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Histiocitose de células de LANGERHANS

Tumores ósseos e de partes molesResumo do capítulo37 min de leitura

Proliferação de células de LANGERHANS (histiócitos dendríticos com núcleo em grão de café, S-100, CD1a e langerina, grânulos de BIRBECK em raquete perto do núcleo) que vai do granuloma eosinofílico solitário (cerca de 80%) ao HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN (lesões múltiplas, exoftalmia e diabetes insípido, tríade completa em só 10%) e ao LETTERER-SIWE (lactente, visceral, o mais grave); criança de 5 a 15 anos, crânio e fêmur à frente, coluna com vértebra plana (causa mais comum, disco preservado), lesão em saca-bocado que na fase inicial imita EWING e osteomielite, peça mole castanho-avermelhada, cintilografia falso-negativa e inventário esquelético, biópsia e depois conduta conservadora (cura espontânea, curetagem, infiltração de corticoide, órtese), quimioterapia na forma multissistêmica.

Atualizado em 03/11/2026 · 37 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 10 · Diseases of the Hematopoietic System (seção Langerhans Cell Histiocytosis), com o Capítulo 13 · Bone and Soft-Tissue Tumors, em Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª edição (2014). Autores do capítulo: Michael T. Busch e Amy L. Dunn.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de tumores ósseos e de partes moles do Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, capítulo 10, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo segue a seção LANGERHANS Cell Histiocytosis do capítulo 10 (Diseases of the Hematopoietic System) do Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª edição (2014), de BUSCH e DUNN (p. 330 a 332), e a completa com a seção do mesmo tema no capítulo 13 (Bone and Soft-Tissue Tumors, p. 453 a 455). Em cada ponto o texto cruza o Lovell com o Dahlin's Bone Tumors, 6ª ed. (cap. 26, p. 358 a 361), o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 25, p. 1038 a 1041), que tem a seção mais detalhada sobre as três formas clássicas, e o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 28, p. 963 a 967). As páginas citadas são as impressas.

A histiocitose de células de LANGERHANS (aqui abreviada HCL) é uma doença estranha para quem estuda tumores: não é claramente uma neoplasia, não é claramente uma inflamação, aparece em quase qualquer osso, pode curar sozinha ou matar um lactente em meses, e na radiografia imita quase tudo. O Lovell chama a HCL de "grande imitador" (cap. 13, p. 454). Por isso a prova gosta dela: as questões vivem de nomes próprios (HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN, LETTERER-SIWE, BIRBECK), de um sinal radiográfico (a vértebra plana), de um local (crânio e fêmur), de uma imitação (o tumor de EWING na fase inicial) e de um detalhe de lâmina (o grânulo no citoplasma).

Duas ideias organizam o capítulo. A primeira: o que une as três formas clássicas é a mesma célula, o histiócito de LANGERHANS, e não o quadro clínico. O Dahlin escreve que é o aspecto microscópico que liga o granuloma eosinofílico, o SCHÜLLER-CHRISTIAN e o LETTERER-SIWE (p. 359). A segunda: a lesão óssea isolada tem tendência natural à cura. O Lovell mostra que a maioria resolve após a biópsia, tratada ou não (cap. 10, p. 332). Quase toda a conduta do ortopedista nasce desse fato: confirmar o diagnóstico, excluir doença sistêmica e fazer o mínimo necessário.

Um espectro, três nomes antigos

Cobrança confirmada · 3 questões

De onde vêm os nomes

A HCL ganhou nomes diferentes porque cada pedaço dela foi descrito por pessoas diferentes, em épocas diferentes, sem que se soubesse que era uma doença só. O Lovell conta a sequência (cap. 10, p. 330): a célula foi descrita por LANGERHANS em 1868; as manifestações esqueléticas só foram detalhadas por FRASER em 1935; em 1940, LICHTENSTEIN e JAFFE cunharam o termo granuloma eosinofílico do osso; um ano depois, FARBER defendeu que o granuloma eosinofílico pertencia ao mesmo espectro do HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN e do LETTERER-SIWE; mais tarde LICHTENSTEIN reuniu as três condições sob o nome histiocitose X. Em 1961, BIRBECK descreveu ao microscópio eletrônico os grânulos oblongos das células de LANGERHANS, e só em 1973 NEZELOF encontrou esses grânulos nas peças de histiocitose X e reconheceu a doença como proliferação de células de LANGERHANS. Hoje, diz o Lovell, o nome preferido para todo o espectro é histiocitose de células de LANGERHANS.

O Tachdjian completa os epônimos (cap. 25, p. 1038): HAND em 1893, SCHÜLLER em 1915 e CHRISTIAN em 1920 descreveram, cada um por conta própria, poliúria, exoftalmia e defeitos em ossos membranosos; LETTERER em 1924 e SIWE em 1933, uma doença generalizada multissistêmica que incluía o osso. O Tachdjian data a histiocitose X em 1953. As formas disseminadas foram descritas antes do granuloma eosinofílico: a doença foi montada de trás para a frente.

As três formas clássicas

O Tachdjian divide a seção em três blocos, e essa divisão é a que a prova usa (cap. 25, p. 1038 a 1041):

1. Granuloma eosinofílico solitário e múltiplo sem envolvimento extraesquelético. É a forma mais branda e mais favorável: uma lesão em um osso só ou, às vezes, em vários ossos, sem nada fora do esqueleto. O livro a chama de processo benigno, em que a cura espontânea é comum. 2. HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN: granuloma eosinofílico multifocal com envolvimento extraesquelético, o tipo disseminado crônico. 3. LETTERER-SIWE: granuloma eosinofílico multifocal, a forma disseminada aguda ou infantil.

O Tachdjian dá a proporção (p. 1038): cerca de 80% são granulomas eosinofílicos solitários, 6% múltiplos, 9% HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN e 1,2% LETTERER-SIWE. O ortopedista quase sempre vê a forma solitária.

O Lovell resume (cap. 13, p. 453): lesão óssea solitária é granuloma eosinofílico; HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN é a tríade de lesões cranianas, diabetes insípido e exoftalmia; LETTERER-SIWE é uma forma maligna, com a maioria antes dos 3 anos, lesões de pele, vísceras e cérebro e alta mortalidade. O Campbell (cap. 28, p. 964) acrescenta que alguns autores hoje usam HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN para qualquer HCL multissistêmica.

As formas da HCL lado a lado (Tachdjian 6ª ed., cap. 25, p. 1038 a 1041; Lovell 7ª ed., cap. 13, p. 453; Campbell 15ª ed., cap. 28, p. 964)
FormaProporção (Tachdjian)IdadeExtensãoCurso
Granuloma eosinofílico solitárioCerca de 80%Maioria entre 5 e 10 anos (Tachdjian); 5 a 20 (Campbell)Um osso, sem lesão fora do esqueletoBenigno, cura espontânea comum
Granuloma eosinofílico múltiplo6%CriançaVários ossos, sem lesão extraesqueléticaAinda favorável
HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN9%Mais de 70% antes dos 5 anos; em geral acima de 3Múltiplas lesões ósseas e outros sistemas (hipófise, órbita)Crônico, morbidade significativa
LETTERER-SIWE1,2%Primeiro ano de vida, todos antes dos 2 (Tachdjian); antes dos 3 (Lovell e Campbell)Visceral difuso e grave, medula, pele, pulmãoAgudo, antes invariavelmente fatal

HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN: a forma das lesões múltiplas com olho e hipófise

O Tachdjian descreve o HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN clássico (p. 1040) como múltiplos granulomas eosinofílicos no osso, diabetes insípido e exoftalmia, e explica de onde vem cada peça da tríade. O diabetes insípido vem do envolvimento da hipófise: o granuloma infiltra a região hipofisária e a criança perde a capacidade de concentrar a urina, daí a poliúria das descrições originais. A exoftalmia vem de granulomas retro-orbitários, que empurram o globo ocular para a frente. Os defeitos cranianos são as próprias lesões ósseas da calota. O Dahlin escreve a tríade como exoftalmia (muitas vezes unilateral), diabetes insípido e defeitos rarefeitos dos ossos do crânio (p. 358).

Essa explicação resolve a pegadinha mais comum: a banca troca exoftalmia por enoftalmia, e diabetes insípido por dermatite seborreica. Um granuloma atrás do olho só pode empurrá-lo para fora; não há mecanismo para o olho afundar. E a lesão que dá o diabetes insípido é hipofisária, não cutânea. A outra troca é única por múltipla: o HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN é, por definição, a forma multifocal com envolvimento extraesquelético; a lesão única é o granuloma eosinofílico solitário.

O Tachdjian faz duas ressalvas: a tríade completa está presente em só 10% dos casos, e o nome hoje abrange a evolução crônica sem a tríade, em crianças acima de 3 anos com outros sistemas envolvidos; e mais de 70% são diagnosticados antes dos 5 anos. Podem aparecer febre, hepatoesplenomegalia, linfonodomegalia, anemia e provas hepáticas alteradas. Ao contrário do granuloma solitário, os ossos das mãos e dos pés também podem ser acometidos, e fraturas patológicas podem ocorrer, sobretudo na coluna. O Dahlin acrescenta que uma tríade parcial tem o mesmo significado quando há outro sinal de disseminação, como anemia, esplenomegalia, fadiga, perda de peso e linfonodomegalia (p. 358).

Na histologia, a fase inicial do HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN é igual à do granuloma solitário; as fases tardias têm mais macrófagos carregados de lipídio e cicatriz (Tachdjian, p. 1040).

LETTERER-SIWE: a forma aguda do lactente

O Tachdjian define o LETTERER-SIWE como a forma aguda, disseminada e progressiva da histiocitose, rara, que ocorre caracteristicamente no primeiro ano de vida; todos os pacientes são identificados antes dos 2 anos (p. 1041). O envolvimento visceral é difuso e grave. A criança pode chegar com febre e infecção debilitante por falência da medula óssea, porque as células da doença ocupam a medula e tiram dela a produção de leucócitos, plaquetas e hemácias. Daí os outros achados: hepatoesplenomegalia, linfonodomegalia, rash papular, diátese hemorrágica e anemia, às vezes exoftalmia e diabetes insípido. O pulmão pode ter aspecto granular na radiografia de tórax. As lesões ósseas em saca-bocado estão lá, identificáveis na radiografia, mas não são a principal queixa.

No passado, o LETTERER-SIWE era considerado invariavelmente progressivo e fatal, com morte por falência medular, asfixia ou septicemia; hoje, o tratamento com quimioterapia, corticoide e antibióticos em dose alta pode levar à sobrevida (Tachdjian, p. 1041). O Lovell chama o LETTERER-SIWE de forma maligna da HCL, com alta incidência de mortalidade (cap. 13, p. 453); o Campbell, de muitas vezes rapidamente fatal (p. 964); o Dahlin, de variedade disseminada e rapidamente fatal (p. 358). Os quatro livros concordam que é a forma sistêmica mais grave.

O Dahlin acrescenta que a forma disseminada pode ocorrer em adultos e que a unidade das três formas foi questionada: HCL e SCHÜLLER-CHRISTIAN parecem o mesmo processo, e o LETTERER-SIWE talvez tenha várias causas, entre elas a HCL (p. 358).

O que é a célula e por que a doença é discutida

"Neoplasia ou reação" fica sem resposta. O Tachdjian expõe as duas teses (p. 1038): estimulação imunológica descontrolada de uma célula apresentadora normal, o que faria da HCL uma lesão proliferativa por defeito de imunorregulação, ou, segundo um estudo de 1994, distúrbio neoplásico clonal de comportamento variável. Não há padrão hereditário. O Lovell explica que a célula de LANGERHANS é apresentadora de antígeno da família das dendríticas, e as células da HCL estão paradas num estágio precoce de maturação (cap. 10, p. 332). Como a lesão óssea isolada se comporta como algo que tende a se apagar, o tratamento é mínimo, e o Dahlin põe a HCL no capítulo das condições que simulam neoplasias primárias do osso, e não entre os tumores.

Quem adoece: idade, sexo e frequência

Fundamento

A idade, livro por livro

A idade diverge porque cada livro mede uma população diferente. O Lovell, olhando a HCL inteira, incluindo as formas do lactente, dá mediana de 1 a 3 anos, com diagnóstico possível até mais de 80 anos (cap. 10, p. 330); olhando a lesão óssea, dá mais de 50% entre 5 e 15 anos (cap. 13, p. 454). O Tachdjian: dois terços antes dos 20 anos, a maioria entre 5 e 10 (p. 1039). O Campbell: granuloma entre 5 e 20 anos (p. 964), granuloma da coluna abaixo dos 10 (Tabela 49.2, p. 1954). O Dahlin: crianças e adultos jovens, e LETTERER-SIWE em crianças muito pequenas (p. 358). Na prova, lesão óssea é da criança em idade escolar, forma sistêmica grave é do lactente.

Sexo, incidência e osso

O Lovell registra 2 a 5 casos por milhão por ano, leve predomínio masculino e osso envolvido em 80% a 97% (cap. 10, p. 330); o Tachdjian, 3 a 4 por milhão em crianças e homem:mulher de 2:1 (p. 1038); o Campbell, osso em cerca de 80% (p. 963) e, na coluna, 2 a 5:1 (p. 1954).

Epidemiologia da HCL nos quatro livros (Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 330, e cap. 13, p. 454; Tachdjian 6ª ed., cap. 25, p. 1038 e 1039; Campbell 15ª ed., cap. 28, p. 963 e 964, cap. 26, p. aprox. 868, e Tabela 49.2, p. 1954; Dahlin 6ª ed., p. 358)
DadoLovellTachdjianCampbellDahlin
Incidência2 a 5 por milhão por ano3 a 4 por milhão em criançasNão informaNão informa
IdadeMediana 1 a 3 anos (todas as formas); mais de 50% entre 5 e 15 (osso)Dois terços antes dos 20; maioria de 5 a 105 a 20 (granuloma); 5 a 30 (diáfise); menos de 10 (coluna)Crianças e adultos jovens; LETTERER-SIWE em crianças muito pequenas
SexoLeve predomínio masculinoHomem:mulher 2:12 a 5:1 na colunaNão informa
Osso envolvido80% a 97%Não informaCerca de 80%Qualquer osso, predileção pelo crânio

Onde a lesão aparece: crânio, fêmur, coluna e ossos planos

Cobrança confirmada · 1 questão

O crânio em primeiro lugar

Os livros concordam no primeiro lugar. O Lovell escreve que o crânio é o osso mais afetado, seguido por fêmur, coluna, costelas, mandíbula e pelve; o envolvimento das mãos e dos pés é incomum (cap. 10, p. 330). O Tachdjian é ainda mais específico para o granuloma eosinofílico (p. 1039): o crânio é o local mais comum, seguido pelo fêmur; cerca de 40% dos granulomas eosinofílicos solitários estão em um desses dois locais, e crânio e fêmur também são os mais acometidos nos pacientes com lesões múltiplas. Os outros locais são pelve, costelas e coluna; ossos do tarso e do carpo raramente são afetados. O Dahlin fala de predileção pelo crânio (p. 358) e, na legenda de uma figura, chama o crânio de um dos locais mais comuns da doença (p. 359).

O crânio é provavelmente ainda mais comum do que as séries mostram: muitas lesões nunca são diagnosticadas, porque a única anormalidade é um nódulo pequeno e indolor no couro cabeludo que regride sozinho (Lovell, cap. 13, p. 454).

Quem vem em segundo lugar

Aqui os livros divergem. O Tachdjian e o Lovell no capítulo 10 põem o fêmur em segundo; o Lovell no capítulo 13 põe os corpos vertebrais e o ílio (p. 454); o Campbell lista como mais comuns os corpos vertebrais, os ossos planos e as diáfises dos ossos longos (p. 964). Para a prova, a combinação que fecha com o Tachdjian é crânio e fêmur. Os distratores usam locais raros: tarso e carpo (Tachdjian), mãos e pés (incomuns no Lovell; no Tachdjian, só no HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN, p. 1040).

Locais da HCL em cada livro (Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 330, e cap. 13, p. 454; Tachdjian 6ª ed., cap. 25, p. 1039 e 1040; Campbell 15ª ed., cap. 28, p. 964; Dahlin 6ª ed., p. 358 e 359)
LivroOrdem dos locaisLocais raros ou poupados
Lovell, cap. 10Crânio, fêmur, coluna, costelas, mandíbula, pelveMãos e pés incomuns
Lovell, cap. 13Crânio, depois corpos vertebrais e ílioNão informa
TachdjianCrânio, depois fêmur (40% dos solitários nos dois); pelve, costelas, colunaTarso e carpo raros; mãos e pés só no HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN
CampbellCorpos vertebrais, ossos planos, diáfises de ossos longosNão informa
DahlinQualquer osso, predileção pelo crânioNão informa

Em que parte do osso longo

Nos ossos longos, a lesão é intramedular e mais frequente na diáfise (Tachdjian, p. 1039), ou diafisária ou metafisária, com epífise incomum (Lovell, cap. 10, p. 330). Mesmo assim, a HCL está na lista de lesões epifisárias do Lovell, com condroblastoma, tumor de células gigantes e abscesso de BRODIE (Tabela 13-2, p. 432), e entre as exceções da epífise do Tachdjian (Box 24.1, p. 1000): diáfise é o típico, epífise é rara mas possível.

Os quadros de localização também põem a HCL na diáfise (com EWING, osteomielite, linfoma, displasia fibrosa e adamantinoma), no corpo vertebral da criança (com hemangioma) e entre as lesões múltiplas da criança (Tachdjian, Box 24.1, p. 1000; Lovell, Tabela 13-2, p. 432; Campbell, Box 26.3, p. 870).

O quadro clínico e a investigação inicial

Relevância clínica

A queixa depende do osso

O Lovell resume a apresentação mais comum na criança: uma lesão óssea solitária, sem massa de partes moles (cap. 10, p. 330). Os sintomas mais comuns da HCL óssea são dor, aumento de volume ou claudicação, e a dor costuma ter menos de 2 meses de duração. No capítulo de tumores, o Lovell diz que a dor óssea local é o sintoma inicial em 50% a 90% dos pacientes com lesão óssea (cap. 13, p. 454).

A queixa muda conforme o osso, e cada uma tem um mecanismo simples (Lovell, cap. 13, p. 454; Dahlin, p. 358):

  • Crânio: nódulo palpável, às vezes cefaleia.
  • Mastoide e osso temporal: diminuição da audição, otite média, secreção pelo ouvido.
  • Mandíbula: dentes moles que podem cair. O Dahlin explica que as lesões se concentram ao longo do processo alveolar, e os dentes parecem não ter suporte ósseo, o que é verdade (p. 359).
  • Coluna: dor cervical ou lombar surda e contínua; o colapso vertebral pode dar dor e espasmo; torcicolo na coluna cervical; cifose na torácica.
  • Osso longo: dor de atividade que lembra fratura de fadiga, ou a própria fratura patológica, porque a lesão enfraquece o osso.

O Tachdjian acrescenta febre baixa e VHS elevada (p. 1039); o Campbell diz que o quadro pode lembrar osteomielite, com dor em repouso, sobretudo à noite, febre e sinais inflamatórios (p. 964), e põe a histiocitose entre as doenças de VHS alta, com infecção e os tumores de células azuis como EWING e linfoma (cap. 26, p. 871). A clínica, portanto, não separa HCL, osteomielite e EWING.

Procurar doença fora do osso

O Lovell lista os sinais de doença difusa: rash, icterícia, hepatoesplenomegalia, taquipneia, exoftalmia, hipoacusia e baixo crescimento (cap. 10, p. 330). Como o diabetes insípido é a anormalidade extraesquelética mais comum nos que se apresentam com lesão óssea, é preciso perguntar sobre poliúria e polidipsia. Para rastreá-lo, o Lovell indica a radiografia lateral do crânio para ver a sela túrcica e a primeira urina da manhã após restrição hídrica noturna, além das enzimas hepáticas (cap. 13, p. 454); o capítulo 10 pede hemograma, provas hepáticas e osmolaridade sérica e urinária, e consulta com hematologia e oncologia para todos (p. 331 e 332). O Tachdjian pede radiografia de tórax sempre (p. 1039). O Dahlin lembra que a HCL pulmonar difusa pode existir sem osso, em adultos, com pneumotórax espontâneo (p. 359).

O granuloma solitário vira HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN?

Os livros divergem. O Tachdjian escreve que cerca de 10% dos pacientes que se apresentam com granuloma eosinofílico solitário desenvolvem lesões multifocais com envolvimento extraesquelético, isto é, HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN (p. 1039). O Lovell, no capítulo de tumores, diz o contrário: os pacientes com granuloma eosinofílico não progridem para HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN, mas devem ser avaliados na apresentação para excluir a síndrome (cap. 13, p. 454). O capítulo 10 do mesmo Lovell fica no meio: é incomum que a lesão solitária desenvolva lesões ósseas secundárias, mas numa série de 52 pacientes 30% desenvolveram lesões ósseas secundárias, metade delas assintomáticas, achadas em inventários de rotina (p. 330). A conduta que sai de todos é a mesma: avaliar a doença sistêmica no diagnóstico e seguir a criança.

A imagem: o grande imitador

Cobrança confirmada · 1 questão

Duas fases, dois aspectos

A chave para entender a radiografia da HCL é que a lesão muda com o tempo. O Lovell escreve que a aparência depende da fase da doença e do local (cap. 10, p. 330). Na fase inicial, a lesão pode parecer agressiva, com padrão permeativo de osteólise e reação periosteal lamelar que imita o sarcoma de EWING. Mais tarde, a lesão parece menos agressiva, com margens bem definidas, zona de transição estreita e reação periosteal madura ou ausente. Nos ossos longos também são comuns o alargamento do canal medular e a cortical afinada, festonada ou perfurada.

O Tachdjian descreve a mesma evolução (p. 1039): um processo lítico rapidamente destrutivo produz o aspecto em saca-bocado (punched-out). Nas fases iniciais a lesão pode ser mal delimitada, com padrão de destruição roído de traça (moth-eaten) e erosões da cortical; o periósteo pode ser estimulado, com alguma elevação periosteal. Nessa fase a doença imita mais de perto a osteomielite ou o sarcoma de EWING. Depois, as bordas ficam nítidas e os contornos, redondos ou ovais. Na fase inicial da lesão solitária, uma biópsia muitas vezes é necessária para excluir processo maligno.

O mecanismo é a velocidade: destruição rápida não dá tempo para o osso vizinho fazer borda; quando o processo cura, a margem se define e surge a esclerose marginal, espontânea ou após tratamento (Tachdjian, p. 1039).

A radiografia da HCL na fase inicial e na fase tardia (Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 330; Tachdjian 6ª ed., p. 1039; Campbell 15ª ed., p. 965)
CaracterísticaFase inicialFase tardia
MargemMal delimitada, permeativa, roída de traçaNítida, zona de transição estreita
FormaIrregularRedonda ou oval, em saca-bocado
CorticalErosões, afinada, perfuradaFestonada; esclerose marginal na cura
Reação periostealElevação, lamelarMadura ou ausente
LembraEWING, osteomielite, linfomaLesão benigna; na cura, fibroma não ossificante
CondutaBiópsia muitas vezes necessáriaObservação se o diagnóstico está firmado

Os achados quase patognomônicos

Alguns aspectos são tão típicos que o Tachdjian os chama de quase patognomônicos (p. 1039):

  • No crânio, a lesão é oval ou redonda, às vezes com lesões satélites, aspecto quase patognomônico do granuloma eosinofílico. O Dahlin e o Campbell descrevem o sinal do "buraco dentro de buraco" (hole in a hole), causado pela destruição diferente das duas tábuas da calota: a tábua externa e a interna são destruídas em extensões diferentes, e a radiografia mostra uma borda dupla (Dahlin, p. 359; Campbell, p. 965). O Lovell descreve a lesão do crânio como redonda, radiolucente e em saca-bocado (cap. 10, p. 330).
  • Na coluna, a vértebra plana, discutida na próxima seção.

A neoformação periosteal geralmente não ocorre nos ossos planos do crânio e da pelve (Tachdjian, p. 1039). O Campbell descreve a lesão dos ossos planos como bem circunscrita e puramente lítica, e a da diáfise como permeativa, com osso periosteal reacional, que lembra EWING, infecção ou linfoma (p. 965). O Dahlin alerta que, em ossos planos como a clavícula, a lesão pode ser mal definida e sugerir malignidade (p. 359), como na menina de 4 anos da Figura 13-27 do Lovell (cap. 13, p. 455).

A reação periosteal: tem ou não tem?

Divergência real: o Lovell escreve que a maioria das lesões é lítica, bem definida, sem reação periosteal nem massa (cap. 13, p. 454), mas descreve reação lamelar na fase inicial (cap. 10, p. 330); o Dahlin diz que, quando presente, é espessa e sólida (p. 359); o Campbell lembra que reação periosteal sugere malignidade, mas pode ocorrer na histiocitose (cap. 26, p. 870). A conciliação é a das fases.

Tomografia e ressonância

O Tachdjian usa a TC para a extensão da lise (pelve, coluna, crânio) e a RM para a extensão medular e das partes moles (p. 1039). Um dado útil para o diferencial: o edema peritumoral do granuloma eosinofílico é menos extenso que o do sarcoma de EWING ou da osteomielite. O capítulo de EWING do Tachdjian faz a ressalva inversa: a reação inflamatória ao redor do osso e a extensão medular da histiocitose podem ser extensas e imitar o EWING na RM, embora geralmente seja possível distinguir (cap. 26, p. aprox. 1081).

O Lovell descreve hipersinal em T2 dentro e ao redor da lesão, RM que pode ser normal no início e alterar em semanas, e a RM como essencial para excluir a massa de partes moles do sarcoma e, na coluna, a extensão intrarraquiana (cap. 10, p. 331; cap. 13, p. 454).

Cintilografia ou inventário esquelético

A HCL engana a cintilografia, e os livros dão números diferentes (tabela abaixo). Na Figura 13-27 do Lovell, a cintilografia não mostrou a vértebra plana de T6 que a TC tinha achado (p. 455). O Lovell, no capítulo 10, sugere fazer os dois exames, porque a cintilografia foi melhor em costelas, coluna e pelve, locais difíceis na radiografia (p. 331). O Tachdjian diz que a cintilografia pode ser completamente negativa mesmo com envolvimento extenso (p. 1039).

Cintilografia e inventário esquelético na HCL (Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 331, e cap. 13, p. 454 e 455; Tachdjian 6ª ed., p. 1039; Campbell 15ª ed., p. 965)
LivroCintilografiaInventário esqueléticoRecomendação
Lovell, cap. 13Até 25% das lesões não captamRecomendado por issoInventário
Lovell, cap. 10Perdeu 19% das lesões; melhor em costelas, coluna e pelvePerdeu 29% das lesõesConsiderar os dois
TachdjianInconsistente, pode ser totalmente negativaSuperior para lesões múltiplasInventário
CampbellCerca de 30% de falso-negativoMais eficazInventário (ou cintilografia, com a ressalva)

A coluna e a vértebra plana

Cobrança confirmada · 3 questões

Por que a vértebra fica plana

O Tachdjian descreve a vértebra plana como outro sinal quase patognomônico do granuloma eosinofílico (p. 1039). Ela resulta do colapso insidioso do corpo vertebral, que acaba comprimido numa hóstia fina (thin wafer). O capítulo de dor lombar do Tachdjian fala do aspecto clássico de moeda vista de perfil (coin-on-end) e lembra que o colapso extenso é mais frequente em crianças menores (cap. 7, p. 84). O mecanismo é direto: a lesão lítica ocupa o corpo vertebral, que é osso esponjoso de carga; sem trabéculas para sustentar, o corpo cede de maneira uniforme sob o peso.

O Lovell dá os detalhes que separam a vértebra plana da HCL das outras causas de colapso (cap. 10, p. 331): corpo muito achatado com elementos posteriores poupados; espaços discais preservados, ao contrário da osteomielite; torácicas em mais da metade; cervical incomum.

A Tabela 49.2 do Campbell (p. 1954) dá o retrato do granuloma eosinofílico da coluna: homem:mulher de 2 a 5:1, menos de 10 anos, coluna toracolombar, corpo vertebral; TC com destruição osteolítica e colapso (vértebra plana); RM isointensa em T1 e hiperintensa em T2, com edema das partes moles. O texto do mesmo capítulo lembra que os tumores benignos da coluna em geral afetam os elementos posteriores, com duas exceções: hemangioma e granuloma eosinofílico, que ficam no corpo (cap. 49, p. 1953).

A causa mais comum

O Campbell escreve com todas as letras: a HCL é a causa mais comum de vértebra plana (p. 964); sarcoma de EWING, linfoma, leucemia, doença de GAUCHER, cisto ósseo aneurismático e infecção entram no diferencial se a clínica justificar (p. 965). No paciente jovem com lesão de corpo vertebral, o mais provável é histiocitose; nos elementos posteriores, osteoma osteoide, osteoblastoma e cisto aneurismático (cap. 26, p. aprox. 869, e Box 26.3, p. 870). O Tachdjian põe a histiocitose X ("vertebra plana") como primeira lesão de corpo vertebral na criança (Box 24.1, p. 1000) e diz que a coluna é acometida em 10% a 15% das crianças com a doença (cap. 7, p. 84).

Vértebra plana na criança: HCL e seus diferenciais (Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 331; Campbell 15ª ed., p. 964 e 965, e Tabela 49.2, p. 1954; Tachdjian 6ª ed., cap. 7, p. 84, e p. 1039)
AchadoHCLO que sugere outra causa
FrequênciaCausa mais comum de vértebra plana (Campbell)EWING, linfoma, leucemia, GAUCHER, cisto aneurismático, infecção entram se a clínica justificar
Parte da vértebraCorpo; elementos posteriores poupadosElementos posteriores: osteoma osteoide, osteoblastoma, cisto aneurismático
DiscoPreservadoDisco destruído: osteomielite
NívelTorácico em mais da metade; toracolombarCervical é incomum na HCL
NeurologiaGeralmente intactaDéficit pede RM e reavaliação
EvoluçãoAltura recuperada em grau variável com a curaProgressão sem recuperação pede biópsia

O que acontece com a vértebra e com a medula

O Tachdjian diz que o estado neurológico geralmente permanece intacto, embora a compressão da medula ou das raízes possa ocorrer, raramente, por destruição grave do corpo (p. 1039). Com a cura, a altura vertebral é restaurada em grau variável. O Lovell confirma que a disfunção neurológica é incomum com o envolvimento da coluna e que a altura vertebral tipicamente se reconstitui (cap. 10, p. 332). O Campbell diz que, no esqueleticamente imaturo, a altura costuma ser parcialmente restaurada com o crescimento (p. 966). A explicação é a fise: o corpo vertebral da criança tem placas de crescimento nas duas faces, e elas continuam produzindo osso enquanto a lesão cura, devolvendo parte da altura.

A classificação de GARG, MEHTA e DORMANS

A prova já cobrou a classificação de GARG, MEHTA e DORMANS para a HCL da coluna na criança. Nenhum dos livros consultados descreve os graus; o Lovell cita o artigo só na bibliografia dos capítulos 13 e 21. O que os livros sustentam é o fundo: colapso do corpo, neurologia geralmente preservada e altura recuperada em parte com o crescimento.

A patologia: da peça à microscopia eletrônica

Cobrança confirmada · 3 questões

O aspecto macroscópico

O cirurgião que faz a biópsia aberta encontra um tecido característico. O Tachdjian descreve o granuloma eosinofílico como material geralmente mole, castanho-avermelhado, muitas vezes com áreas de hemorragia e, às vezes, cistos (p. 1038). O Dahlin descreve o tecido como mole, mas dá uma paleta mais variada: pode ser cinza, rosa, amarelo ou até verde (p. 359). Os dois concordam na consistência e divergem na cor; a cor única que a prova aceita é a do Tachdjian.

Por que mole? Porque a lesão é feita de células inflamatórias e histiócitos soltos, sem matriz óssea ou cartilaginosa e sem colágeno denso: não há nada que endureça o tecido. A cor avermelhada vem do sangue (as áreas de hemorragia que o Tachdjian descreve); o amarelo do Dahlin combina com os macrófagos carregados de lipídio e as áreas de necrose; o verde, com a grande quantidade de eosinófilos e neutrófilos. A alternativa "dura e esbranquiçada" descreve um tecido fibroso ou cartilaginoso, o oposto da HCL.

O que se vê ao microscópio óptico

A célula que define a doença é o histiócito de LANGERHANS, e o eosinófilo, apesar do nome "granuloma eosinofílico", é coadjuvante. O Lovell é explícito: embora os eosinófilos sejam um componente comum da lesão, eles não são necessários para o diagnóstico (cap. 13, p. 453); na legenda da Figura 13-26, os eosinófilos são numerosos, mas é a presença dos histiócitos que define o tumor, células grandes com núcleo claro e dobrado e nucléolo proeminente (p. 454).

Todos os livros apontam para o núcleo endentado. O Tachdjian descreve uma mistura de eosinófilos, plasmócitos, histiócitos e células de LANGERHANS grandes, de citoplasma pálido abundante e núcleo endentado ou clivado, com necrose, fibrose e macrófagos espumosos, e atividade mitótica mínima (p. 1038). O Lovell fala em núcleo em grão de café com sulco central, com linfócitos T, eosinófilos e macrófagos (cap. 10, p. 332, Figura 10-8). O Campbell descreve membrana nuclear nítida, citoplasma eosinofílico abundante, células gigantes multinucleadas e grupos de eosinófilos (p. 965). O Dahlin acrescenta que as células gigantes multinucleadas às vezes são tantas que sugerem tumor de células gigantes, que grandes áreas de necrose são frequentes, e dá duas regras de lâmina (p. 359 e 360): as células ficam agrupadas, sem lençóis compactos, e lençóis compactos sugerem linfoma; e a blastomicose pode imitar a citologia. No capítulo de linfoma, o Dahlin diz que os histiócitos da HCL são obviamente benignos, sem pleomorfismo nem hipercromasia (cap. 17, p. aprox. 208 e 209).

Os marcadores

O Dahlin diz que as células de LANGERHANS costumam ser positivas para a proteína S-100, mas que CD1a e langerina (CD207) são marcadores mais específicos (p. 360). O Campbell cita o S-100 (p. 965). O Tachdjian cita CD1a e langerina, com CD68 e CD14 (p. 1038). O Lovell lembra um detalhe técnico que muda a conduta na sala: a biópsia deve ser enviada a fresco, porque os testes de imuno-histoquímica para alfa-D-manosidase e CD1a não são possíveis em tecido incluído em parafina (cap. 10, p. 332).

Os grânulos de BIRBECK

O achado que dá nome às questões de lâmina é ultraestrutural. O Tachdjian descreve (p. 1039): a microscopia eletrônica pode confirmar o diagnóstico, e o achado patológico específico é a presença de grânulos de BIRBECK no citoplasma, perto do núcleo. São estruturas em forma de bastão, com estriação central e uma expansão vesicular que lembra as cordas de uma raquete de tênis. A origem e a função são incertas, mas, quando presentes, são patognomônicas da HCL. O Lovell (cap. 10, p. 332), o Dahlin (p. 361) e o Campbell (p. 965) descrevem as mesmas organelas. "Grânulos no citoplasma próximos ao núcleo" é o BIRBECK nas palavras do Tachdjian.

Histologia da HCL: o que define e o que confunde (Tachdjian 6ª ed., p. 1038 e 1039; Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 332, e cap. 13, p. 453 e 454; Dahlin 6ª ed., p. 359 a 361; Campbell 15ª ed., p. 965)
ElementoAchadoValor
Célula de LANGERHANSGrande, mononuclear, citoplasma pálido ou eosinofílico abundante, núcleo endentado, sulcado, em grão de caféDefine o diagnóstico
EosinófilosComuns, às vezes em gruposNão são necessários (Lovell)
Outras célulasLinfócitos (T), plasmócitos, neutrófilos, macrófagos espumosos, células gigantes multinucleadasFundo inflamatório
NecroseGrandes áreas frequentes (Dahlin)Pode levar ao erro de osteomielite
MitosesMínimas (Tachdjian)Ajuda a separar de tumor maligno
ArranjoAgrupado, sem lençóis compactos (Dahlin)Lençóis compactos sugerem linfoma
Imuno-histoquímicaS-100; CD1a e langerina (CD207) mais específicos; CD68 e CD14Exige material a fresco para CD1a (Lovell)
Microscopia eletrônicaGrânulos de BIRBECK: bastão com estriação central, forma de raquete, perto do núcleoPatognomônicos quando presentes

O diagnóstico diferencial

Fundamento

A lista e o motivo de cada item

O Tachdjian monta o diferencial do granuloma eosinofílico (p. 1039 e 1040): osteomielite, sarcoma de EWING, linfoma maligno, doença metastática e, nos ossos longos, cisto ósseo aneurismático e cisto ósseo simples. A regra que vem junto é a que guia a biópsia: a menos que haja achados patognomônicos, como múltiplas lucências no crânio ou vértebra plana, a biópsia é necessária para diferenciar as lesões mais graves.

A osteomielite é o imitador mais traiçoeiro: dor, febre, VHS alta e lise na criança, e até a lâmina engana, porque zonas de necrose levam ao diagnóstico errado de osteomielite; a HCL deve sempre ser considerada antes de diagnosticar osteomielite aguda (Dahlin, p. 361, legenda da Figura 26.126). Na punção aspirativa por agulha fina, que basta para confirmar a HCL, a osteomielite mostra pus, neutrófilos ou germes (Tachdjian, p. 1040); na coluna, a osteomielite destrói o disco e a HCL o preserva (Lovell, cap. 10, p. 331); e o tipo IA de ROBERTS da osteomielite subaguda, em saca-bocado metafisário, se parece com o granuloma eosinofílico (Lovell, cap. 12, Figura 12-15). O EWING tem mais edema peritumoral na RM (Tachdjian, p. 1039) e costuma ter massa de partes moles (Lovell, cap. 10, p. 331). Abaixo de 5 anos, histiocitose e WILMS metastático entram no diferencial do osteossarcoma (Tachdjian, cap. 26, p. aprox. 1068). O fibroma não ossificante lembra a fase de cura, mas o granuloma costuma ser diafisário e não é distintamente excêntrico (Tachdjian, p. 1040).

Como separar a HCL dos seus imitadores (Tachdjian 6ª ed., p. 1039 e 1040, e cap. 26, p. aprox. 1068 e 1081; Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 331; Dahlin 6ª ed., p. 360 e 361; Campbell 15ª ed., p. 965)
ImitadorO que é parecidoO que separa
OsteomieliteDor, febre, VHS alta, lise, necrose na lâminaAspirado com pus, neutrófilos ou germes; disco destruído na coluna
Sarcoma de EWINGLesão permeativa diafisária, reação lamelar, criançaMais edema peritumoral; massa de partes moles na RM
Linfoma, leucemiaLesão permeativa; células redondasLençóis compactos de células; atipia e pleomorfismo
Metástase (neuroblastoma, WILMS)Criança pequena, lesões múltiplasTumor primário; histologia
Cisto ósseo simples e aneurismáticoLítica bem definida no osso longoImagem e conteúdo; aneurismático nos elementos posteriores
Fibroma não ossificanteLembra a fase de curaO granuloma é diafisário e não é distintamente excêntrico
BlastomicoseCitologia semelhanteLembrar da infecção específica antes de fechar HCL

Os parentes histiocitários

O Dahlin trata, logo depois da HCL, de outras doenças de histiócitos que podem confundir (p. 361). A doença de ERDHEIM-CHESTER, sobretudo em homens, dá esclerose bilateral e simétrica metadiafisária dos ossos longos e pode dar diabetes insípido, como o HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN; mas a lâmina tem macrófagos espumosos e a imagem é esclerótica, não lítica.

A história natural: a lesão que se apaga sozinha

Fundamento

O que acontece se nada for feito

O Lovell dedica um parágrafo inteiro a um fato que define toda a conduta (cap. 10, p. 332): a tendência natural das lesões ósseas, sobretudo sem envolvimento sistêmico, é a resolução, tratadas ou não. A maioria das lesões resolve após a biópsia isolada. Numa série citada pelo livro, de 26 pacientes com lesões solitárias, 25 tiveram cura parcial ou completa após uma média de 4 anos, embora só 4 tenham sido tratados de alguma forma; e 2 dos 4 tratados tiveram complicações do tratamento. Ou seja, o tratamento ativo da lesão solitária expôs metade dos tratados a complicação sem mudar o desfecho de quem não foi tratado.

O Lovell também dá o tempo da cura na radiografia (p. 332): o padrão trabecular reaparece de 6 a 10 semanas após o diagnóstico, e a cura completa aparece de 36 a 40 semanas depois. A falha de cura após cerca de 4 meses de observação pode indicar a necessidade de intervenção.

O Tachdjian confirma o curso geralmente benigno, com remissão espontânea em meses a anos e recidiva baixa no esqueleticamente imaturo (p. 1040); o Campbell diz que a própria biópsia pode iniciar a cura (p. 966); o Dahlin, que a lesão única pode não precisar de tratamento (p. 361). Os livros não dão o mecanismo pelo qual a biópsia cura; registram o fato.

O tratamento: biópsia, depois o mínimo necessário

Relevância clínica

Primeiro, confirmar o diagnóstico

O Campbell abre a conduta com a regra: uma biópsia é necessária para estabelecer o diagnóstico (p. 966). O Lovell diz que a biópsia geralmente é recomendada (cap. 13, p. 454) e que o diagnóstico depende da histopatologia (cap. 10, p. 332). As vias de biópsia, segundo o Lovell (p. 332):

  • Pele acometida: biópsia de pele; senão, a lesão óssea mais acessível (múltiplas lesões oferecem opção, Tachdjian, cap. 7, p. 84).
  • Aberta ou por agulha guiada por TC (acurácia de 90% a 100%); a agulha fina basta no Tachdjian (p. 1040).
  • Os autores do Lovell preferem biópsia aberta com congelação, com tecido para histologia, imuno-histoquímica e culturas (p. 332).

Há exceções em que a imagem dispensa a biópsia. O Tachdjian diz que, com achados patognomônicos como múltiplas lucências no crânio ou vértebra plana, a biópsia pode não ser necessária (p. 1040); e, para a vértebra plana com dor já resolvida, a observação isolada é suficiente (p. 1040). O capítulo de dor lombar do Tachdjian recomenda biópsia cirúrgica das lesões atípicas para excluir malignidade (cap. 7, p. 84).

A lesão óssea isolada

O Lovell limita o tratamento da HCL óssea às lesões que causam dor importante ou ameaçam fratura patológica (cap. 10, p. 332). O Campbell lista as indicações de tratamento: dor, mobilidade restrita, fratura patológica iminente e compressão nervosa (medular ou do nervo óptico); se a lesão é assintomática, nenhum tratamento é necessário (p. 966). As opções, nos três livros:

  • Curetagem, com ou sem enxerto: acelera a cura (Lovell, cap. 10, p. 332); pode ser feita no mesmo tempo da biópsia aberta (Tachdjian, p. 1040; Campbell, p. 966); enxerto em ossos de carga com risco de fratura ou quando a curetagem daria deformidade (Tachdjian).
  • Infiltração intralesional de corticoide: alivia a dor (Lovell); segura e eficaz (Tachdjian; Campbell), mas desnecessária se o diagnóstico está claro (Tachdjian).
  • Indometacina: 8 de 10 crianças com sucesso numa série (Lovell); bons resultados no esqueleto apendicular (Tachdjian). O Campbell registra relatos com ácido zoledrônico intravenoso.
  • Radioterapia em dose baixa: eficaz na doença difusa, mas o risco de malignidade secundária supera a vantagem na lesão solitária (Lovell, cap. 10, p. 332); uso caiu muito, reservado às lesões que ameaçam medula ou nervo óptico (Tachdjian, p. 1040; Campbell, p. 966).

O Campbell lembra uma precaução importante: é preciso excluir infecção antes de colocar corticoide ou enxerto na lesão (p. 966). É a consequência prática do diferencial com a osteomielite: corticoide numa lesão infectada piora a infecção.

O Lovell, no capítulo de tumores, diz que o tratamento continua controverso e depende da gravidade, do local, do tamanho e do envolvimento sistêmico; na lesão isolada é principalmente conservador, para controlar sintomas e limitar incapacidade (cap. 13, p. 454).

O Dahlin escreve de outra época e de outra perspectiva (p. 361): pacientes que receberam pequenas doses de radiação tiveram boa resposta, e pacientes com uma ou poucas lesões costumam ser curados com radiação local ou observação. Essa é uma divergência real com o Lovell, o Tachdjian e o Campbell, que hoje evitam a radioterapia na lesão isolada por causa da malignidade secundária.

A coluna

O Lovell trata a coluna sintomática com imobilização de curta duração com gesso ou órtese, que alivia a dor; a altura vertebral tipicamente se reconstitui (cap. 10, p. 332). A RM é obrigatória sempre que houver disfunção neurológica, porque distingue compressão de raiz de compressão de medula, e a conduta muda: descompressão e estabilização cirúrgicas na compressão medular; repouso no leito com corticoide sistêmico ou injetado na compressão radicular. Sem compressão de raiz ou medula, problemas de coluna de longo prazo são incomuns.

O Campbell segue a mesma lógica (p. 966 e 967): vértebra plana conservadora, porque a maioria regride; órtese temporária; irradiação para sinais neurológicos leves; descompressão e artrodese instrumentada para déficit rapidamente progressivo ou compressão medular sem resposta à radioterapia. A Tabela 49.2 acrescenta cirurgia na deformidade ou na falha da órtese (p. 1954). O Tachdjian usa repouso, órtese ou gesso, radioterapia para alguns com déficit, e desbridamento e estabilização no compromisso neurológico importante ou multifocal (cap. 7, p. 84).

Conduta na HCL conforme a situação (Lovell 7ª ed., cap. 10, p. 332, e cap. 13, p. 454; Tachdjian 6ª ed., p. 1040 e 1041; Campbell 15ª ed., p. 966 e 967, e Tabela 49.2, p. 1954)
SituaçãoConduta
Lesão solitária assintomáticaBiópsia para diagnóstico; depois nada ou observação
Lesão solitária dolorosaCuretagem na biópsia, infiltração de corticoide, indometacina
Lesão em osso de carga com risco de fraturaCuretagem com enxerto
Lesão sem cura após cerca de 4 mesesConsiderar intervenção
Vértebra plana sem déficitConservador; órtese ou gesso de curta duração; observação se a dor resolveu
Compressão radicularRepouso com corticoide sistêmico ou injetado (Lovell)
Sinais neurológicos leves ou ameaça à medula ou ao nervo ópticoRadioterapia em dose baixa (Tachdjian e Campbell)
Compressão medular ou déficit progressivoDescompressão e estabilização (artrodese instrumentada)
Lesões ósseas múltiplas ou doença sistêmicaQuimioterapia com o oncologista pediátrico

A doença múltipla e sistêmica

O Lovell diz que lesões ósseas múltiplas ou envolvimento sistêmico indicam quimioterapia, com o oncologista pediátrico (cap. 13, p. 454), e cita quimioterapia, interferon e transplante de medula na forma multiorgânica (cap. 10, p. 332). O Campbell diz que não há protocolo ótimo para o multifocal e que a reativação é alta (p. 964).

O Tachdjian detalha o HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN (p. 1040 e 1041): no passado, radioterapia em dose baixa com corticoide; curetagem cirúrgica ocasionalmente; a 2-clorodesoxiadenosina mostrou resultados promissores; atualmente, quimioterapia com prednisolona e vimblastina é usada sobretudo nos pacientes com febre, dor, envolvimento grave da pele, déficit de crescimento ou disfunção de órgãos vitais. A eficácia é imprevisível, e lesões novas podem surgir logo após a suspensão. No LETTERER-SIWE, quimioterapia, corticoide e antibióticos em dose alta podem levar à sobrevida (p. 1041). O Dahlin diz que corticoides e outros quimioterápicos foram usados com sucesso na HCL grave e disseminada (p. 361).

Prognóstico: o que pesa contra

Fundamento

A lesão óssea tem ótimo prognóstico

O Lovell diz que a apresentação com lesão óssea solitária tem prognóstico favorável, e não há mortes relatadas nesse grupo (cap. 10, p. 330). Com múltiplas lesões ósseas sem lesões de partes moles, o prognóstico ainda é favorável: 1 morte em 22 pacientes numa série. O Campbell resume: o prognóstico geral das lesões esqueléticas é excelente, com taxa de recidiva local muito baixa e poucas complicações; a doença sistêmica, porém, pode progredir e exigir quimioterapia (p. 966).

Os fatores de mau prognóstico

Os livros convergem nos mesmos dois eixos, idade baixa e extensão da doença:

  • Campbell (p. 964): fatores de risco para mortalidade são envolvimento multissistêmico e diagnóstico antes dos 2 anos.
  • Dahlin (p. 361): na série de ENRIQUEZ e colaboradores, de 1967, com 116 pacientes da Mayo Clinic, tiveram prognóstico sombrio os menores de 3 anos, os com mais de três ossos envolvidos, os com manifestações hemorrágicas e os com esplenomegalia; quem sobreviveu mais de 3 anos após o início dos sintomas teve bom prognóstico. Na série de KILPATRICK e colaboradores, também da Mayo, com 263 pacientes, idade baixa ao diagnóstico, hepatoesplenomegalia, trombocitopenia e envolvimento de mais de três ossos predisseram prognóstico ruim.
  • Dahlin (p. 361): o SCHÜLLER-CHRISTIAN tem perspectiva ruim a longo prazo, mas pode-se esperar paliação prolongada com tratamento criterioso.

Os fatores fazem sentido: hepatoesplenomegalia, trombocitopenia e hemorragia mostram que a doença ocupou fígado, baço e medula, cuja falência mata no LETTERER-SIWE; idade baixa é a idade do LETTERER-SIWE; mais de três ossos é doença disseminada.

Onde os livros divergem

Fundamento

Vale juntar num lugar só as divergências que apareceram ao longo do resumo, porque a banca às vezes se apoia num livro específico:

Divergências entre Lovell, Tachdjian, Campbell e Dahlin na HCL (páginas citadas nas seções anteriores)
TemaLovellTachdjianCampbellDahlin
IdadeMediana 1 a 3 anos (todas as formas); mais de 50% entre 5 e 15 (osso)Maioria 5 a 10; dois terços antes dos 205 a 20; coluna abaixo de 10Crianças e adultos jovens
Segundo localFêmur (cap. 10); corpos vertebrais e ílio (cap. 13)FêmurCorpos vertebrais, ossos planos, diáfisesNão informa ordem
Cor da peçaNão informaCastanho-avermelhadaNão informaCinza, rosa, amarela ou verde
Reação periostealAusente na maioria (cap. 13); lamelar na fase inicial (cap. 10)Elevação na fase inicial; ausente em crânio e pelvePresente na diáfiseEspessa e sólida quando presente
Solitária vira HAND-SCHÜLLER-CHRISTIANNão progride (cap. 13); 30% com lesões ósseas secundárias numa série (cap. 10)Cerca de 10%Não informaNão informa
Cintilografia falso-negativa25% (cap. 13); 19% (cap. 10)InconsistenteCerca de 30%Não informa
Radioterapia na lesão isoladaRisco de malignidade secundária supera a vantagemUso caiu muito; só se ameaça neurológicaSó compressão medular ou ópticaPequenas doses com boa resposta
Idade do LETTERER-SIWEMaioria antes dos 3Primeiro ano; todos antes dos 2Antes dos 3Crianças muito pequenas; também adultos
Data da histiocitose XNão data1953Não informaNão informa

Fechamento

Fundamento

A HCL se estuda como um espectro com uma célula só. O histiócito de LANGERHANS, célula dendrítica parada num estágio precoce de maturação, com núcleo endentado em grão de café, S-100, CD1a e langerina e os grânulos de BIRBECK em raquete perto do núcleo, aparece na lesão óssea isolada da criança em idade escolar, no HAND-SCHÜLLER-CHRISTIAN crônico do pré-escolar e no LETTERER-SIWE agudo do lactente. Cerca de 80% dos casos são granulomas solitários, e é com eles que o ortopedista lida.

Para a lesão óssea, quatro fatos resolvem quase toda questão: crânio e fêmur são os locais mais comuns; a vértebra plana da criança é HCL até prova em contrário, com disco preservado e elementos posteriores poupados; a fase inicial imita EWING e osteomielite; e a lesão tende a curar sozinha, muitas vezes depois da biópsia. Daí a conduta: biópsia (de preferência com material a fresco), excluir infecção, rastrear doença sistêmica (diabetes insípido, fígado, pulmão, inventário esquelético porque a cintilografia falha), tratar só a dor, o risco de fratura e a compressão neural, e deixar a quimioterapia para a forma múltipla e sistêmica.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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