Orto Questões

Capsulite adesiva (ombro congelado)

Ombro e cotoveloResumo do capítulo35 min de leitura

Cápsula contraída e espessada (termo de NEVIASER), sinovite seguida de fibrose; cerca de 2% da população, 40 a 70 anos, 70% mulheres, bilateral em 20% a 30% (50% nos diabéticos), raramente recorre; fatores: imobilidade (o principal), diabetes (insulinodependente quase 5 vezes, pior resultado: 71% contra 90% de ADM completa), hipertireoidismo, idade acima de 49 anos, doença discal cervical, AVC, infarto, autoimunes, trauma, hiperlipidemia; metaloproteinases 2 e 9 e TGF-beta1; intervalo rotador e ligamento coracoumeral contraídos; primária e secundária (LUNDBERG); estágio 1 com dor e movimento preservado, depois rigidez, maturação de 4 a 12 meses e descongelamento; perda de RE e RI passivas, depois flexão; radiografia normal, RM com cápsula inferior contraída e "burning sign", artrografia abaixo de 10 mL; autolimitada em 12 a 18 meses; corticoide intra-articular na fase 1, hidrodilatação, bloqueio do supraescapular para a dor, manipulação em FEAR, liberação artroscópica (intervalo rotador = rotação externa) com 80% a 90% de melhora; fratura do úmero e luxação na manipulação, nervo axilar na liberação inferior.

Atualizado em 03/11/2026 · 35 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 51 · Shoulder and Elbow Injuries (seção Adhesive Capsulitis), com o Capítulo 57 · Arthroscopy of the Upper Extremity (contraturas e liberação capsular), em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026). Autores do capítulo: Tyler J. Brolin e Joseph D. Lamplot (cap. 57); Frederick M. Azar, Thomas W. (Quin) Throckmorton e Joseph D. Lamplot (cap. 51).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de ombro e cotovelo do Campbell, capítulo 51, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

A capsulite adesiva, o ombro congelado, é uma doença de cápsula: a articulação glenoumeral perde volume, a cápsula engrossa e se encolhe em torno da cabeça do úmero, e o paciente perde o movimento ativo e passivo, sobretudo as rotações. O exame que separa a capsulite de quase tudo no ombro doloroso é justamente esse: na lesão do manguito o paciente não consegue levantar o braço, mas o examinador consegue; na capsulite, nem um nem outro.

O texto-base é o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., em dois lugares. A seção Adhesive Capsulitis do cap. 51 (Shoulder and Elbow Injuries) traz definição, epidemiologia, fatores associados, estágios, imagem, história natural, injeções e a manipulação sob anestesia. O cap. 57 (Arthroscopy of the Upper Extremity) traz a contratura do diabético, as liberações seletivas e a técnica de liberação capsular artroscópica. Entra como apoio a seção de capsulite do Ortopedia e Traumatologia de SIZÍNIO HEBERT, 5ª ed. (cap. 4), com fisiopatologia, bloqueio do nervo supraescapular e reabilitação. O Netter Atlas de Anatomia Ortopédica, 2ª ed., dá a regra do exame ativo contra passivo.

As provas cobram, em ordem de frequência: quem adoece (mulher acima dos 50, diabético, tireoide), o que piora o prognóstico (diabetes tipo 1), a fase inicial (dor sem perda de movimento), o que a liberação do intervalo rotador devolve (rotação externa), a sequência da manipulação (FEAR) e detalhes de fisiopatologia (metaloproteinases 2 e 9). Algumas questões pedem fatos que os livros lidos não trazem, como os critérios de CODMAN e o tabagismo; nesses blocos o alerta diz o que falta.

Definição, epidemiologia e quem adoece

Cobrança confirmada · 3 questões

O que é a doença

O termo adhesive capsulitis foi cunhado por NEVIASER para descrever o que se via na cirurgia: uma cápsula contraída e espessada, que parecia estar puxada com força em torno da cabeça do úmero, com pouco líquido sinovial e alterações inflamatórias crônicas na camada subsinovial (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 51, p. 2172). O nome "adesiva" engana: o problema central não é uma cola entre superfícies articulares, e sim uma cápsula que perdeu elasticidade e volume. O Campbell resume a evidência atual como sinovite inicial seguida de fibrose capsular reativa.

O livro de SIZÍNIO HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 4) a define como doença idiopática com duas marcas: dor intensa e diminuição da mobilidade articular. Cita a definição de 1992 da Sociedade Americana de Cirurgia de Ombro e Cotovelo: condição de etiologia incerta, com restrição significativa da mobilidade ativa e passiva do ombro, que ocorre na ausência de alteração intrínseca do ombro. Essa última frase é a chave do raciocínio: se há uma lesão estrutural que explique a rigidez (manguito roto, artrose, luxação não reduzida), o diagnóstico de capsulite primária não se sustenta.

Os números que caem

O Campbell dá a epidemiologia de forma compacta (cap. 51, p. 2172):

  • incidência na população geral de cerca de 2%;
  • faixa mais acometida entre 40 e 70 anos;
  • cerca de 70% são mulheres;
  • 20% a 30% terão o ombro oposto acometido; nos diabéticos, a bilateralidade chega a 50%;
  • a doença raramente recorre no mesmo ombro.

O SIZÍNIO HEBERT traz números um pouco diferentes e vale conhecer a divergência: acomete dos 40 aos 60 anos, em especial mulheres, sem predomínio racial; o lado não dominante é o mais envolvido; a bilateralidade ocorre em 16%; a prevalência na população norte-americana varia de 2% a 11%, e nos diabéticos sobe até 40% (cap. 4, pág. PDF 360). O Campbell, por sua vez, diz que o acometimento do ombro dominante prediz bom resultado (cap. 51, p. 2173), uma informação de prognóstico, não de frequência.

Epidemiologia da capsulite adesiva nos dois livros (Campbell 15, cap. 51, p. 2172; SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4)
ItemCampbell 15SIZÍNIO HEBERT 5
Frequênciaincidência de cerca de 2%prevalência de 2% a 11% (EUA)
Idade40 a 70 anos40 a 60 anos
Sexocerca de 70% mulherespredomínio feminino
Bilateralidade20% a 30%; 50% nos diabéticos16%
Diabéticosbilateral em metade; insulinodependente quase 5 vezes maisprevalência até 40%
Ladodominante prediz bom resultadonão dominante mais envolvido
Recorrência no mesmo ombroraranão comenta

Como pensar a epidemiologia na prova

Na prova, o perfil é a mulher acima dos 50 (70% mulheres; idade acima de 49 no Box 51.6). A bilateralidade existe (20% a 30%), mas não é a regra, e a recorrência no mesmo ombro é rara; "até 10% da população" não bate com os cerca de 2% do Campbell.

Fatores de risco: imobilidade, diabetes e tireoide

Cobrança confirmada · 4 questões

O fator comum a quase todos: a imobilidade

O Campbell abre a lista com uma frase que organiza o tema: quase todos os pacientes passaram por um período de imobilidade, por causas diversas, e esse é provavelmente o fator mais significativo para o surgimento da doença (cap. 51, p. 2172). Faz sentido mecânico: a cápsula que não é alongada pelo movimento diário encurta, e uma cápsula inflamada que não é alongada encurta mais rápido. É por isso que o melhor tratamento da forma secundária é a prevenção, com movimento precoce depois de trauma ou cirurgia do membro superior, ideia que o SIZÍNIO HEBERT repete ao dizer que "a prevenção é a arma mais segura" (cap. 4, pág. PDF 363).

O Box 51.6

Fatores associados à capsulite adesiva (Campbell 15, cap. 51, Box 51.6, p. 2172)
FatorComentário do livro
Sexo femininocerca de 70% dos casos
Idade acima de 49 anospico entre 40 e 70 anos
Diabetes mellitusbilateral em 50%; insulinodependente quase 5 vezes mais; pior resultado
Doença discal cervicaltambém entra no diagnóstico diferencial da dor no ombro
Imobilização prolongadaprovavelmente o fator mais significativo
Hipertireoidismoradiografias e exames podem alterar na tireoidopatia
Acidente vascular cerebralombro do hemiplégico
Infarto do miocárdioimobilidade e dor referida
Doenças autoimuneslistadas sem detalhe
Traumadefine a forma secundária

Fora do box, o Campbell acrescenta a hiperlipidemia, proposta como fator de risco da forma primária e apoiada por um estudo comparativo de 300 pacientes com ombro congelado contra 900 controles; o próprio livro, porém, diz que ainda não se sabe se o lípide alterado é causa, cofator ou consequência (cap. 51, p. 2172).

O SIZÍNIO HEBERT amplia a lista com as doenças neurológicas, o uso de anticonvulsivantes (e cita os barbitúricos como predisponentes), o AVC, a dislipidemia, as tireoidopatias e as doenças intratorácicas (cap. 4, pág. PDF 360 e 364). Repare que o Campbell escreve hipertireoidismo, e o SIZÍNIO HEBERT fala de tireoidopatias em geral; nenhuma das fontes lidas traz o hipotireoidismo como fator isolado.

O diabetes, em detalhe

O diabetes é o fator que mais cai, em três perguntas diferentes:

1. Frequência. O Campbell afirma que não há associação entre o nível de HbA1c e a ocorrência, mas que os pacientes insulinodependentes têm quase cinco vezes mais chance de desenvolver ombro congelado (cap. 51, p. 2172). O cap. 57 reforça que a contratura associada ao diabetes é "particularmente problemática" e que SCARLAT e HARRYMAN recomendaram programas preventivos de movimento para diabéticos, sobretudo do tipo 1 (cap. 57, p. 2486). 2. Bilateralidade. Nos diabéticos, a doença é bilateral em metade dos casos (cap. 51, p. 2172). 3. Prognóstico. Os resultados do tratamento são significativamente piores nos diabéticos: ADM completa em 71% contra 90% dos não diabéticos (cap. 51, p. 2173); e, na cirurgia, o diabético exige liberação circunferencial completa quando a manipulação não devolve o movimento (cap. 57, Box 57.3, p. 2487).

O mecanismo que o cap. 57 propõe para o diabético é um espessamento acentuado com perda das propriedades viscoelásticas do complexo capsuloligamentar (p. 2486): a cápsula do diabético é mais grossa e menos elástica, e por isso responde pior à manipulação e pede liberação mais extensa.

O que não é fator de risco

As questões de "NÃO é condição associada" pedem o raciocínio inverso. Pelo Box 51.6, sexo feminino, diabetes e imobilização prolongada são fatores; a idade até 45 anos não é, porque o box fala em idade acima de 49 e a faixa típica começa aos 40. O tabagismo, cobrado na prova da SBCOC, não aparece em nenhuma das fontes lidas (Campbell 15, SIZÍNIO HEBERT 5, Netter).

Primária e secundária

Cobrança confirmada · 1 questão

LUNDBERG e LEFFERT

O Campbell usa a classificação de LUNDBERG, baseada na presença ou ausência de um evento desencadeante (cap. 51, p. 2172):

  • primária: o paciente não relata evento desencadeante, o exame é normal a não ser pela perda de movimento e as radiografias simples são normais;
  • secundária: há uma lesão traumática precipitante.

O livro faz uma ressalva importante: a rigidez depois de cirurgia é tecnicamente uma forma secundária, mas o curso clínico e o tratamento são diferentes, a ponto de ser considerada mais uma artrofibrose do que capsulite. Por isso o Campbell não a discute na seção. No cap. 57, a distinção reaparece na prática: a contratura pós-cirúrgica geralmente exige liberação combinada artroscópica e aberta, às vezes com alongamento do subescapular para recuperar a rotação externa, e no espaço subacromial aparecem aderências entre o deltoide e o manguito que quase não existem na forma idiopática (Box 57.3, p. 2487; técnica 57.29, p. 2487 e 2488).

O SIZÍNIO HEBERT credita a divisão a LEFFERT: primária, sem causa determinada; secundária, quando ocorre junto ou logo depois de uma das doenças do diagnóstico diferencial (manguito, tendinite calcária, luxação, tumor, trauma) (cap. 4, pág. PDF 361).

Primária, secundária e rigidez pós-operatória (Campbell 15, caps. 51 e 57; SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4)
FormaDefiniçãoO que muda
Primária (idiopática)sem evento desencadeante; exame normal exceto o movimento; radiografia normalé a forma dos estágios da Tabela 51.7; autolimitada em 12 a 18 meses
Secundáriaapós trauma (LUNDBERG) ou junto de outra doença do ombro (LEFFERT)prevenção com movimento precoce é o melhor tratamento
Pós-operatóriatecnicamente secundária, tratada como artrofibroseliberação artroscópica mais aberta; alongamento do subescapular; aderências subacromiais

A tendinite calcária como porta de entrada

A tendinite calcária é um exemplo clássico de doença que leva à capsulite secundária. O SIZÍNIO HEBERT descreve a dor da fase de reabsorção como intensa, pulsátil, excruciante, a ponto de impedir qualquer movimento, e diz que ela predispõe ao desenvolvimento de capsulite adesiva (cap. 4, pág. PDF 371). A cadeia é a mesma do Campbell: dor leva à restrição voluntária do movimento, que leva à contratura. O Campbell, no cap. 51, inclui a tendinite calcária entre as doenças com história, dor e exame semelhantes aos da capsulite, o que torna o diagnóstico do ombro doloroso difícil (p. 2146).

Fisiopatologia: sinovite, fibrose e o intervalo rotador

Cobrança confirmada · 1 questão

Da inflamação à fibrose

O Campbell descreve a doença como uma progressão de inflamação capsular para fibrose, terminando no descongelamento (cap. 51, p. 2172). No suplemento eletrônico da mesma seção, detalha a cascata celular (p. 2172.e1):

  • citocinas, metaloproteinases 2 e 9 e o fator de transformação do crescimento beta 1 (TGF-beta1) foram implicados no processo;
  • o evento desencadeante da cascata continua desconhecido;
  • as alarminas, moléculas endógenas liberadas no meio extracelular depois de infecção ou lesão tecidual, estão aumentadas na cápsula do ombro congelado, e a expressão da alarmina HMGB1 se correlaciona com a intensidade da dor relatada;
  • a via do receptor canabinoide CB1 também foi estudada: ombros rígidos têm mais RNA mensageiro e mais marcação de CB1 na bursa subacromial e mais CB1 no líquido subacromial.

A dor, que no estágio inicial é desproporcional ao que se vê na imagem, ganhou uma explicação estrutural: a cápsula do ombro congelado mostra mais receptor do fator de crescimento neural e fibras nervosas novas, ou seja, neoinervação e neoangiogênese (cap. 51, p. 2172). Vaso novo e nervo novo dentro de uma cápsula inflamada explicam a dor noturna intensa.

O SIZÍNIO HEBERT descreve o mesmo processo com outra ênfase (cap. 4, pág. PDF 359): a maioria dos autores não descreve inflamação nem aderências como achado inicial; o que se vê é hiperplasia fibroblástica com excesso de colágeno tipo III, num tecido semelhante ao da doença de DUPUYTREN, talvez com predisposição genética. A dor seria neurologicamente mediada, com alterações simpático-reflexas como as da síndrome de dor complexa regional tipo I; outra teoria é a da hipovascularização com radicais livres.

Fisiopatologia segundo cada livro (Campbell 15, cap. 51, p. 2172 e 2172.e1; SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4, pág. PDF 359)
PontoCampbell 15SIZÍNIO HEBERT 5
Lesão inicialsinovite com fibrose capsular reativahiperplasia fibroblástica; inflamação e aderências não são achado inicial
Mediadorescitocinas, metaloproteinases 2 e 9, TGF-beta1, alarminas (HMGB1), CB1colágeno tipo III, glicosaminoglicanos, radicais livres
Dorneoinervação e neoangiogênese; HMGB1 acompanha a dormediada pelo sistema simpático-reflexo, como na SDCR tipo I
Semelhançanão comentatecido semelhante ao da doença de DUPUYTREN
Estruturascápsula, intervalo rotador, recesso axilarcápsula, ligamento coracoumeral, intervalo, subescapular, bursa subacromial
Líquidorelativa ausência de líquido sinoviallíquido normal, volume de 3 a 15 mL contra 20 a 25 mL

Uma nota de vocabulário: as questões e os textos de revisão falam em miofibroblastos; nenhuma das fontes lidas usa essa palavra. O que o Campbell e o SIZÍNIO HEBERT descrevem é a mesma ideia por outros nomes: fibroblastos em proliferação, colágeno depositado e tecido parecido com o da doença de DUPUYTREN, que é a doença fibroproliferativa por excelência.

O intervalo rotador e o ligamento coracoumeral

Para entender por que a capsulite tira principalmente a rotação externa, é preciso olhar o intervalo rotador. O Campbell o define como a área triangular anterossuperior do ombro onde não há tendão do manguito: limitado pelo supraespinal em cima, pelo subescapular embaixo e pelo coracoide medialmente, com o ápice lateral no ligamento transverso do úmero (cap. 51, p. 2146). Dentro dele estão o ligamento coracoumeral, o tendão da cabeça longa do bíceps e o ligamento glenoumeral superior. E o livro fecha com a frase que importa: o intervalo rotador está contraído na capsulite adesiva e expandido na instabilidade.

O mecanismo é direto. O ligamento coracoumeral e o glenoumeral superior ficam tensos quando o braço roda para fora com o cotovelo junto ao corpo. Uma cápsula anterossuperior encolhida funciona como uma rédea curta: a cabeça do úmero não consegue rodar externamente. O Campbell lembra ainda, na parte de ligamentos, que apertar o intervalo (que inclui o glenoumeral superior) diminui a translação posterior e inferior, e que o glenoumeral médio limita a rotação externa nas abduções baixas e médias (cap. 51, p. 2145). Com o braço abduzido, quem segura a rotação externa é a banda anterior do glenoumeral inferior, a rede que desliza para a frente e para cima na rotação externa; por isso, na capsulite avançada, quando o recesso axilar também está obliterado, a perda passa a incluir abdução e flexão.

O intervalo rotador (Campbell 15, cap. 51, p. 2145 e 2146)
ItemDescrição
Forma e localtriângulo anterossuperior sem tendão do manguito
Limite superiorsupraespinal
Limite inferiorsubescapular
Limite medialcoracoide
Ápice lateralligamento transverso do úmero
Conteúdoligamento coracoumeral, cabeça longa do bíceps, glenoumeral superior
Na capsulitecontraído
Na instabilidadeexpandido
Sinal da vírgulaarco de coracoumeral (46%) e glenoumeral superior (54%) na borda do subescapular

Essa anatomia explica três fatos de prova de uma vez. Primeiro, por que o exame mostra perda da rotação externa passiva com o braço ao lado do corpo. Segundo, por que, quando a liberação artroscópica fracassa, o Campbell recomenda a liberação aberta com ênfase no ligamento coracoumeral e no restabelecimento do intervalo entre o supraespinal e o subescapular (cap. 51, p. 2173 e 2174). Terceiro, por que a liberação seletiva do intervalo rotador devolve rotação externa (cap. 57, Box 57.3, p. 2487), o que é cobrado diretamente nas questões da seção de tratamento cirúrgico.

Os estágios da doença

Cobrança confirmada · 1 questão

A Tabela 51.7

O Campbell descreve quatro estágios a partir da aparência artroscópica da cápsula, com a doença progredindo de inflamação para fibrose e, por fim, para o descongelamento (cap. 51, p. 2172). A tabela do livro acrescenta uma quinta linha, a fase de descongelamento (Tabela 51.7, p. 2173).

Estágios da capsulite adesiva (Campbell 15, cap. 51, Tabela 51.7, p. 2173)
EstágioAchado na cápsulaSintomas
1. Pré-adesivosinovite inflamatória fibrinosa com formação de aderênciasdor difusa de início gradual, sobretudo noturna, progressiva em semanas a meses; piora deitado sobre o lado; a dor é o sintoma principal
2. Sinovite adesiva agudaproliferação sinovial; aderências iniciais sobretudo na prega capsular inferior dependenteo paciente restringe o movimento para aliviar a dor; com menos uso do braço, a rigidez se instala
3. Maturaçãomenos sinovite, mais fibrose; prega axilar obliteradador menor que antes; movimento muito restrito, de 4 a 12 meses; dificuldade nas atividades diárias
4. Crônicoaderências totalmente madurasmovimento muito reduzido; dor nos extremos ou a movimento brusco; semanas a meses
5. Descongelamentoremodelaçãoa dor diminui à medida que o movimento volta; sem tratamento, o movimento retorna aos poucos; a maioria pode nunca voltar objetivamente ao normal

Como ler os estágios

O que a tabela ensina é uma sequência causal, não só uma lista: primeiro vem a dor (estágio 1), a dor faz o paciente parar de mexer (estágio 2), a falta de movimento deixa as aderências amadurecerem e o recesso axilar desaparecer (estágio 3), e só então a dor cede e sobra a rigidez (estágio 4), até o descongelamento. Daí uma consequência clínica: no estágio 1, a dor domina e o arco de movimento ainda está preservado; quem pergunta "fase I" quer ouvir dor sem limitação.

O SIZÍNIO HEBERT diz a mesma coisa com palavras de consultório: na fase inicial, a mobilidade está preservada, e isso confunde o diagnóstico com a tendinite do supraespinal, porque todos os testes provocativos são positivos (cap. 4, pág. PDF 363). O que desfaz a dúvida é a reavaliação: se a dor piora com os exercícios de estiramento capsular ou se aparece uma restrição inexplicada das rotações, o diagnóstico é capsulite.

O estágio também orienta o tratamento. A injeção intra-articular de corticoide é benéfica na fase 1 ou no início da fase 2 (Tabela 51.8, p. 2174), quando ainda há sinovite para tratar; na fase de fibrose madura, o problema é mecânico, e o que resolve é alongar ou liberar a cápsula.

Sobre os nomes: as questões e os programas de prova falam em fases de REEVES e estágios de NEVIASER. Nas fontes lidas, o Campbell não dá nome de autor aos estágios e cita NEVIASER apenas como quem cunhou o termo; REEVES não aparece. A prova pode usar qualquer das duas nomenclaturas, mas a lógica é a mesma da Tabela 51.7.

Quadro clínico e exame físico

Cobrança confirmada · 2 questões

A história

A queixa típica é uma dor mal localizada no ombro, de início espontâneo, geralmente sem trauma, que se torna muito intensa mesmo em repouso e à noite, contínua e pior ao movimento, e que costuma diminuir em algumas semanas (SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4, pág. PDF 360). O Campbell acrescenta o detalhe de piorar ao deitar sobre o lado afetado (Tabela 51.7, p. 2173). O SIZÍNIO HEBERT chama a atenção para o atraso: o quadro evolui lentamente, por 4 a 6 meses antes do diagnóstico, período em que o paciente costuma receber vários diagnósticos, infiltrações e imobilizações, e são justamente esses meses que dão os melhores resultados quando o diagnóstico é feito cedo (pág. PDF 360 e 363). O Campbell nota que os pacientes subestimam a perda de movimento (p. 2173).

O exame: o que se perde primeiro

O Campbell é honesto sobre a falta de padrão: não há critérios diagnósticos universalmente aceitos (cap. 51, p. 2172). Na experiência dos autores:

  • a rotação interna e a rotação externa costumam ser perdidas primeiro, seguidas da flexão;
  • o paciente típico roda internamente só até o sacro, perdeu 50% da rotação externa e tem menos de 90 graus de abdução;
  • o exame deve ser feito em supino, avaliando a ADM passiva, sobretudo rotação externa, rotação interna e abdução;
  • em geral há diferença de pelo menos 10 a 15 graus na rotação externa e na abdução em relação ao outro lado, na forma idiopática;
  • o exame cervical e do ombro deve ser completo para afastar doença concomitante.

O SIZÍNIO HEBERT descreve a limitação de elevação, rotação interna, rotação externa e abdução e afirma que o bloqueio das rotações externa e interna é uma característica sempre presente (cap. 4, pág. PDF 360).

Ativo contra passivo

O Netter Atlas de Anatomia Ortopédica, 2ª ed., resume o exame em uma linha (cap. 3, pág. PDF 143): na ruptura do manguito, a ADM ativa está diminuída e a passiva está normal; na capsulite adesiva, a ADM ativa e passiva estão diminuídas. A regra serve para quase toda questão de diagnóstico diferencial. O Campbell mostra a ponte entre os dois quadros: no paciente com lesão do manguito, a ADM passiva fica cheia até que a dor limite tanto o movimento ativo que se instale uma capsulite (cap. 51, p. 2163 aprox., pág. PDF 2828).

Os testes de impacto não ajudam a separar as doenças: o teste de NEER dói no impacto, mas também na capsulite, na artrose, na tendinite calcária e em lesões ósseas (cap. 51, p. 2147). E a capsulite inicial aparece na lista de dilemas diagnósticos do impacto, junto da artrose acromioclavicular e glenoumeral, da instabilidade sutil e da fibromialgia (cap. 51, p. 2160).

Os critérios de CODMAN

Algumas provas cobram os "critérios de CODMAN" do ombro congelado, e o gabarito do TARO 2017 inclui entre eles a atrofia dos músculos espinhais (supra e infraespinal). Nenhuma das fontes lidas traz esses critérios; o Campbell 15 cita CODMAN apenas na zona crítica do supraespinal e na história do manguito.

O raciocínio que as fontes permitem é este: a dor do ombro congelado piora ao deitar sobre o lado afetado (Tabela 51.7), e não sobre o oposto; a perda que domina é a de rotação externa e abdução, com a RI perdida junto; e o desuso prolongado leva à atrofia, como lembra o SIZÍNIO HEBERT ao citar a osteoporose de desuso (pág. PDF 362).

Imagem e exames complementares

Cobrança confirmada · 1 questão

O que cada exame mostra

A regra geral é que os exames, inclusive a radiografia simples, são normais, exceto nos pacientes com doença clínica como diabetes ou tireoidopatia (Campbell 15, cap. 51, p. 2173). Isso faz parte da definição de LUNDBERG da forma primária.

  • Radiografia. Normal; o SIZÍNIO HEBERT acrescenta que pode haver diminuição do espaço entre a glenoide e a cabeça na AP verdadeira, pela retração capsular, e que a osteoporose de desuso é fácil de ver (cap. 4, pág. PDF 362).
  • Cintilografia. Positiva em alguns pacientes; quando positiva, tem valor preditivo positivo para a resposta à injeção de corticoide (Campbell, p. 2173).
  • Ressonância. Mostra a cápsula inferior contraída e aumento do fluxo sanguíneo para a sinóvia, mas o seu valor principal é avaliar as outras estruturas e excluir outras doenças (p. 2173). Na RM dinâmica tridimensional, os pacientes têm captação anormal de sangue vindo da rede arterial acromial e dos ramos das artérias circunflexas do úmero para o recesso axilar e o intervalo rotador, achado batizado de "burning sign" (p. 2173).
  • Artrografia. Mostra volume articular reduzido com margens irregulares. Os achados aceitos são volume menor que 10 mL e falta de enchimento da prega axilar (p. 2173). Pode haver melhora clínica depois do exame, porque o líquido injetado com força rompe aderências (brisement). O SIZÍNIO HEBERT a considera eficaz, mas bastante dolorosa (pág. PDF 362).

Aqui há uma divergência real entre os livros. O SIZÍNIO HEBERT afirma que a ecografia e a RM são normais na capsulite, "já que a anatomia" não se altera (pág. PDF 362). O Campbell descreve achados de RM (cápsula inferior contraída, hiperfluxo sinovial e o "burning sign" no intervalo rotador e no recesso axilar). Para a prova com imagem de RM contrastada, vale o Campbell: realce no intervalo rotador e no recesso axilar sugere capsulite.

Exames na capsulite adesiva (Campbell 15, cap. 51, p. 2173; SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4, pág. PDF 362)
ExameAchadoObservação
Radiografianormalalterada só em diabetes e tireoidopatia; osteopenia de desuso
Cintilografiapositiva em algunsprediz resposta ao corticoide injetado
RMcápsula inferior contraída, hiperfluxo sinovialserve sobretudo para excluir outras doenças
RM dinâmica 3Dcaptação no recesso axilar e no intervalo rotador"burning sign"
Artrografiavolume abaixo de 10 mL, prega axilar sem contrastebrisement pode melhorar a dor
Volume normal da glenoumeral20 a 25 mLna capsulite, 3 a 15 mL (SIZÍNIO HEBERT)

Diagnóstico diferencial

Relevância clínica

Um ombro doloroso e rígido não é sempre capsulite

O Campbell abre o cap. 51 explicando por que o ombro doloroso é difícil: impacto, lesões do manguito (parciais e completas), tendinite calcária, capsulite adesiva e compressões nervosas têm histórias, padrões de dor e exames parecidos, e todas podem causar dor, fraqueza e perda de movimento (cap. 51, p. 2146). Além delas, é preciso pensar na dor referida: coluna cervical (hérnia de disco, espondilose, plexopatia braquial), tórax (tumor de PANCOAST, pneumonia de lobo superior), mamas, axila e abdome (irritação diafragmática, vesícula).

O SIZÍNIO HEBERT lista as doenças que evoluem para rigidez e devem ser afastadas: ruptura maciça do manguito, tendinite calcária, luxação glenoumeral não diagnosticada, tumores primários ou metastáticos, síndrome ombro-mão (distrofia simpático-reflexa) e trauma (fratura da cabeça do úmero ou da glenoide) (cap. 4, pág. PDF 361).

Diagnóstico diferencial do ombro doloroso e rígido (Campbell 15, cap. 51, p. 2146; SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4, pág. PDF 361; Netter, cap. 3)
DoençaO que a separa da capsulite
Ruptura do manguitoADM passiva preservada; fraqueza verdadeira
Impacto subacromialmovimento passivo preservado; NEER positivo nos dois
Tendinite calcáriadepósito na radiografia; pode causar capsulite secundária
Artrose glenoumeralradiografia alterada
Luxação glenoumeral não diagnosticadaradiografia alterada
Tumor primário ou metastáticoradiografia e RM alteradas
Síndrome ombro-mãodor com alterações simpáticas que atingem a mão
Radiculopatia cervicaldor irradiada abaixo do cotovelo; ombro com movimento passivo livre
Dor referida (tórax, abdome)ombro sem perda de movimento passivo

O raciocínio de prova é simples: radiografia normal + perda de movimento passivo em todas as direções, sobretudo da rotação externa = capsulite; radiografia normal + movimento passivo preservado = procure o manguito ou o impacto; radiografia alterada = a rigidez tem outra causa (artrose, luxação, fratura, tumor, calcificação), e se houver capsulite ela é secundária.

História natural e prognóstico

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Autolimitada, mas nem tanto

Tradicionalmente, o ombro congelado é considerado uma doença autolimitada, com duração de 12 a 18 meses e sem sequelas a longo prazo. O Campbell corrige a ideia: cerca de 10% dos pacientes têm problemas a longo prazo (cap. 51, p. 2173). Num seguimento de 10 anos de 83 pacientes, 94% recuperaram função e movimento normais sem tratamento, mas a ausência total de dor foi bem menor: 51% no grupo sem tratamento, 44% no grupo de tratamento não operatório e 30% no grupo da manipulação. A leitura é que o movimento volta quase sempre, a dor residual é comum, e a manipulação não melhora esse desfecho.

O Campbell lista o que pesa no prognóstico (p. 2173): o paciente subestima a perda; quem procura cedo melhora mais rápido; o ombro dominante prediz bom resultado; ocupação e tipo de programa não tiveram significância; com boa seleção, cerca de 70% melhoram com intervenção ativa; e os diabéticos vão pior, com ADM completa em 71% contra 90%.

O cap. 57 acrescenta os números de quem responde mal (p. 2486). SCARLAT e HARRYMAN notaram que pacientes com sintomas há mais de 6 meses respondem pior à manipulação do que os com rigidez pós-traumática ou pós-operatória. Na experiência dos autores, sintomas há mais de 4 meses com rotação abaixo de 30 graus e flexão abaixo de 100 graus costumam responder mal à fisioterapia. E a regra de acompanhamento: se o paciente não ganha 10 a 15 graus a cada 2 semanas ao longo de 4 semanas, a manipulação ou a cirurgia devem ser consideradas cedo. Na série de SCARLAT e HARRYMAN, cerca de 20% precisaram de remanipulação precoce.

Prognóstico da capsulite adesiva (Campbell 15, cap. 51, p. 2173; cap. 57, p. 2486)
FatorEfeito
Duração natural12 a 18 meses; cerca de 10% com problema a longo prazo
Sem tratamento, 10 anos94% recuperam movimento; só 51% sem dor
Procura precocerecuperação mais rápida
Ombro dominantebom resultado
Ocupação e programasem significância
DiabetesADM completa em 71% contra 90%; liberação circunferencial
Sintomas há mais de 6 mesesresposta pior à manipulação
Mais de 4 meses, rotação abaixo de 30 e flexão abaixo de 100 grausresposta ruim à fisioterapia
Sem ganho de 10 a 15 graus por 2 semanas em 4 semanasindicar manipulação ou cirurgia cedo

Tratamento não operatório

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Princípios

O tratamento inicial é não operatório, com ênfase no controle da dor e da inflamação (Campbell 15, cap. 51, p. 2173). Um detalhe pouco lembrado: a abdução deve ser evitada no início, para não provocar impacto enquanto a articulação não fica mais flexível. O Campbell lista todas as opções da literatura: negligência benigna, fisioterapia supervisionada, anti-inflamatórios não esteroides, corticoide oral, infiltração intra-articular de corticoide, artrografia de distensão, hidrodistensão, manipulação fechada, liberação aberta e liberação artroscópica. Muitos pacientes não querem esperar meses e pedem intervenção ativa antes disso.

O SIZÍNIO HEBERT organiza o tratamento em duas fases distintas: primeiro o alívio da dor, depois o ganho de mobilidade; só com a dor controlada o reabilitador avança sobre a retração capsular (cap. 4, pág. PDF 363). E divide os pacientes em três grupos:

Os três grupos de tratamento (SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4, pág. PDF 363 e 364)
GrupoConduta
Restrição de movimento sem dorreabilitação sob supervisão; sem melhora em 30 dias e sem dor importante, liberação artroscópica ou manipulação com distensão hidráulica
Restrição de movimento com dor intensaquadro simpático-reflexo associado; controlar a dor primeiro (analgésicos potentes e bloqueios seriados do nervo supraescapular), depois reabilitar
Restrição associada a doença cirúrgica do ombroreabilitação completa seguida da cirurgia (preferida) ou reconstrução precedida de manipulação

As injeções e os meios físicos

A Tabela 51.8 do Campbell resume a eficácia relatada (cap. 51, p. 2174):

Eficácia de injeções, TENS e ondas de choque (Campbell 15, cap. 51, Tabela 51.8, p. 2174)
TratamentoEficácia relatada
Corticoide intra-articularalívio mais rápido da dor, melhor função e maior satisfação que as outras modalidades não operatórias; benefício na fase 1 ou início da fase 2
Local da injeçãosubacromial, intra-articular, combinada, glenoumeral ou no intervalo rotador: sem diferença no resultado final
Hialuronato intra-articulareficácia semelhante à do corticoide, com menos efeitos adversos
TENS e ultrassomalgum benefício quando associados a exercícios passivos e ativos
Ondas de choque extracorpóreasmelhora mais rápida e melhor escore final que a prednisolona oral

A lógica do corticoide segue os estágios: ele atua na sinovite, por isso funciona no estágio 1 e no começo do 2, e a cintilografia positiva (sinal de atividade) prediz boa resposta (p. 2173). Na fase de fibrose madura, o corticoide não alonga cápsula.

Hidrodilatação: o protocolo do Campbell

O quadro Campbell's Concepts traz o protocolo atual dos autores (cap. 51, p. 2174):

1. injeção guiada por ultrassom na glenoumeral, com anestésico local, corticoide e grande volume de soro (cerca de 20 mL): é a hidrodilatação, que aumenta o espaço glenoumeral; 2. com o ombro anestesiado, o paciente em supino tem o ombro manipulado até a tolerância; 3. depois, fisioterapia supervisionada para manter o movimento ganho; 4. a maioria melhora com um procedimento; às vezes é preciso um segundo, 4 a 8 semanas depois; 5. poucos (menos de 5%) acabam precisando de lise artroscópica com manipulação.

O cap. 57 repete a ideia: hidrodilatação para distender a cápsula, seguida de manipulação no consultório (p. 2486), o mesmo princípio do brisement da artrografia. E no portal posterior da artroscopia, a glenoumeral normal aceita 30 a 40 mL de soro, mas aceita menos quando a capsulite é importante (cap. 57, p. 2424): o volume que entra mede a doença.

O bloqueio do nervo supraescapular

O SIZÍNIO HEBERT dá destaque ao bloqueio do nervo supraescapular no paciente com dor intensa (cap. 4, pág. PDF 363 e 364). O racional é anatômico: o supraescapular fornece ramos sensitivos para a cápsula articular posterior. O bloqueio é feito com 8 a 10 mL de marcaína, em intervalo semanal, com agulha longa, cerca de 2 cm medial à articulação acromioclavicular (no trajeto da alça do sutiã, na mulher), quantas vezes forem necessárias. O objetivo é romper o círculo vicioso da dor e permitir que a fisioterapia aconteça com menos dor; o bloqueio trata a dor, não devolve movimento por si.

O mesmo livro descreve o restante do arsenal contra a dor: analgésicos potentes como o tramadol por tempo prolongado, duas doses de corticoide de depósito (se não houver contraindicação), antidepressivos ou ansiolíticos, tratamento da osteoporose de desuso e protetor gástrico. E faz uma afirmação que diverge do Campbell: o uso de AINE está contraindicado, "por não se tratar de inflamação" e porque a maioria já usou vários antes (pág. PDF 364 e 365). O Campbell lista o AINE entre as opções e fala em controlar "dor e inflamação" (cap. 51, p. 2173).

A fisioterapia

O objetivo da fisioterapia é eliminar o desconforto e restaurar a mobilidade e a função (SIZÍNIO HEBERT 5, cap. 4, pág. PDF 366). O calor (diatermia) alivia a dor, mas não determina a recuperação. A mobilização passiva oscilatória é graduada em I e II (analgésicos) e III e IV (alongamento), trabalhando a abdução a 30 a 40 graus no plano escapular e as rotações. Em casa, exercícios autopassivos com bastão, roldana e pendulares, com pouca intensidade e várias vezes ao dia. Na fase dolorosa, nada de ganho de amplitude: usa-se TENS de 100 a 150 Hz. Quando a rigidez domina, as mobilizações se intensificam, porque o tecido conjuntivo sofre alongamento plástico sob tensão leve e prolongada. O tratamento leva cerca de 3 a 6 meses.

O Campbell completa com a regra do início: evitar a abdução enquanto a articulação está rígida, para não provocar impacto (cap. 51, p. 2173).

Manipulação sob anestesia

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Indicação e técnica

O Campbell defende a manipulação fechada sob anestesia, usada pelos autores há muitos anos com bons resultados (cap. 51, p. 2173). Observaram pouco benefício em fazer a liberação capsular em vez da manipulação ou junto dela, e as falhas vêm, em geral, da incapacidade de manter o movimento no pós-operatório, não de complicações intraoperatórias. A indicação é a rigidez recalcitrante que não respondeu ao tratamento conservador.

A técnica 51.4 (p. 2174):

1. anestesia geral complementada por bloqueio interescalênico para a dor pós-operatória; 2. manipular com braço de alavanca curto e escápula fixa; 3. seguir o acrônimo FEAR como sequência segura: flexão, extensão, abdução e adução, rotação externa e interna; 4. a liberação audível e palpável das aderências é bom sinal prognóstico; 5. radiografias AP e axilar no intraoperatório, ocasionalmente, para afastar fratura periarticular ou luxação.

A alavanca curta reduz o torque sobre o úmero. O cap. 57 dá o mesmo conselho no início da liberação artroscópica: manipular com suavidade, evitando torque rotacional excessivo (p. 2486).

O SIZÍNIO HEBERT descreve outra sequência: elevação ampla no plano da escápula (ouve-se o ruído característico da cápsula rompendo), depois, com extremo cuidado, abdução com rotação externa, uma segunda elevação e, ao final, a distensão hidráulica com marcaína, corticoide e morfina (cap. 4, pág. PDF 363). Na parte de fisioterapia do mesmo capítulo, a sequência é elevação, rotação externa, abdução e rotação interna, com um assistente estabilizando a escápula e o cirurgião segurando o úmero como uma unidade para evitar a fratura da diáfise; a crepitação audível e palpável confirma a ruptura da cápsula (pág. PDF 366). A prova que pede "a sequência" quer a do Campbell, o FEAR.

Pós-operatório

A reabilitação depois da manipulação é crucial para evitar a recorrência (Campbell, p. 2174). Os autores manipulam no início da semana e começam a fisioterapia no dia seguinte; as sessões supervisionadas são diárias por pelo menos 2 a 4 semanas, com a meta de ADM completa precoce. O SIZÍNIO HEBERT lembra que a manipulação abrevia a rigidez, não a doença, e que a indicação vem caindo com a analgesia e a reabilitação melhores (pág. PDF 363).

Liberação capsular artroscópica e aberta

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Quando e com que resultado

A liberação artroscópica é indicada quando a manipulação fechada falha ou para pacientes com capsulite prolongada e recalcitrante, com melhora acentuada em 80% a 90%; um seguimento longo mostrou movimento igual ao do lado oposto mantido ou melhorado 7 anos depois (Campbell 15, cap. 51, p. 2174). Se a artroscópica falha, a liberação aberta foi recomendada, com ênfase no ligamento coracoumeral e no restabelecimento do intervalo entre supraespinal e subescapular; os autores dizem não ter usado a via aberta recentemente e preferem a artroscopia (p. 2173 e 2174).

O SIZÍNIO HEBERT aponta as vantagens da artroscopia (cap. 4, pág. PDF 367): diminui o risco de fratura da diáfise que a manipulação traz, permite reconhecer a fase da capsulite e as doenças associadas e libera as estruturas capsulares diretamente. A manipulação pode ser feita antes da artroscopia (facilita a entrada do artroscópio, mas exige cuidado com lesão iatrogênica da cartilagem) ou depois (precisa de muito menos força para completar a liberação). Alguns autores associam tenotomia ou tenodese do bíceps.

As liberações seletivas

O Box 57.3 do Campbell traz a tabela que responde às questões de "qual liberação devolve qual movimento" (cap. 57, p. 2487), atribuída a BENNETT:

Liberações artroscópicas seletivas e o movimento ganho (Campbell 15, cap. 57, Box 57.3, p. 2487)
Estrutura liberadaMovimento ganho
Intervalo rotadorrotação externa
Cápsula inferiorrotação externa, flexão e rotação interna
Cápsula posterossuperiorrotação interna

O raciocínio é o mesmo da anatomia: o intervalo rotador, com o ligamento coracoumeral e o glenoumeral superior, é a rédea anterossuperior que trava a rotação externa com o braço ao lado do corpo; cortada, a cabeça roda para fora. A cápsula posterior trava a rotação interna; o recesso inferior, que se oblitera no estágio 3, trava a elevação e as rotações com o braço abduzido.

A técnica de SCARLAT e HARRYMAN

A técnica 57.29 (cap. 57, p. 2486 a 2488) começa com exame bilateral sob anestesia e manipulação suave, sem torque rotacional excessivo. Pelo portal posterior (trocater afiado só para furar a cápsula espessada), a óptica vai ao intervalo rotador, passando por cima do bíceps quando o ombro é muito rígido; cria-se o portal anterossuperior (de dentro para fora com o bastão de WISSINGER, ou 1,5 cm anterior à acromioclavicular). A ordem da liberação é: cápsula posterossuperior com eletrocautério em gancho, lábio intacto; cápsula do intervalo rotador, seguindo pelo glenoumeral médio até o anteroinferior, sem shaver motorizado (sangra); por um portal posteroinferior, a cápsula inferior a não mais de 1 cm do lábio; por fim o glenoumeral inferior, ressecado da face profunda do subescapular. A cabeça não desce nem roda por completo enquanto o glenoumeral inferior não estiver totalmente dividido. Conectadas as liberações anterior e posterior, faz-se sinovectomia e ressecção ampla das margens, para evitar cicatriz precoce; nas rigidezes pós-cirúrgicas, as aderências subacromiais entre deltoide e manguito podem exigir lise por via deltopeitoral axilar.

O Box 57.3 completa as regras de segurança (p. 2487): portais iniciais 1,5 cm abaixo do acrômio e da acromioclavicular; o paciente deve entender o pós-operatório difícil; diabéticos exigem liberação circunferencial completa se a manipulação não devolve o movimento; a contratura pós-cirúrgica pede liberação artroscópica e aberta, às vezes com alongamento do subescapular; se a visão é ruim, converter; na cápsula inferior, entre 5 e 7 horas, ficar a 1 cm do lábio e separar a cápsula do músculo para proteger o nervo axilar.

O SIZÍNIO HEBERT descreve a mesma ordem de outro jeito: começar pelo intervalo dos rotadores, do alto até a borda do subescapular, continuar inferiormente até o recesso axilar, e depois, com a óptica no portal anterior, liberar a cápsula posterior das 7 às 10 horas; alguns autores só liberam até 5 horas, para evitar o nervo axilar (pág. PDF 367).

Pós-operatório da liberação

Pelo Campbell (cap. 57, p. 2488): cateter supraclavicular guiado por ultrassom por 48 a 72 horas (ou bloqueio único), exercícios ativo-assistidos imediatos e contínuos ao longo do dia, fisioterapia passiva e ativo-assistida em 24 horas, reavaliação em 3 semanas, alongamentos nos quatro quadrantes, 5 vezes ao dia, 5 repetições cada. O Box 57.3 prevê reintervenção artroscópica precoce, em 3 a 4 semanas, quando indicada. O SIZÍNIO HEBERT mantém o paciente internado até 2 dias com manipulação passiva supervisionada diária e fisioterapia todos os dias depois da alta (pág. PDF 367).

Complicações

Relevância clínica

Da manipulação

As complicações da manipulação fechada são a fratura do úmero proximal e a luxação (Campbell 15, cap. 51, p. 2174). Por isso a manipulação deve ser evitada na osteopenia e nas fraturas recém-consolidadas e reservada para a rigidez recalcitrante. Se ocorrer luxação, a reabilitação continua agressiva, mas a posição de abdução com rotação externa deve ser evitada. O SIZÍNIO HEBERT acrescenta a fratura da diáfise do úmero, as rupturas do manguito e o estiramento do plexo braquial, e exige um cirurgião experiente (cap. 4, pág. PDF 363).

Da artroscopia

O risco anatômico principal da liberação é o nervo axilar, junto do recesso inferior: daí a regra de ficar a 1 cm do lábio entre 5 e 7 horas (cap. 57, Box 57.3, p. 2487) ou de parar às 5 horas (SIZÍNIO HEBERT). No portal posterior, o supraescapular corre risco se o portal for medial demais, e o axilar, se for inferior ou lateral demais (cap. 57, p. 2424). O sangramento prejudica a visão, e por isso o shaver motorizado é evitado. E a complicação mais comum de todos os tratamentos é a mesma: a perda do movimento ganho quando a reabilitação falha (cap. 51, p. 2173).

Fechamento

Fundamento

A capsulite é uma doença da cápsula: sinovite que vira fibrose, com intervalo rotador e ligamento coracoumeral encolhidos e recesso axilar obliterado. Por isso o movimento ativo e passivo se perde, as rotações primeiro, e a radiografia é normal. O tratamento segue o estágio: corticoide e hidrodilatação na sinovite, bloqueio do supraescapular para a dor, fisioterapia para a rigidez e, na falha, manipulação em FEAR e liberação artroscópica, em que cada região liberada devolve um movimento, sempre poupando o nervo axilar no recesso inferior.

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