarso aumentado; abertura plantar da 1ª tarsometatarsal ou da naviculocuneiforme; antepé varo clínico
DSubluxação ou luxação peritalarSubluxação subtalar importante; impacto subfibular
EInstabilidade do tornozeloInclinação em valgo do tornozelo
EstágioI flexível; II rígidoClasses isoladas ou combinadas

Imagem: os ângulos que a prova pede

Cobrança confirmada · 3 questões

Radiografias com carga

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), pede AP e perfil com carga e avisa que elas podem ou não ajudar: na tenossinovite com tendão íntegro, as radiografias costumam ser normais, mesmo com algum achatamento clínico. Com a progressão, os parâmetros mais usados são o ângulo talo-1º metatarso no perfil, o ângulo de alinhamento do retropé, o braço de momento do retropé, o pitch do calcâneo e o ângulo de cobertura talonavicular (p. 3814).

No perfil com carga: o talo-1º metatarso normal fica entre 0 e 10 graus; aumentado, indica perda do arco longitudinal medial. Metatarsos sobrepostos ou perda de altura do cuneiforme medial também indicam arco deprimido. A perda do pitch do calcâneo pode indicar tanto queda do arco quanto contratura do gastrocsóleo, e o ângulo tibiocalcâneo lateral com carga mostrou-se aumentado em adultos com pé plano e contratura do calcâneo, como forma barata e reprodutível de quantificá-la (p. 3814 e 3815).

No AP com carga: a abdução do antepé pelo mediopé aumenta o talo-1º metatarso, que normalmente deveria ser 0; e o eixo do 2º metatarso deve bissectar o ângulo talocalcâneo formado pelos eixos do tálus e do calcâneo (p. 3815). A figura 88.8 mostra o padrão completo do pé doente: no AP, cabeça do tálus descoberta com o navicular em abdução e divergência do ângulo talocalcâneo AP (ângulo de KITE); no perfil, tálus em flexão plantar (cabeça para plantar, medial e distal), perda do pitch, colapso da naviculocuneiforme e sobreposição dos metatarsos (p. 3817).

O HEBERT (cap. 21.2) pede frente e perfil com apoio e axial posterior do calcâneo, mais a frente do tornozelo, e lista os achados: aumento da divergência talocalcânea, rotação medial do tálus, abdução do médio e antepé, diminuição do arco, inflexão na talonavicular, verticalização do tálus, valgo do calcâneo, área de impacto calcaneofibular, inclinação do tálus na pinça e artrose subtalar, tibiotársica e talonavicular.

O ângulo de MÉARY

O ângulo de MÉARY é o ângulo entre o eixo longitudinal do tálus e o eixo longitudinal do 1º metatarso, medido no perfil com carga. O HEBERT (cap. 21.4, pé cavo) dá o valor normal de 0 grau; no capítulo de pé plano (20.4), a mesma linha é chamada de linha de MÉARY-TOMENO (ou de SHADE), a linha anatômica normal que passa pelo eixo do tálus e do 1º metatarso. O Campbell (cap. 92, p. 4057 aprox.) chama o mesmo parâmetro de ângulo talo-1º metatarso (de MÉARY) no perfil com carga. É o mesmo "talo-1º metatarso lateral" que o capítulo 88 lista entre os parâmetros da PCFD, com normal de 0 a 10 graus. No pé plano, o eixo do tálus aponta para baixo do eixo do 1º metatarso (vértice plantar); no cavo, para cima.

Os valores normais do HEBERT

O capítulo de pé plano do HEBERT (cap. 20.4) dá os números que as provas de múltipla escolha usam. O ângulo talocalcâneo (KITE ou GIANNESTRAS), formado pelos eixos do tálus e do calcâneo, é normal entre 20 e 40 graus no AP e entre 35 e 50 graus no perfil; no pé plano valgo, ele aumenta nas duas incidências. O ângulo talonavicular (eixo do tálus com a paralela à superfície articular distal do navicular) é normal entre 60 e 80 graus, e no AP um valor menor que 60 graus indica desvio medial do tálus. O pitch do calcâneo (calcâneo-solo) é normal entre 15 e 25 graus; abaixo de 15 graus sugere pé plano com encurtamento do tendão calcâneo.

Com esses números, a análise das alternativas fica mecânica. No pé plano, o talocalcâneo AP acima de 40 graus está aumentado: correto. O talocalcâneo no perfil abaixo de 35 graus seria diminuído, o contrário do esperado. O pitch maior que 25 graus é o do pé cavo, não do plano. E um ângulo talonavicular acima de 80 graus não é o critério descrito pelo livro para a descobertura da cabeça do tálus.

Ângulos radiográficos do pé plano (HEBERT, caps. 20.4 e 21.4; Campbell 15, cap. 88, p. 3814 e 3815)
ÂnguloIncidênciaNormalNo pé plano
Talocalcâneo (KITE)AP com carga20 a 40 grausAumentado (divergência)
TalocalcâneoPerfil com carga35 a 50 grausAumentado
Talo-1º metatarso (MÉARY)Perfil com carga0 grau (Campbell: 0 a 10)Aumentado, vértice plantar
Talo-1º metatarsoAP com carga0Aumentado pela abdução
Pitch do calcâneoPerfil com carga15 a 25 grausDiminuído (menos de 15 sugere contratura do calcâneo)
TalonavicularAP60 a 80 grausAlterado; menos de 60 indica desvio medial do tálus
Cobertura da cabeça do tálusAP com cargaCabeça coberta pelo navicularDescoberta: menos de 30% (IIA), mais de 30% (IIB)

O ângulo de incongruência talonavicular lateral

Para separar o IIA do IIB pela abdução talonavicular, o ângulo de incongruência talonavicular lateral aumentou significativamente no IIB, enquanto a distância de incongruência não diferiu (p. 3815). No AP com carga (Fig. 88.6, de ELLIS e colaboradores), uma linha une a borda lateral da superfície articular do tálus à borda lateral do navicular; outra vai do ponto mais estreito da face lateral do colo do tálus à borda articular do tálus; o intervalo distal e lateral entre elas é o ângulo, que cresce quanto mais o navicular escorrega para lateral (p. 3816).

Outras medidas e outros exames

O ângulo de alinhamento do retropé mede o valgo de forma confiável (as radiografias de alinhamento mostram mais valgo que a clínica), e as radiografias do tornozelo com carga detectam o valgo tibiotalar do estágio IV (p. 3815).

A ressonância separa degeneração, rotura e peritendinite com derrame (T2 e supressão de gordura para derrame e degeneração cística; T1 para contorno e descontinuidade) e avalia a mola e o tibionavicular (p. 3816); para o HEBERT é o padrão-ouro, e a ultrassonografia é mal definida na inserção.

A tomografia com carga (WBCT) importa porque imagens sem carga subestimam a correção necessária; ela mostra o osso e a RM as partes moles, a subluxação peritalar é mais sensível na faceta média, e a AOFAS recomenda fortemente a WBCT para planejar (p. 3817 e 3818).

O que pode imitar a PCFD

Imitam a PCFD a artrose de LISFRANC com colapso secundário, o colapso traumático distal à mediotarsal com tendão íntegro, as coalizões tarsais (sobretudo unilaterais), a neuroartropatia e o pé plano flexível idiopático; a imagem com carga esclarece (Campbell, cap. 88, p. 3815 e 3816).

Tratamento não operatório e tenossinovite

Relevância clínica

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), lembra que, embora o capítulo destaque a cirurgia, o tratamento não operatório muitas vezes resolve a dor, e que as expectativas do paciente sobre voltar ao nível de função anterior devem ser conhecidas antes de qualquer decisão (p. 3818).

Estágio I: tenossinovite

A tenossinovite se trata com repouso, anti-inflamatórios não esteroides e suporte: bota de marcha com suporte do arco medial, tornozeleira ou gesso curto de marcha. O livro é taxativo: não se recomenda infiltração de corticoide em nenhum tendão do pé e do tornozelo, porque a literatura (limitada e antiga) sugere maior risco de rotura e de cirurgia, por um insulto vascular transitório ao tendão. Passada a fase aguda, reabilitação da panturrilha e da perna com isométricos graduados e alongamento do gastrocsóleo. Para evitar a recidiva, uma órtese com cunha medial no calcanhar e poste medial no antepé põe o retropé em neutro e reduz a força exigida do tibial posterior (p. 3818).

Se o conservador falha, faz-se tenossinovectomia, aberta ou endoscópica: remove-se a sinóvia, procuram-se roturas longitudinais, imbrica-se o tendão em 1,0 a 1,5 cm se a inserção estiver íntegra e deixa-se o retináculo flexor aberto; carga adiada 4 a 6 semanas (técnica 88.1, p. 3819 a 3821). Em pé plano simétrico pode-se somar osteotomia medializante ou de COTTON (p. 3818).

O HEBERT (cap. 21.2) acrescenta emagrecimento às medidas e ressalva que o conservador é eficaz no início, mas vira paliativo pelo risco de progressão; na tenossinovite resistente após seis meses, debridamento sinovial e liberação do retináculo; com contraindicação cirúrgica, goteiras de polipropileno.

Deformidade flexível: órtese antes da cirurgia

No pé flexível, a maioria melhora com palmilha com poste medial e AFO: a AFO de duas hastes com tira em T medial (20 a 30 graus de flexão plantar e 10 de extensão) ou a AFO articulada de polipropileno (RICHIE brace), mais aceita. Depois de 9 a 12 meses muitos passam a calçado comum com palmilha, e um protocolo de fisioterapia fez 83% evitarem a cirurgia (Campbell, cap. 88, p. 3821).

Tratamento não operatório por fase (Campbell 15, cap. 88, p. 3818 e 3821; HEBERT, cap. 21.2)
FaseMedidasObservações
Tenossinovite (I)Repouso, AINE, bota com suporte do arco, tornozeleira ou gesso curtoSem infiltração de corticoide
Prevenção de recidiva do IÓrtese com cunha medial no calcanhar e poste medial no antepéRetropé em neutro, menos carga no tendão
ReabilitaçãoIsométricos graduados, alongamento do gastrocsóleoApós a fase aguda
Flexível (II)Palmilha com poste medial e AFO; AFO de duas hastes com tira em T medial ou RICHIE9 a 12 meses; 83% evitaram cirurgia com protocolo
Rígido (III) e tornozelo (IV)AFO acomodativa de duas hastesPara quem não pode ou não quer operar
Contraindicação cirúrgicaGoteira de polipropileno (HEBERT)Alívio da dor e função

Deformidade flexível: tendão, mola e osteotomias do calcâneo

Cobrança confirmada · 1 questão

Os princípios

Quando o conservador não é aceito ou falha, o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), define os objetivos: alívio da dor e melhora da função por realinhamento do pé e preservação do movimento, mas o movimento é secundário a um pé estável e alinhado. E traz a lição histórica que explica por que hoje se associam ossos e partes moles: o entusiasmo inicial pela transferência isolada do flexor longo dos dedos para o navicular, com ou sem reforço lado a lado com o coto do tibial posterior, diminuiu por causa da alta incidência de falha. Um tendão transferido não segura sozinho um pé que continua desalinhado; a deformidade empurra contra ele a cada passo. Por isso, além de reconstruir o tendão, corrige-se a deformidade (p. 3821).

As ferramentas ósseas com resultado satisfatório são o alongamento da coluna lateral (LCL), a osteotomia de deslocamento medial da tuberosidade do calcâneo (MDCO), a osteotomia em Z do calcâneo ou a combinação de LCL e MDCO. No lado medial, entram o reparo da mola, a artrodese de uma ou mais articulações do mediopé ou a osteotomia de COTTON, para restaurar a integridade da coluna medial. O livro dá um exemplo do raciocínio por localização: um PCFD estágio 1, classe C (flexível com instabilidade da coluna medial) se beneficia de artrodese da 1ª tarsometatarsal, da naviculocuneiforme ou da coluna medial (p. 3821). E resume: nenhum procedimento ósseo é o melhor, e o cirurgião deve dominar tanto a MDCO quanto o LCL.

O HEBERT (cap. 21.2) chega à mesma lógica: no estágio II, ressecção do segmento degenerado, reforço ou transposição do flexor longo dos dedos para a tuberosidade do navicular por túnel ósseo, encurtamento da mola e plicatura do deltoide; e, como as partes moles isoladas afrouxam, na deformidade em valgo flexível é preciso alinhar o retropé com osteotomia varizante do calcâneo (cunha arciforme medial ou translação medial).

A transferência do flexor longo dos dedos

O FLH é mais forte, mas o FLD é mais adequado pela posição, e o FLD transferido hipertrofia na RM. Se o ventre do tibial posterior está inelástico, não contrai ao bisturi elétrico e perdeu a cor, não se sutura o FLD ao coto; se está normal, faz-se transferência lado a lado com trama de PULVERTAFT. O autoenxerto segue como padrão (Campbell, cap. 88, p. 3821 e 3822).

Na técnica 88.2, os tendões são expostos no nó de HENRY, lateral à tuberosidade do navicular, onde o FLH cruza dorsal ao FLD; os ramos plantares mediais ficam a cerca de 2 cm. O FLD é cortado, não precisa passar pela polia do tibial posterior, entra num túnel no navicular (de plantar para dorsal) e é tensionado com o pé em equinovaro, posição mantida por 4 a 6 semanas (p. 3822 e 3823).

A mola

A mola alongada também contribui, mas o reparo direto tem resultados equívocos (um estudo não mostrou diferença); com ligamento muito atenuado faz-se reconstrução com aloenxerto, com o próprio tibial posterior ou com o fibular longo (WILLIAMS), e a fita de sutura não tem superioridade demonstrada (p. 3823 a 3825).

Osteotomia medializante do calcâneo

A osteotomia de deslocamento medial do calcâneo surgiu como alternativa ao alongamento da coluna lateral. Combinada a um procedimento medial de partes moles, melhora a deformidade e a dor, e a maioria dos pacientes volta ao sapato comum sem órtese; a análise de marcha mostrou melhora de velocidade, movimento do retropé e potência depois de FLD para o navicular, reconstrução da mola e MDCO (p. 3826 e 3827).

O mecanismo é o mais bonito do capítulo. Ao deslocar a tuberosidade do calcâneo, e com ela a inserção do tendão calcâneo, para medial do eixo da subtalar, o gastrocsóleo passa a funcionar como inversor do retropé, ajudando a inverter o pé e diminuindo a dependência do FLD transferido. Em outras palavras, a osteotomia transforma o músculo mais forte da perna em aliado do tendão novo. As vantagens são consolidação previsível e ausência do aumento de pressão na calcaneocuboide que o alongamento lateral provoca. Existe versão minimamente invasiva, igualmente eficaz, com menos complicações de ferida e de nervo (p. 3827).

A indicação: o autor a acha mais útil quando o AP com carga não mostra abdução grave do mediopé; o consenso da AOFAS de 2020 a recomenda para valgo isolado do retropé com cobertura talonavicular adequada (descobertura menor que 40%) e sem supinação, varo ou abdução importantes do antepé. Vários autores relatam limitações da MDCO no estágio IIB (PCFD flexível com classe D) (p. 3821 e 3827).

Tecnicamente, a osteotomia é angulada cerca de 45 graus, a tuberosidade é transladada 10 mm medialmente e fixada com parafuso canulado, sem carga por 8 a 10 semanas (técnica 88.7, p. 3826 e 3827).

O HEBERT (cap. 20.4) dá a origem do procedimento: a osteotomia de deslizamento medial do calcâneo foi descrita por KOUTSOGIANNIS em 1971, para realinhar o calcâneo com o solo colocando a borda medial do fragmento osteotomizado em alinhamento com o sustentáculo do tálus. É por isso que algumas provas a chamam de "osteotomia de KOUTSOGIANNIS".

Alongamento da coluna lateral: EVANS e HINTERMANN

O alongamento da coluna lateral (osteotomia anterior do calcâneo) melhora em laboratório a deformidade do antepé e a altura do arco. Para o autor, é mais útil quando há abdução importante do antepé no AP com carga (p. 3825). Há duas variações: a osteotomia entre as facetas média e anterior (EVANS) e a osteotomia entre as facetas média e posterior (HINTERMANN), ambas com bons resultados; a de HINTERMANN tem menos artrose radiográfica na calcaneocuboide e menos lesão da subtalar, mas talvez sem relevância clínica. O LCL também pode ser feito como artrodese de distração da calcaneocuboide (SANGEORZAN), com enxerto maior (1,5 cm) e união mais difícil (p. 3821 e 3825).

O HEBERT (cap. 20.4) conta a lógica original: EVANS (1975) observou que no pé plano há encurtamento relativo da coluna lateral, e o objetivo é igualar as duas colunas, corrigindo o valgo no local do problema; MOSCA (1995) refinou a técnica, tornando a osteotomia oblíqua, a 1,5 cm da calcaneocuboide, com enxerto tricortical da crista ilíaca e pino na calcaneocuboide para evitar sua subluxação.

Comparado com a MDCO, o LCL corrige mais e mantém melhor a correção, com menos reoperação, apesar de mais pseudartrose e mais artrose radiográfica das articulações vizinhas. O consenso da AOFAS de 2020 recomenda o LCL quando a descobertura talonavicular passa de 40%. A quantidade de alongamento se decide no intraoperatório pela cobertura da talonavicular, preservando alguma eversão passiva; adução da talonavicular (supercobertura) no intraoperatório é sinal de hipercorreção e de risco de sobrecarga da coluna lateral. O alongamento típico é de 5 a 10 mm. Aloenxerto tem consolidação e complicações equivalentes ao autoenxerto, e cunhas de titânio poroso tiveram 96% de união num estudo (p. 3825).

As complicações são relativamente frequentes: colapso do enxerto, pseudartrose, dor na coluna lateral, artrose calcaneocuboide, neurite do sural e implante doloroso; a osteotomia fica 1,0 a 1,5 cm proximal à calcaneocuboide (técnica 88.5). A osteotomia em Z (SCOTT e BERLET) teve menos pseudartrose e enxertos menores, com correção semelhante (p. 3825 e 3826).

Osteotomia medializante contra alongamento da coluna lateral (Campbell 15, cap. 88, p. 3821, 3825 a 3827; HEBERT, cap. 20.4)
AspectoOsteotomia medializante do calcâneo (MDCO, KOUTSOGIANNIS)Alongamento da coluna lateral (EVANS, HINTERMANN)
Onde cortaTuberosidade, oblíqua a 45 grausCalcâneo anterior: entre facetas anterior e média (EVANS) ou média e posterior (HINTERMANN)
O que corrigeValgo do retropéAbdução do antepé e altura do arco
MecanismoTendão calcâneo medial ao eixo subtalar: gastrocsóleo vira inversorIguala as colunas; o navicular volta a cobrir o tálus
Indicação AOFAS 2020Valgo isolado, descobertura menor que 40%, sem abdução, varo ou supinação importantesDescobertura talonavicular acima de 40%
VantagensConsolidação previsível; sem sobrecarga calcaneocuboideCorrige mais, mantém melhor, menos reoperação
ProblemasLimitada no IIB (classe D)Pseudartrose, colapso do enxerto, dor lateral, artrose calcaneocuboide, neurite sural
Detalhe técnicoTranslação de 10 mmAlongar 5 a 10 mm; supercobertura indica hipercorreção

Artrorrise subtalar

A artrorrise subtalar (implante no seio do tarso que limita a rotação externa do calcâneo sob o tálus) só vale associada a outros procedimentos e no flexível ou IIA; a retirada do implante chega a 7% a 46%, e comparada ao LCL teve mais dor e mais retirada (Campbell, cap. 88, p. 3831).

A coluna medial e a osteotomia de COTTON

Cobrança confirmada · 1 questão

Por que o antepé precisa ser corrigido

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), retoma o fenômeno descrito na deformidade: com o valgo antigo do retropé, o antepé se acomoda com supinação progressiva. Essa supinação fica mais evidente depois que o retropé é corrigido, criando um pé desequilibrado, com a cabeça do 1º metatarso no ar. Para equilibrar o apoio triangular do pé, a supinação precisa ser corrigida flexionando plantarmente a coluna medial (p. 3827).

A osteotomia de COTTON

A osteotomia em cunha de abertura do cuneiforme medial (COTTON) flexiona plantarmente a cabeça do 1º metatarso e, com isso, melhora a supinação do antepé, isto é, leva o antepé em direção à pronação. Resultados excelentes sem complicações maiores foram descritos quando usada como procedimento adjunto na correção do pé plano. O livro alerta para evitar flexão plantar excessiva: um ângulo articular do cuneiforme menor ou igual a 22 graus associou-se a resultados piores. Comparada à artrodese da 1ª tarsometatarsal, a COTTON tem consolidação previsível, preserva a mobilidade do 1º raio e permite graduar a correção. A correção imediata, porém, pode não se manter: um estudo mostrou perda de 50% da altura da coluna medial em 8,6 anos, por colapso através das articulações da coluna medial, sem avaliação da satisfação dos pacientes (p. 3827 a 3829).

Na técnica 88.8 (HIROSE e JOHNSON), feita para o antepé varo fixo do pé plano, a osteotomia é transversa no meio do cuneiforme medial, aberta com cunha de 5 a 6 mm de crista ilíaca, até levar o 1º raio ao nível do 5º metatarso, o "tripé" de COTTON (p. 3829 a 3831).

O raciocínio para a prova: COTTON abre o cuneiforme por cima (cunha de abertura dorsal medial), a cabeça do 1º metatarso desce (flexão plantar) e o antepé prona. Se a alternativa disser flexão dorsal, é o oposto; se disser supinação, é o defeito que a cirurgia vem corrigir.

Estabilização da coluna medial

Quando o colapso está na naviculocuneiforme ou na cuneiforme-metatarso, a artrodese da coluna medial (GREISBERG) teve 94% de união e pode melhorar até o retropé (Campbell, cap. 88, p. 3832 e 3833).

Deformidade rígida: as artrodeses do retropé

Cobrança confirmada · 2 questões

O que o capítulo 88 indica

Para o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), no estágio III, com deformidade rígida e fixa do retropé e alterações degenerativas do complexo das três articulações, a artrodese está indicada se as medidas não operatórias falharem; a principal medida conservadora é a órtese acomodativa, como a AFO de duas hastes. Há várias opções descritas: talonavicular isolada, subtalar isolada, talonavicular com calcaneocuboide, talonavicular com subtalar e tríplice. A artrodese tríplice é o procedimento de escolha para essa condição (p. 3831).

A talonavicular isolada serve ao idoso de baixa demanda. Com a calcaneocuboide poupada, a artrodese dupla (subtalar e talonavicular, "diple") preserva a coluna lateral e funciona como alongamento relativo dela, embora alguns relatem mais pseudartrose. A preferência do autor é a dupla para a rígida leve e incluir a calcaneocuboide nas grandes correções (p. 3832).

O HEBERT (cap. 21.2) fala a mesma língua: nos estágios avançados, com deformidade grave e artrose subtalar, a artrodese tríplice modelante é a melhor opção. E faz uma advertência que equilibra a questão: nos casos intermediários dos grupos II e III, a artrodese não deve ser considerada método de eleição. Ou seja, a fusão é para o pé rígido e artrósico, não para o pé que ainda pode ser realinhado.

A técnica da artrodese no capítulo 90

O capítulo 90 (Arthritis of the Foot, David R. RICHARDSON) é onde o Campbell descreve as artrodeses do retropé em detalhe, e o contexto ajuda a entender por que elas servem à PCFD rígida. O autor observa que a artrose primária com bom alinhamento pode ocorrer no retropé, mas em geral vem associada a instabilidade ou deformidade, muitas vezes por desequilíbrio dos estabilizadores dinâmicos, como o tibial posterior ou os fibulares. A subtalar é a mais afetada, e a maioria dos candidatos a artrodese subtalar ou tríplice tem contratura do gastrocsóleo (p. 3982).

A indicação é a falha do conservador ou sinovite persistente após 6 meses. A exceção é o valgo com sintomas só no trajeto do tibial posterior: a tenossinovectomia resolve se não houver dor lateral e a deformidade for completamente redutível. Fora disso, com a tibiotalar estável, faz-se subtalar se a mediotarsal estiver poupada e tríplice se não estiver; a subtalar isolada corrige só valgo leve e pode precisar da osteotomia medializante (p. 3983).

A posição final deixa 5 a 10 graus de valgo do retropé: eleva-se a cabeça do tálus para dorsal e lateral e leva-se o antepé para medial e plantar, sem deixar o antepé supinado ao fixar a talonavicular (o paciente pisaria na borda lateral); se a redução gerar equino, alonga-se o tendão calcâneo (p. 3983).

Nos detalhes: na subtalar, se mais de um terço da face lateral do calcâneo bate na fíbula, a fusão sozinha não corrige e entra a osteotomia medializante (p. 3984); na talonavicular, antepé neutro e nunca supinado (p. 3988); na tríplice, a supinação do antepé é corrigida depois de reduzir o retropé (Fig. 90.32, p. 3989 e 3990).

Artrodeses do retropé na PCFD rígida (Campbell 15, cap. 88, p. 3831 e 3832; cap. 90, p. 3982 a 3990; HEBERT, cap. 21.2)
ArtrodeseQuandoObservação
Tríplice (subtalar, talonavicular, calcaneocuboide)Estágio III, deformidade moderada a grave, calcaneocuboide envolvidaProcedimento de escolha; "modelante" no HEBERT
Dupla ou diple (subtalar e talonavicular)Rígida leve, calcaneocuboide poupadaPreserva a coluna lateral; para alguns, mais pseudartrose
Talonavicular isoladaIdoso de baixa demandaCorrige bem com alívio da dor
Subtalar isoladaMediotarsal poupada, valgo leveSomar MDCO se mais de um terço do calcâneo bate na fíbula
Posição finalTodas5 a 10 graus de valgo; nunca antepé supinado
AdjuvantesEquinoAlongamento percutâneo do calcâneo

Quando a tríplice entra no estágio II: a pergunta de MANN

Provas antigas atribuem a MANN o critério para indicar tríplice ainda no estágio II: o movimento da articulação de CHOPART (a mediotarsal) e o varismo do antepé. Os livros conferidos não citam MANN, mas o raciocínio está no Campbell: se a mediotarsal ainda se move, há o que preservar; e o antepé varo é a supinação compensatória do início do capítulo (p. 3811), que, fixa, deixa o 1º metatarso no ar após corrigir o retropé e pede COTTON (feita por HIROSE e JOHNSON para o antepé varo fixo, p. 3831) ou uma fusão que derrote o antepé (cap. 90, p. 3983). Valgo do antepé e LISFRANC não fazem parte dessa decisão.

O estágio IV: o tornozelo em valgo

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), chama o tornozelo incongruente em valgo de problema dos mais difíceis: a órtese é o pilar; no rígido, artrodese do tornozelo ou tibiotalocalcânea, ou artroplastia total se o retropé for corrigível (p. 3833 e 3834).

E há uma armadilha iatrogênica: o valgo do tornozelo pode surgir depois da artrodese do retropé, porque o retropé valgo instável aliviava o deltoide incompetente e, uma vez rígido, transfere a ele todo o estresse; 17 de 59 pacientes o desenvolveram após artrodese subtalar, associado ao braço de momento do retropé pré-operatório, e não ao aspecto do deltoide na RM (p. 3834).

A reconstrução do deltoide cabe só em pé flexível e redutível, inclinação tibiotalar menor que 10 graus e artrose lateral mínima (técnica de JENG, BLUMAN e MYERSON, p. 3834). O detalhe do estágio IV está em campbell15-tendoes-fibulares.

Tratamento cirúrgico por estágio de JOHNSON e STROM (Campbell 15, cap. 88, p. 3818 a 3835; cap. 90, p. 3983; HEBERT, cap. 21.2)
EstágioProblemaCirurgia se o conservador falhar
ITenossinoviteTenossinovectomia (aberta ou endoscópica), imbricação; liberação do retináculo
II (flexível)Tendão perdido, pé desalinhado e redutívelFLD para o navicular com MDCO (KOUTSOGIANNIS) e/ou LCL (EVANS); mola; COTTON ou artrodese da coluna medial
IIAAbdução mínimaMDCO costuma bastar
IIBAbdução grave (descobertura acima de 30%)LCL quando descobertura acima de 40%; MDCO limitada
III (rígido)Deformidade fixa, artroseArtrodese tríplice (escolha) ou dupla; talonavicular isolada no idoso
IVTornozelo em valgoRígido: artrodese do tornozelo ou tibiotalocalcânea, ou artroplastia; flexível com menos de 10 graus: reconstrução do deltoide

Possível cobrança

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), trata à parte o navicular acessório: KIDNER propôs excisar o ossículo e redirecionar o tibial posterior para plantar, mas o livro considera incerta a relação causal com o pé plano, porque muitos portadores têm arco normal.

O ossículo está em 10% a 14% dos pés normais, só se trata se sintomático, e no adulto com pé plano unilateral pode exigir excisão, avanço do tendão e EVANS; o KIDNER alivia a dor da tuberosidade, mas não garante o arco (p. 3835 e 3836).

Fechamento

Fundamento

O tibial posterior se gasta na polia, os fibulares passam a mandar, a mola cede e o pé desaba em valgo do retropé, abdução do mediopé e pronação do antepé, com supinação compensatória do 1º raio que aparece ao corrigir o retropé. Por trás, muitos dedos; não há elevação unipodal; o paciente inverte com o tibial anterior; a dor migra de medial para o seio do tarso. O tratamento segue a rigidez: sem corticoide na tenossinovite; no flexível, FLD sempre com correção óssea (medializante, EVANS, COTTON); no rígido, tríplice ou dupla com 5 a 10 graus de valgo e antepé nunca supinado.

A classificação de JOHNSON e STROM acompanha essa história: I tenossinovite com elevação unipodal preservada; II flexível, sem elevação unipodal, com BLUMAN separando IIA (menos de 30% da cabeça do tálus descoberta) e IIB (mais de 30%); III rígido com artrose; IV de MYERSON com valgo do tornozelo. O consenso PCFD da AOFAS troca a numeração (estágio I flexível, II rígido) e localiza a deformidade em classes A a E. Na imagem, MÉARY liga o tálus ao 1º metatarso, o talocalcâneo sobe (acima de 40 graus no AP), o pitch cai, e o ângulo de incongruência talonavicular lateral cresce no IIB.

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