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Artrite séptica na criança e no adulto

Conceitos básicosResumo do capítulo36 min de leitura

Metáfises intra-articulares (rádio e úmero proximais, fêmur proximal, tíbia e fíbula distais) e vaso transfisário até 18 meses; proteoglicano 30% em 48 h; falta de membrana basal nos capilares sinoviais; S. aureus (PANTON-VALENTINE), Kingella (PCR, frasco de hemocultura), gonococo no adulto jovem, Salmonella no falciforme; quadril em flexão, abdução e rotação externa; líquido acima de 50.000 com PMN, glicose baixa e proteína alta; KOCHER (febre, não apoio, VHS acima de 40, leucócitos acima de 12.000: 0,2%, 3%, 40%, 93%, 99,6%); via anterior no quadril da criança; punção do joelho lateral no polo superior da patela; 3 semanas de antibiótico; atraso é o pior fator (CHOI).

Atualizado em 03/11/2026 · 36 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 22 · Arthritis (Acute Transient Synovitis of the Hip), com a seção Septic Arthritis do capítulo de infecções, em Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª edição (2021), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 22 e 24), e o Sizínio, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (caps. 9.7 e 26). Autores do capítulo: John A. HERRING (editor); seção de artrite séptica de Lawson A. B. COPLEY.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de conceitos básicos do Tachdjian, capítulo 22, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo é inspirado na seção Septic Arthritis do Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª edição (2021), e no capítulo 22 do mesmo livro (líquido sinovial e sinovite transitória), costurados com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 24, Infectious Arthritis, e cap. 22, princípios gerais) e com o Sizínio, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., que dedica um capítulo inteiro ao quadril séptico. As páginas citadas são as impressas. A osteomielite hematogênica e as infecções específicas têm resumos próprios na Biblioteca; aqui o foco é a articulação.

A artrite séptica é uma corrida contra o relógio. A bactéria chega à sinóvia, o pus enche a cápsula e, em 48 horas, a cartilagem já perdeu uma fração mensurável do proteoglicano, sem que nada apareça na radiografia. No quadril do lactente, a pressão do pus ainda espreme os vasos da epífise e pode luxar a cabeça. Tudo o que a prova cobra deriva dessa corrida: por onde a infecção entra (metáfise intra-articular, vaso transfisário), como reconhecê-la cedo (a criança que não apoia, o quadril em flexão, abdução e rotação externa, os preditores de KOCHER), como provar (a punção e o líquido purulento) e como interromper (drenar já, de preferência pela via anterior no quadril infantil, e dar antibiótico pelo tempo certo).

A banca gosta de números: os preditores de KOCHER e suas probabilidades, a celularidade e a química do líquido, a posição do quadril, a via de drenagem, o ponto de punção do joelho e as metáfises intracapsulares. Nos agentes, Kingella, PANTON-VALENTINE e gonococo.

Por onde a infecção chega à articulação

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Três portas

O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (p. 975), lista três vias. A mais comum na criança é a semeadura hematogênica da sinóvia durante uma bacteremia transitória, às vezes depois de uma otite média ou sinusite. A segunda é a contiguidade: uma osteomielite vizinha rompe para dentro da articulação. A terceira é a inoculação direta por ferimento penetrante. O Sizínio, 5ª ed. (cap. 26), acrescenta um alerta iatrogênico que vale lembrar: no recém-nascido, a punção da artéria femoral tem alta incidência de artrite do quadril, e as punções articulares mal feitas também contaminam; são infecções que podem e devem ser evitadas.

A metáfise dentro da cápsula

A contiguidade só funciona onde a cápsula se insere abaixo da fise, deixando a metáfise banhada pelo líquido sinovial. A Fig. 23.23 do Tachdjian (p. 975) nomeia esses lugares: rádio proximal, úmero proximal, fêmur proximal e tíbia e fíbula distais. Uma osteomielite nessas metáfises pode descomprimir na articulação e produzir artrite séptica concomitante em qualquer idade, porque o caminho é anatômico, não vascular. O próprio Tachdjian usa essa geografia para explicar a distribuição da artrite séptica pediátrica: joelho 31%, quadril 23%, tornozelo 18% e ombro 14%.

O Sizínio (cap. 26) dá o exemplo prático: no quadril e no ombro a cápsula, que carrega as artérias da epífise, se prolonga até a metáfise; por isso, nessas duas articulações, a artrite séptica pode gerar osteomielite do colo do fêmur ou do úmero (até diafisária), e a osteomielite do colo pode drenar para dentro da articulação. O capítulo do quadril séptico (cap. 9.7) repete o raciocínio: a metáfise proximal do fêmur é intracapsular, e a infecção anda nos dois sentidos.

O vaso que cruza a fise até 18 meses

A idade abre uma segunda porta, agora vascular. O Tachdjian (p. 963 e 964, Fig. 23.18) explica que a circulação atravessa a fise até cerca de 18 meses: no neonato, a epífise inteira divide a irrigação com a metáfise, e a infecção metafisária invade a epífise e pode destruir as duas, com osteonecrose devastadora do fêmur proximal. Depois que o núcleo secundário se forma, metáfise e epífise passam a ter irrigações separadas e a fise funciona como barreira, mas a metáfise continua intra-articular onde a anatomia manda.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 24, p. 821, Fig. 24.1), precisa onde está esse vaso: nos menores de 18 meses há artéria transfisária no quadril, no ombro, no cotovelo e no tornozelo, mas não no joelho. É por isso que o joelho da criança tende a confinar a infecção metafisária, enquanto o quadril do lactente a espalha.

Juntando as duas portas, a pergunta "em criança maior de 18 meses, onde a osteomielite ainda se associa à pioartrite?" tem resposta pela metáfise intra-articular, não pelo vaso: entre rádio distal, fíbula distal, fêmur distal e tíbia proximal, só a fíbula distal está dentro da cápsula.

Como a infecção chega à articulação (Tachdjian, cap. 23, p. 963 a 975; Campbell, cap. 24, p. 821; Sizínio, caps. 9.7 e 26)
MecanismoOnde ou quandoConsequência
Semeadura hematogênica da sinóviaQualquer articulação; bacteremia transitória, às vezes após otite ou sinusiteVia mais comum na criança
Metáfise intra-articularRádio proximal, úmero proximal, fêmur proximal, tíbia e fíbula distaisOsteomielite descomprime na articulação em qualquer idade
Vaso transfisárioAté cerca de 18 meses; quadril, ombro, cotovelo e tornozelo, não no joelhoMetáfise, epífise e articulação infectam juntas; osteonecrose
Contiguidade de partes molesCelulite, abscesso, úlcera vizinhaArtrite secundária
Inoculação diretaFerimento penetrante, injeção, cirurgia, punção da artéria femoral no recém-nascidoGerme ligado à exposição; parte é iatrogênica

Como a cartilagem morre

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A sinóvia que deixa a bactéria passar

Por que a bactéria que circula no sangue pousa justamente na articulação? O Campbell (cap. 24, p. 825) dá três razões anatômicas e uma bioquímica. Primeiro, o S. aureus, a causa não gonocócica mais comum, tem receptores de colágeno. Segundo, os capilares da sinóvia não têm membrana basal limitante, e as bactérias atravessam pelos espaços entre as células endoteliais até o tecido sinovial. Terceiro, os fibroblastos sinoviais inibem a fagocitose. O Tachdjian (p. 975) acrescenta um dado experimental que reforça o primeiro ponto: cepas com o gene da adesina de ligação ao colágeno (Cna) produziram artrite em 70% dos camundongos, contra 27% sem o gene.

Dentro, a sinóvia fica hiperêmica e se enche de polimorfonucleares; mononucleares e linfócitos só predominam por volta de 3 semanas (Campbell, p. 825). O infiltrado inicial é rico em neutrófilos e pobre em mononucleares.

Quem degrada a matriz

A cartilagem morre por perda da substância fundamental antes de perder o colágeno. O Campbell (p. 825) cita PERRY: a depleção começa por volta de 2 dias após a inoculação e tem três motores, as enzimas da resposta inflamatória aguda, as toxinas e enzimas bacterianas e a estimulação de linfócitos T na resposta imune tardia. Antígenos bacterianos depositados na sinóvia e toxinas como a enterotoxina estafilocócica fazem os linfócitos T proliferarem; eles degradam a substância fundamental e expõem o colágeno às colagenases, o que altera a mecânica da cartilagem e a torna suscetível ao desgaste. A destruição visível aparece em 4 a 6 dias, e a destruição da cartilagem como um todo, por volta de 4 semanas.

O Tachdjian (p. 975) nomeia as moléculas: macrófagos, polimorfonucleares e sinoviócitos liberam IL-1beta, IL-6, TNF-alfa, imunoglobulina G e enzimas lisossomais. O modelo de joelho de coelho é o número a decorar: o S. aureus tira 30% do proteoglicano em 48 horas, 50% em 5 dias e 80% em 3 semanas, e o colágeno só começa a cair na terceira semana (28%). O livro admite que não se sabe se a cartilagem consegue repor o proteoglicano depois que a infecção é eliminada, antes de o colágeno ser atacado. É o argumento biológico para a urgência.

O Sizínio (cap. 26) conta a mesma história com outro vocabulário, o da condrólise química: enzimas bacterianas como a estreptoquinase e a estreptodornase atacam o ácido condroitinossulfúrico; primeiro some a matriz, depois o colágeno; erosões se soltam como grumos; e as alterações destrutivas já aparecem em 24 a 48 horas. Ele soma o fator mecânico: o volume de pus aumenta a pressão intra-articular, distende a cápsula, causa isquemia da sinóvia (menos nutrição para a cartilagem) e, no quadril e no ombro, isquemia da epífise, com necrose e luxação.

A cronologia da destruição (Tachdjian, p. 975; Campbell, cap. 24, p. 821 e 825; Sizínio, cap. 26)
TempoO que aconteceFonte
24 a 48 horasErosões e grumos da condrólise químicaSizínio
48 horasPerda de 30% do proteoglicano (coelho, S. aureus)Tachdjian
Cerca de 2 diasComeça a depleção da substância fundamental (PERRY)Campbell
2 a 5 diasPerda de proteoglicano pode ser grave sem degeneração visívelTachdjian
4 a 6 diasDestruição da cartilagem aparenteCampbell
5 diasPerda de 50% do proteoglicanoTachdjian
3 semanas80% do proteoglicano perdido; colágeno começa a cair (28%); mononucleares e linfócitos predominamTachdjian; Campbell
Cerca de 4 semanasDestruição da cartilagem; luxação, subluxação e osteomielite podem ocorrerCampbell

Uma consequência clínica fecha a seção. O Campbell (p. 821) estima que 25% a 50% dos pacientes com artrite séptica terminam com perda irreversível da função articular, e por isso chama o diagnóstico precoce de fator mais crítico para o prognóstico funcional.

Quem adoece: o hospedeiro

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Os extremos da vida e a articulação já doente

A artrite séptica pode ocorrer em qualquer idade, mas o Campbell (cap. 24, p. 821) aponta os mais suscetíveis: crianças pequenas e idosos, sobretudo quando a articulação já é anormal por trauma prévio, hemofilia, artrose ou artrite reumatoide. Ela é mais frequente no adulto, mas as sequelas mais graves são da criança, principalmente no quadril tratado tarde. As articulações de carga dos membros inferiores somam 61% a 79% dos casos, e a infecção pode ser múltipla, o que obriga a examinar todas as articulações antes de tratar.

O Quadro 24.1 do Campbell (p. 822) organiza os fatores de risco em cinco grupos. Vale lê-los como uma lista de perguntas de anamnese:

Fatores de risco para artrite infecciosa (Campbell, cap. 24, Quadro 24.1, p. 822)
GrupoFatores
Características do pacienteIdade avançada, baixa renda, tabagismo, alcoolismo, atividade sexual
DoençasHIV, imunossupressores, artrite reumatoide, artrose, câncer, diabetes, cirrose
Fonte diretaInjeção intra-articular, cirurgia articular recente
Fonte contíguaÚlceras cutâneas, infecção de pele, trauma
Disseminação hematogênicaDroga injetável, uremia, prótese articular

Adquirido ou congênito

O capítulo 22 do Campbell (p. 783 e 784) explica que as deficiências imunes podem ser adquiridas ou congênitas, e que cada defeito abre a porta para um grupo de germes. Os defeitos de neutrófilos vêm de diabetes, alcoolismo, neoplasia hematológica e quimioterapia; os defeitos humorais, de hipogamaglobulinemia e esplenectomia (germes encapsulados: pneumococo, Haemophilus, Neisseria); os defeitos celulares secundários, de corticoide, desnutrição, linfoma, lúpus, imunodeficiência do idoso e AIDS. A desnutrição merece destaque: mais da metade dos pacientes com infecção musculoesquelética é desnutrida, e ela prejudica a imunidade humoral e celular e a quimiotaxia (p. 782 e 783). A uremia aparece entre os fatores hematogênicos do Quadro 24.1.

Com isso dá para separar as listas de prova. Diabetes, desnutrição e uremia são condições que o doente adquire ao longo da vida. Hemofilia é uma coagulopatia herdada que entra no Campbell como causa de articulação anormal (p. 821), e a doença granulomatosa crônica aparece na Tabela 23.2 do Tachdjian (p. 966) como fator de risco com germes próprios (Aspergillus, estafilococo, Burkholderia, Nocardia, micobactéria); ambas são de base congênita. A radioterapia entra no capítulo 22 do Campbell (p. 787) como história de radiação, fator não modificável de infecção de sítio cirúrgico.

O idoso e a mortalidade

No idoso não gonocócico, o S. aureus responde por cerca de metade dos casos, e estreptococos e bacilos gram-negativos pela outra metade (Campbell, p. 825). O dado de gravidade que o livro traz é o da sepse poliarticular por S. aureus em artrite reumatoide, hemofilia ou imunossupressão, com mortalidade relatada de 56%. O Campbell (p. 835) acrescenta que a artrite séptica do ombro no adulto costuma acompanhar doença debilitante e raramente responde bem ao tratamento, e que o ombro séptico é raro em jovem saudável.

Os germes: por idade e por doença de base

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A regra e as exceções

S. aureus é a causa mais comum de infecção musculoesquelética de todos os tipos em todas as idades, com poucas exceções (Tachdjian, p. 955); o Campbell (p. 825) o coloca à frente em todas as idades, seguido do estreptococo do grupo A e de Enterobacter. O Tachdjian (p. 975) chama atenção, porém, para um grupo que tem mais vocação para a articulação do que para o osso: Brucella melitensis, H. influenzae, Kingella kingae, Neisseria meningitidis, enterobactérias e N. gonorrhoeae causam proporcionalmente mais artrite que osteomielite. Por isso o espectro de germes da artrite é mais amplo que o da osteomielite.

A Tabela 23.2 do Tachdjian (p. 966) organiza a escolha empírica pela idade e pelo risco. É a tabela mais útil do tema, porque junta o germe e o antibiótico:

Agentes e antibiótico empírico por idade e risco (Tachdjian, cap. 23, Tabela 23.2, p. 966)
SituaçãoAgentesEmpírico
Neonatal hospitalar (0 a 8 semanas)S. aureus, estreptococos, enterobactérias, CandidaOxacilina ou nafcilina com gentamicina, ou cefotaxima (ceftriaxona) com gentamicina
Neonatal comunitárioS. aureus, estreptococo do grupo B, E. coli, KlebsiellaIdem
Infantil (2 a 18 meses)S. aureus, Kingella, pneumococo, meningococo, Hib (não vacinado)Vacinado: oxacilina, nafcilina ou cefazolina; não vacinado: oxacilina com cefotaxima, ou cefuroxima
Início da infância (18 meses a 3 anos)S. aureus, Kingella, pneumococo, meningococo, Hib (não vacinado)Idem
Infância (3 a 12 anos)S. aureus, estreptococo do grupo AOxacilina, nafcilina ou cefazolina
Adolescente (12 a 18 anos)S. aureus, estreptococo do grupo A, N. gonorrhoeaeIdem; ceftriaxona e doxiciclina no gonococo disseminado
Doença falciformeSalmonella, S. aureus, pneumococoCeftriaxona
Ferimento puntiforme no péPseudomonas aeruginosa, S. aureusCeftazidima ou piperacilina-tazobactam com gentamicina
Doença granulomatosa crônicaAspergillus, estafilococo, Burkholderia, Nocardia, micobactériaOxacilina, nafcilina ou cefazolina

O Campbell (Tabela 24.3, p. 823) resume a criança em três faixas: menos de 3 meses (S. aureus, E. coli e gram-negativos, estreptococo do grupo B, Candida, gonococo), 3 meses a 5 anos (S. aureus, Kingella, estreptococo do grupo A, pneumococo e Hib nos não vacinados) e mais de 5 anos (S. aureus, estreptococo do grupo A e gonococo no adolescente sexualmente ativo). Antes da vacina, o Hib era o principal germe do lactente; no neonato hospitalizado, o S. aureus, inclusive MRSA, ligado a cateter venoso e nutrição parenteral (p. 825).

O S. aureus que destrói mais: MRSA e PANTON-VALENTINE

O MRSA comunitário surgiu em pessoas sem fatores de risco clássicos. A resistência vem do gene mecA, que codifica uma proteína ligadora de penicilina alterada e anula os betalactâmicos, inclusive as cefalosporinas (Tachdjian, p. 955). O MRSA comunitário segue sensível a clindamicina, sulfametoxazol-trimetoprima, rifampicina e gentamicina, mas 6% a 25% das cepas têm resistência induzível à clindamicina (fenótipo MLSB), detectada pelo teste D, em que a zona de inibição em volta do disco de clindamicina fica achatada do lado da eritromicina.

O que torna uma cepa mais agressiva está nos genes de virulência. Uma proporção significativamente maior de MRSA comunitário carrega os genes da leucocidina de PANTON-VALENTINE (pvl) e da proteína ligadora de fibronectina B. O gene pvl foi ligado a mais complicações, como osteomielite crônica e trombose venosa profunda, e as infecções por cepas pvl positivas tiveram doença local mais grave e resposta inflamatória sistêmica maior que as pvl negativas (Tachdjian, p. 955). No Campbell (p. 825), o MRSA comunitário respondeu por 26% das internações por artrite séptica e osteomielite na instituição dos autores, com mais hemocultura positiva mesmo após tratamento e mais cirurgias.

Kingella kingae: o germe que não cresce

A Kingella kingae é um cocobacilo gram-negativo aeróbio e fastidioso que coloniza a orofaringe de quase 75% das crianças entre 6 meses e 4 anos, exatamente a faixa das infecções invasivas; o pico é de 10 a 24 meses (Tachdjian, p. 956). O Campbell (p. 825) dá a faixa de 6 a 36 meses. O quadro é mais brando, com marcadores pouco elevados, e a febre pode faltar.

O problema é laboratorial. A Kingella cresce devagar e mal em meio sólido, porque o líquido sinovial e o pus inibem seu crescimento. A recomendação é inocular o aspirado num frasco de hemocultura aeróbia, onde a diluição em grande volume de caldo reduz os fatores inibitórios, e plaquear o material sólido em ágar sangue ou chocolate ainda na sala cirúrgica (Tachdjian, p. 957). Como mesmo assim a cultura falha, desenvolveu-se a PCR para identificar o germe no líquido articular; ela complementa, mas não substitui, a cultura, que continua essencial porque o resultado da PCR demora. O Tachdjian (p. 976) generaliza para a artrite séptica: a cultura do líquido é positiva em apenas 30% a 70%, e a PCR suplementar melhora a identificação.

A Kingella é sensível aos betalactâmicos; em comunidades com MRSA, o empírico dessa idade deve incluir clindamicina e ceftriaxona, e, na cultura negativa, a transição oral costuma ser para sulfametoxazol-trimetoprima, que cobre MRSA e Kingella (Tachdjian, p. 957).

O gonococo: adolescente e adulto jovem

No adolescente sexualmente ativo e no adulto jovem, a pergunta muda. O Campbell (p. 825) diz que a N. gonorrhoeae causa cerca de 75% das artrites sépticas do adulto jovem saudável e sexualmente ativo, embora menos de 3% dos infectados desenvolvam artrite. O quadro é diferente do estafilocócico: frequentemente poliarticular, com rash papular, cultura articular muitas vezes negativa (faringe e uretra orientam), PCR útil no líquido e bom prognóstico só com antibiótico; a drenagem cirúrgica geralmente é desnecessária.

O Tachdjian (p. 958) descreve a infecção gonocócica disseminada na criança em três cenários: neonatal (canal de parto), abuso sexual e atividade sexual do adolescente. A queixa mais comum é poliartrite (até 60%), em joelho, tornozelo ou punho; o exantema aparece em dois terços, com lesões indolores no tronco, membros, palmas e plantas; é quatro vezes mais comum em mulheres. O diagnóstico preferido é o teste urinário de amplificação de RNA; a cultura exige ágar chocolate ou THAYER-MARTIN com CO2, e o Gram pode mostrar diplococos gram-negativos intracelulares. Tratamento: ceftriaxona venosa por 7 dias (ou cefotaxima), com azitromicina ou doxiciclina para a clamídia.

A seção clássica de artrite gonocócica do Tachdjian (p. 985 e 986) acrescenta a evolução: a artrite surge 2 a 4 semanas após a uretrite, começa com dores fugazes em várias articulações, febre e mal-estar, e depois se fixa em uma articulação quente e muito dolorosa; joelho, tornozelo, punho e esternoclavicular são os locais típicos. O gonococo é achado no líquido na primeira semana, depois as culturas negativam. Atenção ao que parece contraditório: a destruição da cartilagem na gonocócica é rápida, por isso o antibiótico deve ser imediato, mas, ao contrário das outras artrites sépticas, a drenagem geralmente é desnecessária. O diferencial é a síndrome de REITER (poliartrite, uretrite e conjuntivite).

Salmonella e a doença falciforme

A criança falciforme é mais suscetível por asplenia funcional, infartos teciduais frequentes e opsonização ruim de antígenos polissacarídeos (Tachdjian, p. 995). Na osteomielite, a Salmonella é mais comum que o S. aureus (razão de 2,2:1), com porta de entrada intestinal pelos microinfartos da parede. A armadilha clínica é que a crise vaso-oclusiva é 50 vezes mais provável que a infecção e as duas se parecem: o Tachdjian (p. 996) trata primeiro a crise (hidratação, analgesia, oxigênio) sem antibiótico e, sem melhora em 24 a 48 horas, aspira os focos e inicia empírico que cubra S. aureus e Salmonella (ceftriaxona na Tabela 23.2). Mau aspecto, febre acima de 38,2 °C, dor e edema pedem aspiração precoce. O Campbell (cap. 24, p. 822) acrescenta a Salmonella no lúpus com hipoesplenismo funcional.

Pistas de germe que a prova associa (Tachdjian, p. 955 a 996; Campbell, cap. 24, p. 822 e 825)
PistaGermeDetalhe
Qualquer idade, sem pistaS. aureusLíder geral
Neonato de UTI, cateter, nutrição parenteralS. aureus (MRSA), estreptococo B, enterobactérias, CandidaMultifocal, sinais de sepse
6 meses a 4 anos, quadro brando, cultura negativaKingella kingaeFrasco de hemocultura e PCR
Lactente não vacinadoH. influenzae tipo bEra o principal antes da vacina
Após varicelaEstreptococo do grupo APorta de entrada nas lesões de pele
Adolescente ou adulto jovem, poliartrite, rashN. gonorrhoeae75% no adulto jovem; antibiótico sem drenagem
FalciformeSalmonella (osteomielite 2,2:1 sobre S. aureus)Porta intestinal; ceftriaxona
Lúpus com hipoesplenismoSalmonella, Proteus, gonococoPoliarticular
Droga injetável, esternoclavicularS. aureus, PseudomonasAxial
Ferimento puntiforme no péPseudomonas aeruginosaPredileção por cartilagem
PróteseEstafilococo coagulase-negativoImplante

O quadro clínico e a posição do quadril

Cobrança confirmada · 2 questões

A criança que não apoia

O Tachdjian (p. 975) define a suspeita em uma frase: pensar em artrite séptica sempre que uma criança com aspecto doente tem limitação atraumática da mobilidade e irritabilidade articular ao exame. A irritabilidade é o que separa a artrite da osteomielite: na artrite, o movimento passivo suave já provoca dor; na osteomielite, mexer a articulação não incomoda tanto (p. 976).

No quadril, que é profundo, os sinais locais clássicos somem. O Sizínio (cap. 9.7) explica: edema, hiperemia e calor são difíceis de ver nos primeiros dias; o que aparece é a dor progressiva, que não cede com analgésico e antitérmico comuns, a febre e a limitação intensa da mobilidade ativa e passiva. Na criança que já anda, a claudicação ou a impossibilidade de apoiar o membro são evidentes; os pontos dolorosos estão na face anterior da articulação, na região dos adutores e na compressão do trocânter contra o acetábulo. A dor pode irradiar pela face anteromedial da coxa até o joelho e enganar o examinador, que examina o joelho e esquece o quadril.

Esse é o raciocínio por trás de uma questão recorrente: o achado mais comum no exame do quadril séptico não é o edema nem o rubor (escondidos pela profundidade), mas a claudicação e o não apoio. Não por acaso, o não apoio é um dos quatro preditores de KOCHER.

Flexão, abdução e rotação externa

Por que o quadril séptico assume uma posição característica? Porque o pus distende a cápsula, e a cápsula do quadril tem fibras dispostas em hélice. A posição que dá mais volume à cápsula é a que o paciente procura. O Sizínio (cap. 26) é explícito: no quadril, a distensão capsular leva a flexão, rotação externa e abdução. No capítulo do quadril (cap. 9.7), o mesmo livro descreve, no recém-nascido e no lactente, a semiflexão da coxa com rotação externa como característica diferencial, atribuída à distorção das fibras helicoidais pela coleção purulenta. O Campbell (cap. 24, p. 831) confirma por outro caminho: na técnica de punção medial, manda flexionar e abduzir a perna, porque essa é em geral a posição mais confortável para quem tem artrite séptica.

Vale contrastar com a posição da sequela. O quadril que evolui para anquilose depois da infecção fica em flexão, adução e rotação interna (Sizínio, cap. 9.7), e a luxação com necrose também se apresenta em adução, rotação interna e flexão com encurtamento. Resumo: agudo = abdução e rotação externa; sequela = adução e rotação interna.

O neonato e o lactente: o quadril séptico silencioso

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Por que o neonato engana

No neonato, a resposta inflamatória é embotada. O Campbell (cap. 24, p. 821) lista o que pode faltar (febre, edema, eritema, dor) e o que pode ser a única pista: uma infecção em outro local (o cateter umbilical, por exemplo), irritabilidade, déficit de crescimento, assimetria da posição do membro ou desagrado ao ser manipulado. A família costuma perceber que o bebê não mexe a perna, a chamada pseudoparalisia.

O Tachdjian (p. 965) separa duas formas neonatais. A primeira acomete bebês de 2 a 8 semanas que já foram para casa com a mãe, muitas vezes após parto normal a termo; febre e irritabilidade em geral não estão presentes, o laboratório pode não reagir e a radiografia pode ser duvidosa, por isso a aspiração deve ser liberal; S. aureus é o germe mais comum, ao lado do estreptococo do grupo B, enterococos e enterobactérias. A segunda forma é a do recém-nascido de UTI, de baixo peso, com intubação, cateteres arteriais e venosos ou cateterismo umbilical; aqui a infecção é frequentemente multifocal, com sinais de sepse (instabilidade térmica, má perfusão, distensão abdominal, apneia, taquicardia), e surtos de MRSA em berçários justificam vancomicina empírica.

O Sizínio (cap. 9.7) usa a mesma divisão (tipo neonatal, atípico, e tipo infantil, com clínica evidente) e manda internar sempre que houver suspeita.

O que fazer com o quadril do lactente

O lactente é o pior cenário porque reúne as duas portas (metáfise intra-articular e vaso transfisário) e uma cabeça femoral cartilaginosa que depende de vasos que correm dentro da cápsula. O Tachdjian (p. 966) é taxativo: até cerca de 18 meses, as sequelas por osteonecrose e distúrbio de crescimento justificam aspiração e desbridamento cirúrgico precoces sempre que houver artrite séptica no início da infância. O Campbell (p. 831) acrescenta que o quadril séptico não diagnosticado no lactente pode luxar e que, depois de drenado, deve ser mantido em abdução para reduzir esse risco.

Na imagem, o que aparece cedo é o líquido. O ultrassom mostra o derrame, e a radiografia pode mostrar o aumento do espaço articular e o afastamento lateral da epífise com a linha de SHENTON quebrada, sinais iniciais de pressão intra-articular alta (Sizínio, cap. 26). Esse é o quadro que uma questão clássica descreve: bebê de dois meses, alta recente da UTI neonatal, febre, irritabilidade e pseudoparalisia, quadril em flexão e rotação externa, derrame no ultrassom e espaço alargado na radiografia. Não há espaço para observação: o diagnóstico é artrite séptica, e o tratamento é drenagem cirúrgica com antibiótico.

Laboratório: o que cada exame diz

Relevância clínica

Hemograma, VHS e PCR

O Tachdjian (p. 975) pede, para toda suspeita, radiografias, hemograma com diferencial, PCR, VHS e hemoculturas, e as hemoculturas sempre antes do antibiótico (p. 955). Cada exame tem uma personalidade.

O hemograma é o mais fraco: na osteomielite, só 25% a 35% das crianças chegam com leucocitose (p. 953), embora o corte de 12.000 seja um dos preditores de KOCHER.

A PCR é o marcador rápido. Sobe 1000 vezes em 6 horas, atinge o pico em 36 a 50 horas e, com meia-vida de 24 horas, normaliza em cerca de 7 dias de tratamento eficaz (Tachdjian, p. 954). Se no terceiro dia de tratamento a PCR for mais de 1,5 vez a da admissão, a chance de infecção combinada de osso e articulação é 6,5 vezes maior, e por isso vale medir em dias alternados no início. Num estudo do hospital de Filadélfia, a PCR foi melhor preditor negativo que positivo, mas mesmo com PCR normal a chance de não ter artrite foi de só 87%.

A VHS é lenta: no Campbell (cap. 22, p. 790), tem pico em 3 a 5 dias, só normaliza cerca de 3 semanas depois do início do tratamento e é pouco confiável no neonato, no falciforme, em uso de corticoide e com menos de 48 horas de sintomas. O Sizínio (cap. 26) diz que ela está acima de 20 mm desde o início e chega a 60 mm ou mais depois do terceiro ou quarto dia. No Tachdjian (p. 977), é a VHS que guia o fim do antibiótico.

Os modelos que tentam substituir a punção

Além de KOCHER (próxima seção), dois modelos aparecem nos livros. O de JUNG usa cinco preditores: temperatura acima de 37 °C, VHS acima de 20 mm/h, PCR acima de 1 mg/dL, leucócitos acima de 11.000 e espaço articular do quadril aumentado em mais de 2 mm. Com os cinco, a probabilidade é de 99,1%; com PCR normal e os outros quatro, 90,9% (Tachdjian, p. 954; Campbell, cap. 22, Tabela 22.7, p. 790, onde só a febre isolada dá 1,0%). O de SINGHAL simplifica para dois: PCR acima de 20 mg/L e incapacidade de apoiar; com os dois, 74%; sem nenhum, menos de 1% (Campbell, cap. 24, Tabela 24.5, p. 821 e 824).

Os três modelos de predição para o quadril irritável (Tachdjian, p. 941, 954 e 976; Campbell, cap. 22, p. 790, e cap. 24, p. 824)
ModeloPreditoresProbabilidade com todosObservação
KOCHERFebre acima de 38,5 °C, não apoio, VHS acima de 40 mm/h, leucócitos acima de 12.00099,6% (93% na validação)Quatro variáveis clínicas e laboratoriais
JUNGTemperatura acima de 37 °C, VHS acima de 20, PCR acima de 1 mg/dL, leucócitos acima de 11.000, espaço do quadril aumentado mais de 2 mm99,1%Inclui radiografia; PCR normal e os outros quatro: 90,9%
SINGHALPCR acima de 20 mg/L e não apoio74%Sem nenhum: menos de 1%

O líquido sinovial: celularidade, glicose e proteína

Cobrança confirmada · 3 questões

Punção antes do antibiótico

O Campbell (cap. 24, p. 821 e 826) chama a cultura do líquido aspirado de padrão de referência para identificar o germe e a sensibilidade, e manda puncionar com agulha grossa antes de iniciar o antibiótico. O líquido vai imediatamente para Gram, cultura, celularidade e pesquisa de cristais. A única exceção é a sepse: pelo guia SANJO (Fig. 24.3, p. 826), na sepse ou choque séptico o antibiótico vem antes mesmo da punção. O Sizínio (cap. 26) chama a punção de exame que fecha o diagnóstico e lembra que, se o paciente já recebeu antibiótico, a cultura pode ser mascarada.

A celularidade e o diferencial

Os números variam entre os livros, e essa variação é material de prova. O Tachdjian (p. 976) considera característico mais de 50.000 leucócitos/mm3 com predomínio de polimorfonucleares, mas avisa que há um espectro de contagens em casos confirmados. O capítulo 24 do Campbell (p. 822) aceita o mesmo corte clássico de 50.000, considera PMN acima de 90% indicativo de infecção, admite contagens de 28.000 ou menos sobretudo no imunocomprometido e lembra que acima de 2.000 já é inflamação, abaixo disso, distúrbio mecânico. O capítulo 22 do mesmo Campbell (Tabela 22.6, p. 790) usa um corte mais alto: mais de 80.000 com mais de 75% de neutrófilos. A mensagem é a mesma nos três: muitas células e predomínio de neutrófilos. Linfócitos predominando apontam para outra coisa.

Na prova, quem pergunta "acima de 50.000 com predomínio de neutrófilos" está no Tachdjian; quem oferece "maior que 80.000" num adulto com joelho inchado está na Tabela 22.6 do Campbell. As faixas intermediárias pertencem a outras doenças: 5.000 a 15.000 é sinovite tóxica, 10.000 a 15.000 febre reumática, 15.000 a 80.000 artrite reumatoide juvenil, menos de 5.000 trauma e menos de 200 líquido normal.

Glicose baixa, proteína alta

O capítulo 22 do Tachdjian (p. 930) explica a química do líquido. Normalmente há menos de 300 leucócitos e menos de 25% de polimorfonucleares. A glicose importa porque a diferença entre a glicose sérica e a sinovial aumenta com a inflamação, e a artrite séptica reduz a glicose do líquido mais que qualquer outra condição, achado de valor diagnóstico (as bactérias e os neutrófilos consomem glicose). A proteína normal do líquido é cerca de 30% da sérica (cerca de 1,8 g/dL); na inflamação, a sinóvia fica permeável, a proteína do líquido se aproxima da do soro e entram fatores de coagulação, por isso o líquido inflamatório coagula. Resultado: na artrite séptica, glicose diminuída e proteína elevada.

A Tabela 22.1 (p. 931) põe isso em números e compara com as outras artrites:

Achados sinoviais por doença (Tachdjian, cap. 22, Tabela 22.1, p. 931)
ParâmetroNormalTraumáticaGotaReumatoidePiogênicaTuberculosa
AspectoClaro, amarelo-palhaAmarelo, sanguinolento ou xantocrômicoAmarelo a turvo leitosoAmarelo a esverdeado, turvoAcinzentado ou sanguinolento, turvo purulentoAmarelo, turvo
Viscosidade e coágulo de mucinaNormal, bomNormal, bomDiminuída, ruimDiminuída, ruimDiminuída a ruim, ruimDiminuída a ruim, ruim
Leucócitos/mm3Até 200Até 2.00010.000 a 14.00015.000 (1.000 a 60.000)60.00020.000
PolimorfonuclearesMenos de 20%Menos de 20%60% a 70%55%90%60%
Diferença de glicose sangue menos líquido (mg/100 mL)20202030 ou mais30 a 5030 a 50
Proteínas totais (g/100 mL)1,83,354,14,24,2
Bactérias e cristaisNegativosNegativosCristais de uratoNegativosBactérias positivasBactérias positivas

Note que a tuberculosa também consome glicose e eleva a proteína; o que a separa da piogênica é a celularidade menor (cerca de 20.000, com média de 60% de PMN no capítulo 23, p. 981), o curso insidioso e o germe. E a gota pode ter muitas células; daí a regra do Campbell (p. 822): o principal diferencial da artrite séptica é a artrite por cristais, e cristal no líquido não exclui infecção, porque as duas podem coexistir.

KOCHER: separando a sinovite transitória

Cobrança confirmada · 7 questões

O problema clínico

O maior desafio diagnóstico, diz o Tachdjian (p. 976), é separar a artrite séptica da sinovite transitória do quadril, que responde por até 0,9% das idas da criança ao pronto-socorro por ano. Errar para um lado opera sem necessidade; para o outro, deixa um quadril séptico evoluir.

Os quatro preditores

KOCHER e colaboradores identificaram quatro preditores independentes (Tachdjian, p. 976):

1. história de febre, com temperatura oral acima de 38,5 °C; 2. história de não apoio do membro; 3. VHS acima de 40 mm/h; 4. leucócitos acima de 12.000 células/mL.

Isolados, nenhum separa as duas doenças. Juntos, por regressão logística múltipla, dão uma probabilidade crescente de artrite séptica: 0,2% sem nenhum, 3,0% com um, 40% com dois, 93,1% com três e 99,6% com quatro. Na validação prospectiva na mesma instituição (213 crianças, de 1997 a 2002), as proporções reais foram 2%, 9,5%, 35%, 72,8% e 93%.

O que não é critério também cai: PCR (é do modelo de SINGHAL e do de JUNG), dor no quadril, rubor, derrame no ultrassom, diminuição da mobilidade e alfa-1 glicoproteína ácida não estão na lista. E os cortes são exatos: VHS de 40 (não 20 nem 25) e leucócitos de 12.000.

KOCHER: probabilidade de artrite séptica do quadril (Tachdjian, cap. 23, p. 976)
Preditores presentesProbabilidade no estudo originalProporção na validação prospectivaProbabilidade de sinovite transitória (original)
00,2%2%99,8%
13,0%9,5%97%
240%35%60%
393,1%72,8%6,9%
499,6%93%0,4%

Contando os preditores

As questões de probabilidade são contas: identificar quantos preditores o enunciado oferece e ler a linha da tabela. Uma criança com limitação para apoiar e leucocitose de 13.000 tem dois preditores: cerca de 40%. Se somar VHS elevada, sem febre, são três: cerca de 93%. Com quatro, a probabilidade de artrite é de 99,6% no estudo original (93% na validação), o que deixa para a sinovite transitória menos de 10% em qualquer das duas séries.

O capítulo 22 do Tachdjian (p. 941), na seção de sinovite transitória, repete KOCHER com duas diferenças que convém conhecer: escreve o corte como VHS de pelo menos 40 mm/h e dá 93% para quatro preditores, omitindo a linha dos três. É o mesmo estudo, citado de forma resumida; a tabela completa e exata está no capítulo 23 (p. 976).

Os limites do modelo

KOCHER não é infalível fora de Boston. LUHMANN encontrou só 59% de artrite séptica com os quatro preditores (71% num modelo alternativo) e recomendou ultrassom e artrocentese como complementos. Outros grupos acharam que a febre foi o melhor preditor isolado (Tachdjian, p. 976). A lição do livro é que preditores criados numa população perdem desempenho em outra; eles ajudam a decidir entre observar e aspirar o quadril no centro cirúrgico, mas não substituem a vigilância clínica. O Tachdjian recomenda limiar baixo para internar e, quando não houver preocupação, revisão ambulatorial em poucos dias.

A sinovite transitória que se deve reconhecer

O capítulo 22 do Tachdjian (p. 940 a 942) descreve a doença que KOCHER tenta separar. A sinovite transitória é a causa mais comum de dor no quadril da criança, autolimitada e de causa desconhecida, às vezes depois de infecção respiratória alta. Acomete meninos 2 a 3 vezes mais, com pico entre 4 e 10 anos (média de 6). A criança tem claudicação de início rápido e recusa o apoio, com o quadril em flexão e resistência à extensão total e à rotação interna, mas a irritabilidade é vários graus menor que na artrite séptica e a febre, quando existe, é baixa. É diagnóstico de exclusão: leucócitos, VHS e PCR levemente elevados, radiografia normal ou com leve alargamento, ultrassom com derrame. Um derrame mais ecogênico sugere sepse, mas não separa com segurança.

O curso é a melhor prova: 1 a 2 dias sem andar, normalização em até 2 semanas; piora sugere sepse, curso longo sugere AIJ ou espondiloartropatia. O tratamento é repouso, AINE e sem antibiótico (que confunde o quadro), com aspiração de qualquer criança que recuse andar e tenha limitação importante, porque o objetivo da punção é diagnóstico. Não há efeito a longo prazo demonstrado, apesar da coxa magna em 32%.

Artrite séptica contra sinovite transitória do quadril (Tachdjian, cap. 22, p. 940 a 942, e cap. 23, p. 975 e 976)
AspectoArtrite sépticaSinovite transitória
Idade típicaQualquer; quadril do lactente é o pior cenário4 a 10 anos, média de 6; meninos 2 a 3 vezes
Aspecto geralCriança com aspecto doenteDesconforto leve
FebreFrequente; acima de 38,5 °C é preditorBaixa ou ausente
Dor ao movimentoIntensa, ao movimento passivo suaveVários graus menor; arco curto tolerado
LaboratórioVHS acima de 40, leucócitos acima de 12.000Elevações leves
LíquidoAcima de 50.000, PMN, glicose baixa5.000 a 15.000 (sinovite tóxica)
CursoProgride sem drenagemMelhora espontânea em até 2 semanas
TratamentoDrenagem e antibióticoRepouso, AINE, sem antibiótico

Imagem e punção articulação por articulação

Cobrança confirmada · 1 questão

O que cada exame mostra

Nos primeiros dias a radiografia é normal ou mostra só partes moles, deslocamento de coxim gorduroso e alargamento do espaço; o estreitamento vem depois, com a cartilagem destruída (Campbell, cap. 24, p. 823). O ultrassom é o exame do quadril: comparativo, barato, sem radiação nem sedação, acha pequenos derrames e guia a punção (Tachdjian, p. 946 e 947); o Sizínio (cap. 9.7) o chama de exame mais confiável e mais precoce. A RM altera o sinal da medula adjacente em até 60% das artrites isoladas e pode simular osteomielite; na artrite pura a alteração é pequena e junto à superfície articular, na associação com osteomielite é extensa e metafisária (Tachdjian, p. 952). Os autores do Campbell não usam cintilografia para diagnosticar (p. 825).

Onde puncionar

O ponto de punção é anatômico e cai em prova. No joelho, articulação superficial, a agulha entra pelo lado lateral, na altura do polo superior da patela, atravessando o retináculo lateral (Campbell, p. 829); o Sizínio (cap. 26) usa a mesma altura para as duas incisões parapatelares da artrotomia. O quadril pode ser puncionado por via lateral, anterior ou medial, com intensificador de imagem e artrograma se não sair líquido (Campbell, p. 831; Tachdjian, p. 976, Fig. 23.24).

Pontos de punção (Campbell, cap. 24, p. 828 a 838; Sizínio, cap. 26)
ArticulaçãoPonto
JoelhoLateral, no polo superior da patela, pelo retináculo lateral
Quadril anterior2,5 cm lateral e 2,5 cm distal à artéria femoral no ligamento inguinal, a 45°
Quadril lateralLogo abaixo e à frente do trocânter maior, a 45°
Quadril medialAbaixo do adutor longo, com flexão e abdução
OmbroAnterior, a meio caminho entre coracoide e borda anterolateral do acrômio
CotoveloPosterior, lateral ao olécrano, com o cotovelo fletido
PunhoDorsal, entre o primeiro e o segundo compartimentos extensores
Tornozelo2,5 cm proximal e 1,3 cm anterior ao maléolo lateral, lateral ao fibular terceiro

Drenagem: quando, como e por qual via

Cobrança confirmada · 1 questão

Drenar sempre, de algum jeito

O Tachdjian (p. 977) diz que todos concordam em alguma forma de descompressão (aspiração e lavagem, aspirações seriadas, artroscopia ou artrotomia) com antibiótico venoso. A conduta conservadora é aspirar e fazer artrotomia imediata se o Gram mostrar bactéria, se a celularidade passar de 50.000 ou se a suspeita clínica continuar alta. Aspirações seriadas do quadril evitaram cirurgia em 24 de 28 crianças; a artroscopia curou 91% de 76 crianças, com revisão aberta em 4%. O resultado é bom com intervenção em até 4 dias; o atraso traz loculações de fibrina, pannus e reoperação. O Sizínio (cap. 26) discorda das punções repetidas, que não lavam nem retiram grumos, e faz artrotomia em todos. O Campbell (p. 827) chama a artroscopia de excelente alternativa, com menos reinfecção e internação, e reserva a drenagem aberta para o pus profundo, como no ombro e no quadril.

O quadril da criança: via anterior

O Campbell (p. 831) prefere a via anterior na criança pequena por três razões: poupa a irrigação principal da cabeça femoral, reduz a luxação pós-operatória e tem reparos mais claros. No adulto, a posterior (OBER) dá drenagem pendente, protegendo o quadrado femoral, que leva os vasos da cabeça (p. 832). O Sizínio usa a anterior de SMITH-PETERSEN (cap. 26) e diz que outros preferem a posterolateral ou a medial (cap. 9.7). Depois, o lactente fica em gesso com abdução moderada (Campbell, p. 833); o Sizínio usa tração em abdução de 45° por 5 a 7 dias.

Antibiótico e duração

Relevância clínica

O empírico segue a Tabela 23.2 e o mesmo raciocínio da osteomielite; no adolescente com gonococo disseminado, ceftriaxona (Tachdjian, p. 976). A transição oral precoce é tão eficaz quanto a tardia, e a artrite não complicada leva cerca de 3 semanas, guiadas pela normalização da VHS (p. 977). No Campbell (p. 826 e 827), Hib, Neisseria e estreptococo aceitam menos de 2 semanas; estafilococo e gram-negativos pedem 4 a 6 semanas, mais no quadril e ombro, no imunocomprometido e na resposta ruim. O Sizínio (cap. 9.7) faz 7 a 10 dias venosos e 3 semanas orais.

Complicações e sequelas do quadril

Relevância clínica

O Tachdjian (p. 978) lista artrose precoce, osteonecrose do fêmur proximal, sinovite, artrofibrose, rigidez e infecção persistente. O atraso do tratamento é o fator isolado mais importante: nenhum resultado insatisfatório com menos de 3 dias de sintomas; maus resultados com mais de 5 dias e com osteomielite do fêmur proximal. CHOI, citado no Campbell (p. 838.e2), aponta no lactente infecção antes de 22 semanas, prematuridade e sintomas por mais de 4 dias, e o atraso diagnóstico como o principal. Os livros lidos não trazem as classificações de sequela de CHOI ou de HUNKA; o Sizínio (cap. 9.7) agrupa as sequelas em condrólise sem luxação, necrose sem luxação, luxação com cabeça íntegra, luxação com necrose (a pior) e artrite com osteomielite do fêmur. As reconstruções esperam meses ou anos; abaixo dos 12 anos o sequestro da cabeça pode ser reabsorvido (Campbell, p. 834).

Fechamento

Fundamento

A artrite séptica se decide nas primeiras horas: a bactéria entra pela sinóvia ou pela metáfise intra-articular, a cartilagem perde proteoglicano em 48 horas, e só a punção seguida de drenagem e antibiótico interrompe o processo.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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