Orto Questões

Tendão calcâneo

Pé e tornozeloResumo do capítulo38 min de leitura

Zona hipovascular de 2 a 6 cm acima da inserção e irrigação mais rica pelo mesotendão anterior; pico da ruptura entre 30 e 40 anos, risco quase 200 vezes maior de romper o outro lado, hiperpronação subtalar como fator intrínseco e fluoroquinolonas como extrínseco; mecanismo de impulsão com joelho estendido ou dorsiflexão súbita; THOMPSON positivo quando apertar a panturrilha não produz flexão plantar, MATLES com o pé caindo em neutro; conservador atual com órtese funcional e reabilitação agressiva; rerruptura de 0,6% operando contra 6,2% sem operar, e rerruptura como complicação mais comum; LYNN usa o plantar delgado em leque; crônica a partir de 4 a 6 semanas, sutura direta se o defeito for menor que 3 cm e a lesão tiver menos de 3 meses, V-Y, BOSWORTH com tira da rafe do gastrocnêmio e flexor longo do hálux para defeitos maiores; HAGLUND é a exostose posterossuperior da tuberosidade, a tendinopatia insercional se trata primeiro sem cirurgia e o salto elevado alivia.

Atualizado em 03/11/2026 · 38 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 21.2 · Lesões tendíneas, com o Capítulo 21.1 · Talalgias do mesmo livro, os Capítulos 53 · Traumatic Disorders (seção Rupture of Achilles Tendon) e 88 · Disorders of the Tendons and Fascia (seção Disorders of the Achilles Tendon) do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., em Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), 5ª edição (2017), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 53 e 88), e o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed.. Autores do capítulo: Antônio Egydio de CARVALHO JR. e Marta IMAMURA (caps. 21.1 e 21.2, este com Décio Cerqueira de MORAES FILHO); David L. BERNHOLT e Frederick M. AZAR (Campbell, cap. 53); Benjamin J. GREAR (Campbell, cap. 88).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), capítulo 21, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

Ler no leitor do Orto QuestõesCriar conta grátis

No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

O tendão calcâneo é o tema de pé e tornozelo que mais aparece nas provas de título, e quase sempre pelo mesmo caminho: uma pessoa de meia-idade, ativa nos fins de semana, sente uma pedrada atrás da perna ao arrancar para uma bola. O resto da prova gira em torno das decisões que vêm depois: como confirmar a ruptura, quando operar, quanto rompe de novo, o que fazer quando o diagnóstico atrasou e o espaço entre os cotos já se encheu de cicatriz. Em paralelo, a banca cobra a outra face do tendão, a doença degenerativa sem trauma, separada em não insercional e insercional, com a deformidade de HAGLUND e as duas bolsas.

O texto principal deste resumo vem do Sizínio HEBERT, Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática, 5ª ed. (2017), capítulo 21.2 (Lesões tendíneas, de Antônio Egydio de CARVALHO JR. e Marta IMAMURA), com a doença de HAGLUND do capítulo 21.1 (Talalgias). Ao lado dele, quase sempre em contraponto, estão os dois capítulos do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.: o capítulo 53 (Traumatic Disorders, de David L. BERNHOLT e Frederick M. AZAR), com a ruptura aguda e crônica e suas técnicas (p. 2252 a 2269), e o capítulo 88 (Disorders of the Tendons and Fascia, de Benjamin J. GREAR), com a anatomia e as tendinopatias (p. 3846 a 3853). O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed., entra com a epidemiologia e o risco de trombose.

O resumo Tendões fibulares e outras tendinopatias do pé e tornozelo trata o calcâneo em três seções curtas; este aprofunda esses pontos e acrescenta a vascularização, os fatores de risco, o exame, o tratamento funcional, as técnicas, a crônica e as complicações.

Anatomia: dois músculos, uma torção e duas bolsas

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), abre a seção dizendo que o tendão calcâneo é o maior e mais forte tendão do tornozelo (p. 3846). Ele nasce de duas unidades musculares: o gastrocnêmio, dos côndilos femorais, acima do joelho, e o sóleo, da tíbia, da fíbula e da membrana interóssea. Essa diferença de origem explica um fato que a prova adora: o gastrocnêmio é mais eficiente em flexão plantar com o joelho estendido, porque está esticado sobre duas articulações; o sóleo é mais eficiente com o joelho fletido, quando o gastrocnêmio está frouxo. Os dois percorrem o compartimento posterior superficial da perna.

O detalhe mais elegante é a torção. As fibras giram 90° até a inserção na tuberosidade do calcâneo, de modo que as do gastrocnêmio ficam laterais e as do sóleo, mediais no ponto de inserção (Campbell, p. 3846). O HEBERT descreve a mesma torção de outro ângulo: a fibra posterolateral se insere na região anteromedial. Por que importa? Porque um tendão torcido concentra tensão em um segmento estreito, e é exatamente o segmento que o sangue alcança pior. A torção, a demanda mecânica e a irrigação pobre se somam no mesmo lugar.

O HEBERT acrescenta medidas que ajudam a visualizar a inserção: ela começa cerca de 1 cm distal ao tubérculo posterossuperior do calcâneo e se estende por mais ou menos 2 cm na face posterior.

Para se proteger do atrito, o tendão fica entre duas bolsas. O HEBERT chama de bolsa tendínea calcânea a que fica entre o tendão e a tuberosidade superior do calcâneo, e de bolsa subcutânea calcânea a que fica entre o tendão e a pele. O Campbell usa os nomes que a prova costuma usar: bursa retrocalcânea para a profunda, logo anterior e proximal à área de inserção, e bursa pré-tendínea (superficial) para a que separa o tendão da pele (p. 3846). Guardar essa geometria resolve metade das questões de dor no calcanhar: a bolsa profunda sofre com a tuberosidade, a superficial sofre com o sapato.

O HEBERT lembra que, na marcha, o tendão recebe 4 a 7 vezes o peso corporal, e que a viscoelasticidade o torna mais forte que o músculo: nenhuma contração rompe um tendão normal. Se rompeu, havia doença antes.

O tendão calcâneo em números (HEBERT, cap. 21.2; Campbell 15, cap. 88, p. 3846 e 3848)
DadoValorFonte
Torção das fibras90°; gastrocnêmio lateral e sóleo medial na inserçãoCampbell, p. 3846
Início da inserçãoCerca de 1 cm distal ao tubérculo posterossuperior, estendendo-se 2 cmHEBERT
Zona de pior irrigação2 a 6 cm acima da inserçãoOs dois livros
Carga na marcha4 a 7 vezes o peso corporalHEBERT
Carga na maratonaAté 1.900 N num corredor de 70 kgHEBERT

Vascularização e a zona hipovascular

Cobrança confirmada · 1 questão

Os dois livros concordam no número que mais cai: a zona de pior irrigação fica 2 a 6 cm acima da inserção no calcâneo. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), diz que ela foi demonstrada por angiografia e que a ruptura se relaciona com essa área relativamente hipovascular (p. 2253). O capítulo 88 chama o mesmo segmento de zona de divisor de águas (watershed) e diz que é nele que mora a tendinose não insercional (p. 3850). O HEBERT atribui a maior frequência da ruptura nesse ponto à zona hipovascular, citando os trabalhos de TRUETA.

De onde vem o sangue? O Campbell descreve três fontes no capítulo 88 (p. 3846): o paratendão, pela face profunda do tendão; os ramos arteriais musculares dentro do gastrocsóleo, no alto; e pequenos vasos interósseos na inserção, embaixo. Entre a contribuição muscular de cima e a óssea de baixo fica um trecho que depende só do paratendão, e esse trecho é a zona de 2 a 6 cm.

O capítulo 53 é mais específico sobre a parte que a prova cobra: a principal irrigação do tendão passa pelo mesotendão, e a mais rica é a do mesentério anterior (p. 2253). Com a idade, esse suprimento mesentérico anterior diminui. O HEBERT completa a origem: os vasos do peritendão vêm das artérias tibial posterior e fibular.

A consequência cirúrgica está nas técnicas: não descolar o mesotendão da face profunda (técnica 88.17, p. 3851) e evitar dissecar a face ventral no reparo percutâneo (técnica 53.13, p. 2260). Face anterior, profunda e ventral são a mesma superfície, a que fica longe da pele: é ali que estão os vasos.

Irrigação do tendão calcâneo (Campbell 15, cap. 53, p. 2253; cap. 88, p. 3846; HEBERT, cap. 21.2)
FonteOnde entraObservação
Mesotendão e paratendãoFace anterior (profunda) do tendãoPrincipal; o mesentério anterior é o mais rico e diminui com a idade
Ramos muscularesJunção miotendínea, dentro do gastrocsóleoIrrigam o terço proximal
Vasos interósseosInserção no calcâneoIrrigam o terço distal
Artérias de origemTibial posterior e fibularDão os vasos do peritendão (HEBERT)
Zona de divisor de águas2 a 6 cm acima da inserçãoRuptura aguda e tendinose não insercional

Quem rompe e por quê: epidemiologia e fatores de risco

Cobrança confirmada · 2 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), descreve a ruptura como relativamente comum em atletas de meia-idade, com frequência crescente (de 2 para 2,5 por 100.000 entre 1986 e 2016) porque as pessoas permanecem ativas em esportes recreativos por mais tempo; com isso, o calcâneo é o terceiro tendão que mais rompe (p. 2252). O pico de idade da ruptura, em homens e mulheres, fica entre 30 e 40 anos.

As faixas etárias variam entre os livros, e isso merece atenção. O Campbell crava 30 a 40 anos. O HEBERT diz, na introdução do capítulo, que a faixa dos 40 aos 50 anos é a mais suscetível às roturas do calcâneo e, no quadro clínico da lesão aguda, fala em maior incidência entre 30 e 50 anos, em homens e atletas recreacionais. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 6), mostra que o pico depende da população estudada: na Escócia, homens entre 30 e 39 anos e mulheres com 80 anos ou mais; na Suécia, a maior incidência masculina foi entre 40 e 49 anos. O livro registra incidência crescente em vários países, atribuída ao esporte em adultos mais velhos.

O dado que mais muda a conduta de seguimento é o lado oposto. Num levantamento de 154 pacientes com ruptura aguda, 6% romperam o outro lado em quatro anos; pelos cálculos dos autores, quem rompe um tendão tem risco quase 200 vezes maior de romper o contralateral (Campbell, p. 2252), e romper aos 30 anos aumenta muito esse risco (p. 2253). Um estudo de ultrassom mostra alterações estruturais no lado assintomático de quem tem tendinopatia de um lado só.

O Box 53.5 divide os fatores em dois grupos (p. 2252). Os intrínsecos são a predisposição anatômica e a incapacidade da biomecânica de absorver força: hiperpronação subtalar, varo ou valgo excessivo do retropé ou do antepé, anteversão femoral aumentada, discrepância de comprimento, fraqueza ou desequilíbrio muscular, índice de massa corporal alto e envelhecimento. Os extrínsecos são erros de treino e fatores ambientais: duração e intensidade excessivas de corrida, superfície de corrida desconhecida e drogas, nomeadamente antibióticos fluoroquinolonas e corticosteroides.

O HEBERT lista fatores semelhantes e acrescenta alguns. Entre os ambientais, cita doenças sistêmicas, tabagismo, hormônios, tipo sanguíneo O e as quinolonas, como o ciprofloxacino. E, ao discutir a prevenção da tendinite do calcâneo no atleta, aponta a pronação excessiva da articulação subtalar como fator predisponente, a ser tratada com palmilhas supinadoras. Os dois livros, portanto, apontam para o mesmo lado do movimento: o retropé que prona demais torce e chicoteia o tendão.

A pronação é intrínseca porque é anatomia do próprio paciente: o retropé em valgo puxa o tendão obliquamente e soma tensão à torção natural das fibras. O antibiótico, o treino e o piso vêm de fora.

Fatores de risco da ruptura (Campbell 15, cap. 53, Box 53.5, p. 2252; HEBERT, cap. 21.2)
GrupoFatorO que a prova troca
IntrínsecoHiperpronação subtalarHipersupinação, que não consta
IntrínsecoAnteversão femoral aumentadaAnteversão diminuída
IntrínsecoVaro ou valgo excessivo do retropé ou do antepéPronação do antepé como fator isolado
IntrínsecoDiscrepância de comprimento, fraqueza muscular, IMC alto, envelhecimento
IntrínsecoRuptura prévia do outro lado: risco quase 200 vezes maior
ExtrínsecoDuração e intensidade excessivas, superfície desconhecida
ExtrínsecoFluoroquinolonas (ciprofloxacino) e corticosteroidesCefalosporinas, que não constam
Outros (HEBERT)Tipo sanguíneo O, tabagismo, doenças sistêmicas, hormônios

O mecanismo da ruptura

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), lista os mecanismos comuns (p. 2253): impulsão com o antepé apoiado e o joelho estendido; dorsiflexão súbita e inesperada do tornozelo, como na queda de altura ou ao pisar no pé de outro jogador ou num objeto no chão; golpe direto no tendão contraído; e laceração cortante. Os dois primeiros têm a mesma física: o tríceps sural está contraído e, ao mesmo tempo, é alongado à força. O joelho estendido estica o gastrocnêmio pela origem; a dorsiflexão estica o tendão pela inserção. É uma contração excêntrica no limite, num tendão já degenerado.

O livro soma duas teorias (p. 2253): a degenerativa (o microtrauma na zona hipovascular supera o reparo, e o colágeno envelhecido fica rígido) e a da fadiga (falham os mecanismos inibitórios e o tendão recebe sobrecarga excêntrica).

O HEBERT narra o mesmo evento do ponto de vista do paciente: há relato de esforço em flexão dorsal; durante a dorsiflexão forçada, como no arranque, a pessoa sente dor súbita no terço inferior da perna, descreve a sensação de uma pedrada na panturrilha e perde a força na hora. O livro insiste que as tendinopatias, em qualquer estágio, podem ser pródromos da rotura, e que dor no tendão não deve ser negligenciada.

Vale separar dessa história a ruptura do gastrocnêmio, a chamada perna do tenista, que o Campbell descreve logo depois (p. 2269). O mecanismo é parecido, sobrecarga excêntrica com o joelho estendido e o tornozelo em dorsiflexão, também em homens de meia-idade no tênis ou na corrida, mas a lesão está na inserção da cabeça medial do gastrocnêmio na aponeurose do sóleo, mais alto na perna. Confunde-se mais com a ruptura do plantar ou com tromboflebite (anticoagular por engano aumenta o sangramento), e o tratamento é sempre não operatório, com retorno em 1 a 12 semanas.

Mecanismos de lesão do tríceps sural (Campbell 15, cap. 53, p. 2253 e 2269; HEBERT, cap. 21.2)
SituaçãoMecanismoOnde rompe
Arranque ou impulsãoAntepé apoiado e joelho estendidoZona de 2 a 6 cm do tendão calcâneo
Queda ou pisão inesperadoDorsiflexão súbita do tornozeloIdem
PancadaGolpe direto no tendão contraídoIdem
FerimentoLaceração cortanteOnde cortou
Perna do tenistaExcêntrico com joelho estendido e tornozelo em dorsiflexãoCabeça medial do gastrocnêmio na aponeurose do sóleo

Diagnóstico: THOMPSON, MATLES e o que falha no pronto-socorro

Cobrança confirmada · 1 questão

Para o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), o diagnóstico se faz de forma confiável com três achados (p. 2253): defeito palpável no tendão, incapacidade de ficar na ponta do pé do lado afetado e o teste de THOMPSON positivo. O teste de THOMPSON, também chamado de teste do aperto (squeeze), é feito com o paciente prono, apertando a panturrilha logo distal à sua maior circunferência para provocar a flexão plantar do tornozelo. O teste é positivo para ruptura completa quando não há flexão plantar. A lógica é mecânica: apertar o ventre muscular encurta a unidade e puxa o calcâneo pelo tendão; se o tendão está em continuidade, o pé desce; se rompeu, nada acontece.

Atenção à semântica, que é onde a prova pega. Positivo, aqui, quer dizer achado patológico, ou seja, ausência de movimento. O HEBERT escreve o mesmo: à expressão do tríceps sural no terço médio da perna não ocorre flexão plantar, e esse sinal é patognomônico da perda de continuidade.

O teste de MATLES usa a gravidade em vez da mão (Campbell, p. 2253). Paciente prono, pernas para fora da maca, flexão ativa dos joelhos até 90°. Com o joelho fletido, o gastrocnêmio encurta e mantém o pé em discreta flexão plantar. Se o pé cai em neutro ou em leve dorsiflexão, o tendão provavelmente rompeu. O teste da agulha de O'BRIEN é mais invasivo: uma agulha 25 G é colocada na linha média do tendão proximal e, ao mobilizar passivamente o pé, o movimento da agulha indica continuidade.

O Box 53.6 traz a recomendação de consenso da AAOS (p. 2254): o exame deve incluir dois ou mais destes testes para firmar o diagnóstico de ruptura aguda: THOMPSON (ou teste de aperto de SIMMONDS), força de flexão plantar diminuída, gap palpável (defeito, perda do contorno) e dorsiflexão passiva aumentada com manipulação suave.

E por que tanta ênfase no exame, se ele é tão claro? Porque ele é esquecido. O HEBERT afirma que, mesmo com o quadro característico, cerca de 25% das lesões não são diagnosticadas no primeiro atendimento. A marcha muitas vezes é possível, e o edema e o peso escondem o defeito. Passados cerca de 10 dias, o paciente melhora e se sente bem; é nesse momento que a ultrassonografia ou a ressonância esclarecem o diagnóstico e a gravidade. O atraso, adverte o livro, pode levar a prejuízo funcional grave e a reconstruções laboriosas com resultados incertos. Para o HEBERT, a ultrassonografia é sensível mas dependente do operador, e a ressonância é o padrão-ouro.

Testes clínicos da ruptura (Campbell 15, cap. 53, p. 2253 e 2254, Box 53.6; HEBERT, cap. 21.2)
TesteComo se fazResultado de ruptura
THOMPSON (aperto de SIMMONDS)Prono, apertar a panturrilha logo distal à maior circunferênciaSem flexão plantar (positivo)
MATLESProno, joelhos fletidos ativamente a 90°Pé cai em neutro ou leve dorsiflexão
Agulha de O'BRIENAgulha 25 G no tendão proximal, mobilização passivaAgulha não se move
Defeito palpávelPalpação do contornoDepressão, perda do contorno
Dorsiflexão passivaManipulação suaveAumentada em relação ao outro lado
Regra da AAOSSomar achadosDois ou mais confirmam

Ruptura aguda: tratar sem operar ou operar

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), começa a discussão com franqueza: a escolha entre tratamento conservador e cirúrgico é controversa, há evidência para os dois lados e poucos estudos de alto nível (p. 2253). Nem a AAOS nem o colégio americano de cirurgiões de pé e tornozelo fazem declaração de consenso para a ruptura completa; há consenso apenas de que as rupturas parciais se tratam sem cirurgia. A evidência acumulada mostra menos rerruptura com a cirurgia, mas mais complicações, como infecção e lesão do nervo sural.

A frase que caiu literalmente na prova está nessa página: o tratamento não operatório atual envolve órtese funcional e um protocolo de reabilitação agressivo que permite mobilização precoce (Tabela 53.2). Não é o gesso de três meses de antigamente.

O Campbell traz os critérios de ultrassom para escolher o tratamento não operatório (p. 2253): gap menor que 5 mm com flexão plantar máxima, gap menor que 10 mm com o pé em neutro e mais de 75% de aposição dos cotos com o pé em 20° de flexão plantar. A ideia é simples: se os cotos se encostam quando o pé desce, a cicatriz vai unir o tendão no comprimento certo.

O protocolo da Tabela 53.2 (p. 2254) serve para o não operatório e para o pós-operatório: tala sem carga nas duas primeiras semanas; bota com calcanheira de 2 cm e carga protegida da segunda à quarta; depois carga livre, retirada da calcanheira, resistência gradual, propriocepção e, no fim, pliometria e treino do esporte. A AAOS recomenda, com força moderada, carga protegida precoce (até 2 semanas) e mobilização entre 2 e 4 semanas, e o retorno irrestrito leva pelo menos 6 meses (p. 2254 e 2258).

O HEBERT parte de outro lugar. Ele lista os argumentos a favor da cirurgia, melhor qualidade da cicatriz e restabelecimento do comprimento, e reserva o conservador para quem não faz atividade física vigorosa, não se aplicando aos atletas; também para idosos, diabéticos e usuários prolongados de corticoide, e para quem tem pele ruim, úlceras de estase ou varizes, por risco de problemas de cicatrização. Reconhece os altos níveis de reincidência e a diminuição da força de flexão plantar com o conservador.

O conservador clássico do HEBERT é o gesso por três meses (15° de flexão plantar por 30 dias, depois 90° com apoio), mas o próprio livro o critica: o colágeno se repara em 6 a 14 dias e a movimentação precoce alinha as fibras e aumenta a resistência. Hoje ele propõe imobilização rígida por 30 dias e depois imobilizador removível com exercícios.

Os números do HEBERT para a comparação vêm de SPECK e KLAUE: perda de 2% de força nos operados contra 25% nos tratados com imobilização prolongada, e rerruptura de 4% nos não operados contra 2% nos operados. Se a decisão é operar, o momento ideal é o mais cedo possível: a maioria dos estudos relata mais satisfação nas primeiras 72 horas. O Campbell fala em melhores resultados e menos eventos adversos até 48 horas (p. 2255).

A divergência é de tom: o Campbell trata o funcional moderno como opção legítima, sem consenso; o HEBERT é cirúrgico para o atleta. Os dois concordam que a cirurgia reduz a rerruptura e que a mobilização precoce vence o gesso longo.

Quem não deve ser operado? O Box 53.7 do Campbell (p. 2255) traz as contraindicações: insuficiência arterial, pele ou partes moles de má qualidade, comorbidades mal controladas como o diabetes e incapacidade de cumprir a reabilitação. E corrige dois preconceitos: idade avançada sozinha não contraindica (há bons resultados abertos e percutâneos em idosos) e obesidade não contraindica, embora aumente a deiscência.

Há ainda um ponto do HEBERT que muda a conduta: o lugar da ruptura. A rotura mais comum é a de 2 a 6 cm, mas há também a da inserção no calcâneo, com ou sem fragmento ósseo, e a da junção miotendínea, no alto. A desinserção é, por eleição, operatória; nos outros sítios, há opção conservadora.

Conservador contra cirúrgico na ruptura aguda (Campbell 15, cap. 53, p. 2253 a 2255; HEBERT, cap. 21.2)
PontoCampbell 15HEBERT
ConsensoNão há para a ruptura completa; parciais sem cirurgiaCirurgia preferida no atleta
Conservador modernoÓrtese funcional e reabilitação agressiva com mobilização precoceRígido 30 dias, depois imobilizador removível
Seleção por imagemUS: gap menor que 5 mm em flexão plantar máxima, menor que 10 mm em neutro, aposição maior que 75% a 20°US ou RM após cerca de 10 dias
Rerruptura0,6% operando contra 6,2% sem operar2% contra 4%
ForçaDéficit em 30% a 50% em 1 a 5 anos, com qualquer tratamentoPerda de 2% operando contra 25% com imobilização longa
Momento da cirurgiaAté 48 hPrimeiras 72 h
ContraindicaçõesInsuficiência arterial, pele ruim, comorbidade descontrolada, não adesãoPele ruim, úlcera de estase, varizes
DesinserçãoOperatória por eleição

Rerruptura e as outras complicações

Cobrança confirmada · 2 questões

Se há um número que a prova repete, é o da rerruptura. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), diz que, historicamente, a cirurgia tem rerruptura significativamente menor: 0,6% contra 6,2% do tratamento não operatório, ao preço de uma taxa maior de complicações, em geral menores; a maioria das revisões sistemáticas e meta-análises recentes continua sustentando isso (p. 2255). Na seção de complicações, o livro conclui que a complicação mais comum parece ser a rerruptura (3%), com taxas maiores após o tratamento não operatório (p. 2268). O HEBERT, com SPECK e KLAUE, dá 2% para os operados e 4% para os não operados, e diz que a morbidade do conservador está ligada ao processo cicatricial, à imobilização prolongada e à previsível maior incidência de nova rotura.

Somando: qualquer que seja a fonte, a rerruptura depois da cirurgia fica abaixo de 5%, e a do conservador é sempre maior. Só 64% a 69% dos atletas de elite voltam a jogar depois da cirurgia (Campbell, p. 2255). O HEBERT dá um número mais otimista: 80% dos atletas operados voltam ao nível pré-lesão, e o percentual dos não operados é ignorado. Independentemente do tratamento, 30% a 50% dos pacientes têm algum déficit funcional (dor, força, mobilidade) de 1 a 5 anos depois, embora os escores relatados sejam altos, porque as pessoas se adaptam (Campbell, p. 2255).

A cirurgia aberta tem complicações maiores em até 10% dos pacientes, e as mais relatadas são infecção da ferida, rerruptura e lesão do nervo sural (Campbell, p. 2255). A lesão do sural aparece em 3% a 40% das percutâneas e em 0% a 20% das abertas (p. 2268). A infecção profunda predomina em quem é mais velho, usou corticoide e demorou a ser tratado.

A trombose merece um parágrafo próprio, porque costuma ser a distração nas alternativas. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 26, de Prism S. SCHNEIDER), coloca a ruptura aguda do calcâneo entre as lesões de alto risco tromboembólico e cita uma coorte de 291 rupturas tratadas com imobilização e carga total: tromboembolismo venoso em 4,8% (3,8% de trombose sintomática e 1% de embolia), em média no 16º dia. O HEBERT as considera raras na cirurgia, com profilaxia em obesos e vasculopatas. É uma complicação real, mas não a mais comum.

O que o HEBERT chama de impotência funcional do conservador é o alongamento do tendão: quando os cotos não se aproximam ao máximo, o tendão cicatriza longo, e o tríceps precisa de uma contração extraordinária para o mesmo movimento, com menos força de flexão plantar. A maioria se controla com elevação do salto; quando fraqueza e dor persistem, o tendão é encurtado por ressecção segmentar com reforço do flexor longo do hálux.

Complicações por tratamento (Campbell 15, cap. 53, p. 2255 e 2268; HEBERT, cap. 21.2; Rockwood and Green 10, cap. 26)
ComplicaçãoOnde predominaNúmero
RerrupturaMais no conservador; a mais comum no geral3% no geral; 0,6% contra 6,2%; 2% contra 4% no HEBERT
Lesão do nervo suralPercutânea mais que aberta3% a 40% percutânea; 0% a 20% aberta
Infecção e deiscênciaCirurgia abertaComplicações maiores até 10%
Alongamento e fraquezaConservadorControlável com salto elevado
Tromboembolismo venosoAmbos, sobretudo imobilizado4,8% numa coorte imobilizada
Déficit funcional residualAmbos30% a 50% em 1 a 5 anos

As técnicas do reparo agudo

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), divide o reparo em aberto (com ou sem reforço) e percutâneo ou minimamente invasivo (p. 2255). Entre as suturas de BUNNELL, KESSLER e KRACKOW, nenhuma foi provada superior; em cadáver, a KESSLER tripla foi a mais forte.

O reparo aberto

O reparo aberto continua sendo o padrão-ouro da cirurgia, sobretudo para o atleta, pela baixa rerruptura, pelo alto retorno ao esporte e pela queda das complicações com as técnicas novas (Campbell, p. 2255). A ruptura costuma ser oblíqua e complexa e se apõe mal às cegas.

Na técnica 53.7 (p. 2255 e 2256), a incisão é posteromedial, de 6 a 8 cm, cerca de 1 cm medial ao tendão e logo acima do contraforte do sapato. Os dois motivos da posição estão no texto: proteger o nervo sural, que corre lateralmente, e evitar que o calçado irrite a cicatriz. Os cotos se unem com um KESSLER modificado a 2,5 cm do foco, pé em 0 a 5° de flexão plantar, e o plantar delgado retirado com extrator é passado em volta do reparo e aberto em leque, como descreveu LYNN; gesso em equino gravitacional. A técnica 53.8, de KRACKOW, usa a mesma via com sutura em alça bloqueada.

A técnica 53.9, de LINDHOLM (p. 2256 e 2257), reforça com o próprio tecido: dois retalhos do tendão proximal e da aponeurose do gastrocnêmio, de 1 cm por 7 a 8 cm, girados 180° e rebatidos sobre a ruptura.

O plantar delgado e a técnica de LYNN

O plantar delgado é o tendão longo e fino que corre medial ao calcâneo e quase nunca faz falta. LYNN descreveu um reparo em que o plantar é aberto em leque para formar uma membrana de 2,5 cm ou mais de largura, que recobre e reforça a sutura (Campbell, p. 2257). Com o pé em 20° de flexão plantar, os cotos são unidos, o plantar é desinserido do calcâneo e espalhado, e a membrana cobre 2,5 cm acima e abaixo do reparo; se o plantar também rompeu, vira enxerto livre. O detalhe que limita a técnica: ela é útil em lesões com menos de 10 dias, porque depois o plantar se incorpora à cicatriz e não se identifica mais.

Os outros reforços usam o fibular curto: na técnica 53.11, quando a sutura término-terminal não é possível, o fibular curto é desinserido na base do quinto metatarsal, passado por um túnel transversal na tuberosidade do calcâneo e suturado a si mesmo, formando uma alça dinâmica; TURCO e SPINELLA descreveram a modificação em que o fibular curto passa por uma fenda mediocoronal no coto distal (p. 2257 e 2258).

Reforçar ou não

O Campbell lembra que retalhos rebatidos de fáscia do gastrocnêmio, o plantar, o fibular curto, o flexor longo do hálux e arcabouços biológicos ou sintéticos foram usados para reforçar a sutura aguda, mas que estudos recentes não encontraram benefício sobre a sutura término-terminal simples (p. 2255). Um estudo prospectivo sugeriu menos alongamento e melhor função quando o flexor longo do hálux reforçou uma percutânea, mas esses reforços exigem incisões maiores e mais tempo de cirurgia. O plasma rico em plaquetas não superou o placebo num ensaio cego, e as células-tronco não têm dados em humanos.

O HEBERT dá ao reforço um papel mais definido: ele entra quando a desorganização das fibras torna a sutura término-terminal impraticável ou quando a sutura, testada com dorsiflexão de 0 a 5°, falha. Fibular curto e flexor longo do hálux disputam a preferência, e o rebatimento distal de uma faixa proximal do sóleo é consagrado pelos bons resultados. As perdas de força de eversão ou de flexão do hálux ficam abaixo de 20%.

Na técnica do HEBERT, o atleta é operado sem garrote (a hipóxia prolongada causa fibrose muscular); a via paratendínea é lateral para o fibular curto, isolando o sural, ou medial para o flexor longo do hálux; o peritendão é aberto e reparado; a sutura é de KRACKOW com o pé em 5° de flexão plantar, testada com 0 a 5° de dorsiflexão. O pós-operatório clássico tem 8 a 12 semanas de imobilização rígida, apoio após 30 dias e salto de 3 cm; o alternativo usa imobilizador removível e mobilização precoce.

Percutâneo e minimamente invasivo

As técnicas por incisões pequenas nasceram para reduzir infecção e lesão do sural (Campbell, p. 2259). As comparações com o reparo aberto mostram função comparável, menos complicações, nenhum aumento aparente de rerruptura e melhor estética. O Box 53.8 lista as vantagens (menos trombose venosa profunda, menos infecção profunda e menos rerruptura) e as desvantagens: risco de lesão do sural de 19%, risco de não apor os cotos ou de desalinhá-los e reparo mais fraco.

A técnica 53.12, de MA e GRIFFITH, é a percutânea clássica (p. 2259 e 2260): incisões puntiformes de cada lado do tendão, fio cruzado em X pelos dois cotos, nó com o tornozelo em equino e gesso em equino gravitacional. O HEBERT a reserva para a contraindicação formal à cirurgia aberta, com a inclusão do sural na sutura como complicação.

A mini-aberta de KELLER não abre o paratendão e, em 100 pacientes, não teve lesão do sural; WAGNER e WAGNER pedem operar até 10 dias da ruptura (Campbell, p. 2259). O sistema PARS de HSU teve complicações em 5% contra 11% da aberta.

Técnicas de reparo agudo (Campbell 15, cap. 53, p. 2255 a 2260; HEBERT, cap. 21.2)
TécnicaIdeiaDetalhe de prova
Aberta clássica (53.7)Posteromedial 1 cm medial ao tendão, KESSLER e plantarIncisão medial poupa o sural
KRACKOW (53.8)Sutura em alça bloqueadaPreferida pelo HEBERT, pé em 5° de flexão plantar
LINDHOLM (53.9)Dois retalhos do gastrocnêmio girados 180°Reforço com tecido próprio
LYNN (53.10)Plantar delgado aberto em leque, membrana de 2,5 cmSó até 10 dias
Alça dinâmica (53.11)Fibular curto por túnel no calcâneoQuando a término-terminal não é possível
TURCO e SPINELLAFibular curto por fenda mediocoronal do coto distalModificação da alça
MA e GRIFFITH (53.12)Percutânea em XRisco de prender o sural
PARS (53.13)Percutânea com guiaPreservar o paratendão e a face ventral
Reforço de rotinaFáscia, plantar, fibular, flexor longo do háluxSem benefício sobre a sutura simples

Ruptura crônica: o que muda depois de algumas semanas

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), admite que a definição varia muito na literatura: vai das rupturas diagnosticadas e tratadas depois de 48 horas até as diagnosticadas até 2 meses depois (p. 2262). Mas registra um consenso: a ruptura diagnosticada 4 a 6 semanas após a lesão deve ser considerada crônica, e essas são mais difíceis de tratar que as agudas.

Por que o tempo importa tanto? Em cerca de uma semana, o espaço entre os cotos se enche de tecido cicatricial. Sem tratamento, o tendão cicatriza alongado, e o paciente não consegue impulsionar do lado afetado: correr, saltar, subir e descer escadas ficam comprometidos. Há atrofia e perda do contorno. É por isso que LYNN e WAGNER limitam suas técnicas a 10 dias.

A ressonância ajuda a estimar o gap entre os cotos; a ruptura crônica aparece como área de baixo sinal em T1 com alteração em T2 (Campbell, p. 2262).

Na crônica, o reparo tardio ou a reconstrução se indicam quando a dor posterior, o edema ou o déficit funcional são incapacitantes (Campbell, p. 2262). Na maioria dos adultos ativos o reparo é preferível, mas muitas vezes não é possível. Nas rupturas com mais de 3 meses, a conduta depende da idade fisiológica, do nível de atividade e do déficit funcional.

O número que organiza a decisão é o tamanho do defeito depois do desbridamento. Se o defeito for menor que 3 cm e a lesão tiver menos de 3 meses, o reparo direto muitas vezes é possível. Se o gap for maior que 3 cm, que é o mais comum, outras técnicas são necessárias: transferência de tecido local, aumento, sintéticos e aloenxertos (Campbell, p. 2262).

Aguda contra crônica (Campbell 15, cap. 53, p. 2255, 2257 e 2262; HEBERT, cap. 21.2)
PontoAgudaCrônica
DefiniçãoDiagnosticada cedo; ideal operar até 48 a 72 hConsenso de 4 a 6 semanas; literatura varia de 48 h a 2 meses
FocoCotos desfiados, aponíveisEspaço preenchido por cicatriz em cerca de 1 semana
Janela das técnicas mínimasLYNN e mini-aberta até 10 diasNão se aplicam
FunçãoRecuperável com sutura ou funcionalTendão alongado, sem impulsão, atrofia
ImagemUS para escolher o funcionalRM para medir o gap
DecisãoOperar ou nãoReparo direto se gap menor que 3 cm e menos de 3 meses; senão, reconstrução

Reconstrução da ruptura crônica: V-Y, BOSWORTH e transferências

Cobrança confirmada · 2 questões

O Box 53.9 do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), organiza o arsenal (p. 2263): reparo primário (incomum); aumento com enxerto livre de fáscia ou tendão (fáscia lata, semitendíneo, fibulares, grácil, tendão patelar); avanço fascial (plastia em V-Y, retalho rebatido da fáscia do gastrocsóleo); transferências tendíneas locais (flexor longo do hálux, flexor longo dos dedos, fibular curto, fibular longo, plantar, tibial posterior); e aumento sintético ou com aloenxerto. A regra geral do livro: o V-Y e o retalho rebatido do gastrocsóleo servem para aumento; as transferências locais servem para defeitos maiores (p. 2263).

O V-Y de ABRAHAM e PANKOVICH

ABRAHAM e PANKOVICH descreveram um retalho tendíneo em V-Y para a crônica (Campbell, p. 2266). O avanço pode ser necessário quando mais de 80% da largura do tendão está comprometida e é útil quando 1 a 3 cm de tendão precisam ser ressecados. Medido o defeito com o joelho a 30° e o tornozelo a 20° de flexão plantar, faz-se um V invertido na aponeurose com braços pelo menos uma vez e meia maiores que o defeito; o retalho desce, os cotos são suturados e a parte proximal se fecha em Y. Gesso longo por 6 a 8 semanas. A mecânica é a de um zíper que escorrega: o V vira Y e o tendão desce o que faltava, sem enxerto.

O HEBERT usa o mesmo avanço na tendinose estabelecida e na insercional com ressecção da inserção.

O retalho rebatido de BOSWORTH

A técnica 53.17, de BOSWORTH, reconstrói o tendão com tecido do próprio tríceps (Campbell, p. 2265). Por uma incisão posterior mediana que vai do calcâneo ao terço proximal da panturrilha, a cicatriz entre os cotos é ressecada. Da rafe mediana do gastrocnêmio se solta uma tira de tendão de 1,5 cm de largura e 17,5 a 22,5 cm de comprimento, que fica presa logo acima da ruptura. A tira é rebatida distalmente e passada pelos dois cotos até ser suturada sobre si mesma, com o joelho a 90° e o tornozelo em flexão plantar. É, portanto, um retalho do próprio complexo do tendão calcâneo, e não uma transferência de outro músculo.

As transferências

As transferências locais usam um músculo vizinho em fase com o gastrocsóleo. A Tabela 53.3 do Campbell compara os três doadores (p. 2263); o flexor longo do hálux é o que fica mais perto do tendão calcâneo, e o fibular curto puxa de lateral para medial e ameaça o sural.

A técnica 53.19, de WAPNER e colaboradores, é a transferência do flexor longo do hálux (p. 2266 a 2268). O tendão é seccionado no médio-pé, com o coto distal suturado ao flexor longo dos dedos para o hálux continuar fletindo, trazido para a perna, passado por um túnel no calcâneo e entrelaçado no tendão calcâneo remanescente; atividade atlética restrita por 6 meses.

O capítulo 88 acrescenta que, colhido por incisão única atrás do maléolo medial, o flexor longo do hálux dispensa a anastomose, graças às interconexões com o flexor longo dos dedos no médio-pé (p. 3848).

MAFFULLI usa o fibular curto por via menos invasiva em gaps menores que 6 cm e o semitendíneo livre nos maiores que 6 cm; comparou os dois com o flexor longo do hálux. As três melhoraram a função, quase todos voltaram ao esporte e nenhuma mostrou vantagem clara (p. 2263). Na técnica de WHITE e KRAYNICK, modificada por TEUFFER, o fibular curto em alça soma-se ao plantar (p. 2265).

Escolha da técnica na ruptura crônica (Campbell 15, cap. 53, p. 2262 a 2268; HEBERT, cap. 21.2)
SituaçãoTécnicaFonte
Defeito menor que 3 cm e menos de 3 mesesReparo direto, com liberação proximal e reforço de plantarCampbell, p. 2262 e 2264
Mais de 80% da largura doente ou 1 a 3 cm ressecadosV-Y de ABRAHAM e PANKOVICHCampbell, p. 2266
Aumento com tecido próprioBOSWORTH: tira da rafe mediana do gastrocnêmio rebatidaCampbell, p. 2265
Gap maior que 3 cmTransferências locais (flexor longo do hálux, flexor longo dos dedos, fibulares, plantar)Campbell, p. 2262 e 2263
Gap menor que 6 cm, via menos invasivaFibular curto de MAFFULLICampbell, p. 2263
Gap maior que 6 cmSemitendíneo livreCampbell, p. 2263
Defeito significativo em ativoFibular curto em alça e plantar (WHITE e KRAYNICK, TEUFFER)Campbell, p. 2265
Transferência mais próxima e em faseFlexor longo do hálux de WAPNERCampbell, p. 2263 e 2266
Tendões doadores (Campbell 15, cap. 53, Tabela 53.3, p. 2263)
TendãoA favorContra
Fibular curtoEm fase com o gastrocsóleo, flexor plantar, perto, em outro compartimentoPerde eversão, puxa de lateral para medial, risco ao sural
Flexor longo dos dedosEm fase, flexor plantar, pertoFraqueza de flexão dos dedos, deformidade dos dedos menores, risco neurovascular
Flexor longo do háluxEm fase, flexor plantar, o mais perto do tendão calcâneoMenos impulsão, hálux em garra, metatarsalgia de transferência, risco neurovascular

Tendinopatia não insercional

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), classifica as doenças do tendão por local (insercional ou não insercional) e por agudeza, separando a tendinite reversível da tendinose irreversível (p. 3846), distinção desenvolvida no resumo dos tendões fibulares.

A tendinose não insercional ocorre tipicamente na zona de divisor de águas, 2 a 6 cm acima da inserção (Campbell, p. 3850). A Tabela 88.3 divide três tipos: peritendinite sem tendinose (paratendão), peritendinite com tendinose e tendinose (espessamento e degeneração dentro do tendão sem inflamação do paratendão). A peritendinite aguda dá dor e inchaço; a tendinose crônica pode ser quase assintomática e se reconhece por um nódulo bulboso que se move com a flexão e a extensão passivas do tornozelo, porque está dentro do tendão.

O HEBERT usa a classificação de PUDDU, que corresponde à mesma tríade: peritendinite pura, peritendinite com tendinose e tendinose. O estágio 1 tem bom prognóstico e se trata sem cirurgia; os estágios 2 e 3, com o parênquima comprometido, pedem conduta mais agressiva.

A tendinopatia atinge 6,5% a 18% dos atletas, 90% em corredores (HEBERT). Na peritendinite, a dor fica 2 a 6 cm acima da inserção, após os exercícios e pior pela manhã, e piora com flexão plantar repetida sob apoio. Com repouso relativo, gelo, alongamento e calcanheira, em seis semanas o paciente fica assintomático e 90% se recuperam totalmente. A injeção intratendínea de corticoide é reprovada, porque predispõe à rotura completa.

O Campbell é igualmente paciente (p. 3851): bota, anti-inflamatório, calcanheira e fisioterapia são a base, com os exercícios excêntricos como o tratamento não operatório mais apoiado por dados; PRP e ondas de choque têm evidência limitada. A cirurgia é indicada depois de pelo menos 6 meses de falha.

As opções cirúrgicas coincidem nos dois livros. O Campbell lista liberação do paratendão, desbridamento e transferências, e a recessão do gastrocnêmio ganha espaço por ter menos morbidade (p. 3851). Se a doença ocupa mais de 50% do volume do tendão, a transferência é indicada, e a literatura apoia sobretudo a do flexor longo do hálux, com resultados semelhantes para o flexor longo dos dedos e os isquiotibiais. O HEBERT desbrida por escarificação (fatias longitudinais) e reforça quando o comprometimento passa de 50% da área transversa, com 6 a 8 meses até a atividade plena. Na tendinose estabelecida, com o segmento necrosado excisado, entram o rebatimento de fita proximal, o V-Y e os reforços, com 12 semanas de imobilização rígida (seis sem carga e seis com) e cerca de 60% de bons resultados.

Tendinopatia não insercional (Campbell 15, cap. 88, Tabela 88.3, p. 3850 e 3851; HEBERT, cap. 21.2)
EstágioO que está doenteClínicaConduta
Peritendinite sem tendinose (PUDDU 1)ParatendãoDor e edema 2 a 6 cm acima da inserção, pior pela manhãConservador; 90% se curam em seis semanas
Peritendinite com tendinose (PUDDU 2)Paratendão e tendãoEspessamento, nódulos, roturas parciaisImagem; desbridamento se persistir
Tendinose (PUDDU 3)Tendão, sem inflamação do paratendãoNódulo que se move com o tornozelo, pode ser indolorExcêntricos; cirurgia após 6 meses; reforço se mais de 50%
Regra dos 50%Até 50%: desbridar e fechar; acima: flexor longo do hálux
ProibidoCorticoide intratendíneo

Tendinopatia insercional, as bursites e a deformidade de HAGLUND

Cobrança confirmada · 2 questões

Na inserção, o problema não é o sangue, é o atrito. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), diz que a tendinopatia insercional pode ser uma ou a combinação de três coisas (p. 3846): bursite retrocalcânea, bursite pré-tendínea e tendinopatia insercional, com ou sem calcificação. Distinguir as três é o que permite tratar bem.

O que é HAGLUND e o que não é

O Campbell faz questão de corrigir o uso do nome: HAGLUND é usado incorretamente para qualquer inchaço ou aumento em torno da inserção; a deformidade de HAGLUND verdadeira é uma grande exostose da face posterossuperior da tuberosidade do calcâneo, situada anterior ao tendão (p. 3846). A bursa retrocalcânea protege o tendão dessa tuberosidade, ficando entre os dois, logo anterior e proximal à área de inserção. A teoria é que o atrito repetido do tendão contra a tuberosidade inflama a bursa (bursite retrocalcânea) e que, com a inflamação prolongada, vêm a degeneração e os osteófitos dentro do tendão. O HEBERT define HAGLUND como a protrusão do processo posterior e superior do calcâneo, anteparo contra o qual o tendão comprime a bolsa retrotendínea calcânea.

Note o que a definição exclui. A calcificação insercional não é HAGLUND; o osteófito dentro do tendão não é HAGLUND; a bursite não é HAGLUND; a exostose na inserção da fáscia plantar fica embaixo do calcâneo, fora do tendão. HAGLUND é osso, na parte de cima e de trás da tuberosidade, na frente do tendão.

Um dado do Campbell surpreende: o tamanho da deformidade de HAGLUND não difere estatisticamente entre sintomáticos e controles (p. 3847). O que se associa à tendinopatia insercional é a presença de osteófito insercional, de calcificação insercional ou de um ângulo de pitch do calcâneo aumentado. A proeminência é necessária para o atrito, mas não explica sozinha quem tem dor.

A bolsa superficial e o sapato

A bursa pré-tendínea (a bolsa subcutânea calcânea do HEBERT) separa o tendão da pele (Campbell, p. 3846). Quando a inserção engrossa por tendinose e calcificação, essa bolsa inflama pela irritação crônica do contraforte do sapato. Trocar o calçado ou usar silicone alivia. Os livros conferidos não trazem a prevalência dessa bolsa.

Como se separam na clínica

O quadro é lento e insidioso; quase nunca há trauma agudo (Campbell, p. 3846 e 3847). O paciente nota aumento de volume e dor na inserção, dificuldade com calçados fechados atrás e dor depois do repouso, como ao levantar de manhã. O Campbell dá uma regra de bolso: dor só com o sapato sugere bursite pré-tendínea; dor ao levantar de manhã sugere bursite retrocalcânea ou tendinite. A palpação localiza a fonte, e nos casos longos as três coexistem. O exame mostra muitas vezes contratura do gastrocsóleo, sobretudo com o joelho estendido.

O HEBERT acrescenta nuances. A tendinite insercional tem incidência mais alta nos idosos do que as tendinopatias do corpo do tendão; quando atinge atletas, são os corredores. São predisponentes o encurtamento do tendão, o pé pronado, o cavo e a obesidade. A dor é protocinética (ao levantar depois do repouso) e a dorsiflexão é dolorosa e limitada; o HEBERT chama de síndrome dolorosa do compartimento posterior do calcâneo a soma da exostose, da bursite e da tendinose insercional, e no HAGLUND a dor sobre a bolsa piora na dorsiflexão forçada.

O diferencial do HEBERT inclui espondiloartropatias soronegativas (bilateral), gota, hiperlipidemia familiar, o os trigonum e o impacto na borda posterior da tíbia.

Tratamento: o salto alto ajuda

Os dois livros pedem tratamento não operatório prolongado antes de operar (Campbell, p. 3846 e 3848). O HEBERT usa a elevação do retropé, que afasta o tendão da proeminência óssea, anti-inflamatório, órteses para a pronação, alongamento do gastrocsóleo e tênis com contraforte alto; a infiltração com corticoide é proscrita. A lógica é geométrica: o calcanhar elevado afasta o tendão da tuberosidade; a dorsiflexão forçada o aperta contra a bursa. Por isso o salto elevado alivia.

A cirurgia vem depois. O HEBERT indica a cirurgia do HAGLUND após seis meses de tratamento conservador sem sucesso: bursectomia, ressecção da tuberosidade proeminente e, eventualmente, desbridamento do tendão. Na insercional, só nos casos graves e resistentes, com desbridamento ou ressecção da inserção e reforço ou V para Y; a recuperação leva 8 a 12 meses.

O Campbell diz que a cirurgia é indicada só depois da falha do não operatório (p. 3848). Na doença precoce, retirar o HAGLUND não exige desbridar o tendão; a bursite retrocalcânea recalcitrante sem tendinose se trata com exostectomia aberta ou endoscópica. Na doença tardia, desbridamento ou exostectomia com ou sem transferência. A recessão isolada do gastrocnêmio alivia, mas deixa fraqueza de flexão plantar aos 18 meses. A osteotomia em cunha de fechamento dorsal de ZADEK (1939) voltou à moda e funciona melhor quando a ressonância mostra menos de 50% de degeneração da inserção. Até 50% da inserção pode ser ressecado com segurança; acima disso, considera-se reforçar com transferência.

Três dores na inserção (Campbell 15, cap. 88, p. 3846 a 3848; HEBERT, caps. 21.1 e 21.2)
FonteOndePista clínicaO que alivia
Bursite retrocalcâneaEntre a tuberosidade posterossuperior e o tendãoDor ao levantar; piora na dorsiflexão forçada; palpação anterior ao tendãoElevar o calcanhar; exostectomia se recalcitrante
Bursite pré-tendíneaEntre o tendão e a peleDor só com o sapato fechadoTrocar o calçado, silicone
Tendinopatia insercionalNa inserção, com calcificação ou osteófitoDor protocinética, mais em idosos; palpação centrada na inserçãoConservador longo; desbridamento, até 50%
HAGLUNDExostose posterossuperior da tuberosidade, anterior ao tendãoProeminência no perfil; tamanho não prediz dorSalto; ressecção após seis meses de falha
Tratamento da insercional (Campbell 15, cap. 88, Box 88.1, p. 3846 e 3848; HEBERT, caps. 21.1 e 21.2)
EtapaCampbell 15HEBERT
Primeira linhaCalcanheira, órtese noturna, AINE, alongamento, gelo, silicone, excêntricos, ondas de choqueRepouso, AINE, salto elevado, órtese para pronação, alongamento, contraforte alto
InjeçõesEficácia inconclusivaCorticoide proscrito
Quando operarSó após falha do não operatórioApós seis meses (HAGLUND); casos graves e resistentes (insercional)
Cirurgia precoceExostectomia sem desbridarBursectomia e ressecção da tuberosidade
Cirurgia tardiaDesbridamento, exostectomia, transferência; ZADEK se menos de 50%Desbridamento ou ressecção da inserção com reforço ou V para Y
RecuperaçãoEsporte em 8 a 10 meses na maioria8 a 12 meses

Fechamento

Fundamento

O tendão calcâneo se entende por três ideias. A primeira é vascular: o sangue chega pelo mesotendão da face anterior e falta entre 2 e 6 cm da inserção, e é ali que o tendão degenera e rompe. A segunda é mecânica: ele rompe quando é esticado em contração, na impulsão com o joelho estendido ou na dorsiflexão súbita, e é por isso que a pronação subtalar, a fadiga e as fluoroquinolonas aumentam o risco, assim como ter rompido o outro lado. A terceira é temporal: nos primeiros dias os cotos se encostam e qualquer tratamento bem feito funciona; depois de quatro a seis semanas, a cicatriz alongou o tendão e a conversa passa a ser de reconstrução, com o gap de 3 cm decidindo entre sutura e transferência.

Os livros divergem em pontos que valem conhecer. O Campbell trata a escolha entre funcional e cirúrgico como aberta, com rerruptura de 0,6% contra 6,2%, e diz que o reforço de rotina não melhora a sutura simples; o HEBERT prefere operar o atleta, dá 2% contra 4% e usa o reforço quando a sutura não segura. O Campbell põe o pico da ruptura entre 30 e 40 anos; o HEBERT fala em 30 a 50 e 40 a 50; o Rockwood mostra que o pico muda com a população. Na insercional, os dois livros concordam: HAGLUND é osso posterossuperior, o tamanho não prediz a dor, o salto alivia, o corticoide é proibido e a cirurgia vem depois de meses de conservador.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

Abrir no leitorCriar conta grátis

No leitor do aplicativo, quem não tem conta lê as 6 primeiras partes; a leitura completa é grátis com a conta.

Continue estudando