Orto Questões

Deformidades ósseas e alongamento

Conceitos básicosResumo do capítulo37 min de leitura

CORA é a intersecção dos eixos proximal e distal (anatômicos ou mecânicos, sem misturar); fora do ponto óbvio indica translação ou multiapical; mesmo nível no AP e perfil = plano oblíquo, níveis diferentes = translação; CORA, eixo de correção e osteotomia juntos = só angulação; eixo na cortical convexa = cunha de abertura; mLDFA e MPTA perto de 87 graus; GREEN-ANDERSON, MOSELEY (erro de 0,6 cm), MENELAUS e multiplicador de PALEY; epifisiodese para 2 a 5 cm; latência, 1 mm/dia em 0,25 × 4, consolidação de duas vezes a distração, cerca de 1 mês por cm; hemicalotasia de TURI no 7º dia; clamshell contraindicado na metáfise e acima de 3 cm.

Atualizado em 04/11/2026 · 37 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 63 · Malunited Fractures, com o Capítulo 31 · Congenital Anomalies of the Lower Extremity (seção Limb-Length Discrepancy), o Capítulo 58 · General Principles of Fracture Treatment (External Fixation) e o Capítulo 10 · Knee Preservation Surgery, em Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª edição (2026). Autores do capítulo: A. Paige WHITTLE (cap. 63).

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de conceitos básicos do Campbell, capítulo 63, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Este resumo junta dois assuntos que a prova costuma separar, mas que o cirurgião usa juntos: a análise da deformidade (eixos, ângulos articulares, CORA e as regras da osteotomia) e o comprimento do membro (discrepância, previsão do crescimento, epifisiodese, encurtamento e alongamento por distração). O fio que une os dois é simples: toda correção mexe no comprimento, e todo alongamento pode criar ou corrigir deformidade.

O livro principal é o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. Ele trata a discrepância dentro do cap. 31 (anomalias congênitas do membro inferior), a consolidação viciosa no cap. 63, a fixação externa no cap. 58 e a hemicalotasia de TURI no cap. 10. O Campbell, porém, quase não fala em CORA. Quem explica a análise de deformidade do jeito que as bancas cobram é o Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 31, Principles of Malunion Treatment), que segue a escola de PALEY. Para a criança, entram o Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 20), o Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª ed. (cap. 28), e o HEBERT (cap. 23).

Como a prova cobra: o TARO repete há anos as mesmas perguntas sobre o CORA (definição, o que significa ele cair fora do ponto óbvio, o que significa estar no mesmo nível ou em níveis diferentes no AP e no perfil, onde pôr a dobradiça, o que acontece quando CORA, eixo e osteotomia coincidem). Depois vêm números de alongamento (dia de início, ritmo), uma técnica específica (hemicalotasia de TURI) e uma osteotomia nova (clamshell). O cálculo de discrepância (multiplicador, MOSELEY) quase não apareceu nas questões ligadas, mas é a base do raciocínio e cai em provas de pediatria.

Eixos, linhas articulares e ângulos

Fundamento

Eixo anatômico e eixo mecânico

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 31), define os dois eixos de cada osso longo de modo que a prova reproduz quase literalmente. O eixo anatômico é a linha que passa pelo centro da diáfise, achada marcando o meio do diâmetro transversal em vários pontos. Num osso normal ele é uma reta única; num osso consolidado em angulação, cada segmento tem o seu eixo anatômico, e numa deformidade multiapical pode haver três ou mais eixos no mesmo plano. O eixo mecânico do osso é a linha que liga os centros das articulações proximal e distal.

A consequência prática está no Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 20, p. 850): no fêmur os dois eixos divergem 5 a 7 graus, porque o colo desloca a cabeça medialmente em relação à diáfise; na tíbia os eixos anatômico e mecânico são praticamente os mesmos. Por isso o Rockwood lembra que a metade proximal do eixo mecânico do fêmur fica fora do osso, e um CORA traçado com eixos mecânicos do fêmur pode cair fora do osso mesmo numa deformidade de um ápice só. Na tíbia isso não acontece: lá, CORA fora do osso significa outra coisa (ver adiante). O Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª ed. (cap. 28, p. 1378), usa o mesmo fato para explicar o regenerado: a tíbia é colinear com o eixo mecânico e recebe compressão; o regenerado do fêmur não é colinear e sofre flexão, por isso o fêmur precisa de mais tempo de fixador.

O eixo mecânico do membro e o desvio (MAD)

O eixo mecânico do membro inferior vai do centro da cabeça femoral ao centro do tornozelo. Para o Rockwood, ele passa normalmente de 1 a 15 mm medial ao centro do joelho. Quando passa a mais de 15 mm medial, há desvio medial (varo); qualquer passagem lateral ao centro já é valgo. O Tachdjian (p. 850) descreve o mesmo eixo como reto, de 0 a 1 grau de varo, com o ângulo femorotibial anatômico de 5 a 7 graus de valgo, um pouco maior na mulher madura. O detalhe que o Rockwood faz questão de dizer: má orientação do joelho produz desvio do eixo, mas desvio do eixo nem sempre vem do joelho; pode vir de uma diáfise torta.

Linhas articulares e ângulos

No plano frontal, a linha do fêmur distal liga os pontos mais distais dos côndilos; a da tíbia proximal tangencia o osso subcondral dos dois platôs; a do tornozelo passa pelo subcondral do pilão. O ângulo entre as duas linhas do joelho é o JLCA (ângulo de congruência das linhas articulares), normal de 0 a 2 graus de abertura medial; qualquer abertura lateral é valgo, e 3 graus ou mais medial é varo. No sagital, a linha do fêmur distal liga as junções anterior e posterior dos côndilos com a metáfise; a do tornozelo liga os pontos mais distais da tíbia anterior e posterior.

Os ângulos recebem nomes padronizados: a letra inicial diz se o eixo é anatômico (a) ou mecânico (m), depois o lado medido (medial, lateral, anterior, posterior), o nível (proximal, distal) e o osso. Assim, o mLDFA é o ângulo lateral distal do fêmur medido com o eixo mecânico; o MPTA é o medial proximal da tíbia; o LDTA, o lateral distal da tíbia; o PPTA e o ADTA, os sagitais da tíbia; o PDFA, o posterior distal do fêmur.

Ângulos e eixos normais do membro inferior (Tachdjian, cap. 20, p. 850 e 852; Rockwood and Green, cap. 31)
MedidaTachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed.Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed.
eixo mecânico do membroreto, 0 a 1 grau de varopassa 1 a 15 mm medial ao centro do joelho
ângulo femorotibial anatômico5 a 7 graus de valgonão dá número no texto extraído
diferença entre eixos do fêmur5 a 7 grauseixo mecânico proximal fora do osso
diferença entre eixos da tíbiapraticamente iguaisCORA tibial fora do osso indica multiapical
mLDFA87 graus88 graus (média usada para desenhar o eixo)
aLDFA80 graus (figura 20.49)definido, valor na tabela não extraída
MPTA87 grausdefinido, valor na tabela não extraída
tornozelo (LDTA mecânico)90 grausdefinido
colodiafisário135 grausdefinido como NSA
JLCAnão citado0 a 2 graus medial; lateral = valgo; 3 ou mais medial = varo

A divergência no mLDFA (87 graus no Tachdjian, 88 graus no Rockwood) é pequena e conhecida: os livros usam médias populacionais com faixa de poucos graus. O Tachdjian lembra que nenhum estudo longitudinal define um limite acima do qual a artrose é certa. A banca normalmente aceita 87 a 88 graus para o mLDFA e 87 graus para o MPTA.

O CORA: definição e como achar

Cobrança confirmada · 2 questões

Definição

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 31), define: a intersecção do eixo proximal com o eixo distal de um osso deformado é o CORA (centro de rotação da angulação). É o ponto em torno do qual a deformidade pode ser girada para ser corrigida, e o ângulo formado pelos dois eixos no CORA mede a angulação naquele plano.

Três regras saem dessa definição e caem em prova:

1. Pode-se usar o eixo anatômico ou o mecânico, mas nunca misturar os dois. Um CORA "entre o eixo mecânico proximal e o anatômico distal" não existe. É exatamente o que as alternativas C e D das questões da SBOT-SP e do TEOT tentam fazer o candidato aceitar. 2. Na diáfise, o eixo anatômico é o mais cômodo; na deformidade justa-articular (metáfise, epífise), constrói-se o eixo mecânico do segmento curto pela média populacional do ângulo articular (mLDFA de 88 graus, por exemplo), pelo lado normal ou prolongando o eixo do osso vizinho. 3. O CORA não é o ponto mais convexo da cortical, nem o "centro anatômico" do osso, nem o próprio alinhamento mecânico. É um ponto geométrico, definido pelos eixos.

A bissetriz

A bissetriz é a linha que passa pelo CORA e divide ao meio o ângulo entre os eixos proximal e distal. Para o Rockwood, todo ponto da bissetriz pode ser considerado um CORA, porque girar o osso em torno de qualquer um deles realinha os eixos anatômico e mecânico sem criar translação iatrogênica. É a bissetriz que libera o cirurgião para escolher se a correção vai abrir, fechar ou ser neutra: o ponto de giro pode estar na cortical convexa, no meio do osso ou na cortical côncava, desde que esteja sobre a bissetriz.

Uniapical ou não

Para identificar o CORA, o Rockwood manda achar os dois eixos e depois olhar as articulações. Se a intersecção cai no ponto óbvio da deformidade e as orientações articulares são normais, aquele é o CORA e a deformidade é uniapical no plano. Se a intersecção cai fora do ponto óbvio, ou se uma articulação está mal orientada, há duas possibilidades: existe um segundo CORA (deformidade multiapical) ou existe translação naquele plano, geralmente visível na radiografia. Quando o CORA traçado com eixos anatômicos (ou qualquer eixo da tíbia) cai fora do osso, a deformidade é multiapical: traça-se um terceiro eixo, do segmento do meio, e os dois cruzamentos dentro do osso são os dois CORAs.

O que a posição do CORA está dizendo (Rockwood and Green, cap. 31)
AchadoInterpretação
eixos se cruzam no ponto óbvio, articulações normaisdeformidade uniapical naquele plano
cruzamento fora do ponto óbviosegundo CORA (multiapical) ou translação
articulação mal orientada sem angulação aparentemultiapical (um ápice perto da articulação)
CORA anatômico, ou qualquer CORA da tíbia, fora do ossomultiapical
CORA mecânico do fêmur fora do ossopode ser uniapical (eixo mecânico proximal fica fora do osso)
CORA no mesmo nível no AP e no perfilangulação em plano oblíquo
CORA em níveis diferentes no AP e no perfiltranslação associada à angulação
mais de um CORA no AP, no perfil ou nos doismultiapical

Plano da deformidade, translação e multiapical

Cobrança confirmada · 3 questões

Deformidade num só plano e em plano oblíquo

O Rockwood (cap. 31) começa pelo simples: deformidade puramente frontal só aparece no AP; puramente sagital, só no perfil. Quando as duas incidências mostram angulação e o CORA está no mesmo nível nas duas, a angulação é uma só, num plano oblíquo, entre o frontal e o sagital. No exemplo do livro, 6 graus de ápice medial e 17 de ápice posterior, ambos 6,5 cm abaixo da linha articular: oblíqua sem translação.

A magnitude real nesse plano é maior do que a medida em qualquer das duas incidências. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 63, p. 2841 e 2856), diz o mesmo: a maioria das deformidades pode ser resolvida num único plano; a análise trigonométrica de RIES e O'NEILL calcula a angulação verdadeira a partir do AP e do perfil; e o plano de deformidade máxima pode ser achado girando a perna sob fluoroscopia até ver a maior angulação; uma radiografia a 90 graus desse plano não mostra deformidade nenhuma. A osteotomia oblíqua é feita perpendicular a esse plano. O Rockwood acrescenta que o método gráfico (baseado em Pitágoras) aproxima o trigonométrico com erro menor que 4 graus, salvo quando as duas angulações passam de 45 graus.

Translação

Quando o CORA está em níveis diferentes no AP e no perfil, há translação além da angulação. O raciocínio é geométrico: uma angulação pura tem um ápice só no espaço; se cada incidência mostra o "ápice" numa altura, os segmentos não apenas se dobraram, também deslizaram um sobre o outro. A translação é descrita pela posição do segmento distal em relação ao proximal (medial, lateral, anterior, posterior), exceto nas cabeças do fêmur e do úmero, descritas em relação à diáfise. A magnitude é a distância horizontal entre os eixos anatômicos dos dois segmentos, medida no nível da extremidade proximal do segmento distal.

Outra forma de ver o mesmo fato: o Rockwood lembra que uma translação pode ser representada como duas angulações iguais e opostas. Por isso, quando o cruzamento dos eixos não coincide com o ponto óbvio da deformidade, a explicação é ou um segundo ápice (multiapical) ou essa translação.

As regras da osteotomia

Cobrança confirmada · 2 questões

Três elementos: CORA, eixo de correção e osteotomia

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 31), organiza toda a correção em três elementos. O CORA é definido pela deformidade (tipo, direção e magnitude). O eixo de correção é o ponto (na verdade um eixo perpendicular ao plano) em torno do qual os fragmentos de fato giram, e depende do tipo e local da osteotomia, das partes moles e da fixação escolhida. A osteotomia é o corte. A relação entre os três determina o resultado, e há só três possibilidades (as "regras da osteotomia" da escola de PALEY):

1. CORA, eixo de correção e osteotomia no mesmo lugar: o osso se realinha só por angulação, sem translação. 2. CORA e eixo de correção juntos, mas osteotomia acima ou abaixo: o osso se realinha por angulação e translação (a translação é necessária e correta). 3. Eixo de correção fora do CORA (e osteotomia em outro lugar): os eixos ficam paralelos, mas sobra translação iatrogênica, uma deformidade nova criada pelo cirurgião.

O mecanismo é intuitivo: girar em torno do CORA (ou de qualquer ponto da bissetriz) devolve os eixos à mesma reta. Se o corte não passa pelo CORA, o fragmento precisa escorregar para que os eixos se encontrem, e é essa translação que a regra 2 aceita. Se o giro é feito em torno de um ponto que não está na bissetriz, os eixos ficam paralelos mas desencontrados.

As três regras da osteotomia (Rockwood and Green, cap. 31, Fig. 31-17)
SituaçãoResultado
CORA, eixo de correção e osteotomia no mesmo pontorealinhamento só por angulação
CORA e eixo juntos, osteotomia proximal ou distalangulação mais translação (desejada)
eixo de correção fora do CORAeixos paralelos com translação iatrogênica

Onde fica o eixo: abertura, neutra ou fechamento

Dentro da regra 1, o eixo (sobre a bissetriz) pode estar em três posições, e cada uma muda o comprimento final:

  • Eixo na cortical convexa: a cortical côncava é distraída e abre-se um espaço em cunha que atravessa todo o diâmetro: cunha de abertura, que alonga o osso.
  • Eixo no meio do osso: a côncava abre e a convexa comprime; tira-se uma cunha do lado convexo: cunha neutra, sem efeito no comprimento.
  • Eixo na cortical côncava: a cortical convexa é comprimida e é preciso tirar uma cunha de todo o diâmetro: cunha de fechamento, que encurta.

A forma mais fácil de guardar: o lado em que está o eixo é a dobra da porta; o lado oposto é o que se move. Se a dobra está na convexidade, o lado côncavo abre. Se a dobra está na concavidade, o lado convexo fecha.

No fixador circular, as dobradiças são o eixo físico em torno do qual os anéis giram, ou seja, materializam o eixo de correção. O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 20, p. 853), diz que a correção gradual com fixador externo é a forma mais fácil de corrigir com a translação certa, com as dobradiças colocadas num local que facilite essa correção. Por isso a pergunta clássica do TARO: dobradiça no lado convexo da bissetriz do CORA gera cunha de abertura; no lado côncavo, cunha de fechamento; no meio, neutra.

Cunha e cúpula pela posição do eixo de correção (Rockwood and Green, cap. 31, Figs. 31-18 a 31-20)
Posição do CORA e do eixo de correçãoCunhaCúpulaComprimento
cortical convexaaberturacúpula de aberturaaumenta
meio do ossoneutracúpula neutranão muda
cortical côncavafechamentocúpula de fechamentodiminui

A osteotomia em cúpula

A cúpula (que, como lembra o Rockwood, é cilíndrica e não uma cúpula verdadeira) tem uma diferença essencial: o corte nunca passa pelo eixo de correção, porque o eixo é o centro do arco. Assim, toda cúpula corrige com translação. A cúpula raramente precisa de ressecção óssea, porque um segmento desliza sobre o outro. O Campbell (cap. 63, p. 2854) acrescenta, na osteotomia supramaleolar, que a cúpula não sacrifica comprimento, mas é mais eficaz no plano frontal que no sagital; a cunha de fechamento dá superfícies largas para consolidar mas encurta; a de abertura mantém comprimento mas pede enxerto.

Diáfise e metáfise

Para o Rockwood, a angulação diafisária é a mais fácil: cunha no nível do CORA e do eixo. Na deformidade justa-articular, o CORA pode estar perto demais da articulação para uma cunha no próprio nível, e a solução é a cúpula acima ou abaixo do CORA. O Tachdjian (p. 853) traz o mesmo problema na criança: o ápice da deformidade muitas vezes está na fise ou na epífise, onde não se corta; a osteotomia é feita na metáfise vizinha, e corrigir só a angulação deixaria o eixo mecânico do segmento distal transladado (o exemplo é a osteotomia valgizante abaixo da tuberosidade no BLOUNT, que deixa o eixo da tíbia distal medial). Para evitar isso, o fragmento distal precisa ser transladado na direção certa, o que é mais fácil com fixador externo e dobradiças bem posicionadas, ou com um pino de STEINMANN e gesso; com fixação interna rígida, o eixo costuma ficar desviado.

Corrigindo cada tipo de deformidade e a osteotomia em concha

Cobrança confirmada · 1 questão

Por tipo

O Rockwood and Green's Fractures in Adults, 10ª ed. (cap. 31), propõe caracterizar cada componente separadamente (comprimento, angulação, rotação, translação) e só então decidir quais merecem correção; translações pequenas e angulações sagitais discretas podem ficar sem tratamento.

  • Comprimento: correção aguda (distração com enxerto ou ressecção e compressão) é limitada pelas partes moles. No membro superior 3 a 4 cm de encurtamento são bem tolerados; no inferior, até 2 cm com palmilha, 2 a 4 cm tolerados mal e mais de 4 cm se beneficiam de restaurar o osso. Em ossos pareados, encurtar a tíbia exige ressecar parte da fíbula. A correção gradual usa corticotomia (geralmente metafisária) e distração de 1 mm por dia em 0,25 mm quatro vezes.
  • Angulação: aguda ou gradual; gradual quando nervos, vasos ou pele frágil estão na concavidade (a correção aguda os estiraria).
  • Rotação: osteotomia transversa.
  • Translação: três jeitos: (1) osteotomia transversa com translação pura, que não precisa estar no nível da deformidade; (2) oblíqua no nível, que realinha e ganha comprimento; (3) duas cunhas iguais e opostas, uma em cada CORA.
  • Combinadas: angulação com translação podem ser corrigidas por um só corte no ápice da angulação, reduzindo uma de cada vez, o que mantém os canais medulares congruentes e permite haste intramedular; tratá-las como dois CORAs alinha o eixo mas deixa canais desencontrados e impede a haste. Angulação com rotação: um só giro em torno de um eixo oblíquo, com o corte passando pelo CORA.

A osteotomia em concha (clamshell)

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 63, p. 2856 e 2859), e o Rockwood descrevem a osteotomia em concha de RUSSELL para consolidações viciosas diafisárias complexas do fêmur e da tíbia, especialmente úteis quando o segmento malalinhado é longo. São três cortes: o segmento deformado é cortado perpendicular à diáfise normal em cima e embaixo, e um corte longitudinal o abre "como uma concha". Uma haste intramedular alinha os segmentos proximal e distal pelo eixo anatômico, corrigindo angulação e translação nos planos frontal e sagital; os fragmentos da concha consolidam entre si e com as extremidades por consolidação secundária. Antes do bloqueio, rotação e comprimento são acertados pelo membro contralateral. Serve também como derrotação ou encurtamento.

O que a prova quer são as contraindicações, listadas no Campbell (p. 2860): envelope de partes moles inadequado para exposição aberta, consolidação viciosa metafisária, osteomielite intramedular, canal medular ausente, obesidade mórbida, fises abertas e alongamento da tíbia acima de 3 cm. A lógica é a da técnica: ela depende de uma haste intramedular passando por um canal diafisário (por isso metáfise, canal ausente, osteomielite do canal e fises abertas a impedem) e de um segmento aberto que consolida por si; um alongamento grande deixaria falhas demais.

Consolidação viciosa: quando operar

Relevância clínica

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 63, p. 2841), começa por um princípio: a consolidação viciosa só tem importância cirúrgica quando prejudica a função; cirurgia por estética quase nunca se justifica. A deformidade prejudica por quatro caminhos: superfície articular irregular (artrose), rotação ou angulação que atrapalham o equilíbrio e a marcha, encurtamento perceptível e bloqueio de articulações vizinhas. A cirurgia não deve ser considerada antes de 6 a 12 meses da fratura, salvo nas fraturas articulares. A ordem de importância na aceitação de uma redução é alinhamento, rotação, comprimento e, por último, a posição dos fragmentos. Abaixo de 9 anos, deformidades no plano de movimento de uma articulação podem se corrigir com o crescimento.

Limites para a consolidação viciosa da tíbia (Campbell 15, cap. 63, p. 2855)
ParâmetroDefinição de consolidação viciosa (revisão de PATEL)Indicação cirúrgica citada
angulação5 a 10 grausvalgo acima de 12 graus; varo acima de 6 graus
encurtamento1 a 2 cmaté 2 cm tolerado com calçado; acima de 2,5 cm incapacita
rotação interna10 a 15 grausacima de 10 graus
rotação externa10 a 20 grausacima de 15 graus

No planejamento (p. 2856), mede-se angulação, rotação, discrepância e translação; desenham-se os dois membros; usam-se potenciais evocados em correções grandes, sobretudo com alongamento. A osteotomia oblíqua, perpendicular ao plano de deformidade máxima, dá superfície larga e permite alongar deslizando os fragmentos; com placa e parafuso de compressão, serve para alongamentos menores que 2,5 cm (p. 2857). O equino por contratura do tendão calcâneo, comum na consolidação viciosa da tíbia, é corrigido alongando o tendão. Se o tecido mole é ruim ou há infecção, a escolha passa a ser o ILIZAROV, com corticotomia e correção gradual. A haste intramedular exige abrir o canal nas duas pontas da fratura antiga, e fixador prévio com infecção de pino é contraindicação relativa (esperar semanas após a retirada).

Discrepância de membros: avaliação e medida

Fundamento

Por que importa

Para o Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 31, p. 1101), a desigualdade não é só estética. A marcha do membro curto gasta mais energia pela subida e descida excessiva da pelve ou pelos movimentos compensatórios do tornozelo, e discrepâncias grandes e antigas podem dar dor lombar; há relatos de escoliose compensatória com 1,2 a 5,2 cm. Por outro lado, diferenças de 0,5 a 2 cm são comuns na população normal (10% a 12%). O limite tradicional de 2,5 cm como "significativo" não tem suporte exato na literatura. O Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed. (cap. 20, p. 825), dá o dado mais firme: acima de 5% (cerca de 4 cm na maturidade de um paciente do percentil 50) o laboratório de marcha mostra alteração de mecânica e de consumo de energia, e a criança passa a andar na ponta do pé. O HEBERT (cap. 23) diz que a assimetria da marcha aparece acima de 2 cm e que a relação com lombalgia no adulto não é consenso.

O Lovell and Winter's Pediatric Orthopaedics, 7ª ed. (cap. 28, p. 1341), separa três conceitos: a discrepância estrutural (verdadeira), diferença real de um segmento (fêmur, tíbia, pé); a aparente (postural), criada por contratura, luxação ou angulação; e a funcional, que é a soma das duas e a que decide o tratamento.

Causas, exame e imagem

O Campbell (p. 1101) agrupa as causas: adquiridas (trauma ou infecção da fise, paralisias assimétricas como poliomielite e paralisia cerebral, tumores), estímulo do crescimento (artrite idiopática juvenil, hipervascularização após fratura), hemi-hipoplasia e hemi-hiperplasia idiopáticas, e congênitas (deficiência femoral, hemimelia fibular, hemimelia tibial).

O jeito mais fácil de medir, para o Campbell (p. 1101), é pôr blocos de altura conhecida sob o membro curto até nivelar a pelve; erra quando a pelve é assimétrica ou oblíqua. A fita da espinha ilíaca anterossuperior ao maléolo medial é imprecisa pela posição. O GALEAZZI (quadris e joelhos fletidos) localiza a diferença no fêmur ou na tíbia. Na diplegia espástica, contraturas em flexão fazem o membro parecer mais curto do que é, e um leve encurtamento do lado parético até ajuda o pé a passar no balanço. O HEBERT chama o uso dos blocos de "teste do conforto" e lembra que a diferença compensada pode diferir da radiográfica por causa da altura do pé.

Na imagem (p. 1102 e 1103), a ortorradiografia em pé mostra o alinhamento com menos radiação, mas tem mais paralaxe; o escanograma tem pouca paralaxe, mas exige três disparos com a criança imóvel; a TC e o EOS (biplanar, em pé) reduzem radiação e erro. As patelas olham para frente. A idade óssea vem do GREULICH e PYLE, desnecessário abaixo de 5 anos e com desvio de "uma página para cada lado"; a escala de SANDERS ganhou espaço.

Previsão do crescimento e da discrepância final

Fundamento

A base: quanto cada fise cresce

Toda previsão parte dos dados de ANDERSON, GREEN e MESSNER. O Tachdjian (p. 815) resume: 71% do crescimento do fêmur ocorre no distal e 57% do crescimento da tíbia no proximal; entre 6 e 9 anos o fêmur cresce cerca de 2,0 cm/ano e a tíbia 1,6 cm/ano; o estirão vem depois dos 9 anos (pico entre 10 e 12 nas meninas e 12 e 14 nos meninos) e o crescimento dura cerca de 2 anos depois dele. A variação é enorme: uma menina de idade óssea 10 anos e 3 meses tem mediana de 4,1 cm restantes no fêmur distal, mas os extremos vão de 2,2 a 7,2 cm (p. 816). Usar a idade óssea em vez da cronológica não muda a média, mas estreita a variação.

O Lovell and Winter (p. 1342, aprox.) cita os mesmos números de ANDERSON como 71% femoral distal e 51% tibial proximal, uma divergência de transcrição em relação aos 57% do Tachdjian e aos 0,57 da fórmula do Campbell; o valor que entra nas contas do multiplicador é 0,57.

Os métodos

Métodos de previsão da discrepância (Campbell 15, cap. 31, p. 1104 a 1107; Tachdjian, cap. 20, p. 815 a 819; HEBERT, cap. 23)
MétodoIdeiaPontos fortesFraquezas
GREEN-ANDERSON (crescimento remanescente)gráfico do crescimento restante do fêmur distal e da tíbia proximal pela idade ósseaprimeiro e clássicocurvo; ignora estatura e inibição; erro maior
MOSELEY (linha reta, 1977)reanálise matemática dos dados de ANDERSON; cada perna vira uma reta; nomograma de idade ósseavisual; erro médio de 0,6 cm contra 0,9 do ANDERSONpede várias medidas e idade óssea; ignora altura do pé
MENELAUS (aritmético, de WHITE)crescimento fixo por ano e fim aos 14 (meninas) e 16 (meninos)sem gráfico; idade cronológicasó serve perto do fim do crescimento
multiplicador de PALEYcomprimento na maturidade dividido pelo comprimento atual, por idade e sexouma medida basta; mais acurado nas epifisiodeses; aplicativosupõe inibição constante; impreciso em malformações vasculares
DIMEGLIOjoelho cresce 2 cm/ano; puberdade em idade óssea 11 (meninas) e 13 (meninos)quatro cenários prontos de epifisiodeseindividualizar

O MOSELEY simplificou o GREEN-ANDERSON manipulando a escala do eixo horizontal para que o crescimento de cada perna virasse uma linha reta (Tachdjian, p. 818). No gráfico, a discrepância é a distância vertical entre as retas; a inibição é a diferença de inclinação, tomando a perna normal como 100%; a linha de referência é a perna normal, não necessariamente a mais longa (na hemi-hipertrofia, o membro anormal é o longo). O efeito da epifisiodese é desenhado mudando a inclinação da perna operada pela inclinação de referência: 37% para o fêmur distal e 28% para a tíbia proximal (Tachdjian, p. 862); o alongamento apenas desloca a reta para cima, sem mudar a inclinação, porque não mexe nas fises, e por isso o seu momento não é crítico. O momento da epifisiodese, no MOSELEY, é definido pelo comprimento da perna normal, não pelo calendário. No exemplo do Campbell (Fig. 31.104, p. 1104), um menino de 9 anos com 70 e 67 cm tem projeção de 92 e 87 cm, e a epifisiodese do fêmur distal e da tíbia proximal deve ser feita quando a perna longa medir 84 cm.

O MENELAUS é a versão aritmética do método de WHITE. Aqui os livros divergem nos números, e vale saber todos:

Crescimento anual pelas regras aritméticas (Campbell 15, p. 1105; Tachdjian, p. 818; Lovell and Winter, p. 1363; HEBERT, cap. 23)
FonteFêmur distalTíbia proximalFim do crescimento
WHITE original (Tachdjian)3/8 pol1/4 pol17 anos (meninos), 16 (meninas)
MENELAUS (Campbell e Tachdjian)3/8 pol (9 mm)1/4 pol (6 mm)16 (meninos), 14 (meninas)
Lovell and Winter e HEBERT10 mm6 mm16 (meninos), 14 (meninas)
DIMEGLIO (HEBERT)1,1 cm0,9 cmidade óssea 15,5 (meninos), 13,5 (meninas)

O multiplicador de PALEY

O Campbell (p. 1105 a 1107) explica a origem: PALEY, BHAVE, HERZENBERG e BOWEN dividiram os comprimentos do fêmur e da tíbia na maturidade (Lm) pelos comprimentos em cada idade (L), por percentil; o resultado é o multiplicador (M). A conta é rápida, sem gráfico, com uma ou duas medidas, e vale para fêmur, tíbia ou o membro todo incluindo a altura do pé. Nas validações, foi tão acurado quanto o MOSELEY nos alongamentos e mais acurado nas epifisiodeses, e mais acurado que MOSELEY e ANDERSON em dois estudos posteriores. O Tachdjian (p. 819) faz a ressalva de que, nas malformações vasculares, o multiplicador foi menos acurado que os métodos por idade óssea; o HEBERT diz que ele teve a mesma acurácia usando idade cronológica e que nenhum método se mostrou consistentemente superior.

Fórmulas do multiplicador (Campbell 15, cap. 31, Tabela 31.6, p. 1106 e 1107)
SituaçãoFórmulaExemplos
comprimento na maturidadeLm = L × Mqualquer osso, membro curto ou longo
discrepância congênitaDm = D × Mfêmur curto congênito, hemimelia fibular, hemi-hipertrofia, hemiatrofia
discrepância do desenvolvimentoDm = D + (I × G), com I = 1 − (S − S')/(L − L') e G = L(M − 1)OLLIER, poliomielite, parada de crescimento; também após alongamentos
momento da epifisiodeseLe = Lm − Ge e Me = Lm/Le; achar a idade com esse MGe = e/0,71 no fêmur e e/0,57 na tíbia

O raciocínio por trás das duas fórmulas principais é o que a prova de pediatria explora. Na congênita, a inibição é proporcional e constante: o membro curto cresce sempre uma fração fixa do normal, então a discrepância cresce na mesma proporção que o osso, e basta multiplicar a diferença atual por M. Na do desenvolvimento (uma fise lesada num certo momento), a diferença existente fica e soma-se a ela o crescimento restante do membro longo (G) vezes a taxa de inibição (I), calculada com duas medidas separadas por 6 a 12 meses. No momento da epifisiodese, divide-se a correção desejada pela contribuição da fise (0,71 no fêmur distal, 0,57 na tíbia proximal) para saber quanto crescimento precisa restar.

Limites da previsão

O Tachdjian (p. 821) lembra que nem toda inibição é linear: SHAPIRO descreveu cinco padrões, e o sobrecrescimento pós-fratura do fêmur costuma subir e estabilizar (85% em 3,5 anos); no PERTHES e na artrite idiopática juvenil a discrepância pode subir e depois diminuir. BLAIR viu só 22 de 67 epifisiodeses terminarem com menos de 1 cm, e 35 falhas vieram do uso errado das tabelas (p. 822 e 823). O Campbell resume: todos os métodos são aproximações, e uma discrepância final de 1 a 1,5 cm é um resultado excelente (p. 1107).

Tratamento da discrepância: compensação, epifisiodese e encurtamento

Fundamento

Objetivo e opções

O Campbell (p. 1107) define o objetivo como coluna e pelve equilibradas, membros iguais e eixo mecânico correto; numa escoliose rígida com saída lombossacra oblíqua, alguma desigualdade pode ser desejável para manter o tronco equilibrado. São quatro opções: palmilha ou prótese, epifisiodese do membro longo, encurtamento do longo (quem já é velho para a epifisiodese) e alongamento do curto, além da combinação de alongamento ipsilateral com epifisiodese contralateral, que diminui o quanto é preciso alongar. O Campbell observa que "fisiodese" seria o termo correto, já que se para a fise e não a epífise.

Tratamento pela discrepância prevista (Campbell 15, p. 1107 e 1108; Tachdjian, Tabela 20.5, p. 826; Lovell and Winter, p. 1361)
FaixaCampbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.Tachdjian's Pediatric Orthopaedics, 6ª ed.Lovell and Winter's, 7ª ed.
pequenaaté 1,5 cm nada; palmilha de 1 cm se quisernada abaixo de 2 cm0 a 2 cm nada
compensação2 a 4 cm por fora do sapato; 5 a 10 cm instávelacima de 2 cm e no toe-walker; acima de 8 cm instávelparte de 2 a 6 cm
epifisiodese2 a 5 cm; não acima de 5 cmacima de 2 cm previstos; não sozinha acima de 8 cm2 a 6 cm
encurtamento agudomaduro com mais de 2 cm; fêmur 5 a 6 cm, tíbia 2 a 3 cmmaduro: fêmur 2 a 5 cm, tíbia 2 a 3 cmparte de 2 a 6 cm; fêmur até 10% do osso
alongamentoquando o resto não bastafêmur acima de 4 cm ou com deformidade angular6 a 20 cm
amputação e próteseconversão SYME ou BOYDprótese de extensão em quem pulaacima de 20 cm

A divergência sobre o teto da epifisiodese é antiga. O Campbell (p. 1108) registra que a maioria indica para 2 a 5 cm, que MENELAUS chegou a usá-la para 8 a 10 cm para fugir das complicações do alongamento, e que hoje ela não é recomendada acima de 5 cm. O Tachdjian aceita como único recurso só até 8 cm; o Lovell and Winter fala em 2 a 6 cm; o HEBERT, em 3 a 5 cm. O Lovell and Winter acrescenta a regra prática de não alongar abaixo de 6 cm (exceto quando já há uma osteotomia de correção por onde alongar, ou na baixa estatura que não aceita encurtar).

Compensação

Palmilhas internas cabem até cerca de 1 cm; acima disso o sapato aperta e a compensação vai para a sola (Campbell, p. 1107; Tachdjian, p. 826; HEBERT). A palmilha não precisa compensar tudo, porque ninguém fica em pé com joelhos e quadris totalmente estendidos. Compensações de 5 a 10 cm são feias e instáveis e podem pedir uma órtese de tornozelo. A prótese de extensão mantém o pé em equino dentro de uma prótese com pé artificial abaixo; quando a deformidade é grande, o Campbell prefere a conversão por SYME ou BOYD.

Epifisiodese

O Campbell (p. 1108) explica a escolha: alongar seria o ideal teórico, mas as dificuldades e complicações fizeram da epifisiodese a opção para discrepâncias pequenas na criança em crescimento, simples, com pouca morbidade e recuperação rápida. As desvantagens de qualquer método que encurta são quatro: opera-se o membro normal; as proporções podem desagradar; o encurtamento é limitado pela incapacidade do músculo de se adaptar a mais de 5 cm; e a altura final pode ficar baixa demais.

O Lovell and Winter (p. 1362 e 1363) dá a perda de crescimento do membro após cada epifisiodese: 27% (tíbia proximal), 38% (fêmur distal) e 65% (as duas); são três escolhas discretas, e a quantidade certa só se obtém operando na hora certa: cedo demais, hipercorreção; tarde demais, subcorreção. Por isso recomenda mirar 0,5 a 1 cm de subcorreção, fazendo o procedimento um pouco depois do tempo ideal. Para manter a altura dos joelhos, opera-se o osso que corresponde ao mais curto do outro lado. Indicação clássica: o menino de 12 anos com parada traumática do fêmur distal deve fazer epifisiodese contralateral imediata para evitar os 4 cm esperados. O HEBERT escolhe entre definitiva e temporária pelo crescimento restante: definitiva quando o crescimento previsto é semelhante à dismetria; temporária quando é maior.

Técnicas de epifisiodese (Campbell 15, p. 1108 e 1111; Tachdjian, p. 827; HEBERT)
TécnicaComoObservações
PHEMISTER (1933)bloco de cortical de cerca de 3 × 1,5 × 1 cm retirado, fise curetada, bloco recolocado invertidooriginal, aberta
percutânea (CANALE)broca ou curetas pela fise sob fluoroscopiafise ondulada; ablar o máximo, inclusive anterior e posterior
PETS (MÉTAIZEAU)parafusos transfisários cruzadossimples, rápida, potencialmente reversível, também angular; efeito tardio: fazer até 1 ano antes
grampos de BLOUNTtrês de cada lado, sem descolar o periósteoretomada imprevisível, extrusão, deformidade
placa em banda de tensãodos dois lados da fiseinferior à ablação para epifisiodese completa; parafusos divergentes; placa de dois furos falha

A complicação mais comum nas grandes séries é a deformidade angular indesejada (Campbell, p. 1108); também nervo cutâneo preso, infecção, parada assimétrica, sub e hipercorreção e falha do implante. A epifisiodese proximal da fíbula só é feita se a correção tibial passar de 2 cm, e com incisão para proteger o nervo fibular (p. 1111).

Encurtamento

O Campbell (p. 1112) reserva o encurtamento ao esqueleto maduro com mais de 2 cm. No fêmur, o máximo sem prejudicar o músculo é 5 a 6 cm; na tíbia, 2 a 3 cm (até 5 cm relatados). O fêmur tolera melhor (envelope muscular maior, fechamento fácil, consolidação rápida), mas se a diferença é tibial encurta-se a tíbia para nivelar os joelhos. Osteotomia metafisária quando também é preciso corrigir angulação ou rotação; diafisária quando é só encurtamento. A proximal do fêmur dá menos complicações e preserva mais o quadríceps que a distal. Com haste bloqueada, a diafisária ficou preferível; espera-se a maturidade ou entra-se pelo trocânter, não pela fossa piriforme, para evitar necrose da cabeça. O Lovell and Winter (p. 1361) e o HEBERT limitam o encurtamento femoral a cerca de 10% do osso (mais que isso enfraquece) e alertam para a coxa "bulbosa". O HEBERT lembra o risco de tromboembolismo pela tortuosidade venosa. Diferente do alongamento, a rigidez articular é rara, porque o músculo fica frouxo.

Alongamento por distração: biologia, latência e ritmo

Cobrança confirmada · 2 questões

O que é a calotasia

O Campbell (cap. 31, p. 1115) descreve o princípio desde PUTTI (1921): corticotomia de baixa energia (múltiplos furos percutâneos unidos com osteótomo), com cuidado para não lesar as partes moles; período de latência para que o calo inicial se forme; distração gradual com um aparelho; e consolidação. ILIZAROV defendia preservar a artéria medular; DEBASTIANI preferia furos e osteótomo. O Tachdjian (p. 840) esclarece a controvérsia: estudos posteriores mostraram que o fator crítico é minimizar a lesão das partes moles e evitar necrose por calor (serra oscilante), não preservar a circulação medular, e que o tipo de aparelho também não importa tanto quanto a manipulação gradual do calo após a latência certa. O HEBERT ainda escreve que o importante é manter o suprimento intramedular e evitar a serra; os dois livros concordam em poupar as partes moles e o calor.

O efeito tensão-estresse e o regenerado

ILIZAROV chamou de "efeito tensão-estresse na gênese e no crescimento dos tecidos" a resposta ao estiramento gradual: com o envelope de partes moles preservado, a tensão estimula a neogênese não só de osso, mas de pele, vasos, nervos periféricos e músculo (Tachdjian, p. 841). O Rockwood and Green (cap. 31) descreve neovascularização e proliferação celular em muitos tecidos, com fluxo sanguíneo quase 10 vezes maior no local da distração em cães (ARONSON).

O regenerado tem colágeno denso em feixes longitudinais e uma "zona de crescimento" central que lembra uma fise; a ossificação é principalmente intramembranosa, com ou sem fase cartilaginosa (Tachdjian, p. 842; Rockwood). O HEBERT descreve as fases coloidal, angiogênica, fibrilar, lamelar e inorgânica, sem nódulo cartilaginoso.

Os tecidos não respondem igual (Tachdjian, p. 843). O osso é o que melhor se regenera. O músculo tolera cerca de 15% a 20% do comprimento do segmento; acima disso, as complicações disparam, e há fibrose do epimísio e do perimísio. O nervo é sensível: estiramento agudo de 12% abole a condução do tibial, e perde-se mielina com apenas 8%; houve lesão nervosa em 9,3% de 814 alongamentos. A cartilagem articular é o único tecido que só sofre efeitos deletérios. Essa hierarquia é a que a questão de "metaplasia" quer: o osso no topo e os tecidos densos, pouco vascularizados, embaixo.

As fases e os números

Fases do alongamento por distração (Campbell 15, p. 1115, 1118, 1123 e 1126; Rockwood and Green, cap. 31; Tachdjian, p. 840 a 842; Lovell and Winter, p. 1378; HEBERT)
FaseCampbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed.Outros livros
corticotomiabaixa energia, furos e osteótomo, partes moles preservadasmetáfise regenera melhor que diáfise (Rockwood, Tachdjian)
latência1 a 3 semanas (princípio); tíbia 5 a 7 dias; fêmur 4 a 6 dias; em crianças, 5 dias no fêmur e 7 na tíbia; mais longa no idoso e com vascularização ruimRockwood 7 a 14 dias; Lovell and Winter e HEBERT 3 a 14 dias; Tachdjian 3 a 21 dias
distração (ritmo diário)cerca de 1 mm/diatodos: 1 mm/dia
frequência (ritmo)quatro vezes de 0,25 mm (café, almoço, jantar e deitar)Tachdjian e HEBERT: 0,25 a cada 6 h
primeira radiografia7 a 10 dias após iniciarLovell and Winter: 1 semana
regenerado visível4 a 6 semanasajustar ritmo pela imagem
consolidaçãoaté corticalização; carga total com três de quatro corticais (haste)Rockwood: duas a três vezes a distração; Tachdjian e HEBERT: cerca do dobro
tempo totalpelo menos 1 mês por cm (índice de alongamento)Tachdjian: índice de consolidação de cerca de 30 dias/cm; Lovell and Winter: 1 mês de fixador por cm

A latência existe porque é nela que o local da osteotomia atravessa a fase inflamatória, as partes moles se estabilizam, forma-se o calo e a circulação (inclusive medular) se reconstitui (Tachdjian, p. 842; Lovell and Winter, p. 1378). Ela deve ser mais longa no paciente mais velho, na diáfise, no osso já operado ou traumatizado e na vascularização ruim. Latência excessiva causa consolidação prematura (Campbell, p. 1126); latência curta com distração rápida causa regenerado pobre. O ritmo de 1 mm/dia é o que, experimentalmente, ILIZAROV achou ideal; dividir em quatro passos (o "ritmo") dá formação óssea adequada, e o Tachdjian cita que frações ainda menores protegem melhor a cartilagem. O ritmo não é fixo: aumenta-se se o calo é exuberante e reduz-se (ou para-se, ou até se recua) se o regenerado é fraco.

O índice tem nomes diferentes. O Campbell chama de índice de alongamento ("lengthening index") a regra de deixar o aparelho pelo menos 1 mês para cada 1 cm; o Tachdjian chama de "healing index" (índice de consolidação) o tempo total de fixador por centímetro, cerca de 30 dias/cm. Na prática é a mesma ideia: o tempo de fixador cresce linearmente com o ganho. O HEBERT resume como "cerca de 1 cm por mês".

O Lovell and Winter (p. 1378) dá os critérios de retirada: corticalização com três corticais visíveis em duas incidências e aparecimento do canal medular, embora a decisão seja empírica; dinamizar o aparelho estimula o regenerado; DEXA, ultrassom, campo eletromagnético e bisfosfonatos foram usados; e manda parar o alongamento se surgir contratura em extensão do joelho acima de 30 graus. Ele também fixa metas: alongar 15% a 20% do osso por vez (num fêmur de 30 cm, 4,5 a 6 cm), não esperar mais de 8 a 10 cm sem complicação, e considerar amputação e prótese quando a previsão chega a 15 a 20 cm (p. 1377). Em osso irradiado o regenerado não se forma.

A hemicalotasia de TURI

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 10, p. 507), descreve, entre as osteotomias valgizantes da tíbia proximal, a osteotomia de abertura medial por hemicalotasia com fixador dinâmico uniplanar (técnica 10.12, TURI e colaboradores): osteotomia medial abaixo da tuberosidade, fixador dinâmico (Orthofix), e a partir do 7º dia de pós-operatório distração de 0,25 mm quatro vezes ao dia até a correção. A distração de 0,25 mm quatro vezes deu maior densidade mineral que 0,125 mm oito vezes; ultrassom pulsado na consolidação acelera a maturação; a fase de consolidação começa quando a densidade do gap permite tirar o fixador. Sobrevida de 89% em 5 anos e 63% em 10; complicações em até 76% (infecção de pino, TVP, erro técnico, artrite séptica). "Hemi" porque só metade do osso (o lado medial) é aberta: é uma cunha de abertura gradual, com o eixo na cortical lateral, exatamente a regra da convexidade aplicada ao varo.

Fixadores externos, hexápodes e hastes de alongamento

Fundamento

Fixadores: tipos e estabilidade

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 58, p. 2552 e 2554), divide os fixadores em de pinos (simples ou com grampos de pinos) e de anéis (completos ou parciais, ancorados por fios de 1,5 a 2,0 mm tensionados ou pinos), e os híbridos. A estabilidade do fixador de pinos aumenta com pinos de maior diâmetro, menor distância osso-barra, mais pinos, maior espaçamento entre eles, pinos em planos diferentes e barras adicionais.

O ILIZAROV (p. 2556) é só 25% tão rígido axialmente quanto um fixador unilateral, mas semelhante em flexão e cisalhamento: essa elasticidade axial é o "efeito trampolim" que o Rockwood descreve, carga e descarga axial durante a marcha. Os fatores mais importantes da estabilidade são o diâmetro e a tensão dos fios; depois, tamanho, número e posição dos anéis, divergência dos fios, olivas e a carga de distração ou compressão.

Hexápodes

O hexápode (TAYLOR) nasceu de uma limitação: o ILIZAROV corrige mal a rotação (Campbell, cap. 58, p. 2556). São dois anéis ligados por seis hastes telescópicas independentes; um programa localiza a deformidade no espaço e calcula o ajuste diário de cada haste, corrigindo deformidades multiplanares ao mesmo tempo, sem voltar à sala (Rockwood; Tachdjian, p. 859; HEBERT). O Rockwood explica a matemática: toda deformidade se descreve por seis parâmetros, três rotações e três translações; os anéis são fixados perpendiculares aos segmentos, e as hastes são ajustadas até os anéis ficarem paralelos. O Campbell (cap. 31, p. 1116) é equilibrado: curva de aprendizado íngreme e custo alto; sem diferença no índice de alongamento e nas complicações em relação ao ILIZAROV, mas rotação, translação e deformidade residual são mais fáceis de corrigir.

Alongamento sobre haste e hastes de alongamento

O fixador sobre haste intramedular, bloqueada ao fim da distração, permite tirar o fixador mais cedo; o HEBERT diz que reduz o tempo de fixador pela metade (Campbell, p. 1124). As hastes de alongamento eliminam pino e transfixação de partes moles, mantêm o alinhamento e são mais confortáveis (Campbell, p. 1116). Ativam-se por rotação ou marcha (ISKD, Albizzia, com catraca), por motor elétrico (FITBONE) ou por campo magnético externo (PRECICE). As hastes magnéticas "revolucionaram" o alongamento e mudaram as indicações de epifisiodese e encurtamento contralaterais. O ISKD tem ritmo difícil de controlar; o Rockwood cita 53% de complicações com ele e 18% a 70% com o PRECICE em séries diferentes.

Duas limitações cobradas: a haste só alonga em um plano, então não corrige angulação gradualmente; a deformidade angular é corrigida na hora da inserção (Campbell, p. 1116). E ela alonga pelo eixo anatômico, não pelo mecânico; no fêmur, o Rockwood estima 1 mm de desvio lateral do eixo mecânico para cada 1 cm alongado, o que deve entrar no planejamento do ponto de entrada, do nível do corte e da translação inicial (Campbell, p. 1127).

Complicações do alongamento

Relevância clínica

O Tachdjian (p. 844) mostra a dimensão do problema: complicações de 14% a 134% dos segmentos alongados (mais de uma por segmento), números que dependem de definição. PALEY as classificou em problemas (resolvidos sem cirurgia), obstáculos (precisam de cirurgia, sem sequela) e complicações verdadeiras (lesão intraoperatória ou sequela permanente); WAGNER separava problemas inevitáveis de complicações evitáveis. O HEBERT diz que o sucesso depende mais da ausência de complicações que do comprimento ganho, e que elas aumentam com o tamanho do alongamento. O Lovell and Winter acrescenta que os congênitos se complicam mais que as lesões fisárias, e que as displasias esqueléticas são as mais fáceis (partes moles relativamente longas).

Principais complicações e o que fazer (Campbell 15, cap. 31, p. 1125 a 1127; Tachdjian, p. 844 a 846; cap. 58, p. 2552 a 2554)
ComplicaçãoCausa ou fatorConduta
infecção do trajeto do pinoa mais comum; até 30% (cap. 58), quase universal no alongamentotécnica de inserção, curativo compressivo, antisséptico em pouca quantidade
contratura muscular (a mais difícil)tríceps sural (tíbia); quadríceps e isquiotibiais (fêmur)órteses noturnas desde a 1ª semana; pé neutro acima de 4 a 5 cm; alongar o tendão calcâneo
subluxação do quadril ou do joelhoalongamento femoral, PFFD, displasia, cruzados deficientescentro-borda de 15 a 20 graus antes, senão osteotomia pélvica; estender o fixador ao joelho; parar ou reverter
lesão nervosapino mal posto ou estiramentoreduzir ou parar a distração; descomprimir o fibular na cabeça da fíbula
consolidação prematuralatência excessiva, ritmo baixo, falha do aparelho"pop" e dor = ruptura do regenerado; recuar até o contato antes de recomeçar (senão cisto e pseudartrose)
consolidação tardia ou regenerado pobrediáfise, instabilidade, descolamento periosteal, ritmo rápido após latência curta, Gigli em cortical espessadesacelerar, parar, comprimir, alternar; enxerto como último recurso; aspirado de medula com PRP
corticotomia incompletavia mínimaGigli ou distração intraoperatória; radiografia nos primeiros dias
fratura ou dobra do regeneradoretirada precoce10% a 15%; manter mais tempo, gesso, placa ou haste
desvio axialolivas mal postas; haste segue o eixo anatômicoplanejamento; olivas como fulcros
desaceleração do crescimentopressão nas fises ou hiperemiaevitar excesso; adiar para a maturidade
artrose do tornozelofixação tibial longa, dupla transportação50% a 70% com fixador tibial (cap. 58)

Fechamento

Fundamento

A análise de deformidade cabe numa sequência: traçar eixos (anatômicos na diáfise, mecânicos perto da articulação, sem misturar), medir os ângulos articulares (mLDFA e MPTA perto de 87 graus), achar o CORA e perguntar se ele explica tudo. Se não explica, há um segundo ápice ou translação. Depois, escolher onde girar (na bissetriz, para não criar translação) e onde cortar (no CORA, só angulação; fora dele, angulação mais translação), lembrando que o eixo na convexidade abre e na concavidade fecha. Na discrepância, a sequência é medir bem, prever com um método e sabendo que todos erram, e escolher pela magnitude: nada, palmilha, epifisiodese no tempo certo, encurtamento no maduro ou alongamento. No alongamento, a biologia manda: corticotomia de baixa energia, latência adequada, 1 mm por dia em quatro passos, consolidação de duas vezes o tempo de distração e respeito ao músculo, que é o limite real.

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