Orto Questões

Tendões fibulares e outras tendinopatias do pé e tornozelo

Pé e tornozeloResumo do capítulo34 min de leitura

Tendinite reversível e inflamatória contra tendinose irreversível sem inflamação; no túnel retromaleolar o fibular curto fica junto à fíbula e o longo atrás, sob o retináculo fibular superior, que é a restrição primária; luxação anterior por contração em dorsiflexão, classificação de ODEN (grau 1 mais comum, grau 3 com "fleck" ósseo, grau 4 mais raro) e tratamento cirúrgico com reparo do retináculo e aprofundamento do sulco; rotura longitudinal na face profunda do curto (até 50% tubulariza, acima disso tenodese ao longo); teste seletivo do longo com eversão ativa contra a cabeça do 1º metatarso empurrada para dorsal; os peroneum doloroso e migrado; acesso posterolateral entre fibulares e flexor longo do hálux; tibial anterior com ruptura espontânea acima de 45 anos sob o ramo superomedial do retináculo extensor inferior; HAGLUND como exostose posterossuperior do calcâneo; conservador antes de operar a tendinopatia insercional; reforço da sutura aguda do calcâneo sem benefício sobre a sutura simples; estágio IV do tibial posterior com valgo do tornozelo.

Atualizado em 03/11/2026 · 34 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 94 · Sports Injuries of the Ankle (seção Peroneal Tendon Subluxation and Dislocation), com o Capítulo 88 · Disorders of the Tendons and Fascia and Adolescent and Adult Acquired Flatfoot Deformity (seções Achilles Tendon, Anterior Tibial Tendon, Peroneal Tendons e Flexor Tendons), o Capítulo 53 · Traumatic Disorders (seções Peroneal Tendons e Rupture of Achilles Tendon) e o Capítulo 1 · Surgical Techniques, em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026), com o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (2025). Autores do capítulo: David R. RICHARDSON (cap. 94); Benjamin J. GREAR (cap. 88); David L. BERNHOLT e Frederick M. AZAR (cap. 53); Michael J. BEEBE (cap. 1).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Campbell, capítulo 94, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo reúne as tendinopatias do pé e do tornozelo que as provas cobram, com o centro nos tendões fibulares. O texto principal vem do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.: capítulo 94 (Sports Injuries of the Ankle, David R. RICHARDSON), que remete a luxação dos fibulares ao capítulo 88 (Disorders of the Tendons and Fascia, Benjamin J. GREAR); capítulo 53 (Traumatic Disorders, David L. BERNHOLT e Frederick M. AZAR), com ODEN e a ruptura aguda do calcâneo; e capítulo 1, com o acesso posterolateral. Completam o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed., e o Sizínio HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 21.2, de Antônio Egydio de CARVALHO JR. e Marta IMAMURA). As páginas citadas são as impressas.

A ideia que organiza o tema é mecânica: todo tendão do tornozelo dobra uma esquina. Os fibulares dobram atrás do maléolo lateral e de novo no cuboide, o flexor longo do hálux entra num túnel entre os tubérculos do tálus, o tibial anterior passa sob o retináculo extensor. O HEBERT chama isso de efeito polia: é onde o tendão trabalha melhor e onde mais sofre atrito, e é nesses pontos que as roturas aparecem.

A prova cobra o vocabulário (tendinite contra tendinose), a anatomia em imagem, o exame e a instabilidade dos fibulares, as outras tendinopatias (tibial anterior, flexor longo do hálux, calcâneo e HAGLUND, estágio do tibial posterior) e as decisões de quando operar. A deformidade adquirida do adulto tem resumo próprio (pé plano e coalizão tarsal); aqui entra só o estadiamento.

Tendinite, tendinose e tendinopatia

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), abre o capítulo do tendão calcâneo com uma distinção que vale para todos os tendões do pé (p. 3846). A tendinite é um processo agudo, reversível e inflamatório, com potencial de cura. A tendinose é um processo crônico e irreversível, caracterizado por degeneração fibrosa sem células inflamatórias reparadoras. Tendinopatia é o termo amplo que cobre as duas. O livro lembra que, na clínica, as duas situações são as pontas de um mesmo espectro, mas os termos descrevem patologias diferentes.

Por que a tendinose é irreversível? Porque o problema deixou de ser uma reação do tecido ao redor e passou a ser uma mudança da própria estrutura do tendão. O HEBERT descreve o tendão em tendinose como espessado, edemaciado, amarelado, sem o brilho perláceo, às vezes com nodulações e pequenas fendas longitudinais; ao microscópio há degeneração parenquimatosa sem a resposta inflamatória correspondente, que já ocorreu. O tecido inflamado pode voltar ao normal; o colágeno desorganizado e substituído por tecido fibroso, não.

O HEBERT usa a classificação de PUDDU em três estágios para qualquer tendão, com ou sem bainha sinovial: peritendinite pura (as tenossinovites), peritendinite com tendinose (as tendinites) e tendinose (as roturas). O estágio 1 não toca o parênquima e tem bom prognóstico com medidas conservadoras; os estágios 2 e 3 têm prognóstico indefinido e pedem conduta mais agressiva. O Campbell aplica a mesma lógica ao calcâneo não insercional (Tabela 88.3, adiante).

Tendinite, tendinose e tendinopatia (Campbell 15, cap. 88, p. 3846; HEBERT, cap. 21.2)
TermoTempoReversível?InflamaçãoO que se vê
TendiniteAgudoSim, com potencial de curaPresenteDor, edema, bainha com líquido
TendinoseCrônicoNãoAusente (sem células reparadoras)Degeneração fibrosa, espessamento, cor amarelada, nódulos, fendas
TendinopatiaQualquerDependePode haverTermo amplo que inclui as duas
Peritendinite (PUDDU 1)InicialSimNo paratendãoTendão normal por dentro
Peritendinite com tendinose (PUDDU 2)IntermediárioParcialParatendão inflamadoÁreas degeneradas no tendão
Tendinose (PUDDU 3)FinalNãoSem inflamaçãoRotura parcial ou completa possível

O mapa dos tendões ao redor do tornozelo

Cobrança confirmada · 3 questões

Antes de qualquer doença, a prova quer que o candidato saiba ler uma ressonância ou uma peça anatômica. O HEBERT dá a divisão da perna em quatro compartimentos, que é a melhor forma de lembrar quem passa por onde (capítulo das fraturas da tíbia): o anterior contém o tibial anterior, o extensor longo dos dedos, o extensor longo do hálux e o fibular terceiro; o lateral contém os fibulares longo e curto; o posterior superficial, o gastrocnêmio e o sóleo; o posterior profundo, o tibial posterior, o flexor longo dos dedos e o flexor longo do hálux.

Repare na pegadinha do nome: o fibular terceiro não é do compartimento lateral. Ele mora no compartimento anterior, é um tendão extensor e se insere na base dorsal do 5º metatarso, como o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94), lista entre as estruturas que se palpam na dor do tornozelo (p. 4136). No mesmo capítulo, o portal artroscópico anterolateral é feito logo lateral ao tendão do fibular terceiro, atento ao nervo fibular superficial (p. 4161, aprox.).

O canto lateral: retromaleolar e inframaleolar

Atrás do maléolo lateral, o HEBERT descreve um túnel osteofibroso: o assoalho é o sulco dos fibulares na fíbula e o teto é o retináculo fibular superior. Dentro dele, junto à concavidade da fíbula fica o fibular curto, e diretamente sob o retináculo, mais posterior e superficial, fica o fibular longo. Na ressonância axial, o curto aparece achatado, em V, anterior, e o longo tubuliforme, posterior. Os dois correm paralelos até a ponta da fíbula, onde fazem polia e divergem: o curto vai para a base do 5º metatarso; o longo muda de direção uma segunda vez no sulco do cuboide e cruza a planta obliquamente até a base plantar do 1º e do 2º metatarsos e o cuneiforme medial.

Abaixo da ponta do maléolo, os tendões passam sobre a face lateral do calcâneo, onde está o tubérculo fibular (que separa os dois e, se proeminente, atrita o longo), e são contidos pelo retináculo fibular inferior. O Campbell (cap. 94) acrescenta que o ligamento calcaneofibular sai da ponta do maléolo, passa profundo aos tendões fibulares e se insere na face lateral do calcâneo, sendo o único ligamento lateral extracapsular (p. 4136). É por isso que uma das técnicas de estabilização passa os tendões por baixo desse ligamento.

O canto posterior: o flexor longo do hálux

O flexor longo do hálux é o tendão mais posterior e mais lateral do grupo medial. Ele desce atrás da tíbia, entra num túnel fibro-ósseo entre os tubérculos posteriores do tálus e corre sob o sustentáculo do tálus. O Campbell (cap. 88) mostra, na liberação do túnel, o flexor longo dos dedos anterior ao flexor longo do hálux e o os trigonum lateral à entrada do túnel (p. 3869 e 3870). O HEBERT descreve o mesmo: o flexor longo do hálux passa num sulco osteofibroso que faz parte do tubérculo posterior do tálus. Na planta, ele cruza o flexor longo dos dedos no nó de HENRY, com conexões entre os dois tendões; o nervo e a artéria plantares mediais ficam profundos e laterais ao flexor longo do hálux nesse ponto (p. 3851).

O canto anterior: retináculos extensores

Na frente, o tibial anterior é o tendão mais medial, seguido do extensor longo do hálux, do extensor longo dos dedos e, mais lateral, do fibular terceiro. O HEBERT diz que o tibial anterior passa sob os retináculos superior e inferior e muda de direção no tornozelo (de novo o efeito polia). O Campbell (cap. 88) desenha o retináculo extensor inferior com dois ramos mediais, o superomedial e o inferomedial, e identifica, na mesma figura do lado lateral, o fibular terceiro, o retináculo fibular superior, o retináculo fibular inferior e o retináculo extensor superior (Fig. 88.60 e 88.70, p. 3853 e 3861). O retináculo extensor inferior tem forma de Y deitado: a raiz lateral sai do calcâneo e os dois braços se abrem medialmente.

Onde fica cada tendão (HEBERT, caps. 21.2 e de fraturas da tíbia; Campbell 15, caps. 88 e 94)
RegiãoTendãoReferência para acharInserção
Anterior, mais medialTibial anteriorSob retináculos superior e inferiorCuneiforme medial e base plantar-medial do 1º MT
Anterior, mais lateralFibular terceiroLateral ao extensor longo dos dedos; portal anterolateralBase dorsal do 5º MT
Lateral, junto à fíbulaFibular curtoAchatado, em V, anterior no sulcoBase do 5º MT
Lateral, sob o retináculoFibular longoTubuliforme, posteriorBase plantar do 1º e 2º MT e cuneiforme medial, via sulco do cuboide
Posteromedial, junto ao maléoloTibial posteriorPolia no maléolo medialTuberosidade do navicular, com expansões em leque
Posteromedial, intermediárioFlexor longo dos dedosAnterior ao flexor longo do háluxFalanges distais dos dedos
Posterior, mais lateral do grupo medialFlexor longo do háluxFibras musculares baixas; túnel entre os tubérculos do tálusFalange distal do hálux
Retináculos do tornozelo (Campbell 15, cap. 53, p. 2291; cap. 88, p. 3853 e 3861; HEBERT, cap. 21.2)
RetináculoOndeO que contémImportância clínica
Extensor superiorAcima da articulaçãoTendões anterioresReferência da incisão minimamente invasiva do tibial anterior
Extensor inferior (ramos superomedial e inferomedial)Sobre a articulação e o dorso do péTibial anterior, extensores, fibular terceiroRamo superomedial: local avascular da ruptura atricional do tibial anterior
Fibular superiorDa crista posterolateral da fíbula ao calcâneo e à fáscia junto ao tendão calcâneo, ~3,5 cm acima da pontaFibulares longo e curtoRestrição primária contra a luxação
Fibular inferiorAbaixo do maléolo, na parede lateral do calcâneoFibulares, separados por septoMantém o trajeto, não é decisivo na luxação
FlexorMedialTibial posterior, flexores longos, feixe tibialTúnel do tarso

O acesso posterolateral do tornozelo

Cobrança confirmada · 1 questão

O acesso posterolateral é uma aplicação direta do mapa anterior. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 1), descreve o acesso ao maléolo posterior e à fíbula (técnica 1.18, p. 16): paciente prono ou em decúbito lateral; incisão um pouco lateral ao ponto médio entre a borda posterior da fíbula e a borda lateral do tendão calcâneo; a fáscia é aberta logo medial aos fibulares; desenvolve-se o intervalo entre os tendões fibulares e o flexor longo do hálux; a fáscia do flexor longo do hálux é aberta na borda lateral e o músculo é elevado da face posterior da tíbia, expondo o maléolo posterior. O livro adverte para não dissecar entre o maléolo posterior e a fíbula, para não lesar o ligamento tibiofibular posteroinferior.

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 65), dá a razão do intervalo ser seguro: ele é internervoso. Os fibulares são inervados pelo nervo fibular superficial e são retraídos lateralmente; o flexor longo do hálux é inervado pelo nervo tibial e é elevado e retraído medialmente. A incisão fica entre a borda posterior do maléolo lateral e a borda lateral do tendão calcâneo, e a dissecção romba na gordura protege o nervo sural. Esse é o mesmo plano profundo usado no acesso posteromedial, porque o flexor longo do hálux protege o feixe tibial posterior medial a ele.

O mesmo intervalo aparece no capítulo 88, na colheita do flexor longo do hálux para reforçar o tendão calcâneo: abre-se um plano logo profundo ao calcâneo e se desenvolve o intervalo entre o flexor longo do hálux e os fibulares, ficando no flexor ou lateral a ele para não alcançar o feixe neurovascular (p. 3851). Na via de CHOI, em J, o intervalo é o mesmo, e o flexor longo do hálux e o tendão calcâneo são afastados juntos para medial (p. 17, aprox.).

O exame dos fibulares

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), insiste que o diagnóstico dos fibulares é clínico (p. 3857). O exame começa em pé, porque o alinhamento do retropé muda tudo: o varo do retropé, e com menos frequência o valgo, sobrecarrega os fibulares. Os pacientes com lesão dos fibulares têm, em média, mais cavovaro nas radiografias (estudo com 234 pacientes, Tabela 88.4, p. 3858).

O teste que a prova cobra é o teste seletivo do fibular longo: o paciente faz eversão ativa do tornozelo enquanto o examinador empurra para cima a cabeça do primeiro metatarso, que está em flexão plantar (p. 3857). O raciocínio é anatômico: o fibular longo é o único tendão que abaixa o primeiro raio, porque termina na base plantar do 1º metatarso depois de cruzar a planta. Quando o examinador empurra a cabeça do 1º metatarso para dorsal, o paciente só consegue resistir usando o fibular longo; dor ou fraqueza nessa manobra isolam o longo. O fibular curto, que vai para o 5º metatarso, não participa.

O Box 88.2 lista os sintomas da rotura do longo: edema, dor à palpação, estalo, crepitação logo atrás do maléolo lateral, líquido palpável na bainha e fraqueza ao testar a eversão. O livro faz uma ressalva importante: em geral a eversão é dolorosa, mas a força está mantida. O HEBERT diz o mesmo de outro jeito: a rotura longitudinal do curto pode não afetar a força, porque o longo supre a função, e por isso a imagem é necessária para estadiar. Para o HEBERT, a dor piora com dorsiflexão e eversão resistidas, e o teste com o polegar sobre o túnel fibular, partindo de flexão plantar e inversão para uma contração vigorosa em dorsiflexão e eversão, reproduz dor, crepitação e ressalto.

Na instabilidade, o Campbell (cap. 88) testa com eversão resistida e os dedos do examinador sobre a bainha no nível do retináculo superior; o paciente refere um estalo doloroso (p. 3861). O capítulo 53 acrescenta a manobra provocativa: pé em dorsiflexão, eversão e rotação externa contra uma força de inversão e flexão plantar do examinador; a luxação pode ser sentida com circundução do pé palpando a borda anterior do sulco (p. 2292).

Manobras de exame dos tendões do tornozelo (Campbell 15, caps. 53 e 88; HEBERT, cap. 21.2)
TendãoManobraO que indica
Fibular longoEversão ativa com o examinador empurrando a cabeça do 1º MT para dorsalDor ou fraqueza isolam o longo
Fibulares (instabilidade)Eversão resistida com dedos sobre o retináculo superior; dorsiflexão, eversão e rotação externa contra resistência; circunduçãoEstalo, subluxação palpável
Tibial posteriorInversão contra resistência; elevação unipodalSem varização do calcâneo = insuficiência
Tibial anteriorDorsiflexão contra resistência; teste de BEISCHERFraqueza com hiperextensão dos dedos; dor na inserção
Flexor longo do háluxExtensão passiva do hálux com compressão da bainha posterior; teste de estiramentoDor posterior ao maléolo medial; menos dorsiflexão da MTF com tornozelo em dorsiflexão
CalcâneoPonta do pé; THOMPSON; MATLESSem flexão plantar ao apertar a panturrilha = ruptura

Por que os fibulares saem do lugar

Fundamento

O retináculo fibular superior

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), define o retináculo fibular superior como a restrição primária à instabilidade dos fibulares no maléolo (p. 2291). Ele se estende cerca de 3,5 cm acima da ponta do maléolo lateral e se insere posterolateralmente no calcâneo e na fáscia profunda junto ao tendão calcâneo. O HEBERT completa: o retináculo nasce na crista lateral da fíbula; o retináculo inferior mantém o trajeto abaixo do maléolo, mas não é decisivo na luxação. A bainha sinovial é única a partir de cerca de 3 cm acima do maléolo e se divide até 4 cm abaixo da ponta.

O Campbell (cap. 88) lembra que a profundidade do sulco não vem só do osso: um rebordo fibrocartilaginoso na borda posterolateral do maléolo aumenta a profundidade do sulco retromaleolar (p. 3862). É esse rebordo que o grau 2 de ODEN arranca.

O mecanismo

A luxação é quase sempre anterior: os tendões saltam de trás da fíbula para a frente dela (cap. 53, p. 2291). O mecanismo clássico é a contração vigorosa dos fibulares com o pé em dorsiflexão, que faz o retináculo falhar. Uma lesão em inversão com o pé em flexão plantar também pode estirar ou avulsionar o retináculo. O HEBERT descreve a mesma cena em detalhe: a inversão forçada provoca uma contração reflexa protetora dos fibulares em dorsiflexão e eversão; essa contração brusca empurra os tendões contra o retináculo, que arranca sua inserção da crista fibular.

Os fatores anatômicos predisponentes que o capítulo 53 cita são a incompetência do retináculo, o sulco raso e a superfície posterior convexa da fíbula distal; tálus vertical congênito e pé planovalgo também foram associados. O HEBERT acrescenta a ausência congênita do retináculo, o afrouxamento por trauma ou doença neuromuscular e o preenchimento do sulco por tendões anômalos: o fibular quarto e o ventre muscular baixo do fibular curto. O Campbell (cap. 88) dá um dado que contraria o senso comum: não houve diferença na forma óssea do maléolo posterior entre quem luxa e quem não luxa (p. 3862). Por isso a imagem pré-operatória sozinha não decide se o sulco precisa ser aprofundado; a estabilidade é testada no intraoperatório.

O ventre baixo do curto e o fibular quarto agem por superlotação: ocupam o volume do túnel e forçam o retináculo de dentro para fora. O Campbell (cap. 88) chama isso de fenômeno de sobrecarga do retináculo e manda ressecar o tecido anômalo em qualquer reparo (técnica 88.25, p. 3866). A ressonância detecta mal o ventre baixo, que costuma ser achado cirúrgico (p. 3862).

Quem tem

As luxações são incomuns e frequentemente esquecidas; mimetizam uma entorse e podem acontecer junto com ela: só 60% são diagnosticadas na primeira avaliação (cap. 53, p. 2291). Predominam em jovens atletas (esqui, futebol, basquete, patinação, ginástica). O HEBERT credita a primeira descrição a MONTEGGIA (1803).

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 67), traz outro cenário: a fratura do calcâneo. A luxação dos fibulares é típica dos padrões de depressão articular, em que a parede lateral explode e encurta, e das fraturas-luxações; quanto mais lateral a linha articular, maior a chance de lesão do retináculo. O diagnóstico costuma ser feito no intraoperatório, e o reparo fixa a manga periosteal na borda posterolateral da fíbula (p. 3041).

A classificação de ECKERT e DAVIS modificada por ODEN

Possível cobrança

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), classifica as lesões dos fibulares primeiro por localização, pela classificação de SHAWEN e ANDERSON: zona I no sulco fibular, geralmente o fibular curto; zona II no túnel do cuboide, sobretudo o fibular longo (p. 2291). Para a luxação, usa a modificação de ODEN da classificação de ECKERT e DAVIS, em quatro graus (Fig. 53.51).

A lógica dos graus é simples se pensarmos em onde o retináculo falhou. Nos três primeiros, o retináculo continua inteiro, mas se solta da fíbula em pontos diferentes, e os tendões passam por baixo do que se soltou. No quarto, o próprio retináculo rompe, e os tendões ficam por cima dele.

Classificação de ODEN (modificação de ECKERT e DAVIS) (Campbell 15, cap. 53, Fig. 53.51, p. 2291)
GrauO que falhaOnde ficam os tendõesFrequência
1Retináculo descolado da fíbula junto com o periósteoEntre o osso e o periósteoMais comum (mais de 50%)
2Crista fibrocartilaginosa atrás da inserção lateral do retináculo, avulsionada com eleSob a cristaIntermediário
3Pequeno fragmento cortical avulsionado da inserção fibular do retináculoSob o fragmento ósseoÉ o que mostra o "fleck" na radiografia
4Avulsão completa ou ruptura do retináculoExternos e superficiais ao retináculoMenos comum

O grau 3 é o único que se vê na radiografia simples. O capítulo 53 diz que as radiografias geralmente são negativas, mas que no grau 3 pode aparecer um "fleck" ósseo na face posterior da fíbula distal (p. 2292). O capítulo 88 chama esse achado de fleck sign: avulsão óssea da inserção do retináculo fibular superior no maléolo lateral (p. 3857). O HEBERT considera o fragmento avulsionado da crista fibular patognomônico do deslocamento tendíneo e diz que ele é mais visível na incidência da pinça maleolar (rotação interna de 15°).

Mais recentemente, RAIKIN e colaboradores descreveram a subluxação intrabainha, sob um retináculo superior íntegro, como subgrupo (Fig. 53.52): no tipo A, os tendões trocam de posição e o longo fica profundo ao curto; no tipo B, o longo subluxa através de uma fenda longitudinal do curto (p. 2291). O Campbell (cap. 88) descreve a clínica: estalido ou ressalto quando o pé vai para extensão e eversão, sem que os tendões passem pela crista posterolateral; a ultrassonografia dinâmica ajuda; o tratamento cirúrgico usa metade do retináculo superior passada entre os dois tendões, criando bainhas separadas, ou o aprofundamento do sulco com reparo do retináculo (p. 3863).

Diagnóstico e tratamento da luxação

Relevância clínica

Diferenciar da entorse

A dificuldade clínica é que a luxação aguda parece uma entorse. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), traz uma tabela que vale decorar porque cada linha tem uma lógica anatômica (Tabela 53.6, p. 2292). A luxação dói acima da ponta da fíbula, porque o retináculo superior começa ali e sobe 3,5 cm; a entorse dói abaixo e à frente, onde estão o talofibular anterior e o calcaneofibular. A queixa da luxação é o estalo; a da entorse é o falseio.

Subluxação dos fibulares contra entorse lateral (Campbell 15, cap. 53, Tabela 53.6, p. 2292)
Sinal ou sintomaSubluxação dos fibularesEntorse do ligamento lateral
Dor à palpaçãoProximal à ponta da fíbulaDistal à ponta da fíbula
EdemaPosterolateralAnteroinferior
HistóriaEstaloFalseio
Piora em terreno irregularPossívelProvável
Piora com circunduçãoSimNão
Piora com flexão e inversãoNãoSim

Imagem

A ressonância cinemática e a ultrassonografia dinâmica superam a imagem estática, porque o problema depende da posição (cap. 53, p. 2292). O capítulo 88 relativiza a ressonância: sensibilidade de 60% a 83% e alteração em cerca de 35% dos assintomáticos; na ultrassonografia, 20% (p. 3857). O recado do livro: a avaliação clínica continua sendo o principal.

Tratamento

O capítulo 53 é direto: o tratamento não operatório raramente funciona, e a cirurgia é preferida, sobretudo em jovens atletas; recomenda-se o reparo agudo do retináculo superior, e a luxação crônica ou recidivante sintomática deve ser operada (p. 2292). O capítulo 88 abre uma pequena janela: se a instabilidade for reconhecida cedo, um gesso sem carga com o pé em neutro a leve inversão pode permitir que o retináculo volte a aderir à fíbula; mas, na forma crônica, forma-se uma bolsa entre o retináculo e a fíbula por onde os tendões, sobretudo o curto, subluxam, e o tratamento conservador raramente resolve (p. 3861).

O HEBERT é um pouco mais otimista com a fase aguda: gesso em 5° de flexão plantar por seis semanas, reconhecendo que pode haver recidiva, mas que a maioria fica sem dor e volta às atividades; a cirurgia na fase aguda aprofunda o sulco, descomprime o túnel, retensiona o retináculo e trata roturas associadas. A divergência entre os livros está na intensidade, não na direção: os dois aceitam que a cirurgia resolve melhor o atleta e a luxação recidivante.

O capítulo 53 agrupa as cirurgias em cinco tipos (p. 2292), e o capítulo 88 diz que o foco continua sendo reparar o retináculo na fíbula posterolateral, com o aprofundamento do sulco acrescentando estabilidade (p. 3861).

Técnicas de estabilização dos fibulares (Campbell 15, cap. 53, p. 2292 a 2294; cap. 88, p. 3862 a 3866; HEBERT, cap. 21.2)
TipoExemploComentário dos livros
Inserção periosteal (partes moles)Reparo do retináculo na fíbula, retalho de fáscia ou periósteo, sutura em jaquetãoPreferência dos autores, combinada ao aprofundamento
Aprofundamento do sulcoZOELLNER e CLANCY (retalho osteoperiosteal 3 x 1 cm, 6 a 9 mm); RAIKIN (retalho osteocartilaginoso, 4 a 5 mm); SHAWEN e ANDERSON (impacção por fresagem de 7 a 8 mm)Decidir no intraoperatório; sem recidivas relatadas
TenoplastiaFaixa do tendão calcâneo (JONES), metade do fibular curtoAlguns pacientes ficam com tendinite do calcâneo
Bloqueio ósseoOsteotomia da fíbula posterior girada e fixadaAlto sucesso, alta complicação pela fixação
RedirecionamentoTendões passados sob o ligamento calcaneofibularÚtil na ausência congênita do retináculo

Um alerta do capítulo 88 que conecta este tema à entorse: na técnica de SOBEL e BOHNE, a incisão pode ser prolongada para reparar o talofibular anterior e o calcaneofibular, porque deixar de reconhecer a instabilidade lateral concomitante leva à frouxidão recorrente e a nova lesão dos fibulares (p. 3866). O capítulo 94 diz o mesmo pelo outro lado: depois de um reparo ligamentar, a dor residual pode vir de uma rotura longitudinal do curto negligenciada, e essas lesões devem ser procuradas em toda cirurgia de instabilidade (p. 4151, aprox.).

Rotura longitudinal do fibular curto e lesões combinadas

Possível cobrança

Os três tipos de doença dos fibulares

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), divide os distúrbios dos fibulares em três grupos (Tabela 88.4, p. 3858), e a divisão ajuda a pensar em quem é o paciente de cada um.

Tipos de distúrbios dos fibulares (Campbell 15, cap. 88, Tabela 88.4, p. 3858)
TipoQuemAssociações
Tendinite ou rotura sem subluxaçãoAtletas de meia-idade com atividade repetitiva; pacientes com mau alinhamento crônico do retropéVaro do retropé
Instabilidade no retináculo fibular superiorAtletas após entorse aguda com ruptura do retináculo; formas crônicasInstabilidade lateral crônica do tornozelo
Tenossinovite estenosante do fibular longoPacientes com cavovaro e eversão limitadaOs peroneum doloroso, tubérculo fibular aumentado, doença no cuboide (longo encarcerado em túnel ósseo)

O livro afirma que a tendinite isolada, sem subluxação, é incomum; em alguns pacientes a instabilidade não é evidente no exame e só aparece na cirurgia, e por isso sempre se deve procurar e corrigir a subluxação (p. 3857). O tratamento inicial é conservador: gesso ou bota, anti-inflamatório e fisioterapia, e, para o benefício duradouro, correção biomecânica com palmilha ou tornozeleira por 4 a 6 meses depois de passada a inflamação (p. 3858). O HEBERT segue a mesma ordem: conservador mesmo com rotura comprovada (anti-inflamatório, órtese para corrigir o varo do retropé, fisioterapia com fortalecimento da eversão, sobretudo em flexão plantar) e cirurgia depois da falha, com lesão intrínseca comprovada por imagem.

Onde e por que o curto racha

O curto fica espremido entre o longo e a fíbula no sulco, e a fissura atricional é mais comum na sua face profunda (Campbell, p. 3859); na ressonância, a doença do curto aparece na ponta do maléolo e a do longo na borda lateral do pé, junto ao cuboide (Fig. 88.66). Para o HEBERT, a rotura parte da zona de maior atrito no sulco, estende-se 2 a 5 cm, acomete homens e mulheres igualmente e deve ser suspeitada em quem tem instabilidade crônica do tornozelo; a força pode estar preservada.

A regra dos 50%

O tratamento cirúrgico depende de quanto da secção transversa do curto está doente. O Campbell (cap. 88) tem duas formulações da mesma regra (técnica 88.22, p. 3860, e graus de lesão, p. 3863):

Lesão do fibular curto e lesões combinadas (Campbell 15, cap. 88, p. 3860, 3863 e 3865; HEBERT, cap. 21.2)
SituaçãoDefiniçãoConduta
Grau I do curto50% ou menos da secçãoDesbridar a parte menor e tubularizar o restante
Grau II do curtoMais de 50%, tecido insuficienteExcisar o segmento e tenodesar ao longo (proximal e distal) ou reconstruir com aloenxerto
REDFERN e MYERSON tipo IOs dois tendões grosseiramente íntegrosReparo, excisão da fenda, tubularização
REDFERN e MYERSON tipo IIUm roto, outro íntegroTenodese ao tendão íntegro
REDFERN e MYERSON tipo IIIaOs dois rotos, sem excursão muscular proximalEnxerto improvável; transferência tendínea
REDFERN e MYERSON tipo IIIbOs dois rotos, com excursão muscularAloenxerto em um tempo, ou em dois tempos com haste de silicone se o leito estiver cicatrizado
Ruptura atricional do longo no cuboideCoto distal degenerado com o sesamoideRessecar 1 a 2 cm com o sesamoide e suturar o longo ao curto

A tenodese é feita bem acima do retináculo, 3 a 4 cm proximal à articulação (p. 3860), e o livro é honesto: quase metade dos pacientes não volta ao nível esportivo anterior (p. 3863). Com os dois tendões inutilizáveis, transfere-se o flexor longo do hálux ou o flexor longo dos dedos, ou se reconstrói em dois tempos com haste de HUNTER.

O HEBERT usa os mesmos 50%: acima disso, há degeneração mixoide e necrose que inviabilizam a reconstrução. Com varo do retropé e subtalar móvel, acrescenta a osteotomia valgizante do calcâneo (DWYER).

O os peroneum e o fibular longo

Possível cobrança

O os peroneum é o sesamoide do fibular longo, na planta, logo depois da polia do sulco do cuboide. O HEBERT descreve quatro estruturas que o prendem (fáscia plantar, base do 5º metatarso, fibular curto e cuboide) e que guiam a excursão do longo no sulco. O achado radiográfico é eventual e quase sempre assintomático, e o ossículo pode ser bipartido; deve ser diferenciado de fratura aguda quando há diástase com bordas irregulares. Para o HEBERT, a presença do sesamoide pode enfraquecer o tendão, tornando-o friável.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), descreve a síndrome do os peroneum doloroso (p. 3866): inflamação localizada do longo no ponto em que ele contorna o túnel posterolateral do cuboide; o os peroneum pode estar doloroso e esclerótico na radiografia. A pista mais importante é a posição: um os peroneum muito proximal ou que migrou de sua posição normal (lateral e plantar ao túnel do cuboide) indica ruptura do longo distal ao túnel (Fig. 88.65, p. 3859, mostra um os peroneum hipertrófico e migrado após a ruptura). O HEBERT descreve a sensação de "andar sobre uma pedra", pela migração proximal do ossículo para baixo da articulação calcaneocubóidea, e diz que a ressonância é pouco efetiva ali por causa do trajeto curvo do longo (efeito do ângulo mágico); as incidências de perfil e oblíqua interna mostram melhor o ossículo, com a contralateral em caso de dúvida.

O tratamento segue a mesma lógica nos dois livros: gesso prolongado e anti-inflamatório; se a dor persiste, desbridamento do longo, remoção do os peroneum e, se necessário, tenodese do longo ao curto (Campbell, técnica 88.26, p. 3866 e 3867; HEBERT, gesso por seis semanas e reconstrução do longo nos crônicos).

Flexor longo do hálux: tendinite e impacto posterior

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), diz que as lesões dos flexores são pouco comuns perto das do tibial posterior e dos fibulares (p. 3868). A tendinite do flexor longo do hálux foi descrita em bailarinos e atletas de impulso repetido do antepé, mas também ocorre em não atletas e deve entrar no diferencial da dor posteromedial. Numa série de 81 pacientes, a dor era posterior no tornozelo em 50%, no calcanhar em 28% e no mediopé em 27%; a dor à palpação ficava na junção miotendínea atrás do maléolo medial (cerca de 60%) ou no nó de HENRY (cerca de 40%). O teste de estiramento (menos dorsiflexão da metatarsofalângica com o tornozelo em dorsiflexão) foi positivo em 37%; as radiografias foram normais em 70% e mostraram os trigonum em 14%; a ressonância mostrou sinovite em 82%.

O diferencial que a prova gosta é com a síndrome de compressão posterior, causada por um processo de STIEDA alongado ou por um os trigonum grande. A dor que aparece com a flexão plantar forçada sugere impacto posterior; a tendinite do flexor longo do hálux dói atrás do maléolo medial, é muitas vezes confundida com tendinite do tibial posterior e se confirma quando a extensão passiva do hálux, comprimindo a bainha atrás do tornozelo, reproduz a dor (p. 3868). O HEBERT explica a ligação: o flexor longo do hálux passa num sulco osteofibroso do próprio tubérculo posterior do tálus, e por isso a tenossinovite acompanha o impacto; prefere a via medial para tratar os dois juntos. A doença de HAGLUND entra no mesmo diferencial pelo lado oposto: dói na dorsiflexão, enquanto o os trigonum dói na flexão plantar.

O tratamento não operatório (repouso, mudança da técnica de dança, anti-inflamatório, alongamento) é, para a maioria dos autores, pouco bem-sucedido, e a cirurgia dá 82% a 100% de bons resultados (p. 3869). Na técnica de HAMILTON, a via medial é usada quando há tendinite e impacto, e a lateral para o impacto isolado; o túnel é aberto de proximal para distal até o sustentáculo, e os nódulos geralmente não são excisados, porque com o túnel aberto a excursão fica livre. Laceração do flexor longo do hálux dentro da polia do hálux não é reparada se o flexor curto estiver íntegro, e lesão isolada do flexor longo dos dedos também não (p. 3870).

Dor posterior do tornozelo (Campbell 15, cap. 88, p. 3868 e 3869; HEBERT, caps. 21.1 e 21.2)
QuadroDorManobraImagemVia preferida
Tendinite do flexor longo do háluxAtrás do maléolo medial, nó de HENRYExtensão passiva do hálux com compressão da bainhaRM com líquido e sinovite; radiografia normal em 70%Medial
Impacto posterior (STIEDA, os trigonum)Posterior, em flexão plantarFlexão plantar máxima passivaPerfil com os trigonum ou processo alongadoLateral (isolado) ou medial (com tendinite)
HAGLUND e bursite retrocalcâneaPosterior no calcâneoDorsiflexão forçadaPerfil com tuberosidade posterossuperior proeminenteLateral ou central

Tibial anterior

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), abre a seção dizendo que tenossinovite e ruptura são os distúrbios mais comuns do tibial anterior, mas que eles são raros perto dos do tibial posterior e dos fibulares (p. 3853). O tendão perde a continuidade em duas situações, e a prova cobra exatamente a primeira:

  • ruptura atricional e espontânea em paciente com mais de 45 anos e uma condição predisponente (artrite inflamatória, injeção de corticoide ou diabetes);
  • ruptura traumática por dorsiflexão forçada contra resistência com o pé em flexão plantar, como no futebol e no futebol americano.

Corredores de longa distância têm mais tenossinovite que ruptura. A ruptura ocorre em dois locais: na inserção no cuneiforme medial ou sob o ramo superomedial do retináculo extensor inferior. Esse segundo local é relativamente avascular e é o das rupturas atricionais; a sinovite do tornozelo pode apertar ainda mais o tendão dentro do retináculo e piorar a isquemia (p. 3853).

O HEBERT diverge num ponto: estudos pós-morte não encontraram zona de déficit vascular no tibial anterior; a degeneração viria do atrito contra osteófitos da tíbia e a exostose cuneonavicular. Mas o perfil é o mesmo: "nos idosos ocorrem os casos de rotura espontânea", com perda lenta da dorsiflexão, dor insidiosa e associação com neuropatia diabética.

O exame engana: os extensores dos dedos assumem a dorsiflexão, e o pé sobe com os dedos em hiperextensão (Campbell, p. 3853; HEBERT). Na ruptura crônica, o tendão pode cicatrizar alongado e a contratura dos extensores longos produz dedos em garra. A tendinose distal causa queimação noturna no mediopé medial e dor na inserção; o teste de BEISCHER (flexão plantar, eversão do retropé, abdução e pronação do mediopé) tem sensibilidade de 90% e especificidade de 95%.

O tratamento depende da demanda: o paciente de baixa demanda tolera a perda, e uma órtese com batente a 90° por 3 a 6 meses pode bastar; nos ativos, a cirurgia dá melhores resultados (p. 3855), com o plantar delgado como enxerto preferido para a ponte (p. 3856). O HEBERT trata o idoso com órtese antiequino ou mola de CODIVILLA.

Os dois perfis de ruptura do tibial anterior (Campbell 15, cap. 88, p. 3853 a 3856; HEBERT, cap. 21.2)
PerfilQuemMecanismoLocalConduta
AtricionalMais de 45 anos, artrite inflamatória, corticoide, diabetesEspontânea, sem trauma relevanteSob o ramo superomedial do retináculo extensor inferior (zona avascular para o Campbell)Órtese na baixa demanda; reconstrução nos ativos
TraumáticaJovem atletaDorsiflexão forçada contra resistência com o pé em flexão plantarInserção no cuneiforme medialReparo, reinserção ou enxerto em ponte
TenossinoviteCorredores de longa distânciaSobrecargaBainhaAnti-inflamatório e bota por 3 + 3 semanas

Tendão calcâneo insercional e a deformidade de HAGLUND

Cobrança confirmada · 3 questões

O que é o quê na inserção

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), separa três fontes de dor na inserção do calcâneo, que podem coexistir (p. 3846): a bursite retrocalcânea, a bursite pré-tendínea (superficial) e a tendinopatia insercional, com ou sem calcificação. O livro critica o uso frouxo do nome: HAGLUND é usado incorretamente para qualquer aumento de volume na inserção; a deformidade de HAGLUND verdadeira é uma grande exostose da face posterossuperior da tuberosidade do calcâneo, situada anterior ao tendão. A bursa retrocalcânea fica entre essa tuberosidade e o tendão, logo anterior e proximal à inserção, e o atrito repetido do tendão contra a tuberosidade a inflama; com o tempo vêm a degeneração e os osteófitos dentro do tendão. A bursa pré-tendínea separa o tendão da pele e inflama pelo contraforte do calçado. O HEBERT chama a primeira de bolsa tendínea calcânea e a segunda de bolsa subcutânea calcânea, e lembra que o tendão fica entre as duas.

Fontes de dor na inserção do calcâneo (Campbell 15, cap. 88, p. 3846 e 3847; HEBERT, caps. 21.1 e 21.2)
FonteOndeDor típicaAlívio
Bursite retrocalcâneaEntre a tuberosidade posterossuperior e o tendãoAo levantar pela manhã; piora na dorsiflexãoElevar o calcanhar afasta o tendão da proeminência
Bursite pré-tendíneaEntre o tendão e a peleSó com calçado fechado atrásTrocar o calçado, proteção de silicone
Tendinopatia insercionalNa inserção, com calcificação ou osteófitoAo levantar e após repousoConservador prolongado
HAGLUND verdadeiroExostose posterossuperior da tuberosidadeCompressão da bursaRessecção se o conservador falhar

O quadro é insidioso, quase nunca há trauma, e há dificuldade com calçados fechados atrás; a contratura do gastrocsóleo é frequente, sobretudo com o joelho estendido (p. 3847). Um dado contraintuitivo: o tamanho do HAGLUND não difere entre sintomáticos e controles; o que se associa à tendinopatia insercional é o osteófito insercional, a calcificação e o pitch do calcâneo aumentado. O HEBERT diz que a tendinite insercional é mais frequente nos idosos do que as tendinopatias do corpo do tendão; quando acomete atletas, são os corredores. O diferencial inclui espondiloartropatias soronegativas (quando bilateral), gota e hiperlipidemia.

Tratamento: conservador primeiro

Os dois livros pedem tratamento não operatório prolongado antes de operar. O Campbell lista no Box 88.1 a calcanheira, a órtese noturna em dorsiflexão, o anti-inflamatório, o alongamento da panturrilha, gelo, proteção de silicone, fisioterapia, exercícios excêntricos e de carga lenta e pesada, bota no surto agudo, ondas de choque de baixa energia e injeções (PRP, sangue autólogo, corticoide e outras), cuja eficácia clínica é inconclusiva (p. 3846). A cirurgia é indicada só depois da falha do não operatório (p. 3848). O HEBERT é ainda mais explícito: conservador com elevação do salto, órteses, alongamento e, nos atletas, tênis com contraforte alto; infiltração com corticoide proscrita; cirurgia após seis meses sem sucesso no HAGLUND, e restrita aos casos graves e resistentes na insercional, com recuperação de 8 a 12 meses.

A cirurgia vai do mínimo ao máximo (Campbell, p. 3848 e 3849): na doença precoce, retirar o HAGLUND sem desbridar o tendão (bursite isolada: exostectomia aberta ou endoscópica); na tardia, desbridamento, exostectomia e eventual transferência. Até 50% do tendão pode ser ressecado com segurança; acima disso, considera-se reforçar com o flexor longo do hálux. A osteotomia em cunha de fechamento dorsal de ZADEK reapareceu e funciona melhor quando a ressonância mostra menos de 50% de degeneração. A recessão isolada do gastrocnêmio alivia, mas deixa fraqueza de flexão plantar.

Tendão calcâneo não insercional

Cobrança confirmada · 1 questão

O tendão calcâneo é o maior e mais forte do tornozelo (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 88, p. 3846). O gastrocnêmio cruza o joelho e age melhor com o joelho estendido; o sóleo age melhor com o joelho fletido. As fibras giram 90° até a inserção, com o gastrocnêmio lateral e o sóleo medial. A irrigação vem do paratendão, de ramos musculares e de vasos interósseos, e há uma zona de relativa avascularidade de 2 a 6 cm acima da inserção: é ali que mora a tendinose não insercional e é ali que o tendão rompe.

A Tabela 88.3 separa três tipos (p. 3850): peritendinite sem tendinose (inflamação do paratendão), peritendinite com tendinose e tendinose (espessamento e degeneração sem inflamação do paratendão). A peritendinite aguda dói e incha; a tendinose crônica pode ser quase assintomática, com uma nodularidade bulbosa que se move com a flexão e a extensão do tornozelo. O HEBERT descreve a peritendinite com dor 2 a 6 cm acima da inserção, pior pela manhã e depois do exercício, e diz que 90% se recuperam com conservador em seis semanas; injeção intratendínea de corticoide é reprovada porque predispõe à rotura.

A prova chama de sinal do arco doloroso a avaliação do tendão calcâneo; os livros conferidos não descrevem o sinal pelo nome, mas o fato que o sustenta está no Campbell: na tendinose, o nódulo faz parte do tendão e se move com o tornozelo.

O tratamento é longo: bota, anti-inflamatório, calcanheira e fisioterapia, com os exercícios excêntricos como a medida não operatória mais apoiada por dados (p. 3851). A cirurgia é indicada após pelo menos 6 meses de falha: liberação do paratendão, desbridamento e, se mais de 50% do volume estiver doente, transferência do flexor longo do hálux, a mais apoiada pela literatura; a recessão do gastrocnêmio ganha espaço por ter menos morbidade.

Tipos de tendinopatia não insercional do calcâneo (Campbell 15, cap. 88, Tabela 88.3, p. 3850; HEBERT, cap. 21.2)
TipoO que está doenteClínicaConduta inicial
Peritendinite sem tendinoseParatendãoDor e edema 2 a 6 cm acima da inserçãoConservador (90% resolvem em seis semanas para o HEBERT)
Peritendinite com tendinoseParatendão e tendãoEspessamento, risco de roturaImagem; cirurgia se persistir
TendinoseTendão, sem inflamação do paratendãoNódulo bulboso que se move com o tornozeloExcêntrico; desbridamento e flexor longo do hálux se mais de 50%

Ruptura aguda do tendão calcâneo e o reforço da sutura

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 53), coloca o calcâneo como o terceiro tendão que mais rompe, com pico entre 30 e 40 anos (p. 2252), na zona hipovascular de 2 a 6 cm (p. 2253). O diagnóstico usa o defeito palpável, a incapacidade de ficar na ponta do pé e o THOMPSON (apertar a panturrilha com o paciente prono não produz flexão plantar); a AAOS pede dois ou mais testes (p. 2254).

O ponto que a prova antiga cobrou é o reforço. O Campbell diz que retalhos de fáscia do gastrocnêmio, o plantar delgado, o fibular curto, o flexor longo do hálux e scaffolds foram usados para aumentar a sutura aguda, mas que estudos recentes não encontraram benefício sobre a sutura término-terminal simples (p. 2255). Um estudo prospectivo sugeriu menos alongamento com o flexor longo do hálux na percutânea, mas os reforços exigem incisões maiores e mais tempo. Os números da comparação cirurgia contra conservador são outros: a cirurgia tem rerruptura menor (0,6% contra 6,2%) e mais complicações, quase sempre menores.

O HEBERT tem uma posição diferente, e vale conhecê-la: ele reserva o reforço para quando a desorganização das fibras torna a sutura término-terminal impraticável ou instável a 0° a 5° de dorsiflexão, usando o fibular curto (via lateral, cuidado com o sural) ou o flexor longo do hálux (via medial), ou rebatendo uma faixa proximal do sóleo, com perdas de força menores que 20%. Ou seja, nenhum dos dois livros sustenta que reforçar de rotina reduza a rerruptura.

Reforço e rerruptura na ruptura aguda (Campbell 15, cap. 53, p. 2255 e 2256; HEBERT, cap. 21.2)
PontoCampbell 15HEBERT
Opções de reforçoFáscia do gastrocnêmio, plantar delgado (técnica de LYNN), fibular curto, flexor longo do hálux, scaffoldsFibular curto, flexor longo do hálux, faixa do sóleo
Benefício do reforço de rotinaNenhum sobre a sutura simplesSó quando a sutura simples é impraticável ou instável
Rerruptura cirurgia contra conservador0,6% contra 6,2%2% contra 4%
Momento idealAté 48 hPrimeiras 72 h

Tibial posterior: o estágio IV

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 88), apresenta a classificação de JOHNSON e STROM de 1989, com a modificação de BLUMAN e o estágio IV acrescentado depois (Tabela 88.1, p. 3812). No estágio I há tenossinovite, sem deformidade, e o paciente ainda inverte o pé na ponta de um pé só; no II, a deformidade é flexível e se perde a elevação unipodal (IIA com menos de 30% da cabeça do tálus descoberta, IIB com mais); no III, a deformidade é rígida ou semirrígida, com alterações degenerativas e dor no seio do tarso; no IV, aos achados do III soma-se o valgo incongruente do tornozelo, porque o deltoide também cedeu. O HEBERT descreve os três primeiros estágios e diz que "um quarto tipo tem sido descrito quando há comprometimento da articulação tibiotarsal". A AOFAS rebatizou a doença como deformidade progressiva do pé em colapso (p. 3812).

JOHNSON e STROM com BLUMAN e o estágio IV (Campbell 15, cap. 88, Tabela 88.1, p. 3812; HEBERT, cap. 21.2)
EstágioTendãoDeformidadeChave
ITenossinovite, função mantidaNenhumaInverte na ponta de um pé
IIAInsuficienteFlexível, menos de 30% da cabeça do tálus descobertaPerde a elevação unipodal
IIBInsuficienteFlexível, mais de 30% descoberta, abdução graveIdem
IIIFunção perdidaRígida, artrose do retropéDor no seio do tarso
IVFunção perdidaAchados do IIIValgo do tornozelo (tibiotarsal)

Fechamento

Fundamento

Todo o tema cabe numa pergunta: qual esquina este tendão dobra, e o que o segura ali? Os fibulares dobram atrás do maléolo lateral, seguros pelo retináculo fibular superior; quando ele se solta, os tendões saltam para a frente, e ODEN diz onde ele soltou (grau 1 periósteo, grau 2 crista fibrocartilaginosa, grau 3 osso com "fleck", grau 4 ruptura do retináculo). O curto, espremido contra a fíbula, racha na face profunda; até 50% se tubulariza, acima disso se faz tenodese ao longo. O longo dobra de novo no cuboide, carrega o os peroneum e se testa empurrando a cabeça do 1º metatarso para cima. O flexor longo do hálux entra no túnel do tálus e fica ao lado do os trigonum; o intervalo entre ele e os fibulares é a porta do acesso posterolateral. O tibial anterior dobra sob o retináculo extensor e, no idoso, rompe sozinho ali. O calcâneo não dobra, mas atrita a tuberosidade posterossuperior (HAGLUND) e degenera na zona hipovascular, e quase tudo nele começa pelo tratamento conservador.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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