Orto Questões

Menisco discoide

JoelhoResumo do capítulo35 min de leitura

Lateral em 97% (asiáticos até 26%), medial 0,06 a 0,3%; o menisco normal nunca é discoide no feto (variante congênita, colágeno escasso e desorganizado); WATANABE I completo, II incompleto (menos de 80%), III WRISBERG sem inserção tibial posterior (sem coronário), que estala sem trauma na criança pequena; MONLLAU acrescenta o tipo IV em anel; radiografia com espaço lateral alargado, côndilo quadrado, platô em taça, espinha tibial lateral hipoplásica e fíbula alta; RM com gravata-borboleta em 3 ou mais cortes e diâmetro coronal acima de 15 mm ou 20%; incidental fica intacto; sintomático vai à saucerização central com rebordo de 6 a 8 mm e reparo do rebordo instável; total piora a artrose; OCD do côndilo femoral lateral.

Atualizado em 04/11/2026 · 35 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 31 · Sports Medicine in the Growing Child, em Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª edição (2014). Autores do capítulo: R. Baxter WILLIS, Mininder S. KOCHER e Theodore J. GANLEY (Lovell and Winter, cap. 31); Philip WILSON, Henry Bone ELLIS Jr. e Jane S. CHUNG (Tachdjian, cap. 40).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de joelho do Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, capítulo 31, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo segue a seção sobre menisco discoide do capítulo 31 (Sports Medicine in the Growing Child) do Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª ed., de R. Baxter WILLIS, Mininder S. KOCHER e Theodore J. GANLEY, e a compara, ponto a ponto, com a seção correspondente do capítulo 40 do Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (a mais longa das quatro fontes, mas cujo capítulo já serve de base ao resumo de osteocondrite dissecante), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 3, 50 e 56) e com o HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 15). As páginas citadas são as impressas.

O menisco discoide é uma variante anatômica, quase sempre do menisco lateral, em que o menisco deixa de ter a forma de anel aberto no centro e passa a ser um bloco espesso que cobre parte maior (ou todo) do platô tibial lateral. Duas coisas definem o comportamento clínico: quanto do platô ele cobre (completo ou incompleto) e se ele está preso à tíbia atrás (estável) ou solto, preso só pelo ligamento de WRISBERG (instável). A primeira variável explica por que ele rasga; a segunda explica por que ele estala.

A banca cobra lateralidade e frequência, WATANABE e o tipo WRISBERG, a clínica por idade, os sinais de imagem, a saucerização e a associação com osteocondrite do côndilo femoral lateral; o resumo anda nessa ordem.

Para a anatomia, a biomecânica e as lesões do menisco do adulto (vascularização, tensão em aro, testes meniscais, técnicas de sutura), veja o resumo campbell15-meniscos; aqui só retomamos o que é preciso para entender o discoide.

A anatomia que explica o discoide

Cobrança confirmada · 1 questão

Antes de falar do menisco anormal, é preciso ter claro como o normal se prende ao joelho, porque o tipo WRISBERG é, por definição, um defeito de fixação.

O menisco medial: preso por todos os lados

O Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª ed. (cap. 31, p. 1613), descreve o menisco medial em forma de C, cobrindo 50% do platô medial, preso à tíbia pelo ligamento coronário e ao LCM profundo pelo ligamento meniscotibial. Essas amarras limitam sua translação a 2 a 5 mm durante o movimento do joelho.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 50, p. 1996), detalha: o medial tem raio maior, corno posterior mais largo que o anterior, e toda a sua borda periférica está firmemente presa à cápsula medial e, pelo ligamento coronário, à borda superior da tíbia. Por isso ele funciona como restritor secundário da translação anterior da tíbia, sobretudo no joelho sem LCA. O mesmo livro (p. 1987 aprox.) mostra que a porção meniscotibial do LCM profundo continua como o ligamento coronário do menisco, e (p. 1989 aprox.) que o corno posterior do medial se liga à cápsula posteromedial, ao LCM profundo, ao ligamento oblíquo posterior e à expansão do semimembranoso, funcionando como calço sobre o platô.

Guarde a ideia central: o ligamento coronário (meniscotibial) é o que prende a periferia do menisco à borda da tíbia. Os ligamentos meniscofemorais (HUMPHRY e WRISBERG) prendem o menisco ao fêmur, não à tíbia, e pertencem ao lateral.

O menisco lateral: móvel por construção

O lateral é mais circular. O Lovell and Winter (p. 1613) diz que ele cobre 70% do platô lateral, não tem inserção no ligamento colateral fibular nem no hiato poplíteo e por isso translada 9 a 11 mm com o movimento do joelho. O HEBERT (cap. 15) dá os mesmos 70%, com 12 mm de largura e 4 mm de altura, mobilidade de 10 mm contra 3 mm do medial, e atribui ao lateral, por não se ligar ao colateral, maior proteção contra lesões.

O Campbell (cap. 50, p. 1996) acrescenta o que interessa ao discoide: o lateral é menor em diâmetro, mais espesso na periferia, de corpo mais largo, e posteriormente se prende ao côndilo femoral medial pelo ligamento de HUMPHRY e/ou pelo ligamento de WRISBERG, de presença variável, além da fáscia do poplíteo e do complexo arqueado. O tendão do poplíteo separa a periferia posterolateral do lateral da cápsula e do colateral fibular. Como está preso ao poplíteo e aos meniscofemorais, o lateral acompanha o côndilo femoral lateral na rotação e se machuca menos; na flexão com rotação interna, o poplíteo puxa o segmento posterior para trás e evita que ele seja pinçado.

Vascularização e carga: por que a criança aceita preservar

O Lovell and Winter (p. 1613) lembra que o menisco em desenvolvimento é totalmente vascularizado ao nascer e que a vascularidade recua até os 10% a 30% periféricos (zona vermelho-vermelho) por volta dos 10 anos, quando passa a se parecer com o do adulto; o centro se nutre por difusão sinovial. O HEBERT (cap. 15) dá a cronologia: na gestação os meniscos são vascularizados por inteiro e não têm forma discoide; aos 9 meses de vida o terço central já é avascular; por volta dos 10 anos, só o terço periférico tem vasos.

Os meniscos transmitem 50% a 70% da carga em extensão e 85% a 90 graus de flexão (Lovell and Winter, p. 1613). O Campbell (cap. 50, p. 1997 aprox.) dá o preço de tirá-los: o lateral carrega 70% da carga daquele lado, e a meniscectomia lateral reduz a área de contato em 40% a 50% e aumenta o estresse em 200% a 300%, porque o platô lateral é convexo. É esse número que torna a meniscectomia total do discoide uma decisão pesada.

Menisco medial e lateral: o que importa para o discoide (Lovell and Winter, cap. 31, p. 1613; Campbell 15, cap. 50, p. 1987 a 1997 aprox.; HEBERT, cap. 15)
CaracterísticaMedialLateral
FormaC, raio maior, corno posterior mais largoquase circular, mais espesso na periferia
Cobertura do platô50%70% (Campbell: até dois terços)
Fixação à tíbiacoronário em toda a periferia; meniscotibial do LCM profundosem inserção no colateral fibular e no hiato poplíteo
Fixação ao fêmurnão tem meniscofemoraisHUMPHRY e/ou WRISBERG ao côndilo femoral medial
Corno posteriorligado à cápsula, LCM profundo, oblíquo posterior e semimembranosoligado ao poplíteo e ao complexo arqueado
Translação2 a 5 mm (HEBERT: 3 mm)9 a 11 mm (HEBERT: 10 mm)
Meniscectomia+100% de estresse+200% a 300% de estresse

Embriologia e teorias: por que o menisco fica discoide

Fundamento

A teoria antiga e por que caiu

A primeira explicação era intuitiva: o menisco começaria como um disco e o centro seria reabsorvido; o discoide seria a falha dessa reabsorção. O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 40, p. 2013), conta que essa ideia foi derrubada pelos estudos embriológicos: o menisco normal não se forma a partir de um precursor discoide. Os meniscos nascem de uma condensação mesenquimal entre o fêmur e a tíbia no fim do segundo mês fetal e são semilunares desde o início.

O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) chega à mesma conclusão em uma frase: o menisco normal nunca é discoide durante o desenvolvimento, e por isso o discoide provavelmente representa uma variante congênita. O HEBERT (cap. 15) explica a fraqueza da teoria da reabsorção pelo mesmo motivo: nunca se observou um estágio discoide em fetos ou embriões, humanos ou animais.

As teorias que restam

O Tachdjian (p. 2013) propõe fibrocartilagem depositada no mesênquima que normalmente desaparece na formação da articulação, e lembra que já houve discoides em lactentes de 4 e 6 meses. O HEBERT (cap. 15) cita a teoria de KAPLAN (deficiência dos ligamentos posteriores, hipermobilidade e microtrauma), que não explica o discoide com ligamentos posteriores normais, e a transmissão familiar (gêmeos univitelinos; 12 pacientes em seis gerações).

O tecido é diferente, não só a forma

Os dois livros pediátricos concordam que o discoide não é um menisco normal com excesso de tamanho. O Tachdjian (p. 2013) descreve número e orientação anormais das fibras colágenas, o que o faz considerar o discoide uma variação estrutural e não apenas morfológica, com histologia variável ligada à propensão e ao padrão de lesão. O Lovell and Winter (p. 1614) diz que o discoide tem menos fibras colágenas e arranjo desorganizado, o que pode responder pela maior taxa de lesão. O Campbell (cap. 50, p. 2000) acrescenta o lado mecânico: pela hipermobilidade e pelo volume de tecido entre as superfícies articulares, o discoide fica vulnerável a forças de compressão e rotação, desenvolvendo degeneração e lesões; e (p. 1998) as anomalias congênitas, sobretudo o discoide lateral, predispõem tanto à degeneração quanto à laceração traumática.

O raciocínio fecha assim: um bloco espesso, com colágeno escasso e mal orientado, ocupando o espaço onde o côndilo carrega peso, sofre cisalhamento entre as superfícies e rasga dentro do bloco, em plano horizontal. É por isso que o padrão típico é a clivagem horizontal, como veremos.

Teorias sobre a origem do discoide nos quatro livros (Tachdjian, cap. 40, p. 2013; Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; HEBERT, cap. 15; Campbell 15, cap. 50, p. 1998 e 2000)
Teoria ou achadoO que dizSituação
Falha da reabsorção centralo menisco começaria em disco e o centro sumiriaabandonada: o menisco normal é semilunar desde o 2º mês fetal
Fibrocartilagem em mesênquima que deveria desaparecertecido extra formado na cavitação da articulaçãoteoria aceita pelo Tachdjian
KAPLAN (hipermobilidade)falta dos ligamentos posteriores, microtrauma e remodelaçãonão explica discoide com ligamentos posteriores
Familiargêmeos univitelinos; seis geraçõesreforça a origem congênita
Histologiamenos colágeno, arranjo desorganizadoexplica a maior taxa de lesão
Mecânicavolume e hipermobilidade expõem a compressão e rotaçãoexplica degeneração e lesão

Epidemiologia e lateralidade

Cobrança confirmada · 1 questão

Quase sempre lateral

Todos os livros concordam no lado. O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) é o mais preciso: 97% no menisco lateral. O Tachdjian (cap. 40, p. 2013) diz que a maioria dos discoides relatados está no compartimento lateral, com casos infrequentes de discoide medial. O Campbell (cap. 56, p. 2344) diz que a maioria é lateral e que o discoide medial aparece em menos de 0,3% das artroscopias; o HEBERT (cap. 15) dá 0,06% a 0,3% para o medial.

A frequência depende da população

Aqui os números divergem bastante, e convém conhecer cada um:

  • Lovell and Winter (p. 1614): 15% na população asiática; prevalência real desconhecida, porque muitos discoides são assintomáticos.
  • Campbell (cap. 50, p. 2010): anomalia incomum, incidência menor que 1%, muito maior (26%) em japoneses e coreanos.
  • Campbell (cap. 56, p. 2344): discoide lateral raro, 0,4% a 5%.
  • HEBERT (cap. 15): discoide lateral 0,4% a 17%, maior nos países asiáticos.

O ponto comum é que o discoide é raro no Ocidente e muito mais frequente no Japão e na Coreia.

Qual tipo é o mais comum

O Campbell (cap. 50, p. 2010) afirma que os tipos completo e incompleto são mais comuns que o WRISBERG. O Tachdjian (p. 2014) concorda pelo outro lado: o tipo WRISBERG é tradicionalmente relatado como o menos comum. Na série de 128 discoides laterais citada pelo Lovell and Winter (p. 1614), 62% eram completos e 38% incompletos. Juntando: lateral e completo é a combinação mais frequente.

Bilateralidade

Este é o número mais disputado, e já apareceu como alternativa errada de prova: menos de 10% no Campbell (cap. 56, p. 2344), até 20% no Lovell and Winter (p. 1614) e "comum" no Tachdjian (p. 2014 e 2015), para quem a hipermobilidade e qualquer apresentação antes da adolescência aumentam a chance de bilateralidade; o outro joelho deve ser rastreado se a criança tem menos de 12 anos e variante completa ou WRISBERG.

Onde o discoide aparece no diagnóstico diferencial

O Tachdjian (cap. 6, Box 6.1, p. 70) coloca o menisco discoide entre as causas de claudicação na criança de 4 a 10 anos, ao lado de sinovite transitória, artrite séptica, LEGG-CALVÉ-PERTHES e discrepância de membros. É a faixa em que o estalido costuma aparecer.

Números de frequência em cada livro (Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Campbell 15, cap. 50, p. 2010, e cap. 56, p. 2344; Tachdjian, cap. 40, p. 2013 a 2015; HEBERT, cap. 15)
DadoLovell and WinterCampbell 15TachdjianHEBERT
Ladolateral 97%maioria lateralmaioria lateralmuito observado no lateral
Lateral na populaçãoprevalência desconhecidamenos de 1% (cap. 50); 0,4% a 5% (cap. 56)não dá número0,4% a 17%
Asiáticos15%26% em japoneses e coreanosnão dá númeromaior na Ásia
Medial3% dos discoidesmenos de 0,3% das artroscopiasinfrequente0,06% a 0,3%
Bilateralcontralateral em até 20%menos de 10%comum; mais se antes da adolescêncianão dá número
Tipo mais comum62% completos na série de 128completo e incompletoWRISBERG é o menos comumnão dá número

Classificação de WATANABE e as outras

Cobrança confirmada · 3 questões

WATANABE: três tipos pela cobertura e pela fixação

A classificação de WATANABE é a mais usada (Campbell, cap. 56, p. 2344, chama de "o método mais comum") e é artroscópica (HEBERT, cap. 15, data de 1969). Ela usa dois critérios, segundo o Campbell (cap. 50, p. 2010): o grau de cobertura do platô tibial lateral e a presença ou ausência da inserção meniscotibial posterior normal.

  • Tipo I, completo (Lovell and Winter, p. 1614: completo e estável): bloco uniformemente espesso, 8 a 10 mm, cobre todo o platô lateral. O Tachdjian (p. 2014) descreve um menisco lateral espessado, com inserções periféricas e pouco móvel; com inserções estáveis, costuma ser assintomático.
  • Tipo II, incompleto (estável): igualmente espesso e em bloco, mas cobre menos de 80% do platô (Lovell and Winter, p. 1614). O Tachdjian (p. 2014) diz que ele só difere do completo por ter graus variáveis de concavidade na margem central, sem cobrir todo o platô.
  • Tipo III, WRISBERG (instável): aparência variada; não tem inserções periféricas posteriores, a não ser o ligamento de WRISBERG (Lovell and Winter, p. 1614). O Tachdjian (p. 2013) o define como o menisco lateral sem inserção no platô tibial posteriormente, preso apenas pelo meniscofemoral que vai do corno posterior à face lateral do côndilo femoral medial.

Um detalhe de ordem: o Tachdjian descreve os tipos na sequência WRISBERG, completo e incompleto, sem numerá-los; o Lovell and Winter e o HEBERT numeram I completo, II incompleto, III WRISBERG, e é essa numeração que as provas usam.

O que o tipo WRISBERG tem e o que ele não tem

É aqui que mais se erra. O tipo WRISBERG tem o ligamento de WRISBERG; o que falta é a fixação meniscotibial posterior, isto é, o ligamento coronário do corno posterior. O Campbell (cap. 50, p. 2010) é explícito: quando o tipo WRISBERG não tem forma de disco, ele foi descrito como "variante do menisco lateral com ausência do ligamento coronário posterior", para distingui-lo do discoide verdadeiro. Ele pode ter tamanho e forma quase normais. O Campbell (cap. 56, p. 2344) fala em inserção tibial posterior ausente ou anormal.

O HEBERT (cap. 15) descreve o tipo III como "associado à ausência do ligamento meniscofemoral posterior de WRISBERG". Essa redação contradiz os outros três livros, que dizem que o WRISBERG é justamente o que resta prendendo o menisco. Na prova, siga a maioria: o tipo WRISBERG não tem o coronário posterior e está preso pelo WRISBERG.

Os tipos completo e incompleto: estáveis e silenciosos até rasgarem

O Campbell (cap. 50, p. 2010) diz que completo e incompleto têm forma de disco, inserção posterior presente, costumam ser assintomáticos e não têm movimento anormal na flexão e extensão. Quando rasgam, dão o quadro de qualquer lesão meniscal: dor na interlinha lateral, clique e derrame. O Tachdjian (p. 2014) acrescenta que uma porcentagem desconhecida de discoides completos ou incompletos com ligamentos coronários normais pode ficar assintomática indefinidamente.

Outras classificações

O HEBERT (cap. 15) traz as alternativas que a prova pode pedir pelo nome: SMILLIE (a primeira), WATANABE (1969), MONLLAU, que acrescenta um quarto tipo em forma de anel com os meniscofemorais presentes, e JORDAN (1996), baseada em estabilidade, sintomas e lesão (tabela abaixo).

O Lovell and Winter (p. 1614) faz a crítica moderna: os discoides representam mais um espectro de anormalidades de tamanho, forma e estabilidade do rebordo periférico do que três caixas fechadas.

WATANABE nos quatro livros (Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Tachdjian, cap. 40, p. 2013 e 2014; Campbell 15, cap. 50, p. 2010, e cap. 56, p. 2344; HEBERT, cap. 15)
TipoCoberturaFixação posteriorMobilidade e sintomasObservação
I completotodo o platôcoronário presenteestável, pouco móvel; silencioso até rasgar8 a 10 mm de espessura; o mais comum
II incompletomenos de 80%coronário presenteestável; silencioso até rasgarconcavidade central variável
III WRISBERGvariável, pode ser quase normalsem inserção tibial posterior; só o WRISBERGhipermóvel; estala sem trauma, criança pequenao menos comum; HEBERT diz "ausência do WRISBERG", em desacordo com os demais
Outras classificações (HEBERT, cap. 15; Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614)
AutorCritérioTipos
SMILLIEformaprimitivo (todo o menisco), intermediário (menor, incompleto), infantil (segmento medial mais espesso)
WATANABE (1969)artroscopia: cobertura e fixaçãoI completo, II incompleto, III WRISBERG
MONLLAUacrescenta formaIV em anel, com meniscofemorais presentes
JORDAN (1996)estabilidade, sintomas e lesãosem tipos numerados no texto
Lovell and Wintercríticaespectro de tamanho, forma e estabilidade do rebordo

O tipo WRISBERG e a instabilidade do rebordo

Cobrança confirmada · 2 questões

O mecanismo do estalido

O Tachdjian (cap. 40, p. 2013 e 2014) explica o mecanismo com precisão. O ligamento meniscofemoral de WRISBERG, que o livro lembra ser normalmente encontrado em quadrúpedes, amarra o corno posterior. Sem a inserção tibial posterior, o menisco não consegue deslizar para a frente quando o joelho estende; em vez disso, o WRISBERG puxa o menisco para o intercôndilo na extensão, e ele volta à posição normal na flexão. Cada excursão produz um estalido, e esse vaivém repetido torna o menisco hipertrófico e irregular.

O Campbell (cap. 50, Fig. 50.35, p. 2011 aprox.) mostra a mesma coisa: em flexão, o menisco WRISBERG está no lugar, sem subluxação; em extensão, é deslocado para o intercôndilo pelo WRISBERG. O Lovell and Winter (p. 1614) descreve o estalido indolor da flexão para a extensão, quando o menisco instável reduz de volta à sua posição normal. A diferença de redação é de ponto de vista (qual metade do movimento faz o salto), mas os três concordam que o estalido nasce do corno posterior solto que entra e sai do lugar.

Quem tem e quando

O Campbell (cap. 50, p. 2010) resume o perfil: o WRISBERG ocorre em idade mais jovem que os outros tipos, sem relação com trauma, e o movimento anormal produz estalido na flexoextensão, a "síndrome do joelho em ressalto" (snapping knee syndrome). O Tachdjian (p. 2014) diz que o WRISBERG com instabilidade do rebordo periférico tende a dar sintomas em idade jovem, ao contrário do completo estável. O Tachdjian ainda descreve o WRISBERG como globoso e hipermóvel.

A instabilidade não é exclusiva do WRISBERG

A visão moderna, presente no Lovell and Winter e no Tachdjian, é que qualquer discoide pode ter rebordo periférico instável, e que isso deve ser testado na artroscopia:

  • Série de 128 discoides laterais (KLINGELE, citada pelos dois): instabilidade do rebordo em 28%. O Lovell and Winter (p. 1614) localiza: corno anterior 47%, terço posterior 39%, terço médio 11%, associada a idade jovem (média de 8,2 anos) e a discoide completo. O Tachdjian (p. 2015) acrescenta que a instabilidade apareceu nos subtipos completo e incompleto e foi reparável em 31 de 36 casos.
  • O Campbell (cap. 50, p. 2010) também registra que padrões de instabilidade nos segmentos anterior e médio foram reconhecidos recentemente.
  • Em outra série de 27 crianças (média de 10,1 anos) operadas por saucerização, 77% tinham instabilidade periférica que exigiu reparo (Lovell and Winter, p. 1615).

A consequência prática: o rótulo "WRISBERG" de WATANABE é insuficiente para decidir o tratamento. O cirurgião precisa testar o rebordo com o probe depois de saucerizar e suturar o que estiver solto, qualquer que seja o tipo.

O tratamento do WRISBERG: onde os livros discordam

Esse é o ponto de maior divergência do tema, e já caiu em prova. O Campbell (cap. 50, p. 2011 aprox.) diz que, no WRISBERG, sem inserção tibial posterior adequada, o tratamento geralmente é a meniscectomia total, aberta ou artroscópica, porque a subtotal isolada deixa um rebordo instável que certamente dará problemas; acrescenta que crianças com discoide parecem menos propensas à degeneração após a total. O HEBERT (cap. 15) diz que nos instáveis (tipo 3) a total é indicada com frequência, e que alguns reconstroem o ligamento meniscofemoral posterior para fugir da artrose (48% a 89%) da ressecção total. Já o Campbell no capítulo de artroscopia (cap. 56, p. 2344) faz o reparo do tipo WRISBERG quando há tecido saudável, e o Lovell and Winter (p. 1614) e o Tachdjian (p. 2015) saucerizam e suturam as áreas instáveis.

Ou seja, a escola antiga (Campbell cap. 50, HEBERT) manda tirar o WRISBERG inteiro; a atual (Campbell cap. 56, Lovell and Winter, Tachdjian) prefere saucerizar e fixar. A prova que pergunta "a meniscectomia total está indicada no tipo WRISBERG" está repetindo a escola antiga, que continua escrita no Campbell.

Tratamento do tipo WRISBERG em cada livro (Campbell 15, cap. 50, p. 2011 aprox., e cap. 56, p. 2344; HEBERT, cap. 15; Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Tachdjian, cap. 40, p. 2015)
LivroCondutaArgumento
Campbell, cap. 50meniscectomia total, aberta ou artroscópicasubtotal deixa rebordo instável; criança com discoide tolera melhor a total
HEBERTtotal com frequência; alguns reconstroem o meniscofemoral posteriora total traz 48% a 89% de artrose
Campbell, cap. 56reparo se houver tecido saudávelpreservar, contornar, equilibrar e reparar
Lovell and Wintersaucerização e sutura à cápsula das áreas instáveisrebordo instável é comum (28%)
Tachdjianmeniscectomia parcial central e estabilização do rebordoinstabilidade reparável em 31 de 36

Quadro clínico: o estalido e a extensão que falta

Cobrança confirmada · 2 questões

A clínica muda com a idade e com o tipo, e as provas exploram exatamente essa diferença.

A criança pequena: estalido indolor

O Tachdjian (cap. 40, p. 2014) descreve a forma clássica: um estalo ou ressalto do joelho ouvido e sentido pela criança ou pelos pais. Pode ser notado na primeira infância e ocasionalmente no lactente, mas na maioria das vezes depois dos 4 anos. Em geral não dói, e a criança é normalmente ativa. O exame pode ser diagnóstico: ressalto palpável na flexoextensão e, na interlinha lateral, um abaulamento do menisco que parece passar da borda da tíbia; com o movimento, o menisco salta para o intercôndilo e o abaulamento some.

O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) chama esse quadro de síndrome do joelho em ressalto e o atribui às variantes instáveis, que se apresentam cedo: estalido indolor da flexão para a extensão, abaulamento na interlinha lateral com a flexão, e um clunk ao McMURRAY. É o retrato do tipo WRISBERG.

A criança em idade escolar: contratura em flexão

A segunda forma do Tachdjian (p. 2014) é a contratura em flexão, de início incerto, com sintomas vagos na atividade, típica da idade escolar. Em alguns casos o joelho trava e não estende por completo. Isso indica um discoide roto ou instável na periferia, quase sempre com translação anterior do menisco aumentado, que funciona como bloqueio mecânico à extensão. Depois da cirurgia, esses pacientes podem precisar de fisioterapia para recuperar a extensão (p. 2016).

O adolescente: quadro de lesão meniscal

No adolescente, o primeiro sintoma pode ser dor, estalido, ressalto ou travamento, com ou sem história de trauma, como em qualquer lesão meniscal, com dor focal na interlinha lateral e derrame (Tachdjian, p. 2014). O Lovell and Winter (p. 1614) explica por quê: os discoides estáveis são assintomáticos mas propensos a rasgar, e chegam no adolescente mais velho com sinais de lesão (dor na interlinha, derrame, McMURRAY positivo). O Campbell (cap. 50, p. 2010) diz o mesmo dos completos e incompletos rotos: dor na interlinha lateral, clique e derrame. O discoide medial dá sintomas de lesão do menisco medial e é mais associado a trauma.

Ressalto só depois de rasgar?

Aqui está a nuance que confunde. O HEBERT (cap. 15) diz que o discoide estável é achado acidental, que a sintomatologia, quando presente, se deve a lesões horizontais em clivagem, e enumera dor, edema, dor na interlinha, bloqueio, extensão limitada e o clássico ressalto; mas ressalva que o ressalto se relaciona mais com os tipos instáveis e com os que têm lesão. O Campbell (cap. 50, p. 2010) e o Tachdjian (p. 2014) deixam claro que o WRISBERG estala sem lesão e sem trauma. Portanto, dizer que no discoide lateral "ressalto e dor ocorrem após a ruptura" vale para o completo e o incompleto estáveis, mas não para o tipo instável, que estala intacto.

A história natural do estalido

O Tachdjian (p. 2015) alerta que o estalido pode persistir anos sem dor nem limitação, mas que muitas vezes indica instabilidade que vai progredir. Os riscos da instabilidade persistente são lesões irreparáveis e carga anormal na epífise femoral, contribuindo para osteocondrite dissecante.

Apresentação por idade e por tipo (Tachdjian, cap. 40, p. 2014 e 2015; Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Campbell 15, cap. 50, p. 2010; HEBERT, cap. 15)
QuemQueixaExamePor trás
Lactente e pré-escolar (em geral acima de 4 anos)estalo ouvido e sentido, indolorressalto palpável; abaulamento lateral que someWRISBERG ou rebordo instável
Idade escolarcontratura em flexão, sintomas vagos; travamentofalta de extensão completadiscoide roto ou instável, com translação anterior
Adolescentedor, estalido, travamento, com ou sem traumador na interlinha lateral, derrame, McMURRAYcompleto ou incompleto roto (clivagem horizontal)
Discoide medialsintomas de lesão medialsinais mediaismais associado a trauma
Discoide estável íntegronenhumanenhumachado incidental na RM ou na artroscopia

Imagem: radiografia e RM com a gravata-borboleta

Cobrança confirmada · 1 questão

Radiografia: sinais indiretos

O menisco não aparece na radiografia; o que aparece é a adaptação do osso a um bloco de tecido entre o fêmur e a tíbia (tabela abaixo). O alargamento do espaço lateral está nos quatro livros (Campbell, cap. 50, p. 2010: até 11 mm), e o Tachdjian (cap. 40, p. 2014) ensina que ele é mais fácil de ver com os dois joelhos no mesmo filme. O côndilo femoral lateral quadrado e o platô lateral em taça também são unânimes. A cabeça da fíbula alta está no Tachdjian e no HEBERT; a espinha tibial lateral hipoplásica, no Campbell e no HEBERT; a calcificação meniscal, só no Lovell and Winter (p. 1614). Lovell and Winter e Campbell lembram que a radiografia geralmente é normal.

O raciocínio para não errar a direção dos sinais: o menisco grosso afasta o fêmur da tíbia (espaço alargado), impede o contato que moldaria a espinha tibial lateral (hipoplasia, não hiperplasia) e o côndilo (que fica plano), e a fíbula aparece alta, não baixa.

Sinais radiográficos em cada livro (Tachdjian, cap. 40, p. 2014; Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Campbell 15, cap. 50, p. 2010; HEBERT, cap. 15)
SinalTachdjianLovell and WinterCampbell 15HEBERT
Espaço lateral alargadosim (comparar os dois lados)simsim, até 11 mmsim
Côndilo femoral lateral quadrado ou achatadosimsimsimsim
Platô lateral em taça (côncavo)simsimsimsim
Cabeça da fíbula altasimnão citanão citasim
Espinha tibial lateral hipoplásicanão citanão citasimsim
Calcificação meniscalnão citasimnão citanão cita
Radiografia normal na maiorianão dizsimsimnão diz

RM: gravata-borboleta e medidas

No corte sagital, o menisco normal aparece como dois triângulos (cornos anterior e posterior) separados no centro, e só nos cortes mais periféricos, onde o corpo é visto de perfil, os dois se unem numa imagem em gravata-borboleta. No discoide, como o menisco é um bloco contínuo, a gravata-borboleta persiste em cortes demais.

  • O Lovell and Winter (p. 1614) dá o critério: sinal da gravata-borboleta em três ou mais cortes sagitais de 5 mm com continuidade entre os cornos anterior e posterior; no coronal, diâmetro meniscal acima de 15 mm ou mais de 20% da largura tibial total.
  • O Campbell (cap. 3, p. 161 e 162) diz que a configuração em gravata-borboleta do lateral em mais de três imagens sagitais adjacentes indica discoide, e que o corte coronal anormal costuma ser bem aparente (a figura do livro é de um menino de 3 anos, com o discoide se estendendo para a porção de carga do compartimento).
  • O HEBERT (cap. 15) cita os critérios de SAMOTO: no coronal, a razão entre a menor largura do menisco e a maior largura do platô acima de 20%; no sagital de maior diâmetro, a razão entre a soma das larguras dos cornos e o diâmetro do menisco acima de 75%. Sensibilidade de 95% e especificidade de 97%, mesmo com lesão.

O que a RM mostra além da forma

O Tachdjian (p. 2014 e 2015) considera a RM diagnóstica do discoide e da maioria das lesões, útil no planejamento: segmento deslocado anteriormente ou WRISBERG inserido mais alto predizem desinserção do rebordo posterior; corno posterior alto sugere completo roto; alça de balde com rebordo diminuto ou corno posterior duplicado no adolescente sugerem discoide roto deslocado; e achado isolado no menisco lateral do adolescente deve levantar a suspeita. O Lovell and Winter (p. 1614) acrescenta o sinal do WRISBERG: corno posterior subluxado para a frente com T2 alto entre ele e a cápsula.

Os limites da RM

Aqui os livros pediátricos discordam no tom. O Tachdjian (p. 2014) diz que vários estudos mostraram a RM diagnóstica, mas que lesão e instabilidade nem sempre aparecem, e que a inspeção artroscópica minuciosa é essencial. O Lovell and Winter (p. 1614) é mais duro: na criança, a RM tem sensibilidade de apenas 38,9% para o discoide lateral, contra 88,9% do exame físico; muitos discoides são incompletos e parecem normais. O HEBERT valoriza a RM porque a própria forma do discoide dificulta a artroscopia. E o Lovell and Winter (p. 1613) lembra que o menisco infantil, muito vascularizado, pode ter sinal intrameniscal que se confunde com lesão.

Na artroscopia, o Campbell (cap. 56, p. 2344) dá a pista: se a borda livre interna do menisco lateral não aparece no exame sistemático, suspeite de discoide; o platô pode parecer sem menisco, e a borda deve ser procurada mais ao centro, perto da eminência intercondilar.

Critérios de RM (Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Campbell 15, cap. 3, p. 161 e 162; HEBERT, cap. 15; Tachdjian, cap. 40, p. 2014 e 2015)
CritérioCorteValorFonte
Gravata-borboletasagital3 ou mais cortes de 5 mm (Campbell: mais de três adjacentes)Lovell and Winter; Campbell
Diâmetro do meniscocoronalacima de 15 mm ou acima de 20% da largura tibialLovell and Winter
SAMOTO, razão de larguracoronalmenisco/platô acima de 20%HEBERT
SAMOTO, razão dos cornossagitalsoma dos cornos/diâmetro acima de 75%HEBERT
Variante WRISBERGsagitalcorno posterior subluxado para a frente, T2 alto entre corno e cápsulaLovell and Winter
Rebordo posterior soltosagitalsegmento deslocado anteriormente; WRISBERG inserido mais altoTachdjian
Discoide roto deslocadosagitalalça de balde com rebordo diminuto; corno posterior duplicadoTachdjian
Sensibilidade na criançageralRM 38,9% contra exame físico 88,9%Lovell and Winter

Tratamento: quando não operar

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Achado incidental: deixar como está

Os quatro livros concordam: o discoide assintomático não se opera. O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) diz que discoides assintomáticos são deixados em paz e que, quando notados incidentalmente na artroscopia, a maioria dos autores recomenda não tratar, porque o joelho pode ter se adaptado à anatomia discoide. O Campbell (cap. 56, p. 2344) dá a regra prática: se o discoide é achado durante a artroscopia de um joelho cujos sintomas vêm de outra lesão, corrige-se a lesão responsável e o discoide fica intacto, a menos que esteja roto ou degenerado, com cuidado de examinar as faces superior e inferior para não deixar passar uma lesão.

O Campbell (cap. 50, p. 2011 aprox.) é um pouco mais nuançado: o completo ou incompleto intacto achado na artroscopia ou artrotomia não necessariamente requer tratamento; não se sabe quantos desenvolverão lesão ou degeneração; a conduta deve ser individual e, a não ser que o discoide estável já tenha causado sulco, condromalácia ou outra patologia no compartimento, o tratamento provavelmente deve ser adiado.

O estalido indolor: observar

O Tachdjian (cap. 40, p. 2015) diz que muitas crianças com achado incidental de discoide não precisam de tratamento; as menores podem ser acompanhadas e operadas se surgir dor, perda de movimento ou de função. O HEBERT (cap. 15) diz que o ressalto assintomático (sem dor, sem derrame, sem bloqueio) pode ser acompanhado clinicamente, e a cirurgia só é indicada quando os sintomas começam.

Quando operar

O Tachdjian (p. 2015) lista as indicações: desconforto, edema, perda de movimento, travamento, incapacidade de correr ou de praticar esporte. O tratamento depende, segundo o HEBERT, dos sintomas, da sua duração e da idade.

Indicação de cirurgia (Tachdjian, cap. 40, p. 2015; Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Campbell 15, cap. 50, p. 2011 aprox., e cap. 56, p. 2344; HEBERT, cap. 15)
SituaçãoCondutaFonte
Discoide assintomático na RMobservartodos
Achado incidental na artroscopia, intactodeixar intacto (joelho adaptado)Lovell and Winter; Campbell cap. 56
Incidental com sulco ou condromalácia no compartimentoconsiderar tratarCampbell cap. 50
Estalido indolor sem derrame nem bloqueioacompanharHEBERT; Tachdjian
Dor, edema, perda de movimento, travamento, não corre, não pratica esportecirurgiaTachdjian
Discoide roto ou degeneradocirurgiaCampbell cap. 56

Saucerização e reparo: a cirurgia do discoide sintomático

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O que é saucerizar

Saucerizar é transformar o disco num pires: remove-se a porção central do discoide e deixa-se um rebordo periférico com a largura aproximada de um menisco lateral normal. O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) define o objetivo: criar um menisco estável e funcional, que absorva choque sem relesão. O Tachdjian (cap. 40, p. 2015) chama de meniscectomia parcial central com preservação da estrutura periférica. O Campbell (cap. 56, p. 2344) diz que o objetivo é remover a porção central deixando um rebordo equilibrado, e chama a meniscectomia parcial central de saucerização. No Campbell (cap. 50, p. 2011 aprox.), os rotos com dor, estalido e segmento medial hipermóvel mas inserções periféricas íntegras são tratados por meniscectomia subtotal ou saucerização do fragmento móvel, artroscópica ou aberta.

Todos preferem preservar. O Lovell and Winter (p. 1614) diz que o discoide sintomático é melhor tratado com preservação do tecido, pela saucerização artroscópica, e não pela meniscectomia total.

Quanto deixar

O número que mais cai é o rebordo periférico: 6 a 8 mm no Lovell and Winter (p. 1614), que avisa que remanescentes maiores se associam a mais relesão, e no Campbell (caps. 50 e 56; na técnica, cerca de 8 mm); 5 a 7 mm no Tachdjian (p. 2015); 5 a 8 mm no HEBERT.

O Lovell and Winter (p. 1614) dá dois guias intraoperatórios para a quantidade de ressecção: a indentação no côndilo femoral lateral e o tamanho do menisco medial. O Campbell (cap. 56, p. 2344) observa que, depois de equilibrado, a borda interna fica muito mais espessa que após uma meniscectomia parcial comum (o discoide é mais alto que o menisco normal).

A técnica passo a passo

O Campbell (cap. 56, Técnica 56.4, p. 2344) descreve: na criança, ótica de 2,7 mm e instrumentos pequenos; joelho em posição de 4; basket começando pelo centro; depois do volume, tesoura com corte radial posterior até os 8 mm externos e faca curva em semicírculo para a frente, preservando 6 a 8 mm; ao fim, borda mais espessa que o habitual, lavagem e aspiração.

O Tachdjian (p. 2015) usa ótica de 30 graus, a maior parte do trabalho em posição de 4, e avisa que o volume de tecido e a subluxação do menisco por instabilidade periférica dificultam a visão do centro do compartimento; instrumentos-padrão e de pequenas articulações ajudam nas crianças menores. Os princípios são desbridamento central gradual com instrumentos manuais e motorizados, preservação de 5 a 7 mm e estabilização do rebordo, com reposicionamento frequente do joelho para avaliar volume e excursão do tecido. O Tachdjian também aceita a miniartrotomia como opção viável. O Lovell and Winter (p. 1614) usa baskets de baixo perfil, shavers e faca meniscal, e manda excisar as lesões em clivagem que estejam dentro da zona de saucerização.

Depois de saucerizar: testar e reparar

Este é o passo que diferencia o tratamento atual. O Lovell and Winter (p. 1614) manda avaliar a estabilidade do rebordo com o probe e suturar à cápsula, pela técnica padrão, as áreas instáveis. O Tachdjian (p. 2015 e 2016) faz a estabilização periférica com desbridamento superficial e preparo do tecido com raspa ou shaver, seguido de suturas verticais por técnica inside-out e all-inside; o terço anterior é estabilizado por outside-in. Lesões do corpo dentro da zona a preservar são reparadas pelas mesmas técnicas. O HEBERT (cap. 15) diz que, quando a lesão está na área periférica vascularizada, sutura e reparo são os tratamentos de escolha. O Campbell (cap. 50, p. 2011 aprox.) explica por que isso funciona na criança: a maior vascularização do menisco imaturo permite mudanças adaptativas no rebordo restante com o crescimento, e pode surgir um rebordo estável, saudável e útil.

Pós-operatório

O Tachdjian (p. 2016) separa dois regimes:

  • Meniscectomia parcial ou total sem reparo: carga livre e liberação para atividades em 6 semanas.
  • Após reparo: órtese e carga limitada por 4 a 6 semanas, com exercícios precoces de amplitude e reabilitação muscular; sem esporte por 3 a 4 meses.
  • Quem tinha posição em flexão antes da cirurgia pode precisar de fisioterapia para recuperar a extensão completa.
Números da saucerização (Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614; Tachdjian, cap. 40, p. 2015 e 2016; Campbell 15, cap. 50, p. 2011 aprox., e cap. 56, p. 2344; HEBERT, cap. 15)
ItemLovell and WinterTachdjianCampbell 15HEBERT
Rebordo preservado6 a 8 mm5 a 7 mm6 a 8 mm (técnica: cerca de 8 mm)5 a 8 mm
Guia da ressecçãoindentação do côndilo lateral; tamanho do medialvolume e excursão a cada reposicionamentolargura do lateral normal; local da lesãonão cita
Ótica e posiçãonão cita30 graus; posição de 42,7 mm na criança; posição de 4não cita
Rebordo instávelsutura à cápsulainside-out, all-inside; outside-in no terço anteriorreparo do WRISBERG com tecido saudável (cap. 56)sutura na periferia vascularizada
Lesão em clivagemexcisar na zona saucerizadareparar o corpo na zona preservadaressecar até rebordo estávelnão cita
Pós-operatórionão citasem reparo: carga livre, 6 semanas; com reparo: órtese 4 a 6 semanas, esporte 3 a 4 mesesigual à meniscectomia parcialnão cita

Resultados: por que preservar

Possível cobrança

Meniscectomia total: a minoria ainda defende

O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) reconhece que uma minoria ainda prefere a meniscectomia total, por achar que o tecido discoide residual é anormal e não funcionará. Mas vários estudos mostram altas taxas de artrose depois da total: numa série, 10 de 17 crianças tinham alterações clínicas e radiográficas de artrose do compartimento lateral com 19,8 anos de seguimento; em outra análise de 125 discoides submetidos a meniscectomia parcial ou total, o grupo parcial foi melhor aos 5 anos e o prognóstico a longo prazo se relacionou ao volume de menisco removido.

O Campbell (cap. 50, p. 2011 aprox.) traz os números de 10 anos que melhor mostram a curva dose-resposta: alterações degenerativas em 23% das crianças (média de 9,9 anos) tratadas só com saucerização, 39% com meniscectomia parcial e reparo, e 88% com meniscectomia subtotal. A idade é fator prognóstico importante: os desfechos pioram com a idade. O HEBERT (cap. 15) dá 48% a 89% de artrose após a ressecção total. Há, ainda, a ressalva do Campbell de que crianças com discoide parecem menos propensas à degeneração após a total do que as com menisco lateral normal.

Saucerização: bons resultados de curto prazo

O Lovell and Winter (p. 1614 e 1615) mostra resultados bons a excelentes, sem degeneração, aos 4,5 anos, e excelentes aos 3,1 anos numa série em que 77% precisaram de reparo periférico, mas avisa que faltam estudos de longo prazo. O Tachdjian (cap. 40, p. 2016) dá cerca de 85% de bons a excelentes; no curto prazo, parcial e subtotal se equivalem, mas com o tempo a perda de volume piora os resultados, e depois de 5 anos a preservação reduz a degeneração; estabilizar o rebordo não piora o resultado precoce. O Campbell (cap. 56, p. 2344) dá 55% a 94% de bons e excelentes, com sintomas laterais residuais em parte dos pacientes.

Fatores de mau resultado

Os dois livros listam fatores diferentes, e vale conhecer os dois:

  • Tachdjian (p. 2016): deterioração radiográfica mais precoce e mais grave com sintomas há mais de 6 meses, valgo prévio, lesão horizontal, espessura aumentada e forma assimétrica na RM, lesão da cartilagem no momento do tratamento e meniscectomia total.
  • Campbell (cap. 56, p. 2344): degeneração prévia, sexo feminino e idade acima de 20 anos.

Depois da meniscectomia total

O Lovell and Winter (p. 1615) cita o aloenxerto meniscal como opção para pacientes sintomáticos que já fizeram meniscectomia total por discoide: em 14 pacientes, com seguimento médio de 4,8 anos, o escore de LYSHOLM subiu de 71,4 para 91,4, e em seis artroscopias de revisão houve só uma relesão.

Resultados nos livros (Lovell and Winter, cap. 31, p. 1614 e 1615; Tachdjian, cap. 40, p. 2016; Campbell 15, cap. 50, p. 2011 aprox., e cap. 56, p. 2344; HEBERT, cap. 15)
TratamentoResultadoFonte
Meniscectomia total10 de 17 com artrose lateral em 19,8 anosLovell and Winter
Totalartrose em 48% a 89%HEBERT
Subtotaldegeneração em 88% aos 10 anosCampbell cap. 50
Parcial com reparodegeneração em 39% aos 10 anosCampbell cap. 50
Só saucerizaçãodegeneração em 23% aos 10 anosCampbell cap. 50
Saucerizaçãobons e excelentes 55% a 94%Campbell cap. 56
Parcial artroscópicabons e excelentes em cerca de 85%Tachdjian
Parcial contra total (125 joelhos)parcial melhor aos 5 anos; prognóstico segue o volume removidoLovell and Winter
Aloenxerto após totalLYSHOLM 71,4 para 91,4 em 4,8 anosLovell and Winter

Lesões do discoide

Fundamento

O discoide rasga de um jeito próprio. O Lovell and Winter (cap. 31, p. 1614) diz que as lesões em clivagem horizontal são as mais comuns (58% a 98%), provavelmente por microtrauma repetitivo que delamina o bloco espesso, e que a patologia mostra degeneração mucoide fibrinosa. O HEBERT (cap. 15) atribui os sintomas, quando existem, às lesões horizontais em clivagem, e lembra que lesões intrínsecas horizontais podem causar dor, edema, derrame e degeneração articular precoce, sendo às vezes visíveis na RM e não na artroscopia. O Tachdjian (cap. 40, p. 2016) coloca a lesão horizontal entre os fatores de pior prognóstico.

O mecanismo junta o que já vimos: tecido espesso, colágeno escasso e desorganizado (Lovell and Winter, p. 1614), volume entre as superfícies e hipermobilidade (Campbell, cap. 50, p. 2000). Em vez da lesão longitudinal periférica típica do menisco normal da criança, o discoide se parte em lâminas, como um bloco cisalhado entre o côndilo e o platô.

Para a lesão do menisco normal na criança e no adulto, veja o resumo campbell15-meniscos.

Osteocondrite dissecante associada

Cobrança confirmada · 1 questão

Qual côndilo

A osteocondrite dissecante (OCD) comum fica, na maioria das vezes, na face lateral do côndilo femoral medial (Tachdjian, cap. 40, p. 2016). A associada ao discoide é diferente: fica no côndilo femoral lateral, embaixo do menisco anormal.

  • O HEBERT (cap. 15) lista a osteocondrite dissecante do côndilo femoral lateral entre as alterações anatômicas associadas ao discoide, ao lado da cabeça alta da fíbula, da hipoplasia do côndilo femoral lateral e da hipoplasia da espinha tibial lateral.
  • O Tachdjian (p. 2015) explica o mecanismo: a instabilidade persistente traz carga anormal na epífise femoral, que pode contribuir para a OCD; meninos com menos de 12 anos e deslocamento central do menisco teriam maior risco de OCD concomitante no fêmur lateral.

O raciocínio é mecânico: o bloco meniscal instável que entra e sai do lugar, ou que se desloca para o centro, concentra carga numa área pequena do côndilo lateral ainda imaturo. Daí o pedido de prova: discoide (sobretudo o instável, como o WRISBERG) com OCD do côndilo femoral lateral, não do medial nem do platô.

Para a OCD em si (estadiamento, tratamento e prognóstico), veja o resumo tachdjian6-osteocondrite-dissecante.

OCD comum e OCD do discoide (Tachdjian, cap. 40, p. 2015 e 2016; HEBERT, cap. 15)
AspectoOCD comumOCD associada ao discoide
Localface lateral do côndilo femoral medialcôndilo femoral lateral
Mecanismo propostoestresses subcondrais maiores no côndilo medialcarga anormal pelo menisco instável na epífise femoral
Quem tem mais risconão se aplicameninos com menos de 12 anos e deslocamento central do menisco
FonteTachdjianTachdjian; HEBERT

Os livros lado a lado

Fundamento

O tema é curto em todos os livros, mas cada um puxa para um lado, e a prova pega exatamente nas costuras.

Os acordos já apareceram ao longo do resumo; o mapa reúne só as divergências, que são o que a prova costuma explorar.

Mapa de divergências (Lovell and Winter, cap. 31; Tachdjian, cap. 40; Campbell 15, caps. 3, 50 e 56; HEBERT, cap. 15)
TemaLovell and WinterTachdjianCampbell 15HEBERT
YOUNG1887não citanão cita1889
Tipo IIIsem inserção posterior, exceto o WRISBERGsem inserção tibial posterior, preso pelo WRISBERGsem coronário posterior"ausência do WRISBERG"
Bilateralaté 20%comummenos de 10%não cita
WRISBERG, tratamentosaucerizar e suturarestabilizar o rebordototal (cap. 50); reparo (cap. 56)total; ou reconstruir o meniscofemoral
Rebordo6 a 8 mm5 a 7 mm6 a 8 mm5 a 8 mm
RMsensibilidade 38,9%diagnóstica, mas falha na instabilidadegravata-borboleta em mais de 3 cortesSAMOTO 95% e 97%
Outras classificaçõesespectronão citanão citaSMILLIE, MONLLAU, JORDAN

Fechamento

Fundamento

O menisco discoide se entende com duas perguntas. Quanto ele cobre? O completo e o incompleto são blocos espessos e estáveis, de colágeno pobre, que ficam calados até rasgarem em clivagem horizontal, geralmente no adolescente, com dor, derrame e falta de extensão. Ele está preso atrás? O WRISBERG não está: sem o coronário posterior, é puxado pelo ligamento de WRISBERG para o intercôndilo e estala desde cedo, sem trauma, sobrecarregando o côndilo femoral lateral. A radiografia mostra o osso que se adaptou ao bloco (espaço lateral largo, côndilo quadrado, platô em taça, espinha tibial lateral pequena, fíbula alta), e a RM mostra a gravata-borboleta que não termina. O tratamento é deixar quieto o que não dói e, no sintomático, tirar o centro e preservar e fixar a periferia, porque cada milímetro de menisco removido do platô lateral convexo cobra seu preço em artrose.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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