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Artroscopia do joelho

JoelhoResumo do capítulo30 min de leitura

Ótica de 30 graus (campo menor, sem área cega central) contra 70 graus (campo enorme com ponto cego central); portal anterolateral 1 cm acima da interlinha e 1 cm lateral ao tendão, alto demais esconde os cornos posteriores e baixo demais lesa o corno anterior; portal posteromedial com joelho a 90 graus e distensão hídrica máxima, risco à veia e ao nervo safeno; outside-in para o corno anterior, inside-out ou all-inside para o posterior pelo portal contralateral; exame em sete compartimentos; desbridamento na artrose só ajuda com sintomas mecânicos e curta duração; complicações: dano condral iatrogênico, hemartrose (a mais comum no pós-operatório), TVP (a mais perigosa), infecção abaixo de 0,2%, paresia pelo garrote e fístula sinovial nos portais posteromedial do joelho e do tornozelo.

Atualizado em 04/11/2026 · 30 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 64 · Artroscopia do joelho, em Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), 5ª edição (2017), com o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 54, 56 e 10). Autores do capítulo: Tiago Lazzaretti FERNANDES e Arnaldo José HERNANDEZ (HEBERT, cap. 64); David L. BERNHOLT (Campbell, cap. 54); David L. BERNHOLT e Marc J. MIHALKO (Campbell, cap. 56).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de joelho do Ortopedia e Traumatologia: Princípios e Prática (Sizínio K. HEBERT e colaboradores), capítulo 64, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo segue o capítulo 64 (Artroscopia do joelho) do Ortopedia e Traumatologia de HEBERT, 5ª edição (2017), e o compara com os dois capítulos de artroscopia do Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.: o 54 (princípios gerais, ótica, irrigação, garrote e complicações) e o 56 (portais e exame do joelho). O HEBERT digital não tem página impressa e é citado pela seção; o Campbell, pela página impressa.

A banca quase nunca pergunta o que é artroscopia; ela pergunta o detalhe técnico de quem já operou: o que acontece com o portal alto, o que é obrigatório antes do portal posteromedial, por que a ótica de 70 graus tem ponto cego, qual sutura cabe no corno anterior, onde aparece a fístula sinovial, quem melhora com o desbridamento na artrose. Todas têm uma lógica geométrica ou biológica, e é ela que este resumo procura deixar clara. As lesões meniscais (resumo campbell15-meniscos), as lesões condrais (campbell15-lesoes-condrais), a artroscopia do tornozelo (campbell15-artroscopia-tornozelo) e a gonartrose (hebert-gonartrose-osteotomias) têm resumo próprio e aqui entram só no que interessa à técnica.

Por que artroscopia, e quando não

Fundamento

O HEBERT (cap. 64, introdução) abre pelo argumento central: a técnica diminui as incisões e a resposta inflamatória em relação à artrotomia. Daí vêm menor morbidade, internação mais curta (alta no mesmo dia em procedimentos específicos), menos complicações e retorno mais rápido. E há uma vantagem que não é só de conforto: chegar a estruturas que a cirurgia aberta mal enxerga, como o corno posterior do menisco. O preço é a curva de aprendizado e o custo. O domínio da técnica não substitui o conhecimento da anatomia e das vias abertas. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 54, p. 2306), fecha com uma regra de conduta: uma cirurgia aberta bem feita é preferível a uma artroscopia mal feita.

Vantagens e desvantagens da artroscopia em relação à artrotomia (Campbell, cap. 54, Tabela 54.1, p. 2306; HEBERT, cap. 64)
VantagensDesvantagens
Menor morbidade, menos dor, reabilitação mais rápidaExige cirurgião treinado; curva de aprendizado
Trabalho sedentário logo, trabalho pesado em 2 a 3 semanasPortais pequenos limitam os instrumentos
Incisões menores, sem neuroma nem desequilíbrio extensorArranhões na cartilagem em espaço apertado
Internação curta, quase sempre ambulatorialDemorada no início da experiência
Second-look com morbidade mínimaEquipamento caro
Acesso a regiões que a artrotomia não mostra

Os dois livros insistem que a artroscopia, mesmo diagnóstica, não substitui a propedêutica: história, exame e imagem vêm antes. O Campbell (cap. 56, p. 2332) diz que, com o exame e a ressonância, quase nunca se faz artroscopia só para diagnóstico. O HEBERT (cap. 64, Principais indicações) centra o capítulo nas três lesões do esporte mais operadas pela técnica: menisco, cartilagem e LCA. As contraindicações do Campbell (cap. 54, p. 2305) têm lógica: articulação pouco lesada que responde ao conservador; falta de avaliação prévia; lesão de pele ou infecção à distância (sepse); anquilose (relativa); e grandes rupturas capsuloligamentares (relativa), porque o líquido extravasa para as partes moles. Nesse caso, espera-se 1 a 2 semanas de cicatrização da cápsula, ou repara-se antes, com fluxo por gravidade.

Indicações e contraindicações (Campbell, cap. 54, p. 2305; cap. 56, p. 2332; HEBERT, cap. 64)
SituaçãoConduta e motivo
Lesão de menisco, cartilagem ou LCA no esporteIndicação principal pelo HEBERT
Diagnóstico isoladoRaro hoje; clínica e ressonância resolvem a maioria
Articulação pouco lesada que responde ao conservadorContraindicação
Sem história, exame e imagem préviosContraindicação: a artroscopia não substitui a propedêutica
Lesão de pele local ou infecção à distânciaContraindicação: risco de sepse articular
Anquilose parcial ou completaRelativa; a lise de aderências pode ajudar
Ruptura capsuloligamentar extensaRelativa: extravasamento; esperar 1 a 2 semanas ou reparar; fluxo por gravidade

A ótica e o que cada uma enxerga

Cobrança confirmada · 1 questão

O que define um artroscópio

O Campbell (cap. 54, p. 2300) cita três características: diâmetro, ângulo de inclinação e campo de visão. A inclinação é o ângulo entre o eixo do artroscópio e a perpendicular à lente, de 0 a 120 graus. As de 25 e 30 graus são as mais usadas; as de 70 e 90 graus servem para "ver atrás das esquinas", como os compartimentos posteriores do joelho pelo intercôndilo, mas dificultam a orientação. O campo de visão depende do diâmetro: 65 graus na ótica de 1,9 mm, 90 graus na de 2,7 mm e 115 graus na de 4,0 mm; quanto maior, mais fácil se orientar.

O HEBERT (cap. 64, Artroscópio) é direto: o joelho é operado, na maioria das vezes, com a ótica de 30 graus; a de 70 graus fica para casos específicos e é mais empregada no quadril, e tem um ponto cego central quando girada 360 graus, o que dificulta localizar as estruturas. O monitor costuma mostrar uma seta com o sentido da inclinação.

A geometria da rotação

Uma ótica de 0 grau olha para a frente. Uma ótica inclinada olha de lado, e, quando é girada sobre o próprio eixo, a direção do olhar descreve um cone; o que se vê é a soma dos campos ao longo do giro.

Na ótica de 30 graus, a inclinação é pequena em relação ao campo da lente, e os campos sucessivos se sobrepõem no centro: o ponto bem à frente da ponta está sempre visível. A Figura 54.1 do Campbell (p. 2301) mostra que essa varredura aumenta o campo cerca de três vezes em relação à ótica de 0 grau, sem buraco no meio.

Na ótica de 70 graus, o olhar se desvia tanto do eixo que os campos sucessivos formam um anel largo, e o centro fica fora de todos eles. A Figura 54.2 (p. 2301): a rotação varre um círculo grande, mas cria uma área cega diretamente à frente. O texto (p. 2300) resume: campo extremamente grande, com possível área cega central.

Portanto, comparada com a de 70 graus, a ótica de 30 graus tem campo menor, sem área cega central. É a ótica de rotina porque o cirurgião não perde a ponta do instrumento que está à frente; a de 70 graus é a de exceção, para olhar atrás de um côndilo.

Ótica de 30 graus e ótica de 70 graus (Campbell, cap. 54, p. 2300 e 2301, Figs. 54.1 e 54.2; cap. 56, p. 2335 e 2358; HEBERT, cap. 64)
Aspecto30 graus70 graus
UsoRotina do joelhoCasos específicos; HEBERT: mais no quadril
Campo varrido na rotaçãoCerca de três vezes o da ótica de 0 grauCírculo muito grande
Área centralSem área cegaPonto cego central à frente da ponta
OrientaçãoFácilDifícil
Usos no joelhoTodos os compartimentos; posteromedial pelo portal posteromedialPosteriores pelo intercôndilo; tendão patelar pelo superolateral; corpos livres posteriores

Os livros divergem só na ênfase. O HEBERT restringe a de 70 graus e lembra o quadril; o Campbell, cujo kit básico tem as duas óticas (cap. 54, p. 2301), dá a ela papéis concretos no joelho: compartimentos posteriores pelo intercôndilo, tendão patelar pelo superolateral (cap. 56, p. 2335) e corpos livres caídos atrás, com uma pinça triangulada por um portal posterior (p. 2358).

O instrumental

Fundamento

A torre do HEBERT (cap. 64, Equipamentos) tem monitor, fonte de luz com cabo de fibra ótica e shaver; o shaver oscila de 1.800 a 3.000 rpm ou gira de forma contínua. A ótica entra numa camisa com duas torneiras (irrigação e drenagem), introduzida com trocarte rombo; o HEBERT proíbe o trocarte cortante, que danifica a cartilagem, e o Campbell (cap. 54, Box 54.1, p. 2308) inclui o trocarte rombo de rotina entre as medidas contra lesão nervosa.

O probe é, para o Campbell (cap. 54, p. 2301), o instrumento mais importante depois da ótica, "a extensão do dedo do artroscopista" e o mais seguro para aprender a triangulação. Palpa a consistência da cartilagem, mede a condromalácia, acha lesões instáveis do menisco, empurra corpos livres, testa o LCA, levanta o menisco e sonda o hiato do poplíteo. A ponta em ângulo reto de 3 a 4 mm serve de régua, e a palpação é feita com o cotovelo do probe. O HEBERT acrescenta que ele reduz a alça de balde, avalia a cartilagem grau I de OUTERBRIDGE e ajuda a decidir entre ressecar e suturar o menisco.

Instrumentos e o detalhe cobrado (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 54, p. 2301 a 2303)
InstrumentoFunçãoDetalhe
BasketMorder menisco e partes molesBase aberta: o fragmento cai e é aspirado; 15 graus para cima ou para baixo no corno posterior; inverter a abertura em espaço apertado
TesouraCortarEm gancho puxa o tecido; preferida à reta
GrasperRetirar corpo livre, tensionar retalhoDupla ação segura melhor o osteocartilaginoso
Cureta aneladaBordas e leito condralCruenta a camada calcificada
ShaverRessecar com aspiraçãoPonta sempre visível e janela localizada antes de ligar; lâmina de 3,5 a 5 mm; dente-dente é a mais cortante
RadiofrequênciaHemostasia e corteMonopolar com placa, bipolar entre eletrodos; calor lesa cartilagem, causa osteonecrose
Dispositivo all-insideSutura meniscalBotão na cápsula; sem nós, portais ou incisões acessórias
Parafuso de interferênciaFixação do enxertoMetálico ou absorvível; não cortante para tendão, cortante para osso

Irrigação, garrote e hemostasia

Fundamento

Sem distensão, a gordura e a sinóvia apagam a visão; o Campbell (cap. 56, p. 2334) põe iluminação, distensão e portal preciso como as chaves do sucesso. O HEBERT (cap. 64, Sistema de irrigação) usa soro fisiológico pela camisa ou por portal acessório no recesso superolateral; a pressão vem de bomba ou de coluna, e quanto mais alto o soro, maior a pressão e melhor a visão; a bomba também ajuda a conter sangramento. O Campbell (cap. 54, p. 2303) prefere o RINGER lactato, mais fisiológico e melhor para as células do menisco do que a solução isotônica de cloreto de sódio. A física da coluna: cada pé de elevação gera 22 mmHg, e a bolsa a cerca de 1 m dá uns 66 mmHg; a bomba no joelho trabalha a 40 a 60 mmHg, vigiando os compartimentos e a fossa poplítea.

O garrote fica na raiz da coxa (HEBERT, cap. 64, Garrote) e pode nem ser insuflado; é uma garantia contra o sangramento que atrapalha a visão. O Campbell (cap. 56, p. 2333) explica por que não insuflar na diagnóstica: ele empalidece a sinóvia e impede avaliar a vascularização do menisco, que se julga com garrote vazio e pressão baixa. Rotina abaixo de 90 minutos (também contra a TVP), até 2 horas nos casos complexos; acima de 90 a 120 minutos há risco isquêmico de músculo e nervo (cap. 54, p. 2304). Contraindicações: tromboflebite prévia e doença vascular periférica.

Irrigação e garrote nos dois livros (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 54, p. 2303 e 2304; cap. 56, p. 2333 e 2336)
PontoHEBERTCampbell
LíquidoSoro fisiológicoRINGER lactato
PressãoQuanto mais alto o soro, mais pressão22 mmHg por pé; bomba 40 a 60 mmHg
GarroteRaiz da coxa; insuflar só se necessárioVazio na diagnóstica; abaixo de 90 min na rotina
Limite do garroteParestesia após mais de 2 hDesinsuflar após 90 a 120 min
AdrenalinaNos portais e diluída intra-articular1 mg/L reduz em 50% a necessidade de garrote; 4 a 5 mL por portal; evitar em cardiopatas

A adrenalina limitada a 4 a 5 mL por portal tem razão mecânica: volumes maiores distendem a gordura de HOFFA e atrapalham a visão (Campbell, cap. 56, p. 2336). O ácido tranexâmico reduz a hemartrose e a dor inicial (cap. 54, p. 2304).

Posicionamento e anestesia

Fundamento

A artroscopia é feita em decúbito dorsal, com joelho e quadril livres (HEBERT, cap. 64, Posicionamento). Cada compartimento pede uma manobra que abra o espaço: extensão para a bolsa suprapatelar e a patelofemoral; valgo com rotação externa para o medial; posição em quatro com varo (quadril abduzido e fletido, joelho fletido sobre a mesa) para o lateral. O leg holder abre melhor o posteromedial, mas atrapalha a posição em quatro; o poste lateral deixa a perna livre e favorece o lado lateral (Campbell, cap. 54, p. 2304). Com o leg holder rígido, um valgo forte rompe o colateral medial ou fratura o joelho (p. 2305 e 2308). Campos impermeáveis e paramentação impermeável impedem que o líquido leve contaminação, e o time-out é essencial nos dois livros.

Posição do joelho para cada região (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 54, p. 2304; cap. 56, p. 2333 e 2339)
RegiãoPosiçãoRecurso
Suprapatelar e patelofemoralExtensão total ou pouca flexãoÓtica no fundo de saco superomedial
Compartimento medialValgo com rotação externa da pernaPoste lateral, leg holder ou assistente
Posteromedial e corno posterior medialValgo, com a extensão ajustada pelo cirurgiãoLeg holder abre melhor
Compartimento lateralPosição em quatro com varoPoste lateral; o leg holder atrapalha
Menisco lateral (Campbell)Quadril fletido, abduzido e em rotação externa; joelho de 30 a 90 graus; tíbia em rotação internaA posição em quatro esvazia a bolsa suprapatelar e reduz a distensão
Portais posterioresJoelho a 90 grausDistensão máxima

O Campbell (cap. 54, p. 2305) usa anestesia geral na maioria. Com anestesia local, o garrote não é insuflado; lidocaína e bupivacaína são condrotóxicas, por isso em baixa concentração, e o livro não usa bomba intra-articular de analgesia. Também evita o bloqueio femoral (fraqueza prolongada do quadríceps) e prefere o do canal dos adutores, puramente sensitivo.

Portais anteriores e a altura certa

Cobrança confirmada · 1 questão

O portal anterolateral

Os portais básicos são o anterolateral e o anteromedial (HEBERT, cap. 64, Portais artroscópicos). O anterolateral é o primeiro e, para o Campbell (cap. 56, p. 2334), se só houvesse uma entrada, seria ele: com ótica de 4 mm e 30 graus, vê quase tudo. A exceção: em joelho apertado, a periferia do corno posterior do menisco medial não é bem vista por ele. A localização coincide: 1 cm lateral ao ligamento da patela e 1 cm acima da interlinha (HEBERT), e 1 cm abaixo da patela (Campbell). A lâmina 11 com o corte para cima, afastado do menisco, evita cortá-lo.

O que dá errado quando o portal é alto ou baixo

A ótica precisa passar entre o côndilo femoral e o planalto tibial para chegar ao fundo, onde estão os cornos posteriores e a maioria das lesões meniscais.

Portal alto demais. A ótica entra acima da fenda e desce com obliquidade grande; ao tentar ir para trás, encontra o côndilo pela frente e não mergulha sob ele. O Campbell (cap. 56, p. 2335) diz que esse portal faz a ótica entrar entre os côndilos e impede ver os cornos posteriores e as outras estruturas posteriores. A Figura 54.10 (cap. 54, p. 2307) repete para a cânula: alta demais, a obliquidade não deixa ver o corno posterior. O HEBERT concorda: portais muito altos dificultam ver as estruturas posteriores dos compartimentos medial e lateral. O portal alto tem vantagens (fica acima da gordura de HOFFA, é fácil de manobrar e triangular), mas perde a visão posterior, justamente onde está a patologia (Fig. 56.5).

Portal baixo demais. A ótica encontra o corno anterior do menisco: pode cortá-lo, atravessá-lo ou passar por baixo dele e ficar presa (Campbell, cap. 54, p. 2307; cap. 56, p. 2335). O HEBERT acrescenta que a ótica e o instrumento batem nas espinhas tibiais, o que atrapalha a triangulação, e resolve com um marco: fazer o portal na altura do polo inferior da patela. O Campbell manda palpar esse polo para o portal não subir.

Portal colado ao tendão patelar. Atravessa a gordura de HOFFA, que, perfurada repetidamente, incha e obstrui a visão, e pode sangrar, hipertrofiar ou fibrosar (Campbell, cap. 54, p. 2307). No LCA, o HEBERT aceita o anterolateral justaposto ao tendão para olhar de frente a impressão femoral do ligamento.

O portal anteromedial

Serve para o probe e para ver o compartimento lateral de outro ângulo (Campbell, cap. 56, p. 2335). Fica simétrico: 1 cm acima da interlinha medial, 1 cm abaixo da patela, 1 cm medial ao tendão, testado antes com uma agulha (ou gelco, no HEBERT) vista pelo anterolateral. O HEBERT orienta o trajeto para a área a trabalhar (menisco medial, direção do compartimento medial). A regra da altura vale igual: alto demais, o instrumento não alcança o corno posterior; baixo demais, ameaça o corno anterior medial. O ideal, na Figura 54.10, é a cânula exatamente na fenda entre fêmur e tíbia.

Altura do portal anterior e suas consequências (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 54, Fig. 54.10, p. 2307; cap. 56, Fig. 56.5, p. 2335)
PosiçãoVantagemPrejuízo
Alto demaisAcima da gordura de HOFFA; fácil de manobrar e triangularObliquidade: não vê cornos posteriores nem estruturas posteriores
Baixo demaisAcesso posterior mais fácilLesa o corno anterior; bate nas espinhas tibiais; atravessa a gordura
Colado ao tendãoVisão da impressão do LCAAtravessa a gordura: edema, hemorragia, fibrose
IdealNa fenda entre fêmur e tíbia, cerca do polo inferior da patelaCompromisso conforme a lesão e o joelho

Portais posteriores

Cobrança confirmada · 2 questões

Para que servem

O HEBERT (cap. 64, Portais posteromedial e posterolateral) os reserva às cirurgias complexas: limpar a cápsula posterior e posicionar o guia na reconstrução do LCP, ou suturar o corno posterior do menisco medial; o posterolateral serve ao corno posterior e à raiz do menisco lateral. O Campbell (cap. 56, p. 2335) põe o posteromedial entre os portais padrão da artroscopia diagnóstica e o indica para lesões deslocadas do corno posterior, corpos livres posteriores, sempre na reconstrução do LCP, e, para alguns, de rotina no LCA roto para afastar a lesão em rampa. A Figura 56.30 (p. 2358) diz que a artroscopia completa sempre inclui o compartimento posteromedial.

O portal posteromedial: medidas e as três regras

As medidas coincidem: 1 cm acima da interlinha posteromedial e 1 cm posterior à margem do côndilo femoral medial. O Campbell o localiza num triângulo mole entre a borda posteromedial do côndilo e a da tíbia, palpável a 90 graus antes da distensão, e dá três regras (cap. 56, p. 2335):

1. Articulação maximamente distendida, a ponto de o compartimento posteromedial abaular como uma bolha com o joelho a 90 graus. 2. Joelho fletido o mais perto possível de 90 graus. 3. Marcos ósseos desenhados antes da distensão.

O HEBERT condensa: o portal precisa ser feito com o joelho fletido a 90 graus e já insuflado com soro, com dissecção justaposta ao côndilo femoral medial e uma cânula para trocar instrumentos sem falsos trajetos. Por ele, a ótica de 30 graus vê bem todo o compartimento (Campbell).

Por que a distensão e a flexão protegem

A cápsula posterior distendida pelo líquido se afasta do feixe neurovascular e vira um alvo grande, tenso e palpável, que a agulha encontra sem mergulhar; o abaulamento visto pela ótica no intercôndilo confirma o ponto. A flexão a 90 graus relaxa e afasta as estruturas posteriores: o Campbell (cap. 54, p. 2308) lembra que a distância entre a artéria poplítea e a cápsula aumenta com a flexão. Em extensão, a cápsula fica tensa e colada aos vasos, e o compartimento colapsa; por isso a extensão máxima nunca é a posição do portal posterior. A rotação interna não faz parte do portal posteromedial; ela pertence à posição em quatro para o menisco lateral (cap. 56, p. 2339). E nada nos livros manda deixar o garrote vazio ou cheio para abrir esse portal.

Estruturas em risco e o lado lateral

A veia safena pode ser perfurada por um portal posteromedial mal localizado, e os vasos poplíteos correm risco se o portal posterior for feito sem controle (Campbell, cap. 54, p. 2308). No reparo meniscal medial, as agulhas saem afastando a pata de ganso e o nervo safeno para trás (cap. 56, p. 2348). O HEBERT pede portais posteriores justapostos à cortical posterior do fêmur, com cânula. Quanto à transiluminação, nenhum dos dois livros a descreve como passo do posteromedial do joelho; o Campbell a usa no ombro, no cotovelo e no reparo outside-in do menisco lateral (cap. 56, p. 2351), e diz que no tornozelo ela não mostra o fibular superficial.

O posterolateral é opcional no Campbell (cap. 56, p. 2335), útil no reparo do menisco lateral, com as mesmas condições: 90 graus e distensão máxima. O marco é o cruzamento da borda posterior do fêmur com a borda posterior da fíbula, cerca de 2 cm acima da interlinha, atrás do trato iliotibial e na frente do bíceps femoral; não se mergulha trocarte cortante no espaço poplíteo. O nervo fibular comum corre logo atrás do bíceps, por isso tudo entra e sai anterior ao bíceps, com o joelho perto de 90 graus, posição em que o nervo cai e se afasta (p. 2349 e 2350).

Portais posteriores (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 54, p. 2308; cap. 56, p. 2335, 2348 a 2350)
AspectoPosteromedialPosterolateral
No CampbellPadrão da diagnósticaOpcional
IndicaçõesLCP, corno posterior medial, corpos livres, rampaMenisco lateral posterior e raiz
Localização1 cm acima da interlinha e 1 cm atrás do côndilo; triângulo moleBorda posterior do fêmur com a da fíbula, 2 cm acima da interlinha
Pré-requisitos90 graus, distensão máxima em bolha, marcos desenhados antes90 graus, distensão máxima
Em riscoVeia e nervo safeno; vasos poplíteosFibular comum atrás do bíceps; vasos poplíteos
Complicação típicaFístula sinovial

Portais superiores, transpatelar e acessórios

Fundamento

O superolateral fica cerca de 2,5 cm acima e lateral ao polo superior da patela, junto ao tendão do quadríceps (HEBERT; Campbell, cap. 56, p. 2335). É o portal da dinâmica patelofemoral (tracking, congruência, excesso lateral da patela da extensão à flexão), das lesões condrais dessa região, das lesões vilonodulares, da cânula de saída e da ressecção da plica medial. O transpatelar fica 1 cm abaixo do polo inferior, através do tendão: o HEBERT o usa nas lesões condrais dos côndilos e perto da raiz posterior; o Campbell, que o chama de portal de GILLQUIST (p. 2336), não o usa de rotina pelo dano ao tendão.

Os acessórios far medial e far lateral ficam cerca de 2,5 cm além dos anteriores (Campbell, cap. 56, p. 2336): medialmente perto do colateral medial, lateralmente na frente do colateral lateral e do poplíteo. A margem de erro é menor (menisco, colateral, côndilo), por isso a agulha entra antes, acima do menisco. O HEBERT (cap. 64, Terceiro portal) usa o terceiro portal nas lesões complexas do menisco, uma pinça segurando e outra cortando, e o anteromedial acessório para o túnel femoral do LCA. Dois princípios do HEBERT valem para todos: os instrumentos são intercambiáveis entre portais, e os portais podem e devem ser ampliados para brocas, trefinas e fragmentos grandes.

Mapa dos portais do joelho (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 56, p. 2334 a 2336)
PortalLocalizaçãoUso principal
Anterolateral1 cm acima da interlinha, 1 cm lateral ao tendãoPrimeiro portal; ótica
Anteromedial1 cm acima da interlinha, 1 cm medial ao tendão; agulha antesProbe e instrumentos
Posteromedial1 cm acima da interlinha e 1 cm atrás do côndilo medialLCP, corno posterior, corpos livres, rampa
Posterolateral2 cm acima da interlinha, na frente do bícepsMenisco lateral posterior e raiz
Superolateral2,5 cm acima e lateral ao polo superiorPatelofemoral, plica, vilonodular, saída
Transpatelar1 cm abaixo do polo inferior, pelo tendãoCôndilos; Campbell não usa de rotina
Far medial ou lateral2,5 cm além dos anterioresTriangulação; risco a menisco e colaterais

Triangulação e exame sistemático

Fundamento

Triangulação

Na triangulação, o instrumento entra por outro portal e sua ponta forma com o artroscópio o ápice de um triângulo (Campbell, cap. 54, p. 2306). Separar ótica e instrumento melhora a percepção de profundidade e permite movimentos independentes. O roteiro: ótica afastada para campo amplo; avançar ótica e instrumento juntos; se perder a orientação, encostar o instrumento na camisa e deslizá-lo até a ponta. O erro do iniciante é a ótica perto demais do objeto.

O passo a passo do HEBERT (cap. 64): balanço do branco e foco; ótica pelo anterolateral no fundo de saco superomedial com o joelho em extensão; lavar e aspirar o líquido sinovial; definir o horizonte paralelo ao planalto tibial; começar com a inclinação de 30 graus voltada para lateral, que dá uma imagem parecida com a do olho e mais ampla. Se a gordura de HOFFA atrapalhar, ótica e shaver vão para o espaço femoropatelar em extensão e a gordura é ressecada enquanto o joelho volta a fletir.

O exame em sete compartimentos

O Campbell (cap. 56, p. 2336) exige a mesma sequência em todo joelho; a ordem exata importa menos que o hábito. A posteromedial pode ser vista pelo intercôndilo ou por portal próprio; a posterolateral, em geral, de um portal anterior. O HEBERT (cap. 64, Inspeção articular) acrescenta o que procurar e um alerta: o menisco lateral é normalmente mais móvel pelo hiato do poplíteo, o que não deve ser confundido com hipermobilidade por lesão. O Campbell (p. 2339) manda checar os "3 Rs": a ruptura de WRISBERG, a rampa e a raiz.

Sequência do exame artroscópico (Campbell, cap. 56, p. 2336; HEBERT, cap. 64, Inspeção articular)
OrdemCompartimentoO que procurar
1Suprapatelar e patelofemoralAderência, plica, sinovite; condral de patela e tróclea; tracking
2Goteira medialCorpos livres; plica medial
3Compartimento medialMenisco medial, côndilo e planalto
4IntercôndiloLCA, LCP, osteófitos, estreitamento
5PosteromedialCorno posterior, rampa, flaps, corpos livres
6Compartimento lateralMenisco lateral (mais móvel pelo hiato), cartilagem
7Goteira lateral e posterolateralTendão do poplíteo, corpos livres, flaps

Menisco: ressecar pouco, suturar quando der

Cobrança confirmada · 1 questão

O HEBERT (cap. 64, Lesão do menisco) conta a mudança: nos anos 1980 faziam-se ressecções subtotais ou totais sem necessidade; hoje, com a função de absorção de impacto e estabilidade bem definida, busca-se a ressecção econômica ou a sutura, porque a ressecção ampla acelera a artrose em poucos anos sem melhorar os sintomas. Lesões assintomáticas achadas por acaso podem ficar em observação. O Campbell (cap. 56, p. 2339) diz o mesmo: preservar o menisco funcional e reparar o menisco para proteger a cartilagem. Classificação, zonas e técnicas detalhadas estão no resumo campbell15-meniscos.

As técnicas e por que o corno anterior é outside-in

  • De dentro para fora (inside-out): agulha passada por cânula de dentro e recuperada numa incisão com afastador. Técnica do corno posterior. A cânula entra pelo portal contralateral para a agulha se afastar dos vasos: para o corno posterior medial, pelo anterolateral (HEBERT), com via posterior pericapsular e anteparo metálico.
  • De fora para dentro (outside-in): agulha pela pele, cápsula, menisco saudável e lesão, repetida, com o fio amarrado sobre a cápsula por pequena incisão. Técnica do corpo e do corno anterior (HEBERT); terços médio e anterior e pontos anteriores da alça de balde (Campbell, p. 2345).
  • Tudo por dentro (all-inside): botão apoiado na cápsula e nó que prende o fragmento. Corno posterior e corpo; menos morbidade e risco condral, e com ele as lesões do safeno e do fibular caíram muito (p. 2397).

A razão do outside-in no corno anterior é geométrica. O corno anterior fica logo atrás dos portais: uma agulha que entra pela pele anterior chega a ele por um trajeto curto, perpendicular à lesão, numa região sem estruturas neurovasculares importantes. O inside-out e o all-inside são feitos para lançar a agulha de frente para trás: no corno anterior, o instrumento do portal anterior fica quase paralelo à lesão, sem ângulo para atravessá-la, e o all-inside precisa de espaço atrás do menisco para o botão. O Campbell (cap. 56, p. 2339) faz disso uma regra: outside-in nas lesões anteriores; all-inside ou inside-out nas posteriores, de preferência pelo portal contralateral.

As lesões longitudinais nas zonas vermelha-vermelha e vermelha-branca têm as bordas reavivadas com shaver ou agulha para sangrar e cicatrizar; a zona branca-branca, avascular, é ressecada e regularizada; a raiz posterior pede portais posteriores, agulhas curvas e fixação transóssea (HEBERT). O fio: o HEBERT diz que os dispositivos trazem inabsorvível multifilamentado; o Campbell (p. 2348) diz que nenhum estudo mostrou dano por absorvíveis de longa duração ou por inabsorvíveis, e prefere inabsorvível nas lesões grandes e centrais.

Técnicas de sutura meniscal e a região (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 56, p. 2339, 2345 a 2350, Box 56.3)
TécnicaRegião preferidaDetalhe
Outside-inCorno anterior e corpo; terço médio; radiais; pontos anteriores da alça de baldeTrajeto curto e seguro pela frente
Inside-outCorno posterior; alça deslocada; lesão capsular periféricaCânula pelo portal contralateral; incisão e afastador posterior
All-insideCorno posterior e corpo; borda maior que 2 a 3 mmBotão na cápsula; menos lesão de safeno e fibular
Raiz posteriorRaizTúnel transtibial; portais posteriores
Zona branca-brancaAvascularRessecção e regularização

Cartilagem, LCA, corpos livres e plicas

Relevância clínica

A cartilagem cicatriza mal por falta de vascularização e inervação e pelo metabolismo anaeróbio (HEBERT, cap. 64, Lesão da cartilagem). Antes de reparar, corrigem-se instabilidade e desvio de eixo; a borda é regularizada até cartilagem estável e a camada calcificada é cruentada. A microfratura usa fio de KIRSCHNER de 1,5 mm: furos de 2 a 3 mm de profundidade a 3 a 4 mm de distância, com melhora limitada a dois a três anos. O detalhamento está no resumo campbell15-lesoes-condrais. No LCA, os remanescentes orientam os túneis, a reconstrução anatômica em geral dispensa a intercondiloplastia, e o aloenxerto falha em 12% contra 4,5% do autólogo, ficando para as revisões (HEBERT).

Os corpos livres (Campbell, cap. 56, p. 2357 e 2358) podem ser osteocartilaginosos, cartilaginosos, fibrosos ou de outra natureza. Os pequenos saem por aspiração; os grandes, por triangulação, primeiro os menores, e é melhor ampliar o portal do que perder o fragmento. Os que caem atrás são achados por um portal posterior ou pela ótica de 70 graus pelo intercôndilo. Das plicas (p. 2358 e 2359), a medial é a de importância clínica: espessada após trauma direto anteromedial, atrita o côndilo medial a 30 a 40 graus; trata-se primeiro de forma conservadora, e a ressecção artroscópica fica para os casos crônicos.

Desbridamento artroscópico na gonartrose

Cobrança confirmada · 1 questão

O que é e quem melhora

O Campbell (cap. 10, p. 498 e 499) define o desbridamento do joelho artrósico como sinovectomia limitada, ressecção de osteófitos, retirada de corpos livres, condroplastia e retirada de meniscos lesados. A lavagem dá bons resultados iniciais que pioram com o tempo, pela retirada de detritos e fatores inflamatórios. A abrasão dá cerca de 60% de bons resultados e é contraindicada em artrite inflamatória, rigidez, deformidade, instabilidade e em quem não cumpre dois meses sem carga.

A frase-chave do Campbell: sintomas de curta duração e sintomas mecânicos vão bem; mau alinhamento, sobretudo valgo, e litígio vão mal. Só 25% dos joelhos com artrose grave, mau alinhamento e espaço menor que 2 mm aliviam. Três variáveis predizem melhora: dor na interlinha medial, STEINMANN positivo (rotação forçada a 90 graus com dor referida na interlinha) e lesão meniscal instável achada na cirurgia.

A lógica é a da artroscopia inteira: o artroscópio tira coisas. Se o sintoma vem de algo que se solta e trava (fragmento de menisco, corpo livre, retalho), retirá-lo resolve; esse é o sintoma mecânico. Se vem da carga mal distribuída ou do desgaste difuso, não há o que tirar. Por isso dor em repouso, início insidioso e longa duração, marcas da artrose estabelecida e inflamatória, predizem fracasso.

A posição atual

O Campbell (cap. 10, p. 499) registra que a AAOS não recomenda o desbridamento artroscópico na artrose: efeito placebo curto, alívio em menos de 50% em dois anos, e nenhuma mudança na história natural; no máximo adia um procedimento definitivo. Acima de 70 anos, a chance de artroplastia em um ano é cinco vezes a dos abaixo de 60. O HEBERT (cap. 16, Artroscopia) conta pela linha do tempo: até 2002 a artroscopia era indiscriminada; MOSELEY e colaboradores não acharam benefício contra artroscopia simulada, e SIHVONEN e colaboradores, em 2013, também não na lesão degenerativa sem artrose. Hoje é procedimento de exceção, reservado ao bloqueio articular agudo por fragmento de menisco ou corpo livre. Os dois convergem: o Campbell descreve o subgrupo que melhora; o HEBERT reduz a indicação ao bloqueio, que é o sintoma mecânico puro.

Prognóstico do desbridamento artroscópico na artrose (Campbell, cap. 10, p. 498 e 499; HEBERT, cap. 16)
Bom prognósticoMau prognóstico
Sintomas mecânicos (travamento, bloqueio)Dor em repouso, início insidioso, longa duração
Sintomas de curta duraçãoMau alinhamento, sobretudo valgo
Dor na interlinha medialArtrose grave com espaço menor que 2 mm
STEINMANN positivoLitígio ou compensação trabalhista
Lesão meniscal instávelIdade acima de 70 anos

Complicações: o panorama

Fundamento

As complicações são infrequentes e quase sempre leves. O Campbell (cap. 54, p. 2306) cita 1% a 4,7%, proporcionais à experiência, ao tempo de cirurgia e de garrote, à complexidade, às lesões do LCP e multiligamentares e às suturas meniscais. No joelho (cap. 56, p. 2397), séries com 191.584 procedimentos tiveram 0,6%, mais comuns infecção e TVP; dados do American Board of Orthopaedic Surgery mostram quase 5%, de 2,5% na meniscectomia a 20% no LCP. O HEBERT (cap. 64, Complicações associadas) diz que a infecção é rara pela pouca invasão e pela lavagem contínua, e destaca o time-out. Vale guardar o adjetivo de cada complicação no Campbell.

Complicações e o adjetivo de cada uma (Campbell, cap. 54, p. 2306 a 2310; cap. 56, p. 2397; HEBERT, cap. 64)
ComplicaçãoO que o livro diz
Dano condral e meniscal iatrogênicoProvavelmente a mais comum da artroscopia do joelho
HemartroseA mais comum do pós-operatório
Tromboflebite e TVPPotencialmente a mais perigosa
Lesão vascularA mais grave e devastadora
InfecçãoMenos de 0,2%; a mais comum nas séries do cap. 56
Paresia pelo garroteLeve, resolve em dias
Fístula sinovialRara; portais posteromedial do joelho e do tornozelo

Dano iatrogênico

Arranhões na cartilagem pela ponta da ótica ou do instrumento ocorrem com o inexperiente, no joelho apertado e no procedimento longo (Campbell, cap. 54, p. 2307). Forçar a ótica entre as superfícies pode sulcá-las e levar à artrose. A técnica é abrir primeiro o espaço com alavanca e então deslizar a ótica, mantendo a abertura enquanto ela está dentro; e é melhor mudar o portal do que forçar. Os cruzados podem ser lesados ao soltar inserções do menisco ou pelo shaver no intercôndilo, que deve ficar voltado para longe do ligamento íntegro. O HEBERT diz o mesmo: lâmina do tamanho do espaço, lado rombo contra os ligamentos a preservar e lado cortante voltado para o artroscópio. O colateral medial pode ser lesado por portais mediais acessórios ou por valgo forte; para abrir o medial, o Campbell prefere perfurá-lo com agulha sob valgo suave (cap. 54, p. 2308). Se um instrumento quebra: fechar a saída, manter a entrada, joelho parado, sem perder o fragmento de vista; se sumir, radiografia (p. 2310).

Lesões vasculares e nervosas

Fundamento

A lesão vascular é a mais grave (Campbell, cap. 54, p. 2307 e 2308). A poplítea corre risco ao cortar inserções intercondilares do menisco, nas suturas meniscais posteriores (por isso o afastador no inside-out e o cuidado com a trajetória do all-inside) e no preparo e na perfuração do túnel tibial do LCP; a flexão afasta a artéria da cápsula. Sinovectomias extensas lesam as geniculares (fístula arteriovenosa, pseudoaneurisma), e a veia safena é perfurada por portal posteromedial mal posto. O HEBERT (cap. 64, Lesão do feixe neurovascular) pede portais posteriores junto à cortical do fêmur, cânula, e fios-guias e brocas perto da cápsula posterior só com anteparo metálico e visão direta.

O líquido extravasado pode causar síndrome compartimental; previne-se com gravidade ou pressão baixa e boa saída, e trata-se parando o influxo, soltando curativos e garrote e espremendo o membro com ESMARCH (p. 2308).

Os nervos cutâneos mais lesados no joelho são os ramos infrapatelares do safeno e os sartoriais do femoral; a hipoestesia costuma ser pequena (p. 2308). Nos reparos meniscais, safeno (medial) e fibular comum (lateral) ainda são lesados, mas muito menos com o all-inside (cap. 56, p. 2397). As medidas de prevenção do Box 54.1: conhecer a anatomia, posicionar bem, marcar os portais, bisturi só na pele e pinça até a cápsula, trocarte rombo, manter distensão, acolchoar, encurtar o garrote e usar shaver menos agressivo perto de nervos; no menisco medial, afastar a pata de ganso e o safeno; no lateral, sair na frente do bíceps a 90 graus.

Fístula sinovial e herniação pelo portal

Cobrança confirmada · 1 questão

A fístula sinovial é uma comunicação persistente entre a articulação e a pele pelo trajeto do portal. O HEBERT (cap. 64, Fístula sinovial e abaulamento capsular) aponta a causa técnica: é preciso suturar também os planos profundos; pontos superficiais deixam a comunicação aberta e criam abaulamento no portal. Liberações com dissecção capsular interna também abaulam. O tratamento, para ele, é expectante: enfaixamento, antissepsia e espera da regressão do derrame.

O Campbell (cap. 54, p. 2309 e 2310) traz o dado da prova: as fístulas são raras, surgem após reação a fio ou abscesso de ponto e se associam sobretudo aos portais posteromedial do joelho e aos portais do tornozelo. A explicação está na cobertura. No tornozelo, pele e cápsula anterior são finas e quase coladas, sem músculo entre elas, numa articulação que se move a cada passo; no posteromedial do joelho, o portal atravessa pouca cobertura sobre uma cápsula tensionada e relaxada o tempo todo pela flexão e extensão. Em ambos, o trajeto é curto e mal coberto. Por isso o Campbell manda suturar esses portais, e não fechá-los com fita adesiva. O tratamento dele é mais ativo: antibiótico provável e imobilização por 7 a 10 dias para o fechamento espontâneo; cirurgia raramente. O resumo campbell15-artroscopia-tornozelo trata a fístula do lado do tornozelo.

A herniação sinovial (p. 2309) é a saída de glóbulos de gordura e sinóvia por qualquer portal, mais provável quanto maior o portal; some em semanas e só se resseca, com fechamento da cápsula, se persistir com sintoma.

Fístula sinovial nos dois livros (HEBERT, cap. 64; Campbell, cap. 54, p. 2309 e 2310)
PontoHEBERTCampbell
CausaPontos superficiais; dissecção capsular internaReação a fio, abscesso de ponto
Portais mais associadosNão especificaPosteromedial do joelho e portais do tornozelo
PrevençãoSuturar os planos profundosSuturar esses portais em vez de fita
TratamentoExpectante: enfaixamento e antissepsiaAntibiótico provável; imobilização de 7 a 10 dias

Hemartrose, trombose, infecção e garrote

Fundamento

A hemartrose é a complicação pós-operatória mais comum (Campbell, cap. 54, p. 2308 e 2309), sobretudo após liberação do retináculo lateral (geniculares superolaterais cortados) e sinovectomia; na meniscectomia lateral, a geniculada inferolateral pode ser lesada à frente do hiato do poplíteo. Se persistir sem explicação, investigam-se vasos e coagulação.

A TVP é potencialmente a mais perigosa (p. 2309). Sem profilaxia, a incidência após artroscopia do joelho variou de 1,8% a 41,2% (média 6,8%); com profilaxia, média de 1,8%. Recomendam-se compressão pneumática nas artroscopias extensas, mobilização precoce, AAS quando a carga for alterada e evitar viagens longas logo depois. O capítulo 56 (p. 2397) acrescenta ultrassonografia antes da cirurgia adiada mais de 2 semanas em trauma de alta energia. O HEBERT (cap. 64, Tromboembolismo) diz que os eventos são pouco frequentes, mas devem ser pesquisados de rotina, com profilaxia para quem tem fatores de risco.

Fatores de risco para TVP na artroscopia (Campbell, cap. 54, Box 54.2, p. 2309; cap. 56, p. 2397; HEBERT, cap. 64)
FatorPeso
Idade acima de 70 anos10 vezes
Anticoncepcional3 vezes (também no HEBERT)
Diabetes e hipertensão2 vezes
Sexo feminino, idade acima de 35 anos, IMC acima de 29Fatores citados
Fator V de LEIDEN, tabagismo, TVP préviaFatores citados (tabagismo e história também no HEBERT)
Procedimento complexo e longo, inatividade pela lesãoFatores citados

A infecção é abaixo de 0,2% (p. 2309), graças às incisões pequenas, aos pacientes jovens, ao tempo curto e à diluição pela irrigação. Os fatores de risco incluem idade acima de 50 anos, corticoide intra-articular, procedimento prévio ou complexo, garrote prolongado e quebras de técnica. A profilaxia é controversa na artroscopia simples; o Campbell usa cefazolina 1 g (2 g acima de 80 kg) até uma hora antes. Na infecção, lavagem e desbridamento artroscópicos precoces, repetidos em 48 a 72 horas se preciso, com antibiótico venoso e depois oral até 6 semanas; cerca de 85% dos enxertos de LCA são salvos (cap. 56, p. 2397).

A parestesia pelo garrote, no HEBERT (cap. 64), aparece após mais de duas horas, desde o garrote ou a partir do joelho, sem perda de força, e melhora em dois a três dias. O Campbell (cap. 54, p. 2309) manda desinsuflar após 90 a 120 minutos e conferir o manômetro; a paresia costuma ser leve e passageira. O quadro é o mesmo; o limiar do Campbell é mais conservador. O Campbell ainda cita a artrofibrose (cirurgia precoce do ligamento, reparo meniscal associado ao LCA) e a síndrome dolorosa regional complexa (cap. 56, p. 2397 e 2398).

Fechamento

Fundamento

A artroscopia do joelho cabe em cinco ideias. Óptica: a ótica de 30 graus é a de rotina, com campo menor e contínuo; a de 70 graus varre um círculo enorme com ponto cego central e fica para olhar atrás das esquinas. Geometria: o portal anterior entra na fenda entre fêmur e tíbia, a 1 cm da interlinha e do tendão; alto demais não alcança os cornos posteriores, baixo demais fere o corno anterior, colado ao tendão atravessa a gordura. Proteção: portal posterior só a 90 graus e com distensão até o compartimento abaular, porque flexão e líquido afastam a cápsula dos vasos e nervos; safeno de um lado, fibular comum atrás do bíceps do outro; e, pela mesma lógica, o corno anterior se sutura de fora para dentro e o posterior por dentro, pelo portal contralateral. Indicação: a artroscopia só resolve o que pode ser retirado ou reparado; na artrose, ajuda os sintomas mecânicos de curta duração e não muda a história natural. Complicações: cada uma com seu adjetivo, e a fístula nos trajetos mal cobertos.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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