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Coxartrose

QuadrilResumo do capítulo35 min de leitura

Coxartrose é a falência do órgão articular por desequilíbrio entre protetores e carga; primária (idiopática, com componente genético) ou secundária a DDQ, PERTHES, epifisiólise, IFA, necrose, trauma e PAGET; mais prevalente em homens no quadril; dor na virilha que piora com a rotação, perda precoce da rotação interna, deformidade em flexão, adução e rotação externa; radiografia com estreitamento, esclerose, osteófitos e cistos, cabeça migrando superolateralmente (medial na inflamatória e na protrusão); TÖNNIS 2 fecha a janela da preservação; bengala tira 20% a 30% da carga; valgizante medializa o centro de rotação e exige flexão de 60 a 70°; artrodese em 20 a 30° de flexão, adução neutra a leve e rotação externa leve; ATQ é o tratamento mais eficaz, com falha menor que 1% ao ano.

Atualizado em 04/11/2026 · 35 minutos de leitura · Orto Questões

Fonte: Capítulo 41 · Arthritis and Inflammatory Conditions of the Hip, em The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery (Callaghan, Rosenberg, Rubash e colaboradores), 3ª ed. (2017). Autores do capítulo: Javad Mortazavi, Javad Parvizi.

Este é um resumo autoral do Orto Questões, escrito em português a partir do capítulo, na ordem em que as provas costumam cobrar o tema. Não é o livro original, nem tradução ou reprodução dele; as figuras do original não são reproduzidas. Os números e condutas citados são os do capítulo: para a íntegra, consulte o livro.

Para quem é. Para quem estuda para a residência em ortopedia, para o TEOT, o TARO e o R4: um resumo de quadril do The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery (Callaghan, Rosenberg, Rubash e colaboradores), capítulo 41, com o que as bancas mais cobram e as questões comentadas de cada assunto.

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Como ler este capítulo

Fundamento

Coxartrose é a artrose do quadril, e quase toda a ortopedia do quadril do adulto passa por ela: displasia, PERTHES, epifisiólise, impacto, necrose e trauma terminam no mesmo lugar, uma articulação que perdeu a cartilagem. Por isso a prova cobra o tema em camadas: a epidemiologia (qual é a causa mais frequente, quem tem mais), a radiografia (os quatro sinais e para onde a cabeça migra), a escolha entre preservar, fundir e substituir, e os números de cada uma dessas opções.

O fio condutor é o capítulo 41 do The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (CALLAGHAN, ROSENBERG e RUBASH), de MORTAZAVI e PARVIZI, completado pelos capítulos 49, 67, 68, 72, 75 e 79 do mesmo livro, pelo Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (caps. 4, 6 e 7) e pelo HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed. (cap. 10). Radiografia em detalhe, osteotomias e impacto têm resumos próprios (Imagem do quadril, Osteotomias do quadril e Impacto femoroacetabular) e aqui aparecem só pelo que interessa à artrose. Os livros discordam na causa mais frequente, na posição da artrodese e na origem da pelve de OTTO; o resumo mostra o que cada um escreve.

Primária ou secundária: o que é a coxartrose e quanto ela pesa

Cobrança confirmada · 1 questão

Definição e nomes

O HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 10) define a artrose como doença degenerativa crônica caracterizada pela deterioração da cartilagem e pela neoformação óssea nas superfícies e margens articulares. São sinônimos osteoartrose, doença degenerativa articular e artrite degenerativa; no quadril, coxartrose ou malum coxae senilis. A definição já tem os dois lados da doença: a cartilagem que se perde e o osso que se forma (osteófitos, esclerose).

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 41, p. 568) chama a osteoartrite de forma mais comum de artrite e uma das principais causas de incapacidade, sobretudo no idoso. A artrite em geral atinge 33% da população dos Estados Unidos (69,9 milhões); 10% de todos os pacientes em reabilitação, reumatologia, ortopedia e fisioterapia têm artrose de quadril ou joelho; e os gastos médicos com artrite subiram de 252 bilhões (1997) para 353 bilhões de dólares (2005).

Quantos têm

A prevalência depende de como se define a doença. O CALLAGHAN (cap. 41, p. 569) reúne números que parecem contraditórios e explica por quê: nem todo paciente com artrose radiográfica tem sintomas, e cada estudo usa um critério.

Prevalência da artrose do quadril (The Adult Hip, cap. 41, p. 569)
Estudo ou faixaHomensMulheres
65 a 74 anos16%6%
NHANES-I, 55 a 74 anos3,2%3%
Rotterdam, acima de 55 anos14,1%15,1%
Artrose sintomática até os 85 anosuma em cada quatro pessoas, sem efeito de raça, sexo ou IMC

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 365 aprox. e 392) dá outro número que costuma cair: o risco de artrose do quadril ao longo da vida é de 8%. A prevalência sobe com a idade porque o condrócito envelhecido responde menos aos fatores de crescimento e repara menos a matriz, e a cartilagem afina.

Primária e secundária

A divisão clássica é etiológica. Pelo CALLAGHAN (cap. 41, p. 569), a artrose primária ou idiopática surge espontaneamente, sem lesão ou deformidade prévia, com alguma evidência de predisposição genética; a secundária vem depois de um trauma local (fratura) ou de uma anormalidade do quadril: PERTHES, displasia do desenvolvimento, epifisiólise ou PAGET. O HEBERT (cap. 10) usa a mesma divisão (primária sem causa aparente, secundária com causa conhecida ou preexistente), mas avisa que ela é simplista: o aparecimento da forma secundária também depende de fatores de risco como idade, sexo, raça, peso e história familiar.

Primária contra secundária (The Adult Hip, cap. 41; HEBERT, cap. 10; Campbell, cap. 7)
AspectoPrimária (idiopática)Secundária
definiçãosem causa aparente, sem lesão ou deformidade préviacausa conhecida ou preexistente
basepredisposição genética (herdabilidade de 50% em ancestrais europeus)deformidade, trauma, necrose, doença sistêmica
exemplosquadril sem alteração anatômica conhecidaDDQ, PERTHES, epifisiólise, IFA, necrose, fratura, artrite séptica, PAGET, AR
idademais tardiadeformidade grave: adulto jovem; leve: mais tarde
leitura modernao Campbell diz que a artrose é quase sempre desencadeada por deformidade, às vezes sutilo impacto explica parte do que se chamava idiopático

A discordância que a prova não mostra

O gabarito clássico considera a forma primária a causa mais frequente. O Campbell (cap. 7, p. 392 e 393) lê diferente: a artrose do quadril é quase sempre desencadeada por uma deformidade anatômica que pode ser sutil e ficar assintomática por décadas, e o CALLAGHAN (cap. 41, p. 571) diz que anormalidades sutis levam ao impacto e à artrose secundária. Muito do que se rotulava como idiopático tinha um came, uma retroversão ou uma displasia leve: 20% dos quadris operados por artrose tinham retroversão, contra 5% dos assintomáticos, e o acetábulo profundo teve risco relativo de 2,4 em Copenhagen (Campbell, cap. 7, p. 365 aprox.). O mesmo livro freia o exagero: o came radiográfico nem sempre leva à artrose.

Fatores de risco: o que rompe o equilíbrio

Relevância clínica

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 41, p. 570) organiza os fatores de risco por um princípio simples: ou eles tornam os protetores da articulação disfuncionais, ou impõem forças excessivas a estruturas competentes. Há os sistêmicos, que agem no paciente inteiro, e os locais, que agem naquele quadril.

Fatores sistêmicos

A idade é talvez o fator mais importante, mas o livro insiste que a artrose não é consequência inevitável do envelhecimento, nem simples desgaste: as alterações do envelhecimento são diferentes das da doença. Com a idade, a cartilagem afina e fica mais sensível ao cisalhamento nas camadas basais, os músculos enfraquecem, os ligamentos se alongam e absorvem menos estresse, e a propriocepção fica mais lenta. Todos os protetores pioram juntos.

O sexo tem um detalhe que cai. Na artrose em geral, abaixo de 50 anos é mais comum em homens e acima de 50 em mulheres, e a diferença cresce com a idade (a perda do estrogênio na menopausa pode participar, mas o motivo é desconhecido). No quadril é diferente: a artrose é mais prevalente nos homens em toda a faixa etária (The Adult Hip, cap. 41, p. 570). Isso conversa com a tabela de prevalência (16% contra 6% entre 65 e 74 anos).

A genética pesa especialmente no quadril e na mão: 50% dos casos de artrose de mão e quadril foram atribuídos a fatores herdados. Uma mutação no gene FRZB, que codifica uma proteína Frizzled antagonista do ligante Wnt (via crítica para a síntese de matriz e o desenvolvimento articular), põe mulheres em alto risco de artrose do quadril. Uma região de 4 MB no cromossomo 17q21 foi ligada à displasia do desenvolvimento. A artrose primária do quadril ocorre em 3% a 6% das populações de ancestralidade europeia, com herdabilidade de 50% em estudos de família, irmãos e gêmeos. O HEBERT (cap. 10) acrescenta que a predisposição genética é notória na forma poliarticular, rara antes dos 35 anos.

A raça muda a distribuição: artrose do quadril muito menor em asiáticos e rara em chineses (embora a do joelho seja comum), e menor em africanos. Estrogênio e osteoporose têm papel controverso; densidade óssea aumentada eleva o risco; baixa ingestão de vitamina C associou-se à progressão, não à incidência (Framingham).

Fatores locais

O fator local central é a anatomia anormal, que concentra carga. No quadril, displasia, PERTHES e epifisiólise são as causas mais comuns de distorção precoce (The Adult Hip, cap. 41, p. 571), e a gravidade da deformidade decide quando a artrose aparece: grave, no adulto jovem; leve, mais tarde. Entram a fratura articular, a necrose com colapso e qualquer incongruência. A obesidade é forte para o joelho e menos para o quadril, linear em mulheres; o HEBERT (cap. 10) diz que não está comprovada como causa, mas acelera o desgaste. A ocupação pesa (agricultores), e a corrida de longa distância não aumentou o risco em pessoas saudáveis.

Fatores de risco da artrose do quadril (The Adult Hip, cap. 41, p. 570 e 571; HEBERT, cap. 10)
FatorO que os livros dizem
idadeo mais importante; não é desgaste inevitável
sexono quadril, mais em homens em todas as idades
genética50% de herdabilidade; FRZB em mulheres; 17q21 na DDQ
raçamenor em asiáticos, rara em chineses, menor em africanos
densidade ósseaaumentada eleva o risco; osteoporose controversa
vitamina Cbaixa ingestão ligada à progressão, não à incidência
anatomiaDDQ, PERTHES e epifisiólise; gravidade define a idade de início
obesidadeforte no joelho, menor no quadril; linear em mulheres; o HEBERT diz que acelera, mas não está comprovada como causa
ocupaçãoagricultores; corrida de longa distância sem aumento em saudáveis
doenças sistêmicas (HEBERT)AR, espondilite, diabetes, PAGET, alcaptonúria, hemocromatose

As causas secundárias e a luxação traumática

Cobrança confirmada · 1 questão

A criança que cresceu

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 23, p. 358 e 359) descreve como cada doença da infância aparece no adulto, e isso explica a artrose que vem depois. A displasia não tratada varia com a gravidade: nos casos leves há só discreta elevação do teto acetabular lateral, sem degeneração; nos graves, ângulo acetabular aumentado, acetábulo raso e cobertura insuficiente, com a cabeça achatada, colo curto e largo (coxa magna); nos casos fulminantes, a cabeça luxa e forma uma pseudoartrose com o ilíaco. O PERTHES (necrose da epífise femoral, mediana de 6 anos) deixa coxa plana, coxa magna, degeneração secundária e encurtamento. A epifisiólise (fratura SALTER I por estresse, no estirão, mais em meninos obesos) desvia a epífise em sentido posteromedial e deixa um offset cabeça-colo semelhante ao came; a epifisiólise oculta é provavelmente causa importante de impacto, lesão labral e artrose precoce.

A lógica comum é mecânica: cada sequela muda a área de contato. A cabeça descoberta da displasia concentra carga numa borda pequena; a cabeça grande e achatada do PERTHES perde congruência; o came da epifisiólise entra no acetábulo e lesa a cartilagem anterossuperior a cada flexão. A artrose é o fim comum de geometrias diferentes, e o detalhe de cada geometria está no resumo Impacto femoroacetabular e no resumo Imagem do quadril.

O HEBERT (cap. 10) completa a lista de causas locais: traumatismos de repetição, condrólise, necrose da cabeça femoral, artrite séptica, sequelas de epifisiólise ou PERTHES e displasia do desenvolvimento, e sistêmicas como AR, espondilite, diabetes, PAGET, alcaptonúria e hemocromatose.

A artrose pós-traumática

O capítulo 72 do CALLAGHAN (p. 938) explica os dois caminhos da artrose pós-traumática: lesão direta da cartilagem no momento da fratura ou alteração das forças sobre o quadril (consolidação viciosa, falha do material, necrose secundária, pseudartrose). No fêmur proximal predomina o segundo caminho, porque as fraturas de baixa energia em volta da articulação são muito mais comuns do que as de alta energia que lesam a cartilagem diretamente.

O número que a prova cobra está aí: a artrose pós-traumática é a complicação de longo prazo mais comum da luxação simples do quadril, em cerca de 24% dos pacientes, e passa de 80% quando a luxação se associa a fratura acetabular. A necrose avascular depois da luxação simples ocorre em 1% a 17%, e a maioria dos autores defende a redução em até 24 horas; mas o livro insiste que há considerável incidência de artrose mesmo sem necrose. Nas fraturas da cabeça femoral, a degeneração radiográfica é praticamente certa (95,2% numa série de longo prazo), seja qual for a classificação ou a fixação. A necrose após fratura transtrocantérica é rara (0,5% a 1% nos primeiros 4 anos), e o cut-out do parafuso cefálico chega a 20% das intertrocantéricas.

Protrusão acetabular e pelve de OTTO

Cobrança confirmada · 1 questão

A protrusão é uma causa de artrose com geometria própria: em vez de subir e sair, a cabeça afunda medialmente. O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 75, p. 970 e 971) define a protrusão como a cabeça femoral que migrou medialmente à parede medial ou ao fundo do acetábulo, e dá o critério radiográfico: se a borda medial da cabeça está na linha ilioisquiática (de KÖHLER) ou medial a ela, o quadril é classificado como protrusão. Nos casos graves, a região trocantérica encosta na pelve. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 246) dá a mesma marca e acrescenta que a deformidade pode progredir até o trocânter maior bater na pelve e que com frequência há colo em varo associado.

Primária contra secundária, e onde os livros divergem

O Campbell (cap. 4, p. 246) divide a protrusão em duas formas. A primária, chamada artrocatádise ou pelve de OTTO, acomete os dois quadris, ocorre mais em mulheres jovens e dá dor e limitação de movimento em idade relativamente precoce. A secundária vem da migração de uma endoprótese, de artrite séptica ou de fratura acetabular, e pode ser bilateral na PAGET, MARFAN, AR, espondilite anquilosante e osteomalácia. O capítulo 7 (p. 392) confirma que a forma primária tem causa indefinida, é diagnóstico de exclusão, é tipicamente bilateral e mais comum em mulheres jovens e de meia-idade, e que a osteomalácia pode participar; mas abre a seção dizendo que cerca de dois terços das lesões de protrusão são unilaterais, mais em meia-idade (aqui o livro fala do conjunto das protrusões, incluindo as secundárias).

O CALLAGHAN (cap. 75, p. 970) lê a mesma entidade de outro ângulo: chama a artrocatádise ou pelve de OTTO de condição mais vista em artrite inflamatória (lúpus, espondilite, AR), mais bilateral do que unilateral, e recomenda avaliação reumatológica no jovem em quem não se excluiu doença inflamatória. Os dois livros concordam na bilateralidade; divergem na origem (idiopática no Campbell, ligada à inflamação no CALLAGHAN).

Pelve de OTTO e protrusão nos livros (Campbell, caps. 4 e 7; The Adult Hip, cap. 75)
AspectoCampbellCALLAGHAN
nomeartrocatádise, pelve de OTTO (forma primária)artrocatádise, pelve de OTTO
causaindefinida, diagnóstico de exclusão; osteomalácia pode participarmais vista em artrite inflamatória
ladoprimária bilateral; dois terços do conjunto unilateraismais bilateral que unilateral
quemmulheres jovens (cap. 4); jovens e de meia-idade (cap. 7)jovem: investigar doença reumatológica
critériocabeça medial à linha ilioisquiáticacabeça na linha de KÖHLER ou medial
tratamentoATQ; no jovem, valgizante intertrocantéricaATQ com centro anatômico

Clínica e tratamento

A protrusão traz contraturas em flexão e adução (às vezes tenotomia dos adutores na ATQ) e pouco offset, com o ciático mais perto do acetábulo (The Adult Hip, cap. 75, p. 970 e 971). A cirurgia é por dor e limitação: ATQ em geral, valgizante intertrocantérica no adulto jovem (Campbell, cap. 7, p. 392). A reconstrução leva o centro ao lugar anatômico, apoia a taça no rebordo periférico e enxerta os defeitos mediais; a parede medial não deve ser fresada, e a cabeça encarcerada pode exigir osteotomia do colo in situ (cap. 4, p. 246 e 247).

Fisiopatologia: a falência do órgão articular

Fundamento

O equilíbrio entre protetores e carga

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 41, p. 569) define a artrose como a falência de uma articulação, em que todas as estruturas (sinóvia, ligamentos, osso subcondral e cartilagem) adoecem. Os protetores são cápsula e ligamentos, líquido sinovial, músculos periarticulares (que, contraindo no momento certo, minimizam o estresse focal), aferentes sensitivos e o osso subcondral, que amortece. A artrose aparece no desequilíbrio entre protetores e carga: com protetores falhos, até a vida diária a desencadeia; com protetores íntegros, só uma lesão aguda grande ou sobrecarga crônica. Fortalecer músculo, perder peso e usar bengala são maneiras de reequilibrar essa balança.

A cartilagem: colágeno 2 e agrecano

As alterações mais precoces estão na cartilagem hialina, cuja matriz tem colágeno tipo 2 e agrecano, proteoglicano de carga negativa muito alta; a repulsão eletrostática dessas cargas é a fonte da rigidez compressiva. Mediadores como IL-6, IL-8, PGE2, óxido nítrico e BMP-2 controlam o equilíbrio entre síntese e degradação. Com a progressão há depleção de agrecano e de colágeno 2, a trama de colágeno se desenrola, e a cartilagem perde rigidez (p. 570). O HEBERT (cap. 10) vê o mesmo na superfície (fibrilação, fissuras e erosões) e no líquido sinovial, onde os sulfatos de condroitina-4 e -6 caem com a progressão.

A artrose também inflama

A artrose é chamada de não inflamatória porque o líquido sinovial tem tipicamente menos de 2.000 leucócitos por microlitro (The Adult Hip, cap. 41, p. 570), mas a inflamação sinovial de baixo grau participa: hipertrofia e hiperplasia da sinóvia, focos de linfócitos, restritos à área junto da cartilagem lesada (diferente da AR). Forma-se um ciclo vicioso: proteinases e citocinas da sinóvia destroem cartilagem, os produtos de degradação liberam colagenase, e a cascata induz IL-1β e TNF-α, a "tempestade de citocinas" das fases iniciais. No subcondral, a iNOS induzida por IL-1 e TNF participa da degradação óssea (a ecNOS constitutiva, da formação); IGF-1 e TGF-β dos osteófitos remodelam o osso. Não há ainda droga modificadora da doença (DMOAD).

O que é inflamatório e o que não é

O perfil não inflamatório (cap. 41, p. 568) é dor sem edema nem calor, sem sinais sistêmicos, fenômeno de gel diurno em vez de rigidez prolongada e sem marcadores séricos.

Artrose contra artrite inflamatória (The Adult Hip, caps. 23 e 41)
AspectoArtroseArtrite inflamatória
clínicador mecânica, gel curto após repousocalor, edema, rigidez prolongada, sintomas sistêmicos
laboratóriosem exames de rotinaVHS, PCR, anemia de doença crônica
líquido sinovialmenos de 1.000 leucócitos, boa viscosidade (menos de 2.000 na descrição da patogênese)mais de 1.000 leucócitos
inflamação sinovialrestrita à área lesadadifusa (AR)
radiografiaosteófitos, esclerose, cistos, migração superolateralosteopenia difusa, perda simétrica, coxa profunda, migração medial

Quadro clínico e exame

Relevância clínica

A dor

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 41, p. 571 e 572) lembra que a fase inicial é silenciosa e que, mesmo depois, sintomas e imagem se correlacionam mal. A dor piora com a atividade e melhora com o repouso; no início é episódica (dias de dor depois de uma corrida longa), e na doença avançada vêm a dor de repouso e a noturna. A topografia é virilha, coxa (anterior mais que lateral) e nádega; alguns pacientes queixam-se do joelho, e a chave é que a rotação do quadril aumenta a dor. Há rigidez curta após inatividade, falseio, perda de movimento e crepitação; febre, emagrecimento, anemia e VHS alta não são da artrose. E a doença não é inevitavelmente progressiva: em muitos pacientes estabiliza. O capítulo 49 (p. 669) dá o marco cirúrgico: dor noturna ou de repouso anuncia a fase final, que não responde ao conservador.

O HEBERT (cap. 10) descreve a dor como contínua, referida na face interna da coxa e do joelho, pior com carga, frio e umidade e no início dos movimentos, atribuída à irritação sinovial secundária.

O exame

O HEBERT (cap. 10) descreve a deformidade típica: flexão, adução e rotação externa, por espasmo no início e retração capsular depois; o paciente não consegue cortar as unhas dos pés, calçar meias ou levantar de cadeira baixa. A marcha é TRENDELENBURG (insuficiência abdutora) ou DUCHENNE (tronco jogado sobre o quadril para encurtar o braço de alavanca). A hiperlordose esconde o flexo fixo (manobra de THOMAS de rotina); o encurtamento aparente vem da adução fixa e da obliquidade pélvica, e o raro alongamento aparente, da contratura abdutora (manobra de OBER). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 245) confirma o membro levemente encurtado (mais de 1 cm se há erosão) em flexão, rotação externa e adução.

O CALLAGHAN (cap. 49, p. 669) dá o detalhe semiológico que mais vale: a perda da rotação interna é um dos achados mais precoces; depois vêm as contraturas em rotação externa, flexão e adução. Quando a origem da dor não está clara, a injeção intra-articular de lidocaína confirma se ela vem da articulação.

Radiografia: os quatro sinais e para onde a cabeça vai

Relevância clínica

Os sinais clássicos

Os quatro sinais da artrose na radiografia são os mesmos nos três livros: estreitamento do espaço articular, esclerose subcondral, osteófitos e cistos subcondrais (The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed., cap. 41, p. 572; cap. 23, p. 359). O HEBERT (cap. 10) explica a ordem em que aparecem: o estreitamento começa na porção inferointerna e depois envolve toda a articulação; a esclerose aparece onde a cartilagem afinou; os cistos e geodos se desenvolvem onde o estresse mecânico é maior; e há formação de osso novo nas zonas sem carga. Pelo esquema de BOMBELLI, o primeiro osteófito a se formar é o inferomedial.

O CALLAGHAN (cap. 41, p. 572) faz uma ressalva importante: a radiografia é insensível às alterações mais precoces, e a ausência de achados num paciente sintomático não exclui a doença. Por isso, na prática, o diagnóstico é clínico (história e exame), e a radiografia serve para confirmar e excluir outras doenças. Há pouca ou nenhuma associação entre a radiografia e a função. A RM serve para procurar outras causas de dor (osteocondrite dissecante, necrose), e não há exames de sangue de rotina se não houver suspeita de artrite inflamatória.

A direção da migração

O detalhe que separa as causas é para onde a cabeça migra. Na artrose avançada, a cabeça desvia superolateralmente; na artrite inflamatória e em parte das degenerações secundárias, o desvio é medial, produzindo coxa profunda ou protrusão (The Adult Hip, cap. 23, p. 359 e 360). A artrite reumatoide mostra osteoporose difusa, perda simétrica e bilateral da cartilagem e coxa profunda sem os outros sinais degenerativos, que só chegam com a artrose secundária; as espondiloartropatias começam igual. A doença por pirofosfato pode dar perda da cartilagem e protrusão. O mecanismo é intuitivo: a artrose mecânica gasta primeiro a zona de carga superolateral, e a cabeça sobe para onde perdeu cartilagem; a inflamação destrói a cartilagem de modo difuso, e a cabeça afunda no fundo do acetábulo.

As sequelas que a radiografia denuncia

A questão de Fellowship "segundo CALLAGHAN" usa o capítulo 23 (p. 358 e 359). O ângulo centro-borda lateral (linha vertical pelo centro da cabeça e linha do centro até a borda lateral do acetábulo) é normalmente de 20 a 40 graus, cai para menos de 25 graus na displasia e diminui à medida que a cabeça se translada lateralmente; a linha de SHENTON (borda inferior do ramo púbico superior e borda medial do colo) se rompe na displasia avançada. Na displasia leve há só discreta elevação do teto lateral sem degeneração (o fulminante é a luxação com pseudoartrose). Na epifisiólise, a epífise desvia em sentido posteromedial. As medidas e as incidências estão em detalhe no resumo Imagem do quadril.

A migração da cabeça e o que ela sugere (The Adult Hip, cap. 23, p. 358 a 360; Campbell, cap. 4)
PadrãoDoença sugerida
migração superolateral, osteófitos, esclerose, cistosartrose avançada (mecânica)
migração medial, coxa profunda ou protrusãoartrite inflamatória, degeneração secundária, pelve de OTTO
perda simétrica e bilateral, osteopenia difusaartrite reumatoide
centro-borda menor que 25°, cabeça lateralizada, SHENTON rompidadisplasia
coxa plana e coxa magnaPERTHES
desvio posteromedial da epífise, offset de cameepifisiólise

Classificações da artrose

Fundamento

As duas classificações que mais caem, KELLGREN-LAWRENCE (0 a 4) e TÖNNIS (0 a 3), estão tabeladas no resumo Imagem do quadril, junto com a fronteira de 2 mm que separa o TÖNNIS 2 do 3. Aqui interessa o que cada uma serve para decidir, e as classificações descritivas do HEBERT que não aparecem em outro resumo.

TÖNNIS como régua da preservação

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 361 e 362) usa o TÖNNIS (0 a 3) em quem é avaliado para preservação, com graus menores dando melhores resultados (confiabilidade interobservador variável), e no capítulo de artrose (p. 393) é direto: com TÖNNIS 2, a preservação dá pouco benefício. O KELLGREN-LAWRENCE (HEBERT, cap. 10, cinco graus) descreve a gravidade geral; o TÖNNIS decide se ainda vale uma osteotomia ou uma artroscopia.

BOMBELLI: a artrose como reação biológica

O HEBERT (cap. 10) traz a classificação de BOMBELLI, que vê a artrose como comportamento biológico e mecânico e ajuda a entender por que dois quadris com o mesmo grau radiográfico respondem diferente.

Classificação de BOMBELLI (HEBERT, cap. 10)
EixoTipos
reação biológicaatrófica (cabeça diminui, elíptica, tende a subluxar, poucos osteófitos); normotrófica (osteófitos na cabeça e no acetábulo, esclerose superoexterna, osteófitos inferiores); hipertrófica (megacabeça, grandes osteófitos no rebordo e no fundo)
etiologiamecânica, metabólica (AR, psoriática, espondilite), combinada
morfologiasuperoexterna, concêntrica, interna, inferointerna
amplitude de movimentorígido: flexão até 30°, abdução e adução 0°; hipomóvel: flexão 30 a 60°, abdução e adução até 15°; móvel: flexão acima de 60°, abdução e adução acima de 15°

Os osteófitos também têm tipo para BOMBELLI: os de tensão positiva (tração excessiva) e os de tensão negativa (efeito de sucção ou vácuo). Com mais aplicação prática, a classificação morfológica de WROBLEWSKI e CHARNLEY descreve as formas para orientar a reconstrução na prótese: artrose incipiente, polo superior (graus I, II e III), polo medial, protrusão acetabular, concêntrica e destrutiva (cabeça, acetábulo, tuberculose e displasia). Os grandes defeitos da protrusão, da displasia e das formas destrutivas mudam a escolha do implante e a necessidade de enxerto.

Além da radiografia: cintilografia e RM quantitativa da cartilagem

Relevância clínica

Por que procurar a artrose antes da radiografia

Se a radiografia só mostra a artrose quando a cartilagem já se perdeu, a janela da preservação (TÖNNIS 0 e 1) passa despercebida. O capítulo 24 do The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (p. 375) chama o quadril de principal articulação de carga, sujeito à artrose secundária, com fatores como malformação estrutural, lesão, idade e obesidade, e diz que o diagnóstico precoce é difícil. A cintilografia óssea mostra a remodelação reativa e examina o esqueleto inteiro de uma vez, útil quando a artrose é múltipla; o FDG-PET mostrou atividade inflamatória na artrose do joelho, mas não há dados prospectivos no quadril.

As técnicas quantitativas de RM

O capítulo 25 (p. 378 e 379) descreve técnicas que calculam valores de relaxamento correlacionados com o conteúdo de proteoglicano, a orientação do colágeno e a água livre, servindo de biomarcador da depleção precoce da matriz. O raciocínio de cada uma volta à fisiopatologia: a artrose começa perdendo agrecano e desorganizando o colágeno, e cada sequência mede um desses dois eventos.

No mapeamento T2, os tempos são curtos na zona profunda (radial), a mais ordenada, e longos na zona de transição, menos ordenada; a lâmina esplêndida (superficial) quase não aparece no quadril nas forças de campo clínicas. Áreas de prolongamento do T2 indicam desorganização da arquitetura e mais água livre. O T1 rho (relaxamento spin-rede no referencial rotatório) usa pulsos de travamento de spin para detectar interações macromoleculares de baixa frequência envolvendo o proteoglicano; o prolongamento do T1 rho indica perda de proteoglicano. O dGEMRIC usa o Gd-DTPA de carga negativa, que se distribui na matriz na proporção inversa da densidade de carga fixa dos glicosaminoglicanos (negativos), depois de exercício leve e espera de 45 a 90 minutos: onde falta proteoglicano, entra mais gadolínio. A RM de sódio usa o mesmo princípio com uma sonda positiva (o íon sódio), dispensa contraste, mas exige bobinas especiais e espectroscopia multinuclear, hoje restritas à pesquisa.

RM quantitativa da cartilagem (The Adult Hip, cap. 25, p. 378 e 379)
TécnicaO que medeSinal de dano
mapeamento T2orientação do colágeno e água livre; curto na zona profunda radial, longo na transicionalprolongamento do T2
T1 rhointerações macromoleculares do proteoglicano (spin-lock)prolongamento do T1 rho = perda de proteoglicano
dGEMRICGd-DTPA negativo, distribuição inversa à carga dos GAG; espera de 45 a 90 minmais gadolínio onde falta proteoglicano
RM de sódioíon positivo, proporcional ao proteoglicano; sem contrasteexige bobinas especiais e espectroscopia; uso em pesquisa

Tratamento conservador

Relevância clínica

A escada

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 41, p. 572) quer alívio da dor e melhora da função, pelo esquema escalonado do American College of Rheumatology, com o não farmacológico em primeira linha: educação, exercício, bengala e palmilhas, perda de peso e orientação nutricional. O fortalecimento periarticular é central porque o músculo protege a cartilagem. Calçados amortecidos reduzem o impacto. E o número que cai: a bengala bem usada reduz a carga no quadril em 20% a 30%; na mão oposta, ela cria um momento que substitui parte do trabalho dos abdutores, cuja força é a que mais comprime a articulação. O HEBERT (cap. 10) afirma que, no paciente com sobrepeso, a perda de peso é a medida mais eficaz e segura para frear a evolução.

Remédios e injeções

Não há droga modificadora de doença. A primeira linha é o paracetamol; os AINEs valem mais com inflamação (artrose erosiva) ou falha do analgésico; os COX-2 têm eficácia comparável, menos efeito gastrointestinal e plaquetário, mas risco renal e cardiovascular. O HEBERT chama os AINHs de maior arma do ortopedista na artrose incipiente ou moderada; o CALLAGHAN (cap. 49, p. 665) lembra o sangramento digestivo e a toxicidade hepática, renal e cardíaca. Glucosamina e condroitina só têm dado no joelho, sem confirmação.

O corticoide sistêmico não tem lugar; o intra-articular alivia a curto prazo, exige guia por ultrassom ou fluoroscopia e não mostrou aumento de infecção na ATQ, embora os dados conflitem (cap. 41, p. 572 e 573). O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 7, p. 393) quantifica: alívio de cerca de 1 mês, em até 90% na artrose leve e só 9% a 20% na grave, e utilidade para excluir causas extra-articulares. O ácido hialurônico não reduziu a dor na marcha mais que o placebo e não é aprovado nos Estados Unidos para o quadril (CALLAGHAN, p. 573); a viscossuplementação é fortemente desaconselhada pelo ACR (Campbell).

Tratamento conservador nos três livros (The Adult Hip, cap. 41; Campbell, caps. 4 e 7; HEBERT, cap. 10)
MedidaO que os livros dizem
educação, exercício, perda de pesoprimeira linha (CALLAGHAN); perda de peso é a mais eficaz para frear (HEBERT)
fortalecimento periarticularprotege a cartilagem e melhora função
bengalareduz a carga no quadril em 20% a 30%
paracetamolprimeira linha farmacológica (CALLAGHAN)
AINE e COX-2mais eficazes com inflamação; maior arma do ortopedista (HEBERT); risco renal e cardiovascular
glucosamina e condroitinabenefício no joelho, sem confirmação
corticoide sistêmicosem lugar (CALLAGHAN); crises agudas (HEBERT)
corticoide intra-articularcurto prazo, guiado; cerca de 1 mês; 90% na leve, 9% a 20% na grave (Campbell)
ácido hialurônicosem benefício sobre placebo; fortemente desaconselhado pelo ACR
regeneração de cartilagemsem tratamento eficaz; condrócitos e abrasão sem eficácia comprovada

Preservação: artroscopia, luxação cirúrgica e a janela do TÖNNIS

Relevância clínica

Quem ainda pode ser preservado

O HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 10) divide a cirurgia em procedimentos que preservam (osteotomias), substituem (artroplastias) e fundem (artrodeses), escolhidos por idade, etiologia, atividade, mobilidade e bilateralidade. O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 213) indica osteotomia femoral ou periacetabular no jovem com articulação não grosseiramente incongruente e boa mobilidade: se aliviar por 10 anos ou mais, preserva osso e leva à prótese um paciente mais velho.

A cirurgia do impacto e o espaço residual

O Campbell (cap. 7, p. 365 a 373 aprox.) mostra que a artrose já instalada é o principal inimigo da preservação: um espaço residual acima de 2 mm prediz bom resultado; TÖNNIS 2, delaminação e idade pioram a luxação cirúrgica; e na artroscopia a conversão em ATQ cresce com sexo masculino, mais de 40 anos, microfratura, espaço menor que 2 mm e TÖNNIS 2 ou 3. A refixação do lábio supera o desbridamento, mas não muda a progressão da artrose.

O CALLAGHAN (cap. 41, p. 573) fecha o assunto da cartilagem: não há tratamento eficaz de regeneração na artrose, e o transplante de condrócitos e a condroplastia por abrasão, que podem servir na lesão localizada, não têm eficácia comprovada na artrose.

A artrose como limite da preservação (Campbell, cap. 7)
SituaçãoDado
espaço residual acima de 2 mmassociado a bom resultado na cirurgia do impacto
TÖNNIS 2preservação dá pouco benefício; piora resultados a longo prazo
luxação cirúrgica68% a 94% bons; conversão 0% a 30%
série com 11% de falhamelhor abaixo de 40 anos e com TÖNNIS 0
artroscopiaconversão: homem, mais de 40 anos, microfratura, espaço menor que 2 mm, TÖNNIS 2 e 3
refixação do lábiomelhor que desbridamento, mas sem mudar a progressão

A técnica da artroscopia, da luxação cirúrgica de GANZ e da osteocondroplastia está no resumo Impacto femoroacetabular; a osteotomia periacetabular (indicada em TÖNNIS 0 ou 1) está em Osteotomias do quadril.

Osteotomias femorais na artrose

Cobrança confirmada · 3 questões

O detalhe técnico (cunhas, efeito VOSS, valgo-extensora de BOMBELLI) está no resumo Osteotomias do quadril; aqui ficam as indicações e contraindicações que a prova cobra.

Pelo HEBERT (Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 10), na artrose com boa mobilidade a osteotomia pode evitar a progressão, por duas vias somadas: a mecânica (McMURRAY, PAUWELS, BOMBELLI), mais contato e menos pressão, e a biológica (TRUETA), o "choque vascular". MILLIS separa a reconstrutiva (função normal, abaixo de 25 anos) da de salvamento (artrose moderada, abaixo de 50 anos, para adiar a artroplastia).

A regra da posição e o centro de rotação

PAUWELS pede radiografias em abdução e adução máximas: congruência melhor em abdução indica a varizante; melhor em adução, a valgizante, que muitas vezes funciona porque o osteófito medial entra sob a cartilagem acetabular e alivia a porção superolateral. A valgizante é para a deformidade em adução, com TRENDELENBURG e abdução dolorosa. O fato que a prova repete: a valgizante transfere o centro de rotação do quadril medialmente (a diáfise é lateralizada), e toda osteotomia deve aumentar, e não diminuir, a área de transmissão de carga. A afirmação de que ela "lateraliza o centro e reduz a área de carga" erra nas duas metades.

Os preceitos que contraindicam

O HEBERT lista: flexão mínima de 60 ou 70°; quadris reumáticos raramente se beneficiam; adução fixa contraindica a varizante e abdução fixa contraindica a valgizante; medialização até 50% da diáfise; varizante abaixo de 100° ou valgizante acima de 160° falham; e o material deve ser retirado num primeiro tempo antes da artroplastia. O raciocínio do movimento: a osteotomia reposiciona a cabeça dentro do arco que já existe; sem 60° de flexão não sobra arco para a vida diária, e o paciente troca dor por rigidez.

Indicações e contraindicações das osteotomias femorais na artrose (HEBERT, cap. 10; Campbell, caps. 4 e 7)
ItemVarizanteValgizante
melhor congruênciaem abdução máximaem adução máxima (osteófito medial)
clínicaadução dolorosa, deformidade em abduçãodeformidade em adução, TRENDELENBURG, abdução dolorosa
centro de rotaçãotransferido medialmente
contraindicação específicaadução fixaabdução fixa
contraindicações comunsflexão menor que 60 a 70°, quadril reumático, incongruência grosseiraas mesmas
limite angularnão abaixo de 100°não acima de 160°
outros usos (Campbell)protrusão no adulto jovem; osteonecrose estágios I e II

Os resultados sustentam o adiamento: MAISTRELLI, 67% bons ou excelentes em 277 valgo-extensoras (11 a 15 anos); WERNERS, artroplastia adiada 10 anos em 50% (HEBERT, cap. 10).

Artrodese do quadril

Relevância clínica

Quem ainda é candidato

HUESNER fez a primeira fusão bem-sucedida em 1884, ALBEE descreveu a intra-articular (1908) e a extra-articular (1915), e SCHNEIDER criou a placa em cabeça de cobra (1966) (HEBERT, Ortopedia e Traumatologia, 5ª ed., cap. 10; The Adult Hip, 3ª ed., cap. 79, p. 1012, que atribui a introdução a LAGRANGE, 1886). A ATQ tornou a fusão rara, mas o HEBERT pede revisão do conceito, porque a ATQ no jovem afrouxa e as revisões falham.

O perfil é o mesmo nos três livros: adulto jovem com um só quadril doente, ativo, com joelhos e coluna normais, sobretudo na artrose pós-traumática ou pós-infecciosa (HEBERT); trabalhador braçal abaixo de 30 a 35 anos com artrose isolada (CALLAGHAN); homens jovens ativos com osteonecrose ou artrose pós-traumática (Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed., cap. 4, p. 213), e, ocasionalmente, o jovem com deficiência abdutora ou infecção crônica (cap. 7, p. 393).

Indicações e contraindicações da artrodese (Campbell, cap. 6, Quadro 6.1; The Adult Hip, cap. 79; HEBERT, cap. 10)
ItemDados
indicação (Campbell)até 40 anos com artrose pós-traumática grave e coluna, quadril contralateral e joelho ipsilateral íntegros; trauma grave do acetábulo ou da cabeça; adolescente com PC e quadril luxado doloroso
candidato (CALLAGHAN)trabalhador braçal abaixo de 30 a 35 anos, artrose isolada
candidato (HEBERT)adulto jovem, um quadril, joelhos e coluna normais; pós-traumática ou pós-infecciosa
contraindicação relativadegeneração lombar, do quadril contralateral ou do joelho ipsilateral; osso pobre; altura acima de 72 polegadas (CALLAGHAN)
contraindicação absolutasepse ativa (erradicar e esperar 3 a 6 meses, Campbell); instabilidade do joelho ipsilateral (CALLAGHAN)

A posição: cada livro com seus números

A posição é o que mais cai, e os livros não dão o mesmo número. O que todos concordam: alguma flexão, nada de abdução, nada de rotação interna. O CALLAGHAN (cap. 79, p. 1012) explica os porquês: a abdução associa-se a mais dor no joelho ipsilateral e na lombar; a rotação interna faz o pé bater no pé contralateral durante a marcha; e a rotação externa facilita calçar sapatos ao fletir o joelho.

Posição da artrodese do quadril (Campbell, cap. 6, p. 349; The Adult Hip, cap. 79, p. 1012; HEBERT, caps. 10 e 9.7)
FonteFlexãoAdução ou abduçãoRotação
Campbell, cap. 620 a 30°0 a 5° de adução0 a 15° de rotação externa
Campbell, técnica de BENAROCH20 a 25°neutra ou 1 a 2° de abdução (deriva de cerca de 7° para adução)
CALLAGHAN, cap. 7925 a 30°5 a 10° de adução10° de rotação externa
HEBERT, cap. 10debate de 20 a 90°; EWALD: 30°; maioria bem entre 20 e 40°neutra0 a 5° de rotação externa
HEBERT, cap. 9.7 (sequela de artrite séptica)10 a 15°15° de abdução10° de rotação externa

O HEBERT (cap. 10) dá a base da flexão: EWALD mostrou que imobilizados em 30° de flexão gastam energia normal, e em extensão ou 60° gastam mais; no idoso sedentário, mais flexão ajuda a sentar. O número do capítulo de sequelas da artrite séptica (abdução de 15°) é o ponto fora da curva, já que os outros contraindicam a abdução.

Técnica e consequências

Intra ou extra-articulares isoladas têm pseudartrose de até 30%; o HEBERT prefere as combinadas com fixação interna. O Campbell (cap. 6, p. 349 e 350) descreve BENAROCH (parafusos e osteotomia intertrocantérica para descomprimir o braço de alavanca) e a placa anterior com parafuso de compressão, sem imobilização e com carga protegida por 10 a 12 semanas.

A fusão sobrecarrega coluna lombar, quadril contralateral e joelho ipsilateral e gasta mais energia. O Campbell (Quadro 6.1) dá dor lombar em 75% e no joelho ipsilateral em 54%; o CALLAGHAN (cap. 79, p. 1013), dor lombar e no joelho em até 60%, em geral depois de 20 anos, e discrepância média de 26 mm. A durabilidade é excelente, mas 65% não sabem se repetiriam; numa série de 53 pacientes com mais de 20 anos, 78% estavam satisfeitos e todos trabalhavam (cap. 49, p. 665). A conversão para ATQ, motivada sobretudo por dor lombar ou no joelho, é difícil e pode transformar um quadril estável num instável.

Artroplastia total: indicação, momento e contraindicações

Relevância clínica

O tratamento mais eficaz

O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 41, p. 573) é categórico: a substituição articular é o tratamento isolado mais eficaz da artrose do quadril, indicada na artrose avançada que compromete a função e não responde ao conservador. A falha da ATQ é menor que 1% ao ano; os resultados são melhores em centros e cirurgiões de alto volume, com mais de 50 artroplastias por ano; e o momento importa: pacientes com doença mais avançada melhoram menos do que os operados mais cedo. O capítulo 49 (p. 663) acrescenta que, aos 25 anos de seguimento, 90% dos pacientes mantinham os componentes originais, e que mais de 332.000 ATQ são feitas por ano nos Estados Unidos.

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 212 e 245) diz que a artrose é a indicação mais comum de ATQ. Originalmente a operação era para dor incapacitante acima de 65 anos, sem alternativa além da ressecção de GIRDLESTONE ou da artrodese; historicamente os candidatos ideais tinham 60 a 75 anos, e a faixa se ampliou desde os anos 1990. O consenso do NIH de 1994 chamou a ATQ de opção para quase todos os pacientes com dor crônica e incapacidade funcional do quadril. O HEBERT (cap. 10) dá a ATQ para a articulação dolorosa e incapacitante refratária ao conservador, diz que a patologia bilateral grave é a maior indicação (pelo menos de um lado) e prefere pacientes acima de 65 anos; o sucesso depende de escolha do paciente, do implante e da técnica, e a escolha do paciente é o fator isolado mais importante.

O jovem e o tempo

O CALLAGHAN (cap. 49, p. 665) formula a premissa: a artroplastia é uma operação limitada no tempo. O idoso é melhor candidato porque o implante provavelmente sobrevive ao paciente; o jovem pode precisar de várias revisões. Por isso o jovem merece uma tentativa de alternativa (osteotomia ou artrodese), e o tratamento não operatório deve ter falhado antes, salvo quando sintomas, exame e radiografia são graves. O atleta jovem cuja dor só limita o esporte deve modificar a atividade: a ATQ também o tiraria do esporte de contato.

A diretriz de 2023 do American College of Rheumatology e da AAHKS, resumida pelo Campbell (cap. 4, p. 213), muda o momento: na artrose moderada a grave sintomática em que o conservador falhou, recomenda ir direto à cirurgia sem novos tratamentos não operatórios; não atrasar a cirurgia para atingir um IMC rígido no obeso (mas orientar e aconselhar perda de peso); atrasar no diabético para melhorar o controle glicêmico e no fumante para cessar ou reduzir a nicotina. A ATQ bilateral no mesmo ato serve ao paciente hígido com doença bilateral grave e rigidez ou flexo fixo, e é absolutamente contraindicada com persistência do canal arterial ou defeito septal.

Contraindicações e onde os livros divergem

Contraindicações da ATQ (The Adult Hip, cap. 49, p. 669 e 670; Campbell, cap. 4, p. 213; HEBERT, cap. 10)
ItemCALLAGHANCampbellHEBERT
infecçãosepse ativa do quadril ou sistêmica: a mais rígidainfecção ativa do quadril ou de qualquer região: absolutasepse articular recente ou em curso: absoluta
clínicacomorbidade grave: relativadoença clínica instável: absoluta
artropatia neuropática (CHARCOT)relativa (instabilidade e soltura)absoluta
outrosinsuficiência renal crônica, droga injetável, HIV: alto risco; irradiação pélvica: relativabacteriúria assintomática não contraindicaimaturidade esquelética, doença neurológica progressiva, déficit abdutor
obesidadeIMC acima de 40 e 50 com mais complicações; não negar só pelo IMCnão atrasar por IMC rígido

A ATQ no quadril artrósico: o que muda na técnica

Relevância clínica

O Campbell's Operative Orthopaedics, 15ª ed. (cap. 4, p. 245) descreve o que a artrose impõe ao cirurgião. Os osteófitos das margens anterior e posterior do acetábulo podem precisar ser removidos para luxar o quadril com segurança. O osso subcondral do acetábulo é espesso e duro, e pode ser preciso fresar bastante até chegar a uma superfície sangrante adequada para a osteointegração. Os osteófitos podem cobrir o pulvinar e esconder a parede medial; se a cabeça migrou lateralmente, osteófitos inferiores intra-articulares espessam o osso e exigem aprofundar (medializar) o acetábulo; sem isso, a parte superior da taça fica sem apoio ou apoiada só em osteófito. A remoção cuidadosa dos osteófitos acetabulares evita impacto, perda de movimento e luxação, sobretudo quando há pincer. Às vezes o trocânter maior está aumentado e deve ser desbastado para não impactar na rotação.

Na osteonecrose do jovem, a ATQ rende menos que na artrose (Campbell, cap. 4, p. 246; HEBERT, cap. 10); na artrose pós-traumática, o CALLAGHAN (cap. 72, p. 939) manda luxar antes de retirar o material, para evitar fratura nos orifícios.

Artroplastia de superfície

Relevância clínica

A superfície (resurfacing) substitui só a superfície da cabeça, preservando o colo, e por isso conversa com a artrose do homem jovem. O The Adult Hip: Hip Arthroplasty Surgery, 3ª ed. (cap. 67, p. 873) lista as vantagens teóricas: preservação óssea, revisão menos complicada e marcha mais fisiológica; mas há estudos com maus resultados nas revisões, e os registros mostram mais falhas que as séries de cirurgiões experientes, o que sugere que a técnica deve ficar com quem tem muita experiência.

O candidato

O candidato ideal é o homem jovem com artrose, cabeça femoral grande e bom estoque ósseo (The Adult Hip, cap. 67, p. 873). O capítulo 68 (p. 886) precisa: homem, artrose primária, abaixo de 65 anos, boa qualidade óssea e geometria femoral relativamente normal. O sexo masculino é substituto de osso maior e implante maior, o que favorece o desgaste do metal-metal; o corte do registro australiano é a cabeça de 50 mm ou mais. A artrose primária é a indicação principal; displasia e osteonecrose tiveram resultados menos favoráveis. A superfície não corrige grandes discrepâncias, e esse paciente costuma ter um came. O Campbell (cap. 4, p. 213) resume: alternativa à ATQ em homens jovens e ativos.

Artroplastia de superfície: candidatos e contraindicações (The Adult Hip, caps. 67 e 68)
GrupoDados
idealhomem, abaixo de 65 anos, artrose primária, cabeça de 50 mm ou mais, bom osso, alto nível de atividade, problema de offset ou material retido no fêmur
contraindicação relativagrande necrose, grandes cistos, coxa vara, discrepância grande a corrigir, osteoporose (fratura do colo), displasia com anteversão excessiva (carga de borda)
contraindicadoidosos, baixa atividade, cabeça pequena
específicas do metal-metalinsuficiência renal (absoluta: não elimina cobalto e cromo), alergia a metal, mulheres em idade fértil (íons cruzam a placenta)

Os números dos registros

A curva de aprendizado pesa (The Adult Hip, cap. 67, p. 874): no registro australiano, a falha em 4 anos foi de 5,8% em hospitais com menos de 50 superfícies por ano, 4,7% com 50 a 100 e 2,7% com mais de 100; são precisos cerca de 50 casos para chegar a uma taxa baixa. Aos 7 anos (p. 875), homens abaixo de 55 anos tiveram revisão de 4,2%, contra 4,6% da ATQ na mesma faixa; 55 a 65 anos, 4,3%; 65 anos ou mais, 6,5% (pior que a ATQ nessa idade, 4,4% a 4,6%). Por sexo, homens 4,5% contra mulheres 10,1%. O pseudotumor foi de 0,5% em homens abaixo de 40, 6% em mulheres acima de 40 e 13,1% em mulheres abaixo de 40. A fratura do colo, complicação própria da superfície, foi de 0,98% em homens e 1,91% em mulheres, e é rara em homens jovens operados por cirurgiões experientes. A superfície reproduz melhor comprimento e offset e tem níveis de íons menores que a ATQ de cabeça grande metal-metal.

Fechamento

Fundamento

A coxartrose é a falência do órgão articular: desequilíbrio entre protetores e carga, e cartilagem que perde agrecano e desorganiza o colágeno 2. A divisão clássica separa a primária, idiopática e genética, da secundária a displasia, PERTHES, epifisiólise, impacto, necrose, trauma e doenças sistêmicas; o Campbell acha deformidade sutil em boa parte das antigas idiopáticas. A clínica é a dor na virilha que piora com a rotação e a perda precoce da rotação interna; a radiografia mostra os quatro sinais com a cabeça subindo superolateralmente (medial na inflamatória e na pelve de OTTO). O tratamento sobe de educação, exercício, peso e bengala para analgésico, AINE e corticoide; a preservação vale até TÖNNIS 1; a artrodese é do jovem com um quadril doente; a ATQ é o tratamento mais eficaz, e a superfície, opção do homem jovem com cabeça grande.

Estude este capítulo com as questões. As questões citadas acima são de provas reais do acervo; resolvê-las, ver o gabarito da banca e o comentário de cada alternativa é na plataforma. No leitor do Orto Questões o mesmo resumo tem marcações, notas e as questões no meio do texto.

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