Orto Questões

Gonartrose e osteotomias

JoelhoResumo do capítulo34 min de leitura

Artrose do joelho é falha do reparo de toda a articulação, mais comum acima de 60 anos e na mulher, com obesidade como fator modificável e o varo como deformidade mais comum; AHLBACK modificada por KEYES vai de redução do espaço (1) e obliteração (2) ao desgaste menor que 5 mm com platô posterior intacto (3), 5 a 10 mm com margem posterior gasta (4) e subluxação (5); KELLGREN-LAWRENCE de 0 a 4; o conservador que a AAOS sustenta é exercício, AINE e perda de peso com IMC acima de 25, e a artroscopia só vale com sintomas mecânicos; a osteotomia tibial valgizante pede artrose de um compartimento, sintomas concordantes e arco de 90 graus, é contraindicada com flexão menor que 90 graus, contratura acima de 15 graus, subluxação lateral acima de 1 cm, correção acima de 20 graus, artrite inflamatória e doença vascular significativa, hipercorrige para cerca de 10 graus de valgo, leva o eixo a 62,5% da interlinha, calcula a cunha pelo diâmetro da tíbia e pelo ângulo (1 mm por grau só com tíbia de 57 mm), abre medial para aumentar o slope no LCP deficiente e no canto posterolateral com varo; valgo acima de 12 a 15 graus ou interlinha inclinada acima de 10 graus vai para o fêmur; a unicompartimental pede LCA íntegro e deformidade corrigível; ATJ após osteotomia de fechamento corta pouco o platô lateral.

Atualizado em 03/11/2026 · 34 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 16 · Joelho do adulto (seções Osteoartrite, Tratamento conservador e Tratamento cirúrgico), com o Capítulo 10 · Knee Preservation Surgery (seções Osteoarthritis of the Knee, Proximal Tibial Osteotomy e Distal Femoral Osteotomy) do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., em Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), 5ª edição (2017), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 10, 8, 50, 52 e 34). Autores do capítulo: Wilson MELLO A. JR., Paulo César F. PENTEADO, Wander BRITO, Gustavo Constantino de CAMPOS e Xavier M. G. R. G. STUMP (HEBERT, cap. 16); Joseph D. LAMPLOT (Campbell, cap. 10).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de joelho do Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), capítulo 16, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

Ler no leitor do Orto QuestõesCriar conta grátis

No leitor: marcações, notas e as questões no meio do texto, que abrem sem perder o lugar da leitura.

Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo é inspirado no capítulo 16 (Joelho do adulto) do HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª edição (2017), lido junto com o capítulo 10 (Knee Preservation Surgery) do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição, que é a fonte mais detalhada das osteotomias. As páginas citadas do Campbell são as impressas; o HEBERT local não traz página impressa.

O tema tem uma lógica só, e quem a entende acerta quase tudo: a artrose do joelho é uma doença de carga mal distribuída. O varo empurra a carga para o compartimento medial, o valgo para o lateral, e o compartimento sobrecarregado se desgasta mais rápido. Por isso a prova pergunta, em sequência, como medir o desgaste (AHLBACK e KELLGREN-LAWRENCE), como medir o eixo (panorâmica, eixo mecânico, ponto a 62,5% da interlinha), o que fazer antes da cirurgia (exercício, AINE, perda de peso), quando a artroscopia ainda ajuda (sintomas mecânicos), quando mudar o eixo com uma osteotomia (um compartimento só, joelho móvel e estável, paciente jovem e ativo) e quando trocar a superfície por uma prótese unicompartimental ou total.

As bancas cobram números: os graus da AHLBACK, os limites do Box 10.4 do Campbell (flexão de 90 graus, contratura de 15, subluxação de 1 cm, correção de 20), a hipercorreção para cerca de 10 graus de valgo, a regra de 1 mm por grau e a largura da tíbia em que ela vale, o limite do valgo que ainda se corrige na tíbia, e o TT-TG de 20 mm para a osteotomia da tuberosidade. Também cobram raciocínio: por que a abertura medial aumenta o slope e serve ao LCP deficiente, por que o fechamento lateral exige mexer na fíbula e ameaça o nervo fibular, por que a artroplastia total depois da osteotomia de fechamento corta pouco do platô lateral.

Dois resumos vizinhos completam este: o de imagem do joelho (campbell15-imagem-joelho), que detalha as incidências de ROSENBERG, MERCHANT e o TA-GT na imagem, e o de artroplastia do joelho (campbell15-artroplastia-joelho), que trata da prótese total em profundidade. Aqui ficam a doença, o eixo e a decisão entre preservar e substituir.

O que é a gonartrose e quem a tem

Fundamento

Uma doença do órgão, não só da cartilagem

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), define a osteoartrite como uma doença em geral progressiva das articulações sinoviais que representa a falha no reparo de danos articulares resultantes de estresses. O ponto de partida pode ser qualquer tecido: cartilagem, osso subcondral, ligamentos, meniscos, músculos periarticulares, nervos periféricos ou sinóvia. O fim é sempre o mesmo, o colapso da cartilagem e do osso, com dor, rigidez e incapacidade. Artrose, osteoartrose e osteoartrite são sinônimos no texto.

Essa definição muda a forma de tratar. O HEBERT insiste que se trata da falência da articulação como um todo, de um órgão composto por cartilagem, sinóvia, osso subcondral, cápsula, meniscos, músculos e tendões; por isso a terapêutica precisa ser holística. O capítulo abre com o conceito de envelope de função de DYE: o joelho é uma transmissão biológica que aceita, redireciona e dissipa cargas, e cada tecido tem uma faixa de carga que tolera sem perder a homeostase. A articulação femoropatelar suporta as maiores cargas de todas as articulações do corpo e trabalha perto do limite, por isso é a primeira a doer quando a carga passa do envelope. Depois de uma lesão o envelope encolhe, e atividades antes toleradas passam a doer; cargas repetidas fora do envelope impedem a cicatrização e perpetuam a dor crônica. Restaurar a eficiência muscular e articular devolve o paciente ao envelope.

Fisiopatologia: três tecidos doentes ao mesmo tempo

O HEBERT descreve cartilagem, osso subcondral e sinóvia como os três tecidos atingidos. Na cartilagem há desbalanço metabólico, sinalizadores de degradação estimulados por cascatas de citocinas e mediadores inflamatórios. O osso muda cedo: o aumento do turnover subcondral apareceu até cinco anos antes das alterações radiográficas. A sinovite também é precoce e muitas vezes subclínica; estudos artroscópicos mostram alterações sinoviais em até 50% dos pacientes, muitos sem sinal clínico. A conclusão do texto é que tratar a doença como puramente mecânica ou puramente inflamatória simplifica algo que não é simples.

Os fatores de risco listados no HEBERT são gênero, idade, trauma, uso excessivo, genética e obesidade. A obesidade merece destaque porque é potencialmente modificável: uma revisão sistemática de 36 estudos encontrou risco positivo do IMC para o desenvolvimento da artrose em todos eles. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 498), concorda: a obesidade é fator de risco conhecido e a perda de peso retarda a progressão da doença.

O outro fator decisivo é o eixo. O HEBERT afirma que o mau alinhamento do membro é grande fator de risco para progressão: o varo aumenta o risco de artrose medial e o valgo, de artrose lateral. O Campbell (cap. 10, p. 499) completa que a deformidade mais comum na artrose do joelho é o varo, que concentra os estresses no compartimento medial e acelera o desgaste ali.

Epidemiologia

A osteoartrite é a doença articular mais comum. A OMS estima que 10% da população mundial acima de 60 anos tenha problemas clínicos graves por artrose. A prevalência acompanha a idade: é incomum abaixo de 40 anos e muito prevalente acima de 60. Nas mulheres, sobretudo depois dos 50 anos, a doença é mais prevalente que nos homens e tem distribuição mais difusa. No Brasil, a população acima de 60 anos passou de pouco mais de 7 milhões em 1980 para 19,2 milhões em 2010, com projeção de 60 milhões em 2050, o que antecipa grande aumento dos casos.

Primária e secundária

Classificação da osteoartrite (HEBERT, cap. 16, Quadro 16.1)
GrupoSubgruposO que importa no joelho
Idiopática localizadaMãos, pés, joelho, quadril, coluna, outros locaisO joelho se divide em compartimento medial, compartimento lateral e compartimento patelofemoral
Idiopática generalizadaTrês ou mais das articulações acimaArtrose em vários sítios, sem causa definida
SecundáriaPós-traumática, congênita, doenças de depósito de cálcio, outras síndromes ósseas, outras doençasA pós-traumática do jovem ativo é a melhor indicação de osteotomia no HEBERT

A divisão do joelho em três compartimentos não é detalhe de classificação: é ela que organiza o tratamento cirúrgico. A osteotomia e a prótese unicompartimental só fazem sentido quando um compartimento está doente e os outros estão razoáveis; quando dois ou três estão gastos, o caminho é a prótese total.

Quadro clínico e critérios diagnósticos

Fundamento

A dor mecânica

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), descreve a dor da artrose primária como mecânica: começa logo pela manhã por causa da imobilidade da noite, melhora em parte ao longo do dia e piora à tarde com os esforços. É dor ligada ao movimento, de início insidioso e incapacidade progressiva. No começo ela aparece só com esforço físico; com a evolução surge mesmo em repouso. Crepitação e derrame de repetição são frequentes, e a idade piora o quadro.

Os critérios do ACR

Em 1986, o American College of Rheumatology publicou os critérios de ALTMAN para a artrose do joelho, os mais usados para definir o paciente como portador da doença, com boa reprodutibilidade.

Critérios diagnósticos de ALTMAN para osteoartrite do joelho (HEBERT, cap. 16, Quadro 16.2)
ConjuntoExigênciaItensSensibilidade e especificidade
Clínico e laboratorialDor no joelho e pelo menos 5 de 9 itensIdade acima de 50 anos, rigidez menor que 30 minutos, crepitação, dolorimento ósseo, alargamento ósseo, discreto aumento de temperatura, VHS menor que 40 mm/h, fator reumatoide menor que 1:40, líquido sinovial osteoartrítico92% e 75%
Clínico e radiográficoDor no joelho, osteófitos e pelo menos 1 de 3 itensIdade acima de 50 anos, rigidez menor que 30 minutos, crepitação91% e 86%
ClínicoDor no joelho e pelo menos 3 de 6 itensIdade, rigidez menor que 30 minutos, crepitação, dolorimento ósseo, alargamento ósseo, discreto aumento de temperatura95% e 69%

O conjunto clínico e radiográfico é o mais específico porque o osteófito é o achado que a radiografia acrescenta ao exame. O conjunto apenas clínico é o mais sensível e o menos específico.

Radiografia e sintoma não andam juntos

O HEBERT alerta que o ortopedista não deve basear a conduta só na radiografia, porque a correlação entre a imagem e os sintomas é fraca. Um levantamento norte-americano encontrou 37,4% de artrose radiológica acima de 60 anos, mas só 12,1% quando se exigiam sintomas e radiografia juntos. Daí a necessidade do diagnóstico funcional: escala visual da dor, SF-36 para qualidade de vida, questionários de função (WOMAC, KSS, KOOS, LEQUESNE) e testes de desempenho (caminhada de seis minutos, sentar e levantar, sentar, caminhar e voltar a sentar). Essas medidas definem alvos terapêuticos e mostram o tamanho real da limitação.

Radiografia, KELLGREN-LAWRENCE e AHLBACK

Cobrança confirmada · 2 questões

As incidências

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), considera a radiografia simples o principal exame tanto para o diagnóstico quanto para o planejamento cirúrgico. A rotina é:

  • AP com apoio monopodal, porque a carga revela o estreitamento que o decúbito esconde;
  • perfil a 30 graus;
  • incidência de ROSENBERG: joelho a 45 graus de flexão com carga, face anterior apoiada no chassi, raio posteroanterior com inclinação podal de 10 graus, tubo a um metro. Ela mostra a parte posterior dos côndilos, onde o desgaste do joelho fletido aparece primeiro;
  • panorâmica dos membros inferiores, indispensável para medir os eixos anatômico e mecânico.

TC, cintilografia e RM ficam sobretudo para as artroses secundárias; a RM ajuda a ver lesão meniscal degenerativa e fratura por insuficiência do osso subcondral. Os detalhes técnicos das incidências estão no resumo de imagem do joelho.

KELLGREN-LAWRENCE

Em 1957, KELLGREN e LAWRENCE propuseram uma classificação radiológica baseada em cinco sinais considerados evidência da doença: osteófitos nas margens da articulação (no joelho, também nas espinhas tibiais), ossículos periarticulares, estreitamento do espaço articular associado a esclerose subcondral, pequenas áreas pseudocísticas de paredes escleróticas no osso subcondral e forma alterada das margens ósseas. A partir deles, graduaram a artrose em cinco graus: 0 nenhuma, 1 duvidosa, 2 mínima, 3 moderada, 4 grave. O grau 0 é ausência de alteração; o grau 2 é o primeiro em que a doença está presente, ainda mínima.

AHLBACK modificada por KEYES

Em 1968, AHLBACK criou uma classificação que olha principalmente o espaço articular e o desgaste ósseo; depois KEYES e colaboradores a modificaram acrescentando o perfil. É a classificação que as bancas brasileiras mais cobram, e o grau 3 é o campeão de perguntas.

Classificações radiográficas da artrose do joelho (HEBERT, cap. 16, Quadro 16.3 e texto de KELLGREN-LAWRENCE)
GrauAHLBACK modificada por KEYES: APAHLBACK modificada por KEYES: perfilKELLGREN-LAWRENCE
0Não existeNão existeNenhuma
1Redução do espaço articularSem critério de perfilDuvidosa
2Obliteração do espaço articularSem critério de perfilMínima (doença presente)
3Desgaste do platô tibial menor que 5 mmParte posterior do platô intactaModerada
4Desgaste do platô tibial entre 5 e 10 mmDesgaste da margem posteriorGrave
5Grave subluxação da tíbiaSubluxação anterior da tíbiaNão existe

O raciocínio que fixa a tabela é seguir o desgaste de frente para trás. Nos graus 1 e 2 a cartilagem some (o espaço reduz e depois oblitera). No grau 3 o osso começa a ser gasto, mas pouco (menos de 5 mm) e só na frente: no perfil, a parte posterior do platô está intacta. Esse é o retrato da artrose anteromedial, com o joelho ainda estável no sentido anteroposterior. No grau 4 o desgaste passa de 5 mm e chega à margem posterior. No grau 5 a articulação perde a congruência e a tíbia subluxa, no AP para o lado e no perfil para a frente.

A AHLBACK também aparece como critério de contraindicação no HEBERT: a osteotomia é contraindicada quando há artrose femoropatelar maior que grau I de AHLBACK.

Eixo mecânico, varo e o joelho que abre por fora

Cobrança confirmada · 2 questões

Os números do alinhamento

O eixo mecânico do membro vai do centro da cabeça femoral ao centro do tornozelo; ele mostra por onde a carga atravessa o joelho. O eixo anatômico segue as diáfises. O ângulo entre o fêmur e a tíbia na radiografia é o ângulo tibiofemoral anatômico, normalmente em valgo.

Números do alinhamento nos dois livros (Campbell, cap. 10, p. 500 a 502 e 508; HEBERT, cap. 16)
ParâmetroCampbell 15HEBERT 5
Valgo anatômico normal5 a 8 graus no ângulo tibiofemoral com carga; o texto das complicações fala em 5 graus de valgo anatômico normal5 a 7 graus de valgo
Alvo da osteotomia valgizanteCorreção até o normal mais 3 a 5 graus de hipercorreção, cerca de 10 graus de valgo; falha maior se não chegar a 8 grausLevar o eixo mecânico a 62,5% da interlinha a partir da borda medial
Onde o eixo deve passar após a correçãoO fio do centro do quadril ao centro do tornozelo passa no compartimento lateral; na hemicalotaxia, no ou logo lateral à eminência tibialNo ponto de 62,5% (chamado de ponto de NOYES)
Valgo que ainda se corrige na tíbiaAté cerca de 12 graus, desde que a inclinação da interlinha após a osteotomia não passe de 10 grausAté 10 graus de valgo, desde que não incline a interlinha

Os dois livros não usam exatamente o mesmo valgo normal (5 a 8 graus no Campbell, 5 a 7 no HEBERT), mas convergem no alvo: passar do normal para dentro do valgo, porque a correção apenas até o neutro recidiva.

Por que o varo é a regra

No joelho varo, a linha de carga passa medial ao centro da articulação. O compartimento medial recebe mais força, desgasta a cartilagem, perde altura, e a perda de altura aumenta o varo: é um ciclo que se autoalimenta. O Campbell (cap. 10, p. 499) diz que a deformidade mais comum na artrose do joelho é o varo, e que o valgo acelera o desgaste lateral, que é bem menos comum. Por isso a afirmação de que a deformidade mais frequente da artrose é o valgo está errada.

Triplo varo e o thrust lateral

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 50, p. 2048), descreve o joelho em triplo varo de NOYES: genu varum ósseo, instabilidade em varo das partes moles e thrust lateral (ou em varo) na fase de apoio da marcha. Ao andar, o joelho "abre" por fora porque as estruturas laterais (ligamento colateral lateral e canto posterolateral) estão frouxas e não seguram o compartimento lateral fechado quando a carga entra.

Os livros conferidos não usam o termo "duplo varo", mas a lógica se lê nos componentes que o Campbell lista para o triplo varo: o primeiro varo é o ósseo (geometria do membro); o segundo é o das partes moles, a abertura da fenda lateral por afrouxamento das estruturas laterais; o thrust na marcha completa o quadro. Quem tem duplo varo, portanto, tem a geometria alterada somada à separação lateral por frouxidão. No mesmo capítulo, o Campbell (p. 2060) explica a relação de causa: em quem tem varo e thrust lateral, as reconstruções simples falham por estiramento repetitivo crônico, ou seja, o varo continua estirando as estruturas laterais a cada passo.

A consequência terapêutica, também no cap. 50 do Campbell, é que nesses joelhos a reconstrução isolada das partes moles falha, porque as forças em varo estiram o enxerto; a osteotomia valgizante deve vir antes ou junto da estabilização. Corrigir o osso protege a reconstrução e pode até eliminar os sintomas de instabilidade.

O caso clínico da SES-DF

A banca da SES-DF 2022 montou um caso que amarra este capítulo: mulher de 52 anos, dor progressiva há cinco anos no joelho esquerdo, marcha em varo tipo II (duplo varo), derrame e dor na interlinha medial, radiografia AHLBACK III. Cada item cobra um pedaço do tema:

  • a abertura lateral por afrouxamento das estruturas laterais está correta, porque é o que define o segundo varo;
  • o perfil com a parte posterior do platô intacta está correto, porque é o grau 3 (bloco anterior);
  • a deformidade mais comum ser o valgo está errada (é o varo);
  • não corrigir o varo e manter o eixo em varo na osteotomia está errado (a osteotomia valgizante hipercorrige, bloco de planejamento adiante);

Tratamento conservador

Cobrança confirmada · 1 questão

O tripé

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 498), diz que o manejo inicial da maioria dos pacientes deve ser não operatório: fisioterapia, órteses, auxílios de marcha, AINE, injeção intra-articular de corticoide e analgésicos, com mudanças nas atividades de trabalho e lazer. Como a doença é progressiva, muitos acabam operando, e a escolha do procedimento depende da idade e expectativa de atividade, da gravidade e do número de compartimentos acometidos.

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), resume as diretrizes (ACR, EULAR e OARSI, esta com metodologia mais rígida e revisões periódicas) em três intervenções que devem ser o núcleo do tratamento: educação do paciente, atividade física e emagrecimento. A educação foca em autocuidado e tratamentos dirigidos ao paciente, não em terapias passivas. A atividade física busca restaurar a homeostase pelo equilíbrio muscular, com aeróbio, fortalecimento e ganho de amplitude, preferindo baixo impacto (exercício na água, bicicleta ergométrica, academia moderada respeitando ângulos de proteção). A perda de peso reduz a dor e melhora a função.

O que a AAOS sustenta

A Tabela 10.4 do Campbell traz as recomendações da American Academy of Orthopaedic Surgeons. É a tabela que resolve a questão clássica sobre qual método "melhora a evolução": o único item com evidência de modificar o curso que o Campbell cita no texto é a perda de peso, que retarda a progressão, e na tabela ela aparece com evidência moderada a favor em pacientes com IMC acima de 25.

Tratamento não operatório da artrose do joelho segundo a AAOS (Campbell, cap. 10, Tabela 10.4, p. 498)
Força da evidênciaIntervenções
Forte a favorAtividade física; exercício aeróbico de baixo impacto e fortalecimento; anti-inflamatório não esteroide
Moderada a favorPerda de peso em pacientes com IMC acima de 25
InconclusivaEletroterapia; terapia manual; órtese; injeção intra-articular de corticoide; PRP e fatores de crescimento; paracetamol, opioides e adesivos analgésicos
Moderada a forte contraAcupuntura; palmilhas; glucosamina e condroitina; ácido hialurônico; lavagem por agulha

O que o HEBERT defende: uma divergência real

Aqui os dois livros discordam, e vale saber o que cada um diz. O HEBERT é muito mais favorável a várias medidas que a AAOS rejeita:

Medidas em que os livros divergem (Campbell, cap. 10, Tabela 10.4, p. 498; HEBERT, cap. 16)
MedidaCampbell (AAOS)HEBERT
Ácido hialurônico (viscossuplementação)Evidência moderada a forte contraBenefício em dor e função, altera de modo favorável o curso da doença, melhora a cartilagem; bom perfil de segurança e custo-efetividade; recomenda somar 1 mL de triancinolona
Glucosamina e condroitinaEvidência moderada a forte contraEvidência limitada para modificar a doença, mas benefício sintomático de longo prazo, efeito residual e menor consumo de analgésicos; a associação tem resultados conflitantes
AcupunturaEvidência moderada a forte contraModalidade com benefício comprovado no alívio da dor
Corticoide intra-articularInconclusivoMuito recomendado com sinais inflamatórios e derrame; ação rápida (melhora na primeira semana), dura 3 a 4 semanas; benefício a longo prazo não estabelecido
Paracetamol e opioidesInconclusivosDipirona ou paracetamol para dor leve a moderada (efeito semelhante ao AINE); opioide na dor moderada a intensa, com cuidado com constipação e tontura no idoso
Palmilhas e órtesesPalmilhas contra, órtese inconclusivaÓrteses e palmilhas indicadas no desvio em varo ou valgo

O HEBERT detalha os condroprotetores, que prefere chamar de SYSADOA (drogas sintomáticas de ação lenta), porque o rótulo de "modificadoras da doença" parece exagerado: diacereína (inibe a IL-1), glicosamina (resultados controversos conforme a formulação), condroitina (pequena redução do estreitamento do espaço), extratos insaponificáveis de soja e abacate (inibem IL-1, IL-6, IL-8 e metaloproteases in vitro e reduzem dor e consumo de analgésicos), cloroquina (suprime o NO induzido por IL-1, para mãos experientes) e colágeno hidrolisado ou tipo 2. Sobre o AINE, o HEBERT pede a menor dose pelo menor tempo, com cautela em quem tem risco cardiovascular, seja COX-2 seletivo ou não. Bengala vai na mão contralateral, e o andador é preferível na doença bilateral. TENS, calor e crioterapia são muito usados, mas com evidência limitada; yoga, tai chi e qi gong têm evidência de melhora.

Para a prova, o raciocínio que evita erro é: quando o enunciado pergunta qual tratamento tem evidência de melhorar a evolução ou de retardar a progressão, a resposta é a perda de peso no paciente com sobrepeso. Ácido hialurônico, glucosamina com condroitina e acupuntura são exatamente os itens que a AAOS, citada pelo Campbell, coloca do lado da evidência contrária.

Artroscopia na artrose

Cobrança confirmada · 2 questões

O que se faz e por que melhora no começo

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 498 e 499), define o desbridamento do joelho artrósico como sinovectomia limitada, ressecção de osteófitos, remoção de corpos livres, condroplastia e retirada de meniscos lesados. O desbridamento aberto quase não se usa; as técnicas artroscópicas dão menos dor e reabilitação mais curta. Há três modalidades: lavagem simples, desbridamento e condroplastia por abrasão.

A lavagem dá bons resultados iniciais que pioram com o tempo. O alívio inicial vem da remoção de debris cartilaginosos e fatores inflamatórios, não de qualquer reparo da cartilagem. A abrasão e a microfratura tentam estimular regeneração; cerca de 60% têm bom resultado com abrasão, que é contraindicada em artrite inflamatória, rigidez significativa, deformidade ou instabilidade e em quem não consegue cumprir dois meses sem carga.

Quem melhora e quem não melhora

Prognóstico do desbridamento artroscópico (Campbell, cap. 10, p. 498 e 499)
Vai bemVai mal
Sintomas de curta duraçãoMau alinhamento radiográfico, sobretudo valgo
Sintomas mecânicosLitígio pendente ou compensação trabalhista
Dor à palpação da interlinha medialArtrose grave com mau alinhamento e espaço articular menor que 2 mm (só 25% aliviam)
STEINMANN positivo (rotação externa e interna forçadas com o joelho a 90 graus, dor referida na interlinha)Idade acima de 70 anos: cinco vezes mais chance de ATJ em um ano do que abaixo de 60
Lesão meniscal instável encontrada na artroscopiaArtrose difusa sem fragmento a remover

A lógica é simples: a artroscopia só tira coisas. Se o problema é uma coisa solta (fragmento de menisco que trava, corpo livre, retalho instável), retirá-la resolve o sintoma. Se o problema é a carga mal distribuída ou a cartilagem gasta por toda parte, não há o que tirar, e o resultado é ruim. Por isso sintomas mecânicos são o fator de bom prognóstico, e a dor insidiosa, a dor noturna, a dor em repouso e a longa duração são os maus.

A posição atual

O Campbell é direto: a AAOS não recomenda o desbridamento artroscópico para artrose. Há um efeito placebo, mas de curta duração, e o alívio significativo aparece em menos de 50% em dois anos. O desbridamento não altera a história natural; no máximo adia um procedimento definitivo em jovens ativos com artrose localizada que dói em repouso, sem mau alinhamento nem instabilidade. A caixa de conceitos do Campbell (p. 499) fecha a questão: não se faz artroscopia no joelho artrósico a não ser que haja fragmentos condrais ou osteocondrais soltos sintomáticos ou fragmentos meniscais causando sintomas mecânicos francos, como o joelho travado.

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), conta a mesma história pela linha do tempo. Até 2002 a artroscopia era usada de forma indiscriminada, como desbridamento ou meniscectomia parcial da lesão degenerativa do menisco medial. O ensaio de MOSELEY e colaboradores mudou isso ao não encontrar benefício contra uma artroscopia simulada; em 2013, SIHVONEN e colaboradores não acharam benefício nem na lesão meniscal degenerativa sem artrose. Hoje a artroscopia é procedimento de exceção, reservada ao bloqueio articular agudo por fragmento de menisco ou corpo livre; quando essa é a queixa principal, a retirada melhora o quadro, mas o paciente mantém todas as outras medidas.

Os dois livros concordam no essencial, e a única diferença é de tom: o Campbell ainda descreve o grupo que pode se beneficiar (sintomas curtos, mecânicos, interlinha medial dolorosa, STEINMANN, lesão instável), enquanto o HEBERT reduz a indicação ao bloqueio.

Cartilagem: transplantes na artrose

O Campbell (cap. 10, p. 499) trata o transplante osteocondral e a implantação de condrócitos como salvamento em jovens ativos com degeneração grave, sobretudo femoropatelar. O aloenxerto osteocondral teve 78% de resultados satisfatórios no geral, mas só 30% nos joelhos com artrose. A implantação de condrócitos não se mostrou superior aos enxertos osteocondrais. As indicações são limitadas a defeitos isolados de espessura total, grau IV, sem cistos subcondrais; lesões bipolares (patela e tróclea, ou tíbia e fêmur) contraindicam a geração atual (MACI), e o paciente precisa restringir atividade por 12 meses.

Osteotomia tibial alta: indicações e contraindicações

Cobrança confirmada · 3 questões

O racional

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 499), chama a osteotomia tibial alta de procedimento consagrado para a artrose unicompartimental. O racional biomecânico é a descarga do compartimento doente: corrigir o mau alinhamento redistribui os estresses e transfere peso para o compartimento menos acometido. Há relatos artroscópicos de reparo fibrocartilaginoso depois da osteotomia. Os resultados são de cerca de 80% satisfatórios em 5 anos e 60% em 10 anos, com deterioração ao longo do tempo, mas o procedimento continua útil em pacientes bem selecionados.

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), resume o objetivo da osteotomia em quatro verbos: restabelecer o alinhamento, distribuir melhor a carga entre os compartimentos, aliviar os sintomas e retardar a progressão. O varo é corrigido na tíbia proximal com osteotomia valgizante, de fechamento lateral ou abertura medial; o valgo é corrigido no fêmur, e só pode ser tratado na tíbia se a correção não inclinar a interlinha (até 10 graus de valgo).

Box 10.4: o que a banca decora

Indicações e contraindicações da osteotomia tibial proximal na artrose (Campbell, cap. 10, Box 10.4, p. 499)
IndicaçõesContraindicações
Dor e incapacidade que interferem de modo significativo com trabalho ou lazer de alta demandaEstreitamento do espaço cartilaginoso do compartimento lateral
Radiografias com carga mostrando artrose limitada a um compartimento, com o varo ou valgo correspondenteSubluxação tibial lateral de mais de 1 cm
Paciente capaz de usar muletas ou andador, com força e motivação para a reabilitaçãoPerda óssea tibial do compartimento medial de mais de 2 ou 3 mm
Sintomas concordantes com a radiografia (dor medial isolada no joelho varo)Contratura em flexão de mais de 15 graus
Flexão do joelho menor que 90 graus
Necessidade de mais de 20 graus de correção
Artrite inflamatória
Doença vascular periférica significativa

Cada contraindicação tem um porquê, e entendê-lo resolve as variações de enunciado:

  • Compartimento lateral estreitado: a osteotomia valgizante joga a carga para o lado lateral; se ele já está gasto, troca-se uma artrose por outra.
  • Subluxação lateral acima de 1 cm e perda óssea medial acima de 2 a 3 mm: a articulação perdeu a congruência ou o osso; mudar o eixo não devolve a superfície.
  • Contratura acima de 15 graus e flexão menor que 90 graus: o joelho rígido vai mal, e o próprio COVENTRY associa o bom resultado a um arco pré-operatório de pelo menos 90 graus.
  • Correção acima de 20 graus: a cunha fica grande demais para a tíbia proximal, a interlinha inclina e a consolidação piora; a saída é a osteotomia em dois níveis ou a prótese.
  • Artrite inflamatória: a doença não é de um compartimento.
  • Doença vascular significativa: o risco da cirurgia aberta na perna isquêmica.

A artrite reumatoide

O Campbell (cap. 10, p. 497 e 498) explica por que a osteotomia em geral é contraindicada na artrite reumatoide: o processo tende a se distribuir de forma mais uniforme entre os compartimentos medial, lateral e femoropatelar, e o osso osteoporótico torna o procedimento exigente, com maior chance de fratura intra-articular durante o corte, avulsão do tendão patelar ou perda da fixação. Na reumatoide avançada, a artroplastia total é o tratamento de escolha. O mesmo raciocínio aparece na osteotomia femoral: resultados ruins na artrite reumatoide.

O que o HEBERT acrescenta

O HEBERT dá uma lista mais curta e com outro recorte. A osteotomia tem sua melhor indicação nas artroses pós-traumáticas, em pacientes mais jovens e ativos, e é contraindicada quando há desaparecimento do espaço articular, subluxação da tíbia, artrose femoropatelar maior que grau I de AHLBACK e presença de osteófito posterior.

Seleção do paciente para osteotomia nos dois livros (Campbell, cap. 10, p. 499 e 501; HEBERT, cap. 16)
CritérioCampbell 15HEBERT 5
IdadeMelhor abaixo de 60 anos (COVENTRY); sobrevida maior abaixo de 55 anosJovens e ativos
DoençaPuramente unicompartimental; lateral preservadoMelhor na pós-traumática; femoropatelar até AHLBACK I
Estabilidade e subluxaçãoEstabilidade ligamentar favorável; subluxação lateral acima de 1 cm contraindicaSubluxação da tíbia contraindica
MobilidadeArco de pelo menos 90 graus; contratura até 15 grausNão especifica
DesgastePerda óssea medial até 2 a 3 mmEspaço desaparecido contraindica
Osteófito posteriorNão citadoContraindica
PesoFalha maior com 30% acima do peso ideal; sobrevida maior com IMC abaixo de 30Não especifica
InflamatóriaContraindicaNão citado nesta lista

O osteófito posterior do HEBERT é coerente com a AHLBACK: quando o desgaste chega à parte de trás do platô, a doença já passou do grau 3, e o joelho que tem osteófito posterior costuma ter o compartimento comprometido de frente a trás.

Planejamento: quanto corrigir e o tamanho da cunha

Cobrança confirmada · 3 questões

Hipercorrigir, nunca manter o varo

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 501), parte do valgo normal de 5 a 8 graus no ângulo tibiofemoral medido com carga. Calcula-se quanto falta para chegar ao normal e acrescentam-se 3 a 5 graus de hipercorreção, chegando a cerca de 10 graus de valgo. A razão está nas complicações: a subcorreção e a recidiva do varo ocorrem em 5% a 30%, atribuídas à correção insuficiente, e a hipercorreção além dos 5 graus de valgo anatômico normal reduziu essa complicação (p. 500). COVENTRY viu falha maior quando o alinhamento não passava de pelo menos 8 graus de valgo e quando o paciente estava 30% acima do peso ideal (p. 501). Manter o eixo em varo depois de uma osteotomia valgizante é, portanto, o contrário do que os livros ensinam.

O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), faz o planejamento pelo eixo mecânico numa panorâmica de boa qualidade, com o centro da cabeça femoral e o centro do tornozelo visíveis. O objetivo é levar o eixo mecânico para um ponto a 62,5% da largura da interlinha, medidos a partir da borda medial da tíbia, que o HEBERT chama de ponto de NOYES. Traça-se uma linha do centro da cabeça femoral até esse ponto e outra do centro do tálus até o mesmo ponto; o ângulo entre as duas é o ângulo de correção. Os livros conferidos não usam o nome FUJISAWA para esse alvo lateral: o conceito (deslocar a carga para dentro do compartimento lateral) é o mesmo que o Campbell expressa ao pedir que o fio do quadril ao tornozelo passe no compartimento lateral (Técnica 10.10, p. 502) ou no ou logo lateral à eminência tibial (Técnica 10.12, p. 508).

O tamanho da cunha

No varo, o Campbell diz que o único limite da correção é o tamanho da cunha que cabe proximal ao tendão patelar (p. 501). Para calcular a cunha há três métodos:

Métodos de cálculo da cunha na osteotomia de fechamento (Campbell, cap. 10, p. 501, Fig. 10.13)
MétodoComo funcionaLimite
Regra de BAUER1 grau de correção para cada 1 mm de base da cunha (20 graus = base de 20 mm)Só é verdadeira se a tíbia tiver 57 mm de largura
Panorâmica em tamanho quase realDesenha-se o eixo mecânico do centro da cabeça femoral ao centro do tornozelo e corta-se a cunha que leva ao alinhamento desejadoDepende da qualidade da radiografia
Medida exata (preferida pelos autores)Triângulo retângulo desenhado no pré-operatório, com o ângulo de correção no ápice e a largura da tíbia como cateto; ou a fórmula: base = diâmetro da tíbia x 0,02 x ângulo; ou tabelas de tangenteExige medir a largura da tíbia no corte (a Técnica 10.10 mede com o medidor de profundidade)

A fórmula mostra por que a regra de 1 mm por grau não é universal: a base da cunha depende de dois parâmetros, o diâmetro (largura) da tíbia no nível do corte e o ângulo de correção desejado. Numa tíbia estreita, o mesmo ângulo pede base menor; numa larga, base maior. Na Fig. 10.13, a tíbia de 4 cm pede base de 8 mm para o ângulo desenhado. A inclinação articular e o ângulo tibiofemoral entram no cálculo do ângulo de correção, mas não na conversão do ângulo em milímetros.

O HEBERT simplifica: tanto na abertura medial quanto no fechamento lateral, cada 1 mm corrige cerca de 1 grau (Quadro 16.4). O Campbell, mais preciso, lembra que isso só vale para a largura de 57 mm.

Fechamento lateral, abertura medial, cúpula e hemicalotaxia

Fundamento

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 499 e 500), lista quatro tipos de osteotomia valgizante: abertura medial, fechamento lateral, cúpula e hemicalotaxia em abertura medial. A de história mais longa é o fechamento lateral de COVENTRY, feito proximal à tuberosidade (via lateral para o varo, medial para o valgo). Não há vantagem nítida de uma sobre a outra: um ensaio randomizado não mostrou diferença clínica nem radiográfica, mas a abertura teve mais complicações e o fechamento, mais conversão precoce para ATJ.

Abertura medial e fechamento lateral comparados (Campbell, cap. 10, p. 500 a 507; HEBERT, cap. 16, Quadro 16.4)
AspectoFechamento lateralAbertura medial
PrecisãoDois cortes precisos; correção fiel, 1 mm de cunha retirada por grauAjuste fino mais fácil; correção fiel, 1 mm de abertura por grau
FíbulaExige ostectomia da fíbula ou ruptura da tibiofibular proximalNão mexe na fíbula
Slope posteriorDiminuiAumenta (abertura maior na frente)
ComprimentoMuda pouco; preferir se a perna operada já for a mais longaAlonga; discrepância é complicação comum
EnxertoNão precisa; osso esponjoso consolida rápidoPrecisa se a abertura passar de 10 mm (HEBERT); tricortical de crista ilíaca, EVANS ou colo femoral
Complicação típicaLesão do nervo fibular pela osteotomia da fíbulaFratura da dobradiça lateral com extensão ao platô (15% a 18%)
Partes molesNão tensiona o medialTensiona o LCM superficial e as estruturas mediais
Indicações própriasPadrão clássico; LCA deficiente se beneficia do slope menorFrouxidão do LCM, LCA deficiente associado (com cuidado no slope), canto posterolateral grau III com varo

As vantagens do fechamento lateral estão no Box 10.5 (p. 501): o corte fica perto da deformidade, em osso esponjoso que consolida rápido; os fragmentos ficam firmes com grampos ou placa; dá para explorar o joelho pela mesma incisão; o risco de pseudartrose é pequeno e não exige gesso prolongado. A Técnica 10.10 (p. 502) mantém o joelho a 90 graus de flexão para levar os vasos poplíteos e o nervo fibular para trás, faz incisão em L invertido, abre a tibiofibular proximal, deixa uma ponte de 10 mm da cortical medial, usa guia oblíquo de 6 a 20 graus e fecha com compressão lenta por cerca de 5 minutos. Depois: movimento passivo contínuo, 50% de carga por 6 semanas e carga total depois.

Na abertura medial (Técnica 10.11, p. 506 e 507), os fios guia saem do córtex medial logo abaixo do flare metafisário em direção à metade proximal da cabeça da fíbula, deixando pelo menos 1,5 cm até a superfície articular e uma dobradiça lateral de pelo menos 1 cm; abre-se devagar, aproveitando a viscoelasticidade do osso, e fixa-se com placa bloqueada medial. Correções acima de cerca de 12 mm pedem osteotomia em dois níveis (tíbia e fêmur), para reduzir pseudartrose e obliquidade da interlinha (p. 507). O HEBERT nota que a abertura medial é hoje a mais usada.

A cúpula de MAQUET (barrel vault) é inerentemente estável, dispensa fixação interna e permite ajustes no gesso, mas é tecnicamente difícil, arrisca fratura intra-articular e fibrose do mecanismo extensor (p. 500); o HEBERT acrescenta que corrige nos planos sagital e coronal, sem material especial, com risco de perda da correção no gesso. A hemicalotaxia (TURI, Técnica 10.12, p. 508) faz a abertura abaixo da tuberosidade com fixador dinâmico, distraindo 0,25 mm quatro vezes ao dia a partir do sétimo dia; tem sobrevida de 89% em 5 anos e 63% em 10, preserva o tendão patelar e a inclinação do platô, mas tem até 76% de complicações, sobretudo nos pinos (p. 507). O fixador circular de ILIZAROV, também abaixo da tuberosidade, reduz a patela baixa e preserva o estoque ósseo para a ATJ futura.

Osteotomia e instabilidade: slope, LCA, LCP e canto posterolateral

Cobrança confirmada · 1 questão

O plano sagital decide muito. O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), cita NOYES: a abertura medial aumenta a inclinação posterior da tíbia, o que é indesejado na instabilidade anterior (LCA), porque aumenta o escorregamento anterior da tíbia sob o fêmur; para evitar, abre-se a cunha de forma trapezoidal, com a abertura anterior igual à metade da posterior. O efeito inverso ocorre no fechamento lateral, que diminui o slope e deve ser evitado na instabilidade posterior.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 50, p. 2060 a 2061 aprox.), diz o mesmo pelo lado ligamentar. O fechamento lateral retira mais osso na frente e aplaina o slope, o que beneficia o joelho com LCA deficiente; a abertura medial, mais larga na frente, aumenta o slope posterior e ajuda o joelho com LCP deficiente. Na instabilidade posterolateral crônica, o alinhamento tem de ser avaliado antes de qualquer reconstrução: com varo e thrust lateral, a reconstrução isolada falha por estiramento, e a osteotomia valgizante vem antes ou junto. No cap. 10 (p. 504), a abertura medial tem indicação explícita na instabilidade crônica grau III do canto posterolateral com varo: ela diminui a frouxidão em varo e em rotação externa porque tensiona o LCM superficial, e dois terços desses pacientes nem precisaram da reconstrução ligamentar depois.

A Técnica 50.16 do Campbell (p. 2061 aprox.) tem um detalhe que contrasta com a osteotomia da artrose: na osteotomia valgizante associada à reconstrução posterolateral, a fíbula é cortada no meio da diáfise e a tibiofibular proximal não é solta, porque a migração proximal da fíbula encurtaria as estruturas posterolaterais e pioraria a instabilidade.

Complicações das osteotomias

Cobrança confirmada · 1 questão

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 500 e 501), lista recorrência da deformidade (perda de correção), paralisia do nervo fibular, pseudartrose, infecção, rigidez ou instabilidade, fratura intra-articular, TVP, síndrome compartimental, patela baixa e osteonecrose do fragmento proximal.

Complicações em números (Campbell, cap. 10, p. 500, 501 e 504; cap. 34, p. 1218)
ComplicaçãoDado do livro
Complicações globais5,5% intraoperatórias e 6,9% pós-operatórias; reoperação 15,5%, quase sempre retirada do implante (10%)
Subcorreção e recidiva do varo5% a 30%; reduzidas pela hipercorreção
Fratura da dobradiça lateral9,1% na revisão sistemática; 15% a 18% na abertura medial; único preditor é a altura da abertura
Nervo fibular3,2%; ligada à osteotomia da fíbula feita junto com a tibial lateral; risco máximo na fíbula proximal, onde o nervo contorna o colo
Artéria poplíteaRara e devastadora; a 90 graus de flexão fica a 10,6 mm da lâmina; proteger com afastador largo maleável
Artéria tibial anteriorEstirada na membrana interóssea na correção em varo e comprimida na correção em valgo
Patela baixaEncurtamento do tendão pela imobilização, osso novo na inserção e fibrose; não muda o sucesso da osteotomia, mas dificulta a ATJ

O nervo fibular é o ponto que a banca mais explora no fechamento lateral, porque é ali que se mexe na fíbula. O Campbell mostra na Fig. 10.12 as regiões de alto e baixo risco ao longo da fíbula durante a osteotomia e aconselha cuidado ao soltar a tibiofibular proximal (removendo a porção inferomedial da cabeça da fíbula ou desfazendo a sindesmose). A ideia é que o risco é máximo no terço proximal, perto do colo, e cai à medida que se desce na diáfise.

Osteotomia femoral distal varizante

Possível cobrança

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 500 e 510), recomenda a osteotomia femoral distal varizante em vez da tibial quando o valgo passa de 12 a 15 graus ou quando a interlinha se desvia mais de 10 graus da horizontal. O motivo é geométrico: no joelho valgo a deformidade costuma estar no fêmur, e corrigir um valgo grande na tíbia deixaria a interlinha inclinada. O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), concorda: valgo se corrige no fêmur, e na tíbia só até 10 graus, sem inclinar a interlinha.

Osteotomia femoral distal (Campbell, cap. 10, p. 510 a 512)
ItemDado
IndicaçãoValgo acima de 12 a 15 graus ou interlinha inclinada acima de 10 graus; artrose lateral
Alternativa à ATJResultado funcional semelhante à ATJ em ativos abaixo de 65 anos com valgo de até 15 graus
Sucesso71% a 86% bons ou excelentes; abertura lateral com 80% de sobrevida em 5 anos (18 casos), técnica exigente
Fechamento ou aberturaSem diferença nos resultados relatados pelo paciente
Maus resultadosArtrite reumatoide e pouca mobilidade antes da cirurgia
COVENTRY (Técnica 10.13)Via medial entre reto femoral e vasto medial, ou subvasto pela incisão de ATJ (evita ponte de pele); lâmina-placa; cunha com ângulo apical igual à correção
Abertura lateral (Técnica 10.14)Via lateral, fio em direção ao tubérculo adutor, parar 1 cm antes da cortical medial, abertura lenta, placa bloqueada lateral
ATJ futuraLâmina-placa precisa sair; com placa bloqueada, retiram-se só os parafusos distais por via percutânea

Deformidades grandes podem pedir osteotomia combinada de fêmur e tíbia, para reduzir pseudartrose e obliquidade da interlinha (p. 500).

Osteotomia ou unicompartimental

Cobrança confirmada · 3 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 508), compara: a metanálise mostrou melhor função na unicompartimental, sem diferença no escore; a sobrevida em 10 anos foi de 91% na unicompartimental medial e 60% na osteotomia. A unicompartimental é menos agressiva que a ATJ e mais "esquecida" pelo paciente. A escolha segue a causa: mau alinhamento significativo (morfotipo varo) favorece a osteotomia; artrose medial verdadeira favorece a unicompartimental; artrite inflamatória precoce não diagnosticada pede ATJ. O cap. 8 (p. 446) exige para a unicompartimental LCA intacto, artrose de um compartimento, deformidade passivamente corrigível e peso razoável; a retirada dos osteófitos periféricos deve bastar para equilibrar, e precisar de liberação maior sugere varo grave demais. O HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 16), pede LCA íntegro, arco de 5 a 90 graus, varo menor que 7 graus e valgo menor que 15 graus.

Artroplastia total depois da osteotomia

Cobrança confirmada · 2 questões

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 508 e 510), conta que 40% convertem para ATJ em 10 a 15 anos; a cirurgia é mais longa e técnica, com sobrevida de 89% em 15 anos; a unicompartimental depois da osteotomia vai mal (28% de falha em 5 anos). As dificuldades: exposição, frouxidão lateral pela fíbula que sobe, LCM frouxo, LCP cicatrizado (substituir), platô lateral deficiente e patela baixa. O cap. 8 (p. 448) completa: após o fechamento valgizante, só ressecção mínima do platô lateral costuma ser necessária, com o corte referenciado no medial intacto e o defeito lateral preenchido com enxerto ou cunha metálica; ponte de pele de pelo menos 8 cm. No pós-operatório da ATJ (cap. 8, p. 447 e 448), o paciente anda no dia da cirurgia com fisioterapeuta e andador, com carga conforme permitido pela reconstrução.

Osteotomia da tuberosidade na instabilidade patelar

Cobrança confirmada · 3 questões

O tema tem resumo próprio (campbell15-instabilidade-femoropatelar). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 52, p. 2197 a 2202), usa o TT-TG acima de 20 mm na TC ou RM como indicação de realinhamento distal, ou acima de 15 mm com displasia troclear; o HEBERT (cap. 15) também chama de mau alinhamento a TAGT acima de 20 mm. A osteotomia de FULKERSON (anteromedialização) é indicada na artrose sintomática da faceta lateral ou do polo distal e contraindicada na artrose proximal ou medial, porque transfere a carga para proximal e medial.

Fechamento

Fundamento

A gonartrose é carga mal distribuída num órgão inteiro. Classifica-se pela AHLBACK e pela KELLGREN-LAWRENCE, trata-se primeiro com exercício, AINE e perda de peso, opera-se com artroscopia só quando algo trava, muda-se o eixo com a osteotomia no jovem com um compartimento doente e troca-se a superfície quando o desgaste avança.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

Abrir no leitorCriar conta grátis

No leitor do aplicativo, quem não tem conta lê as 6 primeiras partes; a leitura completa é grátis com a conta.

Continue estudando