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Entorse e instabilidade lateral do tornozelo

Pé e tornozeloResumo do capítulo36 min de leitura

LTFA é o mais fraco e o mais lesado (gaveta anterior), LCF é o único lateral extracapsular e o LTFP o mais forte; tibiotalar profundo posterior é o componente mais forte do deltoide; LTFA com talocalcâneo interósseo muda a mobilidade subtalar; inclinação talar >10° acima do lado normal; tratamento funcional até no grau III; entorse alta pelos testes de compressão (squeeze) e de rotação externa; CHRISMAN-SNOOK com metade do fibular curto; BROSTRÖM-GOULD como escolha na crônica; primeiro raio flexionado e cavo predispõem; impacto anterior após entorses de repetição.

Atualizado em 03/11/2026 · 36 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 55 · Arthroscopy of the Foot and Ankle (seções Ankle Impingement Syndromes e Ankle Instability), com o Capítulo 94 · Sports Injuries of the Ankle (seções Acute Ligamentous Injuries, Chronic Instability After Injury e Internal Derangements) e o Capítulo 59 (avaliação da sindesmose), em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026). Autores do capítulo: Carson M. RIDER (cap. 55); David R. RICHARDSON (cap. 94).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de pé e tornozelo do Campbell, capítulo 55, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo junta o que três livros dizem sobre a entorse do tornozelo e a instabilidade que ela deixa. O texto mais completo está no capítulo 94 do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (Sports Injuries of the Ankle, de David R. RICHARDSON); o capítulo 55 (Arthroscopy of the Foot and Ankle) completa a artroscopia, o impacto anterior e o BROSTRÖM artroscópico. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed., traz as regras de OTTAWA, a fratura isolada do maléolo lateral e a fratura de JONES, e o HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed.) dá a gradação em graus I a III e o esquema brasileiro de tratamento funcional.

A lógica do tema cabe em uma frase: o pé vira para dentro, o ligamento mais fraco (talofibular anterior) rompe primeiro, e o que decide o tratamento é a estabilidade e a demanda do paciente, não o nome da classificação. A banca brasileira cobra o tema em quatro frentes: anatomia (qual ligamento é o mais fraco, qual é o mais forte, qual é extracapsular, quais compõem o deltoide), exame (gaveta anterior, inclinação talar, testes da sindesmose), tratamento (funcional mesmo no grau III) e reconstrução (qual tendão cada técnica usa e o que cada uma reconstrói).

Quanto, em quem e por qual mecanismo

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94), abre com números que dão a dimensão do problema: as entorses respondem por 85% de todas as lesões do tornozelo, e 85% delas são por inversão lateral (p. 4135). As mulheres têm incidência global um pouco maior em esportes semelhantes, mas os homens têm mais entorses mediais e sindesmóticas. E o dado que justifica tratar a entorse com seriedade: até 40% dos pacientes ficam com dor ou instabilidade persistente.

O mecanismo define o lado. A eversão com abdução do pé pode romper o deltoide, mas a inversão é muito mais comum e rompe o lado lateral, em geral o talofibular anterior, o calcaneofibular ou os dois (p. 4135).

Uma ideia do Campbell muda a forma de pensar a classificação: existem muitas classificações das lesões ligamentares do tornozelo, mas nenhuma fornece um algoritmo de tratamento claro; a abordagem prática se baseia na estabilidade ao teste de estresse e no nível funcional do paciente (Box 94.1, p. 4135 e 4136). Esse raciocínio aparece em toda a matéria e explica por que o tornozelo instável de um sedentário e o de um atleta podem receber condutas diferentes.

Decisão pela estabilidade e pela demanda (Campbell 15, cap. 94, Box 94.1, p. 4136)
SituaçãoComo se reconheceConduta
Aguda estávelexame clínico e radiográfico normais (com anestesia, se preciso)tratamento sintomático
Aguda instável, baixa demandagaveta anterior ou inclinação talar positivas clínica e radiograficamentetratamento funcional
Aguda instável, alta demandamesmos achados em atleta ou paciente de alta exigênciaintervenção cirúrgica
Crônicador contínua ou instabilidade funcionalcirurgia guiada pelo exame e pela imagem

O complexo ligamentar lateral

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4135 e 4136), descreve três ligamentos laterais primários, diferentes em estrutura e em função. Vale decorar as três frases-chave antes dos números: o talofibular anterior é o mais fraco e o mais lesado; o calcaneofibular é o único extracapsular; o talofibular posterior é o mais forte.

O talofibular anterior (LTFA) resiste à translação anterior do tálus quando o tornozelo está em posição relativamente neutra. Mede 2,0 a 2,5 mm de espessura, 15 a 20 mm de comprimento e 6 a 8 mm de largura; sai da borda anterior do maléolo lateral e chega ao colo do tálus, onde se funde à cápsula anterolateral. O HEBERT (cap. 69, pág. PDF 3893) acrescenta funções: o LTFA é o restritor primário do deslocamento anterior, da rotação interna e da inversão do tálus.

O calcaneofibular (LCF) é mais grosso e mais forte que o LTFA: 20 a 25 mm de comprimento, 6 a 8 mm de largura e 3 a 4 mm de espessura. Nasce na ponta do maléolo lateral, passa profundamente aos tendões fibulares e se insere na face lateral do calcâneo. Como cruza duas articulações, o HEBERT diz que ele estabiliza a subtalar e é o principal restritor da inversão do retropé.

O talofibular posterior (LTFP) é o mais forte dos laterais: 30 mm de comprimento, 5 mm de largura e 5 a 8 mm de espessura, da fossa digital da fíbula ao tubérculo lateral do processo posterior do tálus. O HEBERT o chama de estrutura "bastante forte e, portanto, de difícil lesão". Ele só rompe nas lesões de maior energia, aquelas em que a inclinação talar passa de 30°.

Um quarto ligamento entra na conversa porque confunde o diagnóstico: o bifurcado não estabiliza o tornozelo, mas sua lesão costuma ser tomada por entorse lateral pela proximidade. Ele nasce no processo anterior do calcâneo e se divide em Y para a face dorsomedial do cuboide e a dorsolateral do navicular (p. 4136).

Os três ligamentos laterais (Campbell 15, cap. 94, p. 4135 e 4136; HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3893)
LigamentoOrigem e inserçãoDimensõesFunção e fato de prova
Talofibular anteriorborda anterior do maléolo lateral ao colo do tálus; funde-se à cápsula2,0 a 2,5 mm x 15 a 20 mm x 6 a 8 mmo mais fraco e o mais lesado; freia translação anterior, rotação interna e inversão do tálus; testado pela gaveta anterior
Calcaneofibularponta do maléolo lateral à face lateral do calcâneo, profundo aos fibulares20 a 25 mm x 6 a 8 mm x 3 a 4 mmo único lateral extracapsular; estabiliza a subtalar; principal restritor da inversão do retropé
Talofibular posteriorfossa digital da fíbula ao tubérculo lateral posterior do tálus30 mm x 5 mm x 5 a 8 mmo mais forte dos laterais; de difícil lesão
Bifurcado (não é do tornozelo)processo anterior do calcâneo ao cuboide e ao navicular (Y)sem medida no textonão estabiliza o tornozelo; lesão confundida com entorse lateral

Subtalar: o ligamento escondido da entorse

Cobrança confirmada · 1 questão

A entorse em inversão não poupa a subtalar. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4136), lista os estabilizadores da subtalar: intrínsecos (ligamento interósseo, ligamento cervical e cápsula anterior) e extrínsecos (retináculo extensor inferior, calcaneofibular, deltoide e calcaneonavicular). A nomenclatura varia na literatura, mas a ideia é simples: o LCF é extrínseco à subtalar e cruza as duas articulações; o interósseo talocalcâneo fica dentro do seio do tarso, no centro da articulação.

O fato que a banca cobrou literalmente está na p. 4140: a secção do ligamento talocalcâneo interósseo junto com o talofibular anterior produz mudança significativa do movimento subtalar, comparada à lesão isolada do LTFA. É o mecanismo que explica por que alguns pacientes continuam instáveis depois de uma entorse "do LTFA": a subtalar também ficou frouxa.

O diagnóstico é difícil. O Campbell (p. 4139) diz que distinguir entorse subtalar de entorse do tornozelo é complicado; radiografias de estresse negativas diante de uma lesão clinicamente grave, ou queixa de instabilidade funcional crônica, devem levantar a suspeita de entorse subtalar, e a maioria das lesões subtalares acontece junto com a lesão lateral do tornozelo. Para quantificar a contribuição de cada articulação, existem a incidência de BRODEN com estresse em inversão e o subtalar slide (gaveta anterior com supinação), mas vários autores questionam sua validade e uma revisão sistemática considerou a imagem atual não confiável para prever a instabilidade subtalar (p. 4140). Na prática, o diagnóstico exige alto índice de suspeita, várias modalidades de imagem e investigação clínica cuidadosa.

Daí também a recomendação do próprio Campbell sobre a reconstrução: quando instabilidade subtalar e do tornozelo coexistem em paciente de atividade extenuante, a tenodese de CHRISMAN-SNOOK, que passa pelo calcâneo, pode ser considerada (p. 4152).

O deltoide: camadas, componentes e o mais forte

Cobrança confirmada · 2 questões

Embora o tema seja a entorse lateral, a banca cobra o deltoide porque ele se lesa junto com o lado lateral muito mais do que se imagina. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4135), descreve um ligamento forte, plano e triangular, com cinco componentes, em duas camadas.

A camada profunda é a que dá a maior restrição à translação lateral do tálus. Tem dois componentes, os tibiotalares profundos anterior e posterior, que vão da face inferior do maléolo medial ao corpo do tálus e são intra-articulares, porém extrassinoviais. O fato que cai: o tibiotalar profundo posterior é o componente mais forte de todo o complexo deltoide. A camada superficial tem os outros três: o tibionavicular na frente, o tibiocalcâneo no meio e o tibiotalar posterior superficial atrás. As duas camadas resistem à inclinação do tálus em valgo e são restrições secundárias à translação anterior.

O HEBERT (cap. 69, pág. PDF 3893) chega ao mesmo desenho com outras palavras e acrescenta a função de cada camada. A superficial tem o naviculotibial (mais anterior), o calcaneotibial (o mais forte da camada superficial) e o talotibial (mais posterior); a profunda, mais forte, tem as porções anterior e posterior do talotibial, e a porção posterior intra-articular é a mais forte do complexo. Funcionalmente, a camada superficial resiste às forças de eversão, e a profunda previne a rotação externa do tálus, sendo a restritora primária da abertura medial.

Note o detalhe que cria pegadinha: nos dois livros, o tibiotalar anterior é componente profundo, e o tibiocalcâneo é superficial. Uma questão que coloque "tibiotalar anterior e tibiocalcâneo" como lesão "superficial" mistura as camadas da descrição dos livros; quem raciocina pela função, porém, chega à resposta da banca: o feixe que resiste à eversão é o superficial.

O deltoide nos dois livros (Campbell 15, cap. 94, p. 4135; HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3893)
CamadaComponentesO mais forteFunção
Superficialtibionavicular, tibiocalcâneo, tibiotalar posterior superficialtibiocalcâneo, dentro da camada (HEBERT)resiste à eversão (HEBERT); resiste ao valgo e é freio secundário da translação anterior (Campbell)
Profundatibiotalar profundo anterior e tibiotalar profundo posterior (intra-articulares, extrassinoviais)tibiotalar profundo posterior, o mais forte de todo o deltoide (os dois livros)maior restrição à translação lateral; previne a rotação externa do tálus; restritor primário da abertura medial

Por que o deltoide importa na entorse lateral? O Campbell (p. 4142) mostra que 72% dos pacientes com instabilidade lateral do tornozelo têm lesão do deltoide, e 43% têm lesão das duas camadas; a incidência de lesão deltoide aumenta muito quando o LTFA está completamente roto. O complexo ligamentar medial, para o Campbell, é deltoide mais calcaneonavicular (mola); nos pacientes ativos, a ruptura completa demonstrada pela RM ou por inclinação ou desvio anormal do tálus deve, em geral, ser reparada, e quase sempre há patologia associada (lesão lateral, fratura do maléolo lateral, lesão osteocondral, ruptura da sindesmose).

A ruptura isolada completa do deltoide é rara; as parciais isoladas existem (p. 4142). Para a isolada completa, recomenda-se gesso abaixo do joelho sem carga por 4 a 6 semanas e, depois, órtese moldada no calçado por 4 a 6 meses (p. 4143). É preciso diferenciá-la da ruptura isolada do tendão tibial posterior, que também causa dor medial na pronação. Um alerta prático do mesmo trecho: na tentativa de reduzir um tálus desviado lateralmente, o tibial posterior ou o coto do deltoide podem ficar presos entre o maléolo medial e o tálus e impedir a redução.

O HEBERT (pág. PDF 3916) completa com a clínica: a lesão medial nasce da eversão forçada, costuma vir com lesões associadas, e o estresse em valgo, além de doloroso, muitas vezes é negativo porque a lesão costuma ser parcial do folheto superficial. A RM é o exame mais fidedigno para a lesão isolada; as isoladas sem instabilidade objetiva são tratadas como as laterais, de forma funcional. Quando há fratura e o tálus não reduz na pinça, por interposição ou por instabilidade ao estresse intraoperatório, explora-se e repara-se o deltoide, sobretudo o componente profundo.

A sindesmose e a entorse alta

Cobrança confirmada · 2 questões

A sindesmose tibiofibular distal mantém a fíbula encaixada na incisura da tíbia. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4136), descreve quatro ligamentos: o tibiofibular anterior inferior, que vai do tubérculo anterior da tíbia à fíbula anterior e às vezes tem um feixe distal (o ligamento de BASSETT) capaz de causar impacto na face anterolateral do tálus; o tibiofibular posteroinferior, o mais forte da sindesmose; o transverso inferior, profundo e inferior ao posterior, que forma um lábio e aprofunda a articulação tibiotalar; e o interósseo, contínuo com a membrana interóssea. O Campbell é explícito: a membrana interóssea não faz parte da sindesmose distal. O HEBERT (cap. 69, pág. PDF 3893) diverge e conta cinco componentes, incluindo a membrana interóssea.

A sindesmose não é rígida. Na dorsiflexão, a fíbula translada, roda e sobe; o complexo permite que a fíbula carregue cerca de 16% da carga axial (Campbell, p. 4136). O HEBERT (pág. PDF 3894) dá os números do movimento (lateralização de 1,5 mm e ascensão de 2,4 mm) e o porquê: o tálus é trapezoidal, mais largo na frente, e "abre" a pinça quando o pé sobe. Daí a importância de qualquer desvio. Um desvio lateral de 1 mm do tálus reduz em 42% a área de contato tibiotalar (Campbell, p. 4142); o HEBERT cita RAMSEY e HAMILTON com o mesmo número dito de outra forma, aumento de 42% da carga, e acrescenta que 5 mm levam a 80%. O mecanismo é o mesmo nas duas frases: menos área, mais tensão por unidade de área, e caminho aberto para a artrose.

A entorse alta na prática

Quando os ligamentos que prendem a tíbia à fíbula rompem, em geral há fratura do maléolo medial, fratura da fíbula acima do maléolo lateral, ou as duas; às vezes, a lesão associada é a ruptura do deltoide (Campbell, p. 4143). A entorse sindesmótica isolada corresponde a cerca de 1% de todas as lesões do tornozelo e até 25% das entorses, provavelmente subnotificada porque a diástase é rara nas lesões isoladas. Sexo masculino e nível competitivo mais alto são fatores de risco. O Campbell (cap. 59, p. 2568) acrescenta os mecanismos nas fraturas: pronação-rotação externa, pronação-abdução e, menos, supinação-rotação externa, que fazem o tálus abduzir ou rodar externamente na pinça.

O diagnóstico é clínico, com dois testes principais (Campbell, p. 4143 a 4145):

  • Teste de compressão (squeeze test): comprime-se a fíbula contra a tíbia acima do meio da panturrilha; é positivo quando a compressão proximal produz dor distal, nos ligamentos interósseos e nas estruturas de suporte. Só deve ser feito depois de afastar outras lesões da perna pelo exame e pela radiografia, porque espremer a panturrilha separa a fíbula da tíbia distal. É o teste que as provas chamam de teste de compressão lateral da perna.
  • Teste de rotação externa: joelho a 90°, tornozelo em posição neutra, aplica-se rotação externa ao pé; positivo quando dá dor sobre os ligamentos tibiofibulares anterior ou posterior e sobre a membrana interóssea. É o teste que as provas chamam de teste de rotação lateral do tálus.

No intraoperatório, o teste de COTTON (Campbell, cap. 59, p. 2568) traciona a fíbula com um gancho contra a tíbia fixa: mais de 3 a 4 mm de desvio lateral indica fixação da sindesmose. O HEBERT (pág. PDF 3908) usa o teste da gravidade, o estresse em pronação e rotação externa e o teste do gancho; lateralização da fíbula maior que 5 mm depois da fixação, ou aumento do espaço claro medial, indicam parafuso suprassindesmal.

Tipos da lesão sindesmótica e conduta (Campbell 15, cap. 94, Fig. 94.14, p. 4143 e 4144)
TipoAchadoConduta
I, estáveltestes de estresse sem instabilidadeconservador: repouso curto (10 a 14 dias), reabilitação funcional, retorno gradual
II, parcialmente instávelradiografia aparentemente normal, testes provocativos positivosconservador como o tipo I, com retorno mais demorado; lesão do deltoide associada indica cirurgia
III, instávelruptura de todo o complexo sindesmóticocirurgia

O tratamento operatório (p. 4144 a 4146) obedece a poucos princípios. A diástase depois de uma entorse sindesmótica isolada é rara, e a maioria das rupturas se trata por métodos fechados; se a pinça continua alargada depois da manipulação, a cirurgia é necessária. A má redução da sindesmose leva a resultado ruim, e a redução aberta reduz a taxa de má redução em relação à fechada percutânea. Parafuso ou botão vão 3 cm acima e paralelos ao plafond; cerca de 50% dos parafusos e 10% dos botões acabam retirados, e não se recomenda o botão isolado quando a fíbula não está rigidamente fixada (MAISONNEUVE).

O prognóstico da entorse alta é pior que o da lateral: em cadetes militares e jogadores de futebol americano ela é mais grave e tem recuperação mais longa que uma entorse lateral de alto grau. Pode haver ossificação da sindesmose; sem sinostose franca, a função é boa, e a instabilidade crônica não parece decorrer da entorse sindesmótica, embora entorses recorrentes sejam comuns quando há ossificação heterotópica (p. 4144). Na reabilitação, a sindesmose pede um cuidado próprio: evitar dorsiflexão e eversão extremas por 8 semanas (Box 94.2, p. 4142), exatamente os movimentos que abrem a pinça.

O exame físico: gaveta anterior e inclinação talar

Cobrança confirmada · 2 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4136 a 4139), insiste que o exame cuidadoso evita erro de diagnóstico e lista o que palpar em toda dor de tornozelo: ligamentos (talofibular anterior, calcaneofibular, bifurcado, sindesmose, deltoide), tendões (Aquiles, fibulares, tibial posterior, flexor longo do hálux, flexor longo dos dedos e a inserção do fibular terceiro na base dorsal do 5º metatarsal) e ossos (maléolos, base do 5º metatarsal, processo anterior do calcâneo e processo lateral do tálus). A lista não é decorativa: cada ponto ósseo é uma fratura que imita entorse.

O exame tem limite claro. Comparado à RM, o exame físico foi 100% acurado nas lesões de alto grau, mas só 25% nas de baixo grau, e o clínico tende a subestimar o dano (p. 4137). O diagnóstico fica mais preciso se o exame for feito 5 dias depois da lesão do que nas primeiras 48 horas; a atrofia da panturrilha, medida pela circunferência, é um sinal objetivo da proteção do membro. O HEBERT (cap. 69, pág. PDF 3896) recomenda um segundo exame por volta do 10º dia e observa que, ao fim das duas primeiras semanas, a sensibilidade do exame aumenta (pág. PDF 3913). Uma regra vale para todos os testes de estresse: só são diagnósticos se mostrarem diferença significativa em relação ao lado normal (p. 4138).

Gaveta anterior

A gaveta anterior indica lesão do talofibular anterior (p. 4138). A técnica do Campbell é precisa: a ponta do polegar fica na ponta do maléolo lateral e a base do polegar palpa o processo lateral do tálus; o tornozelo fica em posição neutra ou em leve flexão plantar e livre para rodar internamente; com estresse suave, sente-se quanto o tálus anterioriza em relação à tíbia (p. 4139). Pode haver o sinal do sulco (ou de sucção), uma depressão na pele anterolateral quando o LTFA está roto. No agudo, basta carga baixa, e mais importante que os milímetros é a impressão clínica de que o tálus sai da pinça. A lógica anatômica fecha: o LTFA é o freio da translação anterior com o tornozelo perto do neutro; se ele cede, o tálus anterioriza, sobretudo com rotação interna livre, porque o lado medial (deltoide íntegro) funciona como pivô.

Inclinação talar (estresse em inversão)

Se os ligamentos laterais estão completamente rompidos, o tálus inclina com o estresse em inversão (p. 4138). O estresse é mais bem aplicado com o tornozelo em flexão plantar, embora não exista ponto final absoluto entre inclinação positiva e negativa. A instituição do Campbell estressa os dois lados e considera que mais de 10° de inclinação acima do lado normal indica lesão ligamentar lateral significativa. A gradação por graus de inclinação é clássica:

Inclinação talar ao estresse em inversão (Campbell 15, cap. 94, p. 4138 e 4150)
InclinaçãoInterpretação
Mais de 10° acima do lado normallesão lateral significativa
Cerca de 15°pode indicar ruptura isolada do LTFA
15° a 30°ruptura do LTFA e do LCF
Mais de 30°pode indicar ruptura dos três (LTFA, LCF e LTFP)
8° a 10° a mais que o normal, na crônicainstabilidade mecânica; se ausente, procurar outra causa (fratura de estresse)

As radiografias de estresse não precisam ser rotineiras, porque a maioria das lesões instáveis é tratada funcionalmente com bons resultados (p. 4138). O HEBERT (pág. PDF 3899) concorda e diz que a gaveta anterior radiográfica e o estresse em varo estão cada vez menos usados no agudo, porque doem e expõem o médico a radiação desnecessária.

Estresse em eversão e o lado medial

A ruptura completa do deltoide, incluindo a camada profunda, é menos comum. Quando o deltoide rompe por inteiro junto com a sindesmose ou com fratura do maléolo lateral, o tálus desvia lateralmente ao estresse em eversão; a sindesmose isolada permite algum desvio lateral (p. 4138). As radiografias de estresse em rotação externa diagnosticam a incompetência do deltoide nas fraturas de supinação-eversão de LAUGE-HANSEN com pinça reduzida, e dor, edema e equimose em volta do maléolo medial predizem mal a instabilidade.

Testes do tornozelo entorsado (Campbell 15, cap. 94, p. 4138 a 4145; cap. 55, p. 2317; cap. 59, p. 2568; HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3899)
TesteComo se fazO que avalia
Gaveta anteriorpolegar na ponta do maléolo lateral, tornozelo neutro ou em leve flexão plantar, rotação interna livretalofibular anterior
Inclinação talar (estresse em inversão)inversão com o tornozelo em flexão plantar, comparando os ladosLTFA e LCF; os três acima de 30°
Estresse em eversão e rotação externaeversão ou rotação externa sob radiografiadeltoide (com sindesmose ou fíbula)
Compressão da perna (squeeze)comprimir fíbula contra tíbia acima do meio da panturrilhasindesmose
Rotação externajoelho a 90°, tornozelo neutro, rotação externa do pésindesmose
COTTON (intraoperatório)gancho tracionando a fíbula contra a tíbia fixasindesmose; >3 a 4 mm indica fixação
Estresse pela gravidadeperna apoiada, tornozelo pendente em rotação externasindesmose e complexo medial
Flexão plantar forçadaflexão plantar passiva forçadaimpacto posterior

Imagem: OTTAWA, radiografias, ultrassom e RM

Relevância clínica

A primeira pergunta diante da entorse aguda é se há fratura. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 65, p. 2911), traz as regras de OTTAWA para decidir a radiografia: há dor perto de um ou dos dois maléolos e um ou mais dos seguintes: idade acima de 55 anos, incapacidade de apoiar o peso, ou dor óssea à palpação na borda posterior ou na ponta de qualquer maléolo. São regras muito sensíveis e custo-efetivas para identificar os pacientes com maior chance de fratura; o livro registra dificuldade na disseminação e dúvidas sobre a aplicação em diabéticos. O mesmo Rockwood (cap. 68, p. 3135 aprox.) lembra as regras de OTTAWA do pé, extensão das do tornozelo, 100% sensíveis e 79% específicas para fraturas do 5º metatarsal.

Regras de OTTAWA e radiografias (Rockwood and Green 10, cap. 65, Tabela 65-1, p. 2911; cap. 68, p. 3135 aprox.; HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3897)
ItemConteúdo
Pré-requisitodor perto de um ou dos dois maléolos
Critério 1idade acima de 55 anos
Critério 2incapacidade de apoiar o peso
Critério 3dor óssea na borda posterior ou na ponta de qualquer maléolo
Extensão ao péregras de OTTAWA do pé: 100% sensíveis e 79% específicas para o 5º metatarsal
Série do tornozeloAP, perfil e AP verdadeiro (mortise) com 15° (Rockwood) ou 20° (HEBERT) de rotação interna
Dor na fíbula proximalradiografia da perna inteira (MAISONNEUVE)

A série padrão tem anteroposterior, perfil e mortise (Rockwood, p. 2911; o Rockwood descreve a mortise com 15° de rotação interna e o HEBERT, pág. PDF 3897, com 20°). Dor à palpação da fíbula proximal manda radiografar a perna inteira, porque a fratura de MAISONNEUVE (fratura da fíbula proximal com fratura do maléolo medial ou lesão do deltoide, cerca de 5% das fraturas do tornozelo) é muito instável e pode vir com radiografia do tornozelo normal (Rockwood, p. 2910). O Campbell (cap. 94, p. 4142) dá o mesmo recado: o que parece lesão puramente ligamentar com desvio do tálus pode esconder uma fratura proximal da fíbula. O HEBERT (pág. PDF 3897 e 3898) lista os parâmetros: espaço claro medial menor que 4 mm, espaço livre tibiofibular distal de no máximo 5 mm e sobreposição tibiofibular; o Campbell (p. 4140) diz que o espaço claro tibiofibular e a sobreposição são úteis para a avaliação preliminar.

O ultrassom ganhou espaço pelo baixo custo, pela disponibilidade e pela avaliação dinâmica dos dois lados; revisões sistemáticas mostram alta acurácia na instabilidade lateral crônica, com os limites de ser operador-dependente e de enxergar mal as lesões profundas, como as osteocondrais (Campbell, p. 4140; HEBERT, pág. PDF 3902). A RM, sobretudo a tridimensional, é a mais acurada para a integridade ligamentar na entorse aguda, mas não é necessária na maioria dos casos; é mais específica que sensível, principalmente para o LCF, e ainda pode subestimar a instabilidade (Campbell, p. 4140). O HEBERT (pág. PDF 3903) restringe a RM aguda a suspeita de lesões ocultas osteocondrais e lesões complexas, em especial do lado medial e da sindesmose, e lembra que ela é estática, enquanto a lesão sindesmótica se revela melhor em situações dinâmicas; nos casos tardios, com dor e edema persistentes, a RM ajuda a decidir.

Os graus da entorse e as classificações

Cobrança confirmada · 1 questão

O HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 69, pág. PDF 3904) usa o sistema de gradação anatômico, que combina dados clínicos, radiológicos e anatomopatológicos, e é o mais empregado no Brasil. A gradação segue a sequência de ruptura: primeiro o LTFA, depois o LCF.

Graus da entorse lateral (HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3904)
GrauClínicaAnatomiaEstabilidade e marcha
I, levepouco edema e equimose, melhora rápidasem ruptura ou ruptura parcialsem instabilidade ao estresse; marcha sem claudicação
II, moderadoedema difuso, equimose mais extensa, incapacidade maiorLTFA roto, LCF com lesão parcialmarcha com claudicação
III, gravedor, edema acentuado e equimose extensaLTFA e LCF rotos; pode haver lesão do tibiofibular anteriorinstabilidade franca; precisa de muletas

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4135), lembra que nenhuma classificação dá algoritmo e prefere cruzar duas variáveis: estabilidade (estável ou instável aos testes de estresse) e demanda funcional (baixa ou alta). É exatamente o raciocínio das classificações que juntam um tipo de lesão a um grupo de paciente, como a que as provas atribuem a CLANTON e MCGARVEY: um número para a gravidade e a estabilidade, e um grupo para o perfil (atleta ou não). Os livros conferidos, porém, não trazem essa classificação pelo nome; o que sustentam é a lógica do Box 94.1, em que o tornozelo instável do paciente de baixa demanda vai para o tratamento funcional e o do paciente de alta demanda pode ir para a cirurgia.

Tratamento agudo: funcional, inclusive no grau III

Cobrança confirmada · 2 questões

A mensagem central do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4141), é direta: a maioria das lesões ligamentares se trata com órtese funcional e reabilitação precoce. A órtese mantém o ligamento distendido em alinhamento e comprimento razoáveis durante a cicatrização; a imobilização alivia a dor e o edema rapidamente, mas a mobilização precoce dá resultados superiores aos da imobilização, e o treino proprioceptivo e neuromuscular é particularmente benéfico. Mesmo as rupturas completas de grau III podem ter bons resultados com tratamento funcional: proteção curta com bandagem ou órtese que permita carga precoce, exercícios de amplitude e treino neuromuscular. A cirurgia aguda pode melhorar o resultado em longo prazo quando há instabilidade clínica e na imagem, mas a reconstrução secundária pode ser feita anos depois, com resultados comparáveis aos do reparo primário, o que tira a pressa de operar no agudo.

O capítulo detalha a conduta na p. 4149: RICE (repouso, gelo, compressão e elevação) logo após a lesão, órtese funcional e reabilitação assim que a carga for tolerada; a carga precoce, mesmo no grau 3, melhora o resultado; atletas com lesão importante devem considerar o uso da órtese por tempo indefinido, pelo risco de nova entorse. Quando pelo menos LTFA e LCF estão rotos, há suporte para reparo cirúrgico, mas a literatura é conflitante: alguns estudos mostram resultado melhor com o reparo agudo, outros mostram mais complicações precoces sem benefício claro.

Fases do tratamento funcional (Campbell 15, cap. 94, Fig. 94.10 e Box 94.2, p. 4141 e 4142; HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3912 e 3913)
FaseCampbellHEBERT
InicialPRICE; órtese semirrígida curta; bota por 2 a 3 semanas conforme a gravidade; carga conforme tolerância; gesso com carga por 2 semanas nos graves; amplitude sem inversão extrema (4 semanas no baixo grau, 8 no alto grau); fortalecimento dos eversores; alfabeto com o háluxdia zero igual para todos: tala suropodálica ou bota, gelo, repouso, elevação, analgésicos; 1ª e 2ª semanas com isométricos e carga progressiva protegida
Intermediárianormalizar marcha, amplitude e força; trocar a bota por órtese baixa; equilíbrio estático e dinâmico3ª a 6ª semanas: grau I já recuperado; graus II e III protegidos até a 4ª semana; força de flexores, inversores e eversores; propriocepção
Finalpliometria, agilidade, gesto esportivo; retorno liberado pelo médicoapós a 6ª semana: corrida, mudança de direção, gesto do esporte

O HEBERT reforça: o tratamento conservador continua sendo a escolha nas lesões agudas do complexo lateral, mesmo em atletas, e deve começar o mais cedo possível, qualquer que seja o grau, para reduzir edema, dor residual e tempo de incapacidade (pág. PDF 3913). A cirurgia fica para os 10% a 20% que não voltam às atividades e têm sinais de instabilidade crônica ou lesões despercebidas, como as osteocondrais. O Campbell dá o mesmo número para os atletas competitivos tratados funcionalmente: 10% a 20% precisam de reparo secundário (p. 4142). As indicações de cirurgia aguda do Box 94.3 são poucas: grandes avulsões ósseas, lesões osteocondrais instáveis, incompetência ligamentar grave medial e lateral, e lesões recorrentes.

Por que tantos ficam com sintomas mesmo após cicatrizar o LTFA? O Campbell (p. 4149) cita sinovite localizada, cicatriz dolorosa do ligamento, fraqueza dos fibulares e déficit proprioceptivo dos nervos articulares; e acrescenta as lesões condrais maiores que metade da espessura da cartilagem e com mais de 5 mm, associadas a dor pós-operatória, o que justifica baixo limiar para artroscopia junto com o reparo quando há suspeita intra-articular.

Fraturas que acompanham a entorse

Cobrança confirmada · 2 questões

O mesmo movimento de inversão que rompe o LTFA pode arrancar a ponta da fíbula ou a base do 5º metatarsal. Por isso o Campbell manda palpar esses pontos, e as regras de OTTAWA os incluem.

A avulsão da fíbula distal (AO 44A1)

O HEBERT (cap. 69, pág. PDF 3907 e 3911) explica que as fraturas WEBER A ficam abaixo da sindesmose (infrassindesmais) e nascem da supinação-adução: a força de arrancamento na fíbula distal produz lesão do complexo ligamentar lateral ou fratura-avulsão do maléolo lateral, e o tálus, empurrado para dentro, pode cisalhar o maléolo medial em traço vertical. Na classificação AO, o grupo 44 segue o WEBER: 44A1 é a fratura isolada da fíbula distal à sindesmose, A2 soma o maléolo medial e A3 a tíbia distal. O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 65, p. 2912 e 2913), fecha o raciocínio: a fratura verdadeiramente isolada do maléolo lateral é estável, não tira o tálus do lugar e se trata de forma conservadora; a fratura SAD 1 (supinação-adução estágio 1) faz parte do espectro das lesões ligamentares e se trata com órtese funcional ou gesso, com resultados comparáveis aos da lesão puramente ligamentar.

A base do 5º metatarsal e a fratura de JONES

O Rockwood and Green (cap. 68, p. 3135 a 3138 aprox.) divide o 5º metatarsal proximal em três zonas (LAWRENCE e BOTTE). A zona 1 é a avulsão da tuberosidade, pela inversão do retropé com carga sobre a borda lateral, tracionando a banda lateral da fáscia plantar. A zona 2, na junção metafisodiafisária, é a fratura de JONES verdadeira, aguda, por adução do antepé. A zona 3 é a fratura de estresse da diáfise proximal, nos primeiros 1,5 cm. Retropé varo, metatarso aduto e pé cavo são fatores de risco para as zonas 2 e 3.

Fraturas do 5º metatarsal proximal (Rockwood and Green 10, cap. 68, p. 3135 a 3138 aprox.)
ZonaLesãoMecanismoTratamento
1avulsão da tuberosidadeinversão do retropé; fáscia plantar lateralsapato rígido, bota ou faixa com carga; parafuso se desvio maior que 2 a 3 mm em jovem ativo
2JONES (junção metafisodiafisária)adução do antepéaguda: gesso curto sem carga por 6 semanas, depois bota com carga (não atleta); atleta: parafuso intramedular
3estresse diafisária proximalcarga cíclicagesso sem carga prolongado ou cirurgia; atleta: cirurgia

Na zona 2 aguda, o tratamento é controverso: meta-análises tendem à cirurgia, mas, pela falta de evidência de qualidade, o conservador pode ser preferível na população não atlética; a fratura aguda vai para gesso curto sem carga por 6 semanas, depois bota removível com carga progressiva, e o retorno leva até 10 semanas. Em atletas, as zonas 2 e 3 devem ser operadas para encurtar o retorno e evitar retardo ou não consolidação; o parafuso intramedular de 4,5 mm ou mais é o padrão-ouro, e o retorno após cirurgia foi de 9,7 semanas contra 13,1 no conservador.

Instabilidade crônica: definição, causas e fatores

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4150), separa dois conceitos. A instabilidade mecânica é a frouxidão objetiva: as radiografias de estresse mostram 8 a 10° de inclinação a mais que no tornozelo normal; quando isso não aparece, devem ser procuradas outras causas, como uma fratura de estresse da fíbula. A instabilidade funcional é a sensação subjetiva de instabilidade ou de entorse recorrente causada por déficit neuromuscular ou proprioceptivo. O tratamento começa conservador: salto alargado e baixo, cunha lateral no salto ou na palmilha, tênis de cano alto ou bandagem no esporte, e uma órtese semirrígida, mais eficaz que a bandagem e mais aceita pelos atletas; um programa de fortalecimento por alguns meses pode dispensar a cirurgia. Mas o Campbell também considera razoável operar logo, porque entorses recorrentes ameaçam outras estruturas, como a cartilagem do tálus.

A forma do pé conta. O HEBERT (cap. 21.4, pág. PDF 1586) lista, entre as condições associadas ao pé cavo-varo do adulto, a instabilidade lateral crônica do tornozelo, a recidiva da instabilidade após a reconstrução ligamentar, a instabilidade subtalar, as lesões dos fibulares e a fratura de JONES. O mecanismo começa no antepé: no pé cavo sutil descrito por MANOLI e GRAHAM, há flexão plantar exagerada do primeiro raio e varo do calcâneo (pág. PDF 1583); a flexão plantar do primeiro metatarsal, atribuída à hiperfunção do fibular longo, é flexível no início e depois enrijece (pág. PDF 1585). Com o primeiro raio "caído", o antepé apoia como um tripé que empurra o retropé para o varo, e o calcanhar em varo desloca a linha de carga para fora, favorecendo a inversão a cada passo. Por isso, quando há varo do retropé com subtalar móvel, o HEBERT (cap. 21.2, pág. PDF 1542) associa à reconstrução a osteotomia valgizante do calcâneo (DWYER) ou de translação lateral.

BROSTRÖM-GOULD: a reconstrução anatômica

Possível cobrança

O Campbell (cap. 94, p. 4149 e 4150) descreve a técnica de escolha. BROSTRÖM fez o reparo direto (encurtamento e retensionamento) do LTFA e do LCF; GOULD acrescentou a mobilização da porção lateral do retináculo extensor inferior e sua fixação à ponta da fíbula sobre o reparo. Se os ligamentos estão muito destruídos, se há hiperfrouxidão ou se o paciente pesa mais de 240 libras, acrescenta-se fita de sutura ancorada no colo do tálus e na fíbula. Os detalhes que caem: a incisão curva começa 5 cm acima da ponta da fíbula; preservam-se os ramos do nervo fibular superficial, que passam perto da inserção talar do LTFA, e o nervo sural, sobre os fibulares; o LTFA aparece como espessamento da cápsula anterior; o LCF fica sob a ponta da fíbula, profundo aos fibulares, em geral desinserido da fíbula. A tala em U fica com o tornozelo neutro e levemente evertido; com 2 semanas, apoio parcial em bota; com 5 semanas, carga total; inversão além do neutro só com 8 semanas.

Para o Campbell (p. 4152), nos casos de instabilidade moderada ou grave com tecido adequado, o BROSTRÖM modificado é o tratamento de escolha, com bons resultados e poucas complicações; num estudo em cadáver, ele produziu a menor gaveta e a menor inclinação e a maior resistência, comparado ao WATSON-JONES e ao CHRISMAN-SNOOK (p. 4152.e1). O HEBERT (cap. 69, pág. PDF 3913) chama as técnicas que usam tecido local (cápsula, cicatriz e retináculo dos extensores) de anatômicas e dá cerca de 85% de resultados satisfatórios ao BROSTRÖM-GOULD. A imbricação recupera a estabilidade mecânica em cerca de 80% sem sacrificar tendão, mas vai mal na hipermobilidade generalizada, na frouxidão antiga e na cirurgia prévia; reconstruir os dois ligamentos parece melhor que só o LTFA (Campbell, p. 4151). O capítulo 55 (p. 2324) acrescenta o BROSTRÖM artroscópico: sem diferença de escores, gaveta ou inclinação em relação ao aberto, carga mais precoce, mas complicações em 17%, com risco de prender o fibular terceiro, os extensores e o nervo fibular superficial ao amarrar as suturas do LTFA.

Tenodeses: WATSON-JONES, EVANS e CHRISMAN-SNOOK

Cobrança confirmada · 3 questões

As técnicas não anatômicas (Campbell, cap. 94, p. 4150) usam o fibular curto para substituir os ligamentos laterais: WATSON-JONES, EVANS e ELMSLIE reconstroem o LTFA e o LCF com o tendão, e o CHRISMAN-SNOOK é o ELMSLIE modificado. Cada uma nasceu para corrigir um defeito da anterior, e é essa história que as provas cobram.

O WATSON-JONES tenta reconstruir LCF e LTFA, passando o fibular curto por um túnel oblíquo no maléolo lateral (2,5 cm acima da ponta), por um túnel vertical no colo do tálus e de volta à fíbula (técnica 94.4, p. 4152 e 4153). Tem dois problemas: o túnel no colo do tálus é difícil e o fibular curto pode ficar curto. O EVANS foi desenhado para fugir disso: prende o fibular curto num túnel na fíbula (da ponta, saindo 3,2 cm acima, na técnica 94.5), mantendo um terço a metade do tendão presa à base do 5º metatarsal; com isso, reconstrói sobretudo o LCF e cruza a subtalar por trás (p. 4151 a 4153). O tornozelo raramente volta ao nível prévio, a cinemática fica alterada e há risco de artrose; KAIKKONEN e ROSENBAUM recomendam o EVANS só quando a reconstrução anatômica não for viável.

O terceiro defeito era do próprio WATSON-JONES: a linha de tração do fibular curto até a base do 5º metatarsal é oblíqua às fibras do LCF original, e pode sobrar instabilidade subtalar. CHRISMAN e SNOOK modificaram o ELMSLIE para reforçar a estabilidade lateral e subtalar, reconstruindo LTFA e LCF com metade do fibular curto (p. 4151). Na técnica 94.6 (p. 4153 a 4156), o fibular curto é dividido longitudinalmente ao meio, da inserção até a junção musculotendínea, e a metade usada continua presa à base do 5º metatarsal; ela passa por um túnel anteroposterior na fíbula, na altura da tibiotalar (a parte que substitui o LTFA), com o tornozelo neutro e o pé em leve eversão, depois por um túnel no calcâneo em torno de uma crista vertical constante, numa direção posteroinferior que reproduz o LCF, e volta a ser suturada na base do 5º (como no original) ou sobre si mesma na frente do túnel fibular (como se recomenda hoje). Os resultados regulares e ruins (6%) vieram de instabilidade persistente.

Reconstruções da instabilidade lateral crônica (Campbell 15, cap. 94, p. 4149 a 4156 e 4152.e1; HEBERT, cap. 69, pág. PDF 3913 e 3914)
TécnicaTipoMaterialO que reconstróiFato de prova
BROSTRÖM-GOULDanatômicaligamentos locais + retináculo extensor inferiorLTFA e LCFescolha com tecido adequado; menor gaveta e inclinação no cadáver; ~85% satisfatórios (HEBERT)
WATSON-JONESnão anatômicafibular curto (túneis na fíbula e no colo do tálus)LCF e LTFAtúnel no tálus difícil; tendão curto; pode deixar instabilidade subtalar; melhor no controle anteroposterior
EVANSnão anatômicaum terço a metade do fibular curto, preso ao 5º, por túnel na fíbulasobretudo o LCFcontrola melhor a inclinação talar; só se a anatômica não for viável
CHRISMAN-SNOOK (ELMSLIE modificado)não anatômicametade do fibular curto (ou semitendíneo, grácil) por fíbula e calcâneoLTFA e LCFindicada se há instabilidade subtalar associada em atividade extenuante; mais rígida
Aloenxerto anatômicoanatômicasemitendíneoLTFA e LCFhiperfrouxidão, IMC acima de 30, falha prévia

O preço das tenodeses é a rigidez. Num estudo em cadáver, as três aumentaram a estabilidade, mas só o CHRISMAN-SNOOK deixou o tornozelo significativamente mais estável que o tornozelo com LTFA cortado, à custa de movimento significativamente menor que o do tornozelo intacto (p. 4152.e1). Como o enxerto cruza tanto o tornozelo quanto a subtalar, o freio que ele cria atua justamente sobre a inversão. O Campbell indica o aumento tendíneo para hipermobilidade, insuficiência ligamentar antiga, IMC acima de 30 ou resgate após falha do BROSTRÖM, em geral com aloenxerto de semitendíneo, e lembra que lesões longitudinais do fibular curto acompanham a instabilidade crônica e devem ser procuradas em toda cirurgia (p. 4152). O HEBERT (pág. PDF 3914) lista os enxertos das tenodeses: hemifibular curto, plantar delgado, grácil ou semitendíneo. No pós-operatório das tenodeses, a inversão só começa com 7 semanas (p. 4153 e 4156).

Artroscopia, impacto anterior e o que imita a entorse crônica

Cobrança confirmada · 1 questão

O paciente com entorses de repetição e dor que persiste nem sempre tem só frouxidão. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 94, p. 4159 e 4160), descreve o impacto anterior (O'DONOGHUE, 1957): cristas osteocondrais (exostoses) se formam logo acima da borda anterior da tíbia distal e no dorso do colo do tálus, sobretudo em atletas, por dorsiflexão forte que joga o colo do tálus contra a tíbia; microtraumas repetidos fazem as cristas crescerem. O paciente queixa-se de dor que piora muito com a dorsiflexão forte, e o exame mostra dor na parte anterolateral da articulação. O capítulo 55 (p. 2317) descreve a mesma clínica como dor localizada na face anterior e dor à palpação da interlinha articular anterior. Há também o impacto anterolateral de partes moles, por sinovite crônica após entorses crônicas, e o impacto pelo feixe distal do tibiofibular anteroinferior (BASSETT), que, na dorsiflexão, roça a face anterolateral do tálus. O capítulo 55 (p. 2324) dá o número: 12% dos pacientes com instabilidade crônica têm impacto ósseo anterior.

Como confirmar? O perfil pode não mostrar os osteófitos (a incidência anteromedial ajuda) e a TC com carga avalia o impacto ósseo. A RM mostra os osteófitos, é pouco sensível para o impacto de partes moles (a artro-RM é mais sensível, porém menos prática) e é útil para mostrar patologia associada: 58% dos pacientes tinham outro diagnóstico, que mudou o plano cirúrgico em 33% (cap. 55, p. 2317). O capítulo é explícito sobre a artroscopia: a artroscopia puramente diagnóstica tem baixo índice de sucesso, e o diagnóstico definitivo deve ser firmado antes; se a RM não esclarece, uma infiltração intra-articular diagnóstica ajuda (p. 2312). A artroscopia entra como tratamento quando os sintomas persistem apesar de modificação da atividade, imobilização e reabilitação, com sucesso de 73% a 96%. No impacto posterior (os trigonum), a dor é atrás e o teste é a flexão plantar forçada (p. 2317).

Classificação de SCRANTON e MCDERMOTT dos esporões do tornozelo (Campbell 15, cap. 94, Fig. 94.44, p. 4160)
GrauAchado
Iimpacto sinovial; reação inflamatória, esporões de até 3 mm
IIexostose com reação osteocondral; esporões maiores que 3 mm, sem esporão no tálus
IIIexostose grave com ou sem fragmentação; esporão secundário no dorso do tálus
IVdestruição artrósica pantalocrural

O tratamento inicial do impacto é anti-inflamatório, imobilização e redução da atividade; quando as cristas incapacitam, ressecção artroscópica ou aberta (p. 4159).

Quando os testes de estresse são negativos e a dor persiste, o Campbell (p. 4157 e 4158) lista os impostores: coalizão tarsal (com espasmo fibular; a TC define o tipo), osteoma osteoide, granuloma eosinofílico e cisto ósseo simples, e as fraturas do processo lateral do tálus e do processo anterior do calcâneo, localizadas pela cintilografia e definidas pela TC. A síndrome do seio do tarso (O'CONNOR, 1958) é a dor no seio do tarso que persiste meses ou anos após uma entorse tratada de forma conservadora, talvez variante sutil da instabilidade subtalar; se a infiltração de anestésico e corticoide no seio do tarso não dá ao menos alívio temporário, o diagnóstico é duvidoso.

Fechamento

Fundamento

O tema inteiro se apoia em três ideias. A primeira é anatômica: o LTFA é o mais fraco e o primeiro a romper, o LCF é extracapsular, passa sob os fibulares e cruza a subtalar, o LTFP é o mais forte; no medial, o tibiotalar profundo posterior é o mais forte do deltoide, e a lesão deltoide acompanha a lateral em 72% das instabilidades. A segunda é de exame: gaveta anterior para o LTFA, inclinação talar para LTFA e LCF, sempre comparando com o outro lado; compressão da perna e rotação externa para a sindesmose, que é mais grave e mais lenta que a entorse lateral; regras de OTTAWA para decidir a radiografia e palpação da fíbula proximal e da base do 5º metatarsal. A terceira é de tratamento: funcional para quase todos, inclusive o grau III, cirurgia para os 10% a 20% que ficam instáveis, BROSTRÖM-GOULD como escolha e tenodeses com o fibular curto (CHRISMAN-SNOOK com a metade do tendão, EVANS sobretudo para o LCF, WATSON-JONES com túnel no tálus) para tecido ruim, frouxidão ou instabilidade subtalar associada.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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